4 O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
4.3 Maioridade Penal/Civil
Paralelo a todas as conquistas alcançadas após a promulgação do Estatuto da Criança, o tema violência e delinqüência juvenil tem ocupado grande espaço na imprensa falada e escrita. As discussões giram em torno das propostas de alteração ou não da regulamentação sobre a maioridade penal e pena de morte.
Em primeiro de janeiro do ano de 2004, no Jornal Folha de São Paulo, caderno C3, foi publicada uma pesquisa6 demonstrando que 84% das pessoas entrevistadas apoiavam a redução da maioridade penal. Esse dado mostra que, se fosse realizado um plebiscito na época, a redução da maioridade penal venceria com larga vantagem. Outro dado da pesquisa aponta que 12% das pessoas demonstram desconhecimento em relação à legislação brasileira. Quanto à opinião dos favoráveis à mudança, os números podem legitimar uma proposta de alteração da Constituição Federal. A idade penal proposta pelos entrevistados foi a de 15 anos. Desse grupo, 62% defendeu que a alteração deve valer para todos os tipos de crime e 37% colocam que a alteração deve valer somente para alguns tipos de delito. Os
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Pesquisa realizada pelo Datafolha em 396 municípios brasileiros, abrangendo todos os Estados, com 12.180 pessoas entrevistadas entre os dias 8 e 15 de dezembro de 2003.
crimes mais citados foram homicídio e estupro. Do restante dos entrevistados, 1% declarou-se indiferente e 3% não soube responder.
Em artigo, na Folha de São Paulo, D. Geraldo Majella Abnelo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que é contrário às mudanças; afirma que a redução da maioridade penal vai empurrar ainda mais os adolescentes para o crime, considerando que a população sente-se cansada da violência instalada e sedenta por vingança. A partir dessa colocação, ele pergunta: “esta vingança vai ter um resultado bom?”.
Como D. Geraldo, existem milhares de pessoas que não concordam com a maioridade penal por acreditarem que tal medida não acaba com a violência. No dia 8 de dezembro de 2004, na TV de Presidente Prudente, foi realizada uma entrevista com a socióloga Marília Libório e o criminalista Cláudio Ribeiro Lopes sobre a delinqüência juvenil; o assunto em pauta era a alteração da maioridade penal. Segundo Marília, se existe impunidade, ela não se limita apenas às camadas mais pobres, pois ocorre em todas as dimensões sociais. Marília diz ser contra a diminuição da maioridade penal e também se sente ameaçada; ela acredita que não é o fato do adolescente ser colocado como adulto que irá resolver a delinqüência, pois a falta de afeto, falta de família, falta de escola, falta de emprego, vai continuar existindo. Para Cláudio, faltam expectativas para o futuro dos adolescentes, principalmente nas camadas menos favorecidas; comenta ainda que o Estatuto é rígido e que a justiça tem resolvido os casos que a ela chegam.
Em reportagem da Folha de São Paulo do dia 15 de novembro de 2003, nas páginas “Tendências & Debates”, Rubens Naves escreve um artigo intitulado “Pelo cumprimento do Estatuto”. Nesse artigo, ele coloca que existe um equívoco por trás dos debates sobre a maioridade penal, que é supor que o ECA não pune quem infringe a lei. Ele comenta que o Estatuto “prevê seis tipos de medidas sócio-educativas para os adolescentes infratores, que vão da advertência à internação, com privação de liberdade por um período
máximo de três anos”. Continuando, diz não achar pouco um adolescente de 15 anos permanecer privado da liberdade por um período de três anos, o que significa um sexto de sua vida.
Naves lembra, nessa entrevista, que o Estatuto traz uma concepção de reeducação em vez de repressão, permitindo que um adolescente possa ser sentenciado a uma medida de prestação de serviços à comunidade no dia seguinte ao ato. Para justificar suas colocações, Naves cita uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a legislação de 57 países do mundo, onde se constatou que 17% adota a faixa etária inferior a 18 anos como definição legal de adulto. Essa pesquisa aponta que o movimento da sociedade em países desenvolvidos é contrário ao do Brasil e cita como exemplo a Alemanha, que retornou a idade penal para 18 anos, criando inclusive um sistema diferenciado para jovens de 18 a 21 anos. Já o Japão, ao sentir o aumento da criminalidade entre os jovens, ampliou a maioridade penal para 20 anos, por acreditar que a violência seja prevenida com o investimento em educação.
A grande verdade é que o Estatuto da Criança e do Adolescente ainda está em processo de implementação e, nesse processo, ocorrem equívocos de interpretação da realidade, tal como a afirmação de que os adolescentes estão cada dia mais violentos. Dos crimes violentos cometidos apenas 1,09% foram praticados por adolescentes. Para Gilberto Dimenstein (2001), “o problema em nosso país, não é a falta de leis, mas a desobediência a elas”.
A efetiva implementação do ECA torna-se necessário para deixar o pensamento repressivo e vingativo para uma perspectiva educacional de responsabilização. Como diz Naves (2003), “reduzir a idade penal é a falsa solução de um problema real”.
Portanto, a rede de atendimento ao adolescente em situação de risco e adolescente autor de ato infracional deve ser incrementada e aumentada, dando oportunidade de uma vida mais digna, com seus direitos garantidos, criando e ampliando o foco no segmento família.
Segundo o Juiz da Infância e Juventude, Saraiva (1997, p. 170)
Necessitamos de compromisso com a efetivação plena do Estatuto da Criança e do Adolescente em todos os níveis- sociedade e estado -, fazendo valer este que é um instrumento de cidadania e responsabilização- de adultos e Jovens. Penso estar demonstrando que inimputabilidade penal não é sinônimo de impunidade ou irresponsabilidade. O Estatuto da Criança e do Adolescente oferece uma resposta aos justos anseios da sociedade por segurança e, ao mesmo tempo, busca devolver a esta mesma sociedade pessoas capazes de exercer adequadamente seus direitos e deveres de cidadania.
Deve-se considerar um retrocesso reformar a Constituição Federal com objetivo de reduzir a idade de imputabilidade penal, que hoje se fixa em 18 anos. A criminalidade juvenil que vem crescendo deve ser combatida em sua origem que é a miséria e a falta de educação. Não será jogando os adolescentes de 16 anos nas penitenciárias que iremos recuperá-lo, pois a sociedade tem o dever de investir e eles o direito de tentarem uma recuperação.
No próximo capitulo, falaremos sobre a caracterização do Município de Ourinhos e do Conjunto Habitacional Orlando Quagliato, para que o leitor construa uma imagem da cidade.
5. CARACTERIZAÇÃO DO MUNICIPIO DE OURINHOS E DO CONJUNTO
HABITACIONAL ORLANDO QUAGLIATO