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Vale destacar que há diversas oficinas mecânicas que permanecem localizadas fora dos Setores de Oficinas, sobretudo nas quadras 700 da Asa Norte, onde não são permitidas. Embora algumas consigam manter-se neste ponto através de “alvarás precários”63 (LIMA, 2009), outras simplesmente permanecem

“irregularmente”. Identificamos ainda diferentes estratégias desenvolvidas por pequenas oficinas improvisadas para garantir uma localização no interior do Plano Piloto. Na Asa Sul, por exemplo, um mecânico guarda suas ferramentas e peças no porta-malas de seu automóvel, que passa o dia estacionado em uma quadra (ponto onde já é conhecido por seus serviços); quando precisa contatar um fornecedor ou

63 Segundo Lima (2009, p.120), a figura do alvará precário “permite o funcionamento de atividades de

qualquer sorte (comerciais, institucionais e até industriais) em imóveis urbanos, independentemente da regra de uso e ocupação do solo, por prazo que pode chegar a dois anos, passível de renovação por novos prazos, de forma indeterminada”. Na prática, ainda segundo Lima, “a legislação em questão parece estar mais fundamentada em motivações políticas que propriamente urbanísticas.

135 cliente, utiliza seu telefone celular. Outros mecânicos oferecem seus serviços em quiosques, embora a atividade também não seja permitida neste tipo de instalação. Verificamos assim, mais uma vez, como apesar da rigidez normativa, tanto as maiores empresas quanto os pequenos negócios encontram as brechas no meio construído e na normatização para a realização de suas atividades.

Por outro lado, as situações analisadas expõem algumas das adversidades que os agentes do circuito inferior devem enfrentar para realizar suas atividades em Brasília. Assim sendo, entendemos que o poder público poderia atuar no sentido de assegurar certas localizações, e, portanto, um maior mercado, ao circuito inferior, no núcleo central de Brasília, tanto em setores especializados quanto nas áreas de grande circulação. Destarte, não reservaria apenas ao circuito superior as áreas que asseguram “sobrelucros de localização” (TOPALOV, 1979, p.33). Pelo poder que concentra em Brasília – no que tange a destinação do uso dos lotes, a definição da localização das atividades e a setorialização do tecido urbano – o Estado deveria garantir que os agentes menos capitalizados pudessem usufruir de condições mais favoráveis para realização de suas atividades.

3.3. A economia pobre de uma periferia em transformação

Como vimos acima, o processo de urbanização de Brasília, no qual o Estado desempenhou um papel central, se deu através da formação de uma enorme área periférica no entorno da cidade. Se, por um lado, a maioria dos empregos foi centralizada nas imediações do Plano Piloto; por outro lado, a concentração da população de baixa renda nas cidades satélites engendrou, ao mesmo passo, o florescimento de um circuito inferior periférico. Ou seja, a aglomeração da população pobre na periferia levou ao surgimento de diversas atividades de sobrevivência nestas localidades.

Contudo, é preciso destacar que, desde os anos 1980, as cidades satélites abrigam também os pequenos negócios que “(...) sofrem a concorrência na área central e que, pelo seu porte, não podem pagar o preço da localização no Plano Piloto, e migram para os núcleos periféricos” (FERREIRA, 1985, p.54). As relativas facilidades de entrada no mercado da periferia, onde há uma maior permissividade e tolerância com os pequenos estabelecimentos (BERTONE, 1987, p.68), contrastam, assim, com a rigidez normativa do Plano Piloto.

136 Nas cidades satélites da periferia de Brasília, predominam os pequenos comércios e serviços que atendem às demandas cotidianas da população pobre local. Estes constituem, muitas vezes, negócios familiares, onde a divisão das tarefas não é fixa e a rentabilidade do trabalho é baixa. Neste mercado periférico, o baixo nível de renda da clientela é compensado, em certa medida, pelo volume da demanda aglomerada nestes núcleos distante do Plano Piloto. Não obstante, a grande capacidade de proliferação destes pequenos negócios não deixa de se combinar a suas altas taxas de mortalidade (FERREIRA e PENNA, 1996, p.199).

A economia popular da periferia de Brasília também tem incorporado novas variáveis representativas do período da globalização aos seus dinamismos, visto que as relações do circuito inferior com as variáveis chave do período não se limitam às áreas centrais das metrópoles. Conforme veremos a seguir, a técnica moderna, a informação e o crédito vêm permeando, progressivamente, as atividades do circuito inferior periférico de Brasília.

Por outro lado, seus dinamismos também são impactados por fatores de ordem regional. A forte valorização imobiliária do Plano Piloto e as restrições normativas aos pequenos negócios, combinadas às intensas migrações e à expansão da mancha urbana, entre outros, vem implicando um alargamento constante da periferia e, por conseguinte, um rearranjo do circuito inferior nesta metrópole (PAVIANI, 1987).

Visando apreender os dinamismos atuais da economia pobre na periferia de Brasília, analisamos, a seguir, certas situações geográficas consideradas reveladoras em Ceilândia. Este aglomerado nos aparece, quiçá, como a mais emblemática das cidades satélites, tanto no que tange a permanência de componentes intrínsecos à natureza excludente destes núcleos periféricos, quanto no que concerne as transformações recentes desta periferia. Localizada a trinta e cinco quilômetros do Plano Piloto, Ceilândia é uma cidade extremamente populosa e pobre, com um meio construído bastante deteriorado e carente em termos de equipamentos públicos. Contudo, a estes conteúdos, combinam-se, atualmente, o avanço da valorização imobiliária, a chegada de grandes redes de varejo e o aumento, embora bastante limitado, do emprego local.

No fim dos anos 1960, diversas favelas e acampamentos de construtoras (chamados, na época, de “grandes invasões”) ocupavam terrenos considerados estratégicos no Plano Piloto, abrigando sobretudo migrantes nordestinos que trabalhavam, então, nas construções da nova capital. Buscando coibir a proliferação deste tipo de assentamento, o Governo do Distrito Federal instituiu a “Campanha de

137 Erradicação de Invasões” (CEI) que transferiu, no início da década de 1970, cerca de 80 mil habitantes dessas favelas (Iapi, Vila Tenório, Esperança, Bernardo Saião e Morro do Querosene) para a localidade que viria a ser chamada de Ceilândia (PAVIANI, 1991). A trinta e cinco quilômetros de distância do Plano Piloto, o local não dispunha, na ocasião, de nenhuma infra-estrutura, de serviços básicos e, muito menos, de ofertas de trabalho. Segundo Paviani (1985, p.65), com a Campanha de Erradicação de Invasões, os órgãos governamentais “tentaram preservar a “cidade- mãe” de algumas das mazelas comuns às metrópoles brasileiras, mas, por outro lado, ampliaram, sem planejamento globalizado, o espaço “urbanizado” do Distrito Federal”. O processo de constituição deste núcleo que deu origem à Ceilândia foi, assim, uma das manifestações mais explícitas da atuação segregadora do Estado, na condução da urbanização inicial de Brasília. Para Villaça (1998, p.359), a segregação representa, justamente, a configuração socioespacial que viabiliza a dominação através do espaço e que garante às classes dominantes o controle do espaço urbano. A construção inicial de Ceilândia se deu, sobretudo, através do trabalho de seus novos moradores, mobilizados em mutirões. O plano urbanístico implantado posteriormente teve como referência o racionalismo do Plano Piloto, com a disposição das ruas em quadras residenciais e entrequadras comerciais, orientadas por dois grandes eixos ortogonais. Os limites da cidade foram definidos conforme a forma de um barril, demonstrando, mais uma vez, como em Brasília, “o desenho dos espaços urbanos se concretiza pela visão “a vôo de pássaro do plano” e escassamente pela acomodação ao sítio e às formas pelas quais a comunidade exerce sua cidadania” (ROMERO, 2005, p.138).

138 Mapa 5. Região Administrativa de Ceilândia (DF) – 2010

Fonte: Secretaria de Turismo do Distrito Federal.

Passados quarenta anos de sua criação, Ceilândia constitui atualmente a cidade satélite e, logo, a Região Administrativa, mais populosa do Distrito Federal, com mais de 398.000 habitantes, os quais representam cerca de 16% da população urbana do Distrito Federal (CODEPLAN, 2010). Assim, ao mesmo passo que pode ser entendida como parte da grande periferia de Brasília, compreende igualmente uma cidade mediana, guardadas as devidas especificidades.

Ao longo dos últimos anos, o acesso à infra-estrutura urbana e aos serviços públicos (energia elétrica, luz, água, esgoto) se expandiu para as cidades satélites “consolidadas”, como Taguatinga, Núcleo Bandeirante, Guará e, de certo modo, Ceilândia. Embora as estatísticas apontem para a universalização de certos serviços nesta cidade (CODEPLAN/ PDAD, 2010), constatamos que suas áreas de ocupação mais recente, como os setores O e P Norte, ainda apresentam uma estrutura bastante precária e encontram-se parcialmente carentes de asfaltamento. A ampliação da rede de metrô até Ceilândia, no fim da década de 1990, representou uma importante melhoria nas condições de transporte e acessibilidade de seus moradores ao núcleo

139 central de Brasília. No entanto, a freqüência e a quantidade de trens, assim como a cobertura da rede, ainda são claramente insuficientes para a demanda concentrada na periferia de Brasília.

Embora Ceilândia já abrigue hoje uma atividade econômica local relativamente mais dinâmica, apenas de 1/3 de sua população ocupada trabalha nesta mesma Região Administrativa. O comércio aparece como o principal setor empregador, ocupando 33,3% daqueles que exercem alguma atividade remunerada, enquanto os serviços, em geral, empregam 11,6% desta parcela da população (CODEPLAN/ PDAD, 2010). Não obstante, Ceilândia enfrenta ainda altos índices de desemprego: no início dos anos 2000, o desemprego chegou a atingir mais de 110 mil pessoas, ou seja, 1/3 de seus habitantes. A insuficiência de empregos atinge, assim, a maior parte de sua população economicamente ativa que segue dependendo daqueles concentrados no Plano Piloto. No início dos anos 1990, Ceilândia foi definida por Paviani (1991, p.130) como a maior cidade dormitório da região Centro-sul.

O baixo nível de renda de sua população e a precariedade de seu meio construído expõem, do mesmo modo, o nível de carência e escassez em que vive a maioria de sua população. Em 2010, quase 40% de seus domicílios possuíam uma renda mensal per capital inferior a ½ salário mínimo. Enquanto a renda média domiciliar mensal dos habitantes no Plano Piloto alcança o valor de quase 20 salários mínimos, em Ceilândia é de 4,7 salários mínimos, ou seja, não chega a 1,2 salários mínimos per capita por mês (CODEPLAN/ PDAD, 2010).

Por outro lado, embora possa ser associada, mormente, a este panorama de pobreza, Ceilândia já é atingida também pelo processo de expansão e valorização imobiliária de Brasília, que tem avançando, cada vez mais, rumo às cidades satélites “consolidadas”. Segundo Schvasberg64, a velocidade desse fenômeno seria aí,

inclusive, mais acelerada do que no Plano Piloto.

A grande população concentrada em Ceilândia tem atraído, igualmente, grandes redes de varejo e de serviços que buscam, por sua vez, alcançar o enorme mercado reunido na cidade, cujo consumo encontra-se facilitado pelo maior acesso ao crédito. Estas redes instalam-se nos locais de maior circulação, como nas imediações da Avenida Helio Prates, onde há lojas de empresas como Ponto Frio, Casas Bahia, Oi etc, além de diversas agências de crédito pessoal e estabelecimentos de grandes grupos regionais de móveis, concessionárias, calçados e vestuário etc. Conforme afirma Silveira (2010, p.7), as centralidades pobres de áreas de diversidade têm se

64

Em entrevista concedida pelo Prof. Dr. Benny Schvasberg, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, em agosto de 2009.

140 tornado cada vez mais atrativas para grandes redes nacionais e estrangeiras, cuja distribuição se expande para a escala metropolitana. Destarte, verificamos que este crescente interesse do circuito superior no dinamismo das áreas populosas e dos mercados pobres também se faz presente em Ceilândia.

Por outro lado, este processo vem implicando, ao mesmo passo, a intensificação, em diferentes escalas, do “movimento de empurrão” (PAVIANI, 1987) da população mais pobre e das atividades de pequeno porte para fora das áreas relativamente mais bem equipadas, inclusive nas cidades satélites. Em Ceilândia, uma parcela dos moradores de baixa renda e dos pequenos negócios antes localizados nas proximidades da Avenida Helio Prates, principal centralidade da cidade, transferiu-se para áreas de expansão recente, como os setores O e P Norte. Este “movimento de empurrão” acaba por expulsar também, em certos casos, a população pobre e suas atividades para fora dos limites do Distrito Federal. Aumenta hoje a quantidade daqueles que não podem pagar por uma localização, ainda que periférica, e, por conseguinte, avolumam-se as migrações internas, conferindo novas dimensões ao processo de empobrecimento e de periferização em Brasília. De acordo com Schvasberg65, entre 2000 e 2008, mais de 140 mil pessoas migraram do Distrito Federal para os municípios goianos do chamado entorno. Daí o forte crescimento populacional de localidades como Santo Antonio do Descoberto, Luiziânia e Águas Lindas (CATALÃO, 2008), as quais aparecem como as novas cidades dormitório desta grande periferia de Brasília.

No entanto, a recente valorização imobiliária e a chegada de grandes empresas representam um fenômeno de alcance bastante restrito, visto que a maior parte do tecido urbano de Ceilândia ainda encontra-se desequipada, degradada e desvalorizada, expondo o baixo nível de renda de sua população e o desamparo por parte do poder público. Vale destacar que, mesmo em sua área mais central, a economia popular e as moradias precárias são predominantes. O ar de modernidade e os estabelecimentos mais capitalizados não se estendem para muito além do perímetro imediato em torno de suas duas maiores avenidas. Estas empresas representam também uma parte mínima do total de estabelecimentos da cidade, compostos, em sua grande maioria, por pequenos negócios do circuito inferior. Segundo a Associação de Micro Empresas de Ceilândia, há cerca de 20 mil micro

65

141 empresas na cidade, representadas sobretudo pelos ramos de confecções e de oficinas mecânicas.

Localizada na Avenida Hélio Prates, a Feira Central compreende a principal centralidade popular de Ceilândia. Neste grande mercado, são comercializados artigos de confecções, bolsas, sapatos, produtos horti-frutigranjeiros, ingredientes típicos da culinária nordestina, utensílios de cozinha etc. Segundo Romero (2005, p.149), a ausência de um lugar propício à sociabilidade em Ceilândia transforma a Feira Central em sua principal centralidade, onde se reúnem seus habitantes. Nesta feira, assim como nos botecos e pequenos restaurantes de Ceilândia, predominam as comidas típicas nordestinas, como mocotó, acarajé, baião de dois, carne de sol, tapioca etc, além de frutas e sucos da região. Encontramos aí a manifestação de um dos traços regionais especialmente representativos do circuito inferior de Brasília: a importância dos migrantes nordestinos tanto entre os trabalhadores, quanto como consumidores dos pequenos negócios, onde, muitas vezes, são comercializados produtos típicos desta região.

O grande fluxo de trabalhadores migrados sobretudo do Nordeste, para a construção da capital federal nos anos 1950 e 1960, se reflete na participação que os habitantes originários desta região possuem ainda hoje entre os habitantes do Distrito Federal, onde mais de 25% da população é nordestina. Em Ceilândia, essa participação chega a 33% da população (CODEPLAN/ PDAD, 2010). Vale destacar que mais de 50% da população residente no Distrito Federal não é natural nem do município onde mora, nem desta Unidade da Federação (IBGE, PNAD, 2009).

3.3.1. Particularidades e universalidades do circuito inferior periférico de

Brasília

Dada a dimensão da área ocupada por Ceilândia, selecionamos o setor P Norte para explorar as dinâmicas atuais que caracterizam a economia pobre na periferia de Brasília. Esta área de ocupação recente, onde se concentra uma população mais carente, abriga uma composição de situações geográficas que nos permite analisar certas especificidades do circuito inferior periférico nesta região. Assim como nas periferias das demais metrópoles pesquisadas, encontramos, nesta área, uma economia popular bastante diversificada, ainda que realizada com um nível de capitalização muito reduzido.

142 Pequenos comércios de vizinhança e estabelecimentos onde são oferecidos os mais diversos serviços compõem o circuito inferior desta área. Não obstante, a realização de pequenas atividades em residências aparece como uma de suas principais manifestações, senão a principal. Avançamos, aqui, a hipótese de que o circuito inferior residencial periférico possui uma importância imensurável enquanto gerador de trabalho e renda nas grandes cidades brasileiras. Abrangendo toda uma atividade econômica praticamente não estudada, ele exerce um papel fundamental na complementação da renda, ou mesmo enquanto atividade principal, das famílias pobres de bairros periféricos das metrópoles. Segundo o IBGE (2003), de um total de 2,7 milhões de micro empreendimentos existentes nas cidades do país, 14,6% funcionam nos domicílios dos próprios empreendedores. Dentre cerca de um milhão de trabalhadores cadastrados como Micro Empreendedores Individual (MEI) no país, 70% fazem uso do próprio domicílio para realizar a atividade econômica (SEBRAE, 2011).

O circuito inferior residencial desta área de Ceilândia é composto pelas mais diversas atividades. Instalados sobretudo em garagens e nas partes das casas voltadas para a rua, encontram-se pequenos salões de cabeleireiro, serviços de manicure e pedicure, fabricação e venda de dindin, fabricação e conserto de sapatos, pequenos serviços de consertos e reparos, papelarias, venda de doces e salgados caseiros para festas e até mesmo pequenas lanhouses improvisadas. Certas atividades como a venda de artigos de segunda mão (que vão desde roupas e sapatos a portas, grades, fogão, carrinho de super mercado, máquina de algodão doce etc) e a compra de cobre e de latinhas de alumínio para revenda expõem, de forma mais explícita, o grau de pobreza desta população; evidenciado ainda pela própria precariedade do meio construído.