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2 ECODESENVOLVIMENTO, PLANEJAMENTO E GESTÃO

2.3 Planejamento para o Ecodesenvolvimento

2.3.3 Ecodesenvolvimento como base para a gestão do turismo

O Ecodesenvolvimento considera diversos contextos – o social, o cultural, o econômico, o ecológico e o espacial – em seu planejamento, todos eles vistos de maneira inter-relacionada. A política, como campo de articulação dos agentes sociais e mediação dos diversos interesses, pode ser considerada mais uma dimensão inserida no processo de desenvolvimento sustentável.

Esta nova proposta de desenvolvimento traz relevantes contribuições à gestão do turismo. A temática do turismo vem sendo tratada prioritariamente em seu viés de atividade econômica, a indústria do turismo. (SAMPAIO, 2004). A inserção do desenvolvimento em um contexto mais amplo, que considera o equilíbrio entre o crescimento econômico, a prudência ecológica e a eqüidade social, diverge em seus princípios da racionalidade economicista até então predominante.

O planejamento para o ecodesenvolvimento traz consigo a necessidade de uma nova conformação político-institucional, baseada na descentralização política e de poder e trata, também, da inserção da variável ambiental em todos os processos de planejamento.

Nesta perspectiva, a preocupação com a qualidade ambiental e o planejamento participativo – que traz o cidadão e o município para o centro das decisões políticas – acarreta a necessidade de uma intersecção entre as varáveis ambientais, sociais, políticas e econômicas em um planejamento para o desenvolvimento local. Em outras palavras, no âmbito municipal, o planejamento deve levar em conta a inter-relação da gestão urbana e ambiental para que se atenda o propósito da sustentabilidade.

Com esse entendimento, o desenvolvimento sustentável da atividade turística em um município11 encontra-se vinculada a um contexto maior, envolvendo a gestão urbana e a gestão ambiental. Assim, questões como desenvolvimento local, autonomia comunitária,

11 Para esta pesquisa, escolheu-se trabalhar a idéia de turismo sustentável local no âmbito municipal, destacando- se o caráter urbano onde a atividade turística será desenvolvida. Optou-se por essa posição primeiramente por esse estudo ter como objeto de análise o município de Florianópolis, e também, para desvincular o conceito de turismo sustentável dos conceitos de ecoturismo ou turismo de natureza, os quais podem ser confundidos como segmentos mercadológicos do turismo e, dessa forma, apropriados por interesses econômicos privados.

participação social e qualidade ambiental devem fazer parte dos objetivos pretendidos em uma gestão da atividade turística.

O desenvolvimento turístico local, portanto, será planejado, decidido e regulado no próprio município. O governo local deverá garantir as condições institucionais e fortalecer a participação e representatividade das três esferas de poder: o estado, o mercado e a sociedade civil. A sociedade local articulada – mediada pela cultura autóctone e adaptada às características urbanas e ecológicas da localidade – encontrará as condições e os meios necessários para o desenvolvimento sustentável.

O ecodesenvolvimento destaca a relação entre a cultura local e o modo tradicional de apropriação dos recursos naturais como condição pertinente para o desenvolvimento econômico e social equilibrado com o meio-ambiente. Segundo Leff:

... as práticas de uso múltiplo e integrado dos recursos, fundadas em 12 normas culturais e saberes tradicionais, levam a decodificar a variedade de diversos micro-ambientes, desenvolvendo práticas produtivas que não só preservem a biodiversidade, mas que aumentem o nível de auto-satisfação das necessidades materiais da comunidade. A natureza converte-se, assim, num recurso econômico e num patrimônio cultural.(LEFF, 2000:122)

Traduzindo-se para a gestão do turismo em localidades habitadas por populações tradicionais, a revalorização dos modos autóctones de produção e organização sociocultural e o conhecimento da história e dos ambientes naturais por membros da própria comunidade são fatores que devem ser aproveitados no desenvolvimento de um turismo que integre os saberes tradicionais e suas práticas produtivas aos produtos turísticos, formando uma ampla cadeia produtiva de base local, contribuindo para a geração e distribuição da renda nas comunidades onde a atividade turística ocorre, assim como, na preservação do patrimônio natural e cultural.

Enfim, a noção de desenvolvimento sustentável considera o espaço local – em seus diversos elementos constitutivos: o social, o ecológico, o geográfico, o econômico – como espaço privilegiado para a constituição de mecanismos e experiências para o desenvolvimento. Nesta perspectiva, os cidadãos são considerados profundos conhecedores da realidade local e podem, através de mecanismos participativos, contribuir para que as decisões governamentais atendam aos desejos da comunidade (SAMPAIO, 2004). Entretanto o espaço local não se encontra desvinculado do contexto macro – regional, nacional e internacional. É

12 No texto original “nestas normas culturais”, pois Leff se referia às práticas relacionadas à culturas tradicionais indianas.

da relação de dupla via entre a centralidade local e a influência do cenário global no processo de desenvolvimento que se condiciona o planejamento e a gestão urbana e turística.

Os municípios encontram-se, assim, na necessidade em atender os propósitos do desenvolvimento local – por meio de seus próprios recursos e com autonomia gestionária – e, ao mesmo tempo, inserir-se no contexto macro de adequação às políticas econômicas e ambientais externas e de posicionamento em um mercado globalizado.

Quanto a essa questão, Bárcena e Simioni (2003) abordam as vantagens desempenhadas pela urbanização no sentido de proporcionar uma maior competitividade pela proximidade dos elos da cadeia produtiva e, também, economias de escala e diversificação. Nesse entendimento, seguem as autoras, se torna evidente no contexto econômico das cidades e territórios a demanda por um planejamento e gestão urbana e territorial capaz de incrementar a competitividade, produtividade e eficiência dos assentamentos urbanos.

Nesta perspectiva, a gestão do turismo deve ser direcionada de tal forma que venha atender à diversificação e complementaridade da oferta de produtos e serviços turísticos locais, visando uma maior integração entre os diversos elos da cadeia produtiva. A idéia é de uma contribuição sinérgica em prol do desenvolvimento econômico municipal e da distribuição mais eqüitativa da renda proveniente da atividade.

Segundo Jordan (2003), para se atingir os objetivos sinérgicos da formação de clusters, o planejamento urbano deve determinar as formas de uso do solo urbano e distribuição das atividades produtivas através de políticas urbanas que considerem incentivos econômicos para a localização, regulação e zoneamento. O autor aborda, também, a necessidade da criação e uso de instrumentos que venham a combater a especulação imobiliária e que possam mitigar os efeitos da segregação social e facilitar o acesso de setores sociais e econômicos de poucos recursos aos locais valorizados pelo mercado.

Pode-se relacionar a este pensamento à necessidade de incentivo às práticas econômicas tradicionais e o esforço para a manutenção das populações nativas nas suas localidades de origem. O crescimento do turismo pode incidir na supervalorização dos solos, acarretando na substituição das atividades econômicas comunitárias pela monocultura do turismo, atraindo investimentos de grupos hoteleiros e imobiliários de alto padrão aquisitivo, mudando drasticamente a configuração urbana e social local.

Percebe-se a importância de uma política de incentivo para a inserção das comunidades locais no processo de desenvolvimento turístico. Ações como a capacitação profissional, a facilitação de acesso ao crédito, o incentivo ao empreendedorismo e o apoio à

manutenção ou reconfiguração das atividades tradicionais adaptadas ao novo contexto econômico – casos da pesca artesanal e da agricultura familiar – são fundamentais para que os impactos socioculturais não resultem na expulsão gradual da comunidade nativa e em conflitos decorrentes da segregação e exclusão social.

A problemática apresentada segue a lógica da “cidade partida”, ou seja, a procura por localizações privilegiadas nas cidades e a formação de um conjunto de serviços e empreendimentos imobiliários de acesso exclusivo – no caso da atividade turística, essa “lógica” está vinculada ao atendimento das necessidades dos turistas. Nas palavras de Marcello Balbo, a lógica da cidade partida consistiria em:

... componentes de una ciudad ‘exclusiva’ (y excluyente) para la población de elevados ingresos que tiende cada vez más aislarse y no identificarse con respecto a la ciudad existente, a construir una ciudad propia, hecha de distintos elementos localizados en varios lugares en el territorio, con acceso reservado solamente a los que son ‘miembros’ de esta ciudad. (...) En la misma lógica de la ciudad ‘por partes’, se han construido oficinas inteligentes, hotelería de lujo, aparatos turísticos de nivel internacional, en una perspectiva no de diálogo ni integración con el contexto, sino de explícita distinción, ya sea desde el punto de vista urbanístico, como de las formas arquitectónicas. (BALBO, 2003:81)

Por fim, considera-se que o turismo deve ser visto como algo mais que uma simples atividade econômica desenvolvida no âmbito local. O crescimento da atividade turística no espaço local altera consideravelmente a cotidianidade de uma comunidade, interferindo na dinâmica social e na qualidade ambiental. O crescimento do fluxo turístico pode influenciar nas características urbanas do município, através do rápido crescimento imobiliário e especulativo, do incremento populacional significativo durante a temporada de férias e do movimento migratório definitivo. Os impactos na urbanização refletem-se nos empreendimento imobiliários, no conjunto de serviços e infra-estruturas desenvolvidos para se atender as demandas do turismo (ou dos turistas). O planejamento e a gestão de um turismo sustentável deve atentar para o atendimento das necessidades comunitárias e da preservação, ou melhoria da qualidade ambiental. O desenvolvimento turístico local sustentável apenas será alcançado por meio de arranjos institucionais que promovam a participação social e o equilíbrio de forças entre as três esferas de poder. A noção de ecodesenvolvimento traz novas perspectivas para gestão do turismo em base local, entre elas, a definição de questões estratégicas legitimadas em um processo dialógico de negociação. O planejamento estratégico participativo é o modo mais adequado para que a atividade turística possa satisfazer aos

desejos e necessidades da sociedade em alcançar o propósito principal de desenvolvimento – sem a necessidade de adjetivos anexados.

3 AS REPERCUSSÕES DA ATIVIDADE TURÍSTICA NA ILHA DE