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3 AS REPERCUSSÕES DA ATIVIDADE TURÍSTICA NA ILHA DE SANTA

3.2 O processo de desenvolvimento turístico na Ilha de Santa Catarina descrito sob a ótica do

3.2.6 O contexto político e institucional

3.2.6.1 Poder Público

A Prefeitura Municipal de Florianópolis administra uma área urbanizável de grande porte, com cerca de 148 km², e uma região costeira com mais de 180 km de extensão, o que se reflete numa estrutura administrativa complexa, constituída por administração direta e indireta com o total de 6.543 servidores, distribuídos em dez Secretarias, fundações para o meio ambiente (FLORAM), cultura (Franklin Cascaes) e esportes; uma autarquia para planejamento urbano (IPUF), uma autarquia chamada Instituto de Geração de Oportunidades de Florianópolis e uma empresa de economia mista para obras e lixo (COMCAP). Estima-se que 26,88% dos servidores estejam vinculados à gestão da urbanização, em seus aspectos de planificação, controle e obras.

A estrutura formal da Administração Pública em Florianópolis é descrita pelo relatório Urbal nos seguintes termos:

O Executivo Municipal apresenta uma estrutura formal de decisão que desce do Prefeito Municipal, assessorado pelos diversos Conselhos até chegar aos órgãos operacionais da administração direta e indireta. Os diversos órgãos são chefiados por pessoas de confiança do Prefeito (cargos de confiança) que podem ser substituídas a qualquer momento, sendo em geral indicações mais políticas do que técnicas. O conjunto desses Secretários e Diretores forma o principal grupo decisório da administração local, o chamado Colegiado Municipal, que se reúne com o Prefeito uma vez por semana para tratar dos assuntos em pauta e resolver conflitos de atuação, já que existe forte tendência à atuação independente. Na prática, assuntos corriqueiros se decidem ao nível de gerente, projetos ou investimentos de médio porte ao nível de secretário ou diretor, e projetos ou investimentos de grande porte ou significação chegam ao nível de Prefeito. (URBAL, 2004)

Atores fundamentais no sistema decisório do setor público são os vereadores e políticos com influência local. A Câmara de Vereadores é responsável pela aprovação do orçamento municipal, proposta e aprovação de leis municipais e fiscalização da Administração Pública do município. Os vereadores geralmente representam interesses de grupos comunitários, porém, não raro, atuam em favor de grupos ou setores econômicos, numa interpretação singular e oportunista do ideal de representatividade. Segundo o relatório Urbal (2004), em casos extremos os vereadores propõem mudanças na legislação de uso do solo para atingir seus fins, seja emendando os projetos de lei do Executivo ou fazendo projetos de lei de sua própria autoria. O Legislativo local tem por hábito alterar as leis de

zoneamento sempre que interesses pontuais e particulares não podem ser atendidos dentro do marco legal vigente, numa ordem de mais de 100 alterações anuais.

Ainda segundo o relatório Urbal (2004), pressão eventual, porém semelhante, exercem os políticos dirigentes de órgãos públicos das três esferas de governo, os quais aliam sua influência político-partidária à alavanca das obras e serviços sob seu controle.

Na análise de seis estudos de caso na Ilha de Santa Catarina37, envolvendo implantação de empreendimentos imobiliários em área de preservação permanente – vegetação de restinga –, foram avaliados os papéis de órgãos ambientais, Administração Pública, Poder Judiciário e Ministério Público, tendo como resultado as seguintes ponderações:

IBAMA: sujeito a pressões políticas que desautorizam laudos técnicos; despreparo de corpo técnico para lidar com a complexidade envolvida em questões socioambientais.

FATMA: responsável por praticamente todo licenciamento ambiental no Estado, excetuando o que é de competência federal, a FATMA vem legitimando a implantação de empreendimentos localizados em área de preservação permanente, concedendo licença ambiental sem a exigência do Estudo de Impacto Ambiental.

CPPA – Companhia de Polícia de Proteção Ambiental: vem cumprindo adequadamente suas atribuições ao atuar, levantar informações e prestar apoio aos órgãos ambientais; no entanto vem enfrentando dificuldades como o reduzido número de agentes e a falta de viaturas.

Prefeitura Municipal de Florianópolis: apesar de apresentar uma Fundação Municipal de Meio Ambiente (FLORAM), vem autorizando construções sobre áreas de preservação permanente. Não há consenso entre os órgãos subordinados da instituição, como o IPUF, SUSP e FLORAM; as ações são desconexas, carecendo de um tratamento integrado entre os órgãos no que concerne a planejamento, ordenamento, liberação de obras e fiscalização.

CASAN: viabilizou e estimulou a ocupação de áreas irregulares, pois não apresentou nenhuma restrição quanto à questão ambiental, levando em consideração apenas o objetivo arrecadatório. Segundo o relatório Urbal (2004), tal atitude resultou na dificuldade em

37 SANTOS, Cláudia Regina dos. A interface das políticas públicas com o processo de ocupação humana na

área de preservação permanente: vegetação fixadora de dunas na Ilha de Santa Catarina, SC. Florianópolis,

controlar a urbanização, porém, argumenta que, por força de lei, as concessionárias de água e energia encontram-se atualmente obrigadas a obter autorização do Executivo municipal para novas ligações, o que tem freado boa parte da clandestinidade no parcelamento do solo no município.

CELESC: observou-se o mesmo que a CASAN. A partir do ano 2000, após ação civil pública impetrada pelo Ministério Público Federal (MPF), está sendo obrigada a cumprir mandado judicial que nega a instalação de energia elétrica em áreas irregulares.

Ministério Público Federal: frente à ineficiência dos órgãos públicos ambientais, acaba sendo responsável por boa parte das denúncias sobre questões ambientais. Em Florianópolis, a maior parte dos processos administrativos é de agressão ao meio ambiente. Com um reduzido número de procuradores, o MPF não consegue dar conta de todas as denúncias, estando envolvido em ações muito pontuais, centradas no controle remediativo dos problemas socioambientais, que dificultam o tratamento de ações mais amplas, as quais beneficiariam um maior número de pessoas e contribuiriam para o planejamento ambiental. Conforme o relatório Urbal (2004), em vista da ineficiência da estrutura formal de decisão no Executivo e da falta de controle da estrutura não formal (legislativo, comunidade, entidades profissionais), o Ministério Público Estadual e o Federal têm tido uma atuação crescente contra os três níveis do Executivo, instaurando uma média de 2 a 3 ações mensais e tornando- se, na prática, mais uma instância de licenciamento e controle.

Poder Judiciário: tanto na esfera nacional como na estadual, prevalecem nos pareceres as questões econômicas sobre as questões ambientais. Constatou-se que os juízes não consideraram os apelos do Ministério Público, UFSC e entidades ambientais sobre o dano ambiental causado pela implantação de empreendimentos imobiliários.