4 O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
4.1 O ECA e sua origem
O Estatuto da Criança e do Adolescente nasce após emenda popular existente no artigo 227, da Constituição Federal de 1988, e coloca a criança como prioridade absoluta em nossa sociedade. Com a participação da sociedade civil, o ECA teve aprovação da Câmara de Deputados e do Senado Federal. Foi sancionado pelo presidente da República, em 13 de julho de 1990, passando a vigorar como Lei Federal n.º 8069, em 14 de outubro de 1990, tornando-se conhecida como “Estatuto da Criança e do Adolescente”. Sem duvida,é é uma das maiores conquistas da sociedade civil organizada na década de 90.
Anteriormente, vigorava no país o “Código de Menores”, instituído em 1979. Embasado na Lei de Segurança Nacional e tendo o direito tutelar sobre o menor, o Código era um instrumento de controle social do indivíduo que estivesse na faixa etária de 0 a 18 anos incompletos e, por isso, a ele se atribuía a imputabilidade penal. Quando a palavra “menor” era proferida, imediatamente associava-se à situação de risco pessoal e social, significando: carência, abandono, delinqüência, exclusão, enfim, uma situação considerada anormal. As conseqüências dessa interpretação eram as internações, tal como a privação de liberdade, sempre ocasionada por motivo de carência dos recursos materiais e financeiros. Nem os princípios básicos do direito não eram observados. Assim, o Código de Menores era considerado uma lei autoritária, e a autoridade judiciária é quem decidia sobre o destino dos adolescentes.
Qualquer situação de dificuldade que viesse a ocorrer com a criança ou adolescente podia ser interpretada como uma irregularidade pelos juizes. Havia uma tendência geral à adoção e institucionalização e as crianças e os adolescentes não eram considerados
sujeitos de direitos, portanto não se permitia nenhuma manifestação de suas vontades ou opiniões.
Historicamente, os direitos da criança e do adolescente sofreram grande difusão após a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, cujo documento dela resultante foi aprovado pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em novembro de 1989. Esse documento transformou-se em um tratado internacional que resultou nos países que o ratificaram no primeiro instrumento jurídico efetivo de garantia dos direitos da criança.
A partir desse fato, em toda a América Latina, introduziu-se a obrigatoriedade do respeito a todos os princípios jurídicos básicos que, anteriormente, se encontravam ausentes das antigas legislações, o que se traduziu na nova doutrina para a justiça da infância e adolescência: a doutrina da "proteção integral", em substituição à da "situação irregular". Dessa maneira, instrumentos legais são repensados como formas eficazes de defesa e de promoção dos direitos humanos das crianças e adolescentes, introduzindo, assim, mudanças na sociedade e, conseqüentemente, alterando radicalmente o modo de conceber a infância e a adolescência, sem diferenciação sócio-econômica.
No Brasil, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei Federal n.º 8.069, de 13 de julho de 1990) estão baseados nessa doutrina de proteção integral, isenta de discriminação, cujas raízes estão na convenção sobre o Direito da Criança, aprovada pela Assembléia Geral da Nações Unidas. Essa doutrina reconhece a cidadania da criança e do adolescente como sujeitos de direito e como pessoas em desenvolvimento, sem condições de suprirem sozinhas as suas necessidades básicas, necessitando de medidas que viabilizem, de fato, os seus direitos. Assim, crianças e adolescentes passam a ser considerados cidadãos, com direitos pessoais e sociais garantidos, fazendo com que o Poder Público implemente Políticas Públicas especiais,todavia,estabelecendo a responsabilidade da sociedade e dos pais a esse segmento.
Para Volpi (1997a, p.13),
A política de garantias se materializa num sistema articulado de princípios (descentralização administrativa e participação popular), políticas sociais básicas (educação, saúde e assistência social) e programas especializados, destinados a proteção especial das crianças e adolescentes violados em seus direitos por ação ou omissão da sociedade ou do Estado, por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsáveis e excluídos em razão de sua conduta ou de prática de atos infracionais.
No artigo 2º do (ECA), é considerada criança, para os efeitos da lei, a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescente entre doze e dezoito anos. O artigo terceiro desse Estatuto diz que todas as oportunidades devem ser asseguradas à criança e ao adolescente, sendo facultado a eles o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, proporcionando condições de liberdade e dignidade.
O (ECA), revelando toda a mudança de mentalidade nos setores sociais brasileiros, implementa a concepção de criança e adolescente como pessoas em pleno processo de desenvolvimento bio-psico-social,oferecendo aos planejadores e executores das políticas públicas, as diretrizes para a realização do atendimento à infância e adolescência , para o exercício de seus direitos.
Diariamente, são lançados novos desafios na sociedade. Semeados pelo Estatuto, a descentralização e a municipalização, asseguradas na Constituição Federal Brasileira de 1988, vem se configurando como o mais novo desafio a ser enfrentado. Construído de forma lenta e gradual, o processo de descentralização e municipalização sofreu algumas dificuldades neste período, como: a timidez na participação da sociedade civil e a cristalização de práticas adotadas por longo tempo através de vários governos.
Segundo Souza (1995, p. 108), altera-se o “modo de gestão pública das políticas de atenção à criança e ao adolescente. O lócus privilegiado de atenção é o município”. Atribui, portanto, ao governo municipal a competência de assegurar a atenção às necessidades básicas de crianças e adolescentes. A autora enfatiza que o governo municipal, o poder judiciário e a sociedade civil locais devem ser parceiros, promover a participação comunitária, não só no acompanhamento, mas também no controle e na avaliação dos serviços públicos destinados à criança e ao adolescente. Infere que:
O Estatuto tal como proposto, encontra óbices em sua plena aplicação. Várias realidades sociais destoam da concepção de infância e adolescência nele expressas e elas não estão necessariamente espelhando um estilo maldoso ou violento de infração de direitos da infância. Saber dessas diferenças culturais não implica o intento de mantê-las intactas como numa espécie de relicário de manifestações culturais distintas, mas estar atento a elas como um caminho em que possa melhor interpretar a aplicação da lei.
O Poder Público não deve ser considerado como único responsável para se fazer cumprir os direitos da criança e do adolescente. No artigo 227, da Constituição Federal (1988), enfatiza-se a preocupação com a família, comunidade e sociedade. O interesse e o envolvimento de toda sociedade são de extrema relevância e legitimação das leis de maneira plural.