3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
4.3 ECOINOVAÇÕES DO PROGRAMA
As inovações de produto e processo, apresentadas na sessão anterior, são ecoinovações pelas suas características de redução de impactos ambientais, resultados sociais e econômicos, segundo Bleischwitz (2009).
Essas ecoinovações foram introduzidas na Sanepar de forma ecoadaptadora estratégica (KEMP; PEARSON, 2007), implementando intencionalmente tecnologias adquiridas e adaptadas de outras empresas.
Desde o início, o Programa de Destinação Agrícola de Lodo envolveu a comunidade para sua implantação, associando-se com a academia, os agricultores e a sociedade, por meio de parcerias e conscientização para o uso do biossólido, buscando equilíbrio econômico e ambiental, inovações de produto e processo e a
Inovação de Produto Uso de lodo como fertilizante agrícola Lodo caleado Inovações do Programa Destinação para a agricultura Inovação de Processo Espalhamento
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reciclagem do resíduo, correspondendo às premissas da WBCSD (2000) sobre ecoinovação.
Essas parcerias foram estimuladas para dar credibilidade ao programa e foram essenciais para seu desenvolvimento, conforme trecho da entrevista com S-01:
[...] quando essa pesquisa começou a gerar resultados, foi uma coisa muito interessante, porque geralmente quando eu convidava os pesquisadores para participar do programa, eles diziam que não iriam participar porque eram contra o uso do lodo, então eu dizia: mas você não tem que ser favorável ao uso do lodo, o que nós queremos é estudar e se por acaso a pesquisa mostrar que o uso do lodo não deve ser feito a gente vai fazer uma regulamentação que proíba, então não estamos aqui para fazer um programa para dar garantia do uso, mas para estudar, se der deu, se não der não deu, e vamos ver o que os dados respondem, vamos perguntar para o solo, vamos perguntar para a planta, perguntar para a água, vamos perguntar para a saúde pública, se eles são contra ou a favor do uso do lodo né, e não o preconceito [...] (entrevista com S-01).
A criação do programa de pesquisa para a análise da viabilidade do uso agrícola de lodo, teve barreiras para o seu desenvolvimento, visto que os pesquisadores das diversas áreas necessárias à pesquisa do lodo, possuíam um preconceito em relação ao uso agrícola do lodo, devendo ser convencidos que o preconceito não pode fazer parte da ciência, instigando-os a eliminar ou aprovar seu uso por meio de resultados científicos.
A ecoinovação do programa envolve essencialmente as dimensões social, econômica e ambiental da sustentabilidade, conforme descrito por Elkington (2012), exposto no trecho da entrevista a seguir:
[...] então é importante mostrar o quanto a pesquisa dá retorno econômico, social e financeiro, e ambiental para o Estado, porque é muito importante que a gente mantenha uma prática de pesquisa e que isto venha a ser muito ampliado [...] (entrevista com S-01).
A pesquisa do uso de lodo foi desenvolvida com a finalidade de criar sustentabilidade, acarretando retorno econômico, social e ambiental para o Estado do
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Paraná onde foi concebida, criando a opção ecoinovativa de reciclagem do resíduo produzido pelo tratamento de esgoto.
A disposição do lodo gerado pelo tratamento de esgoto sempre foi considerada como uma dificuldade no Estado, já que aterros sanitários e industriais, que seriam uma opção, precisam ser licenciados e têm custos, estimulando alternativas, como citado na entrevista com S-02:
[...] a região metropolitana sempre teve dificuldade, a disposição de lodo sempre foi uma dificuldade, porque a outra opção que existia seriam aterros e a região metropolitana de Curitiba e mesmo o interior do estado tem limitação quanto a disponibilidade de aterros especialmente, disponibilidade de aterros para resíduos em geral, para lodo isso é um pouquinho mais problemático, por causa das características do lodo, o aterro tem dificuldade de manusear o lodo, precisa-se de aterros grandes ou aterros exclusivos, então o custo do aterro sempre foi muito mais alto do que o custo da disposição, e a outra situação é que o lodo é um resíduo orgânico com grande potencial de utilização, então além do problema do disposição havia a vantagem de quando você destinar o lodo para a agricultura [...] (entrevista com S-02).
O lodo sem tratamento tinha muita dificuldade em ser transportado e recebido em aterros sanitários devido à grande quantidade de líquido, passível de infiltração no solo e nas águas subterrâneas. Os aterros com melhor estrutura para recebimento, têm seus custos bastante elevados, o que desencoraja a destinação, estimulando outras formas, como a agricultura, que além de destinar, substitui fertilizantes químicos no solo.
Esses fatores incentivaram o desenvolvimento de soluções conjuntas para o problema desse resíduo e com isso alcançando valor comercial, ambiental e social, como negócio com valor agregado da ecoinovação, conforme UNEP (2014).
Evitando o uso de matérias primas extraídas de forma industrial para nutrição do solo e o passivo em aterros, o biossólido confirma seus benefícios ecoinovativos, conforme trechos das entrevistas com S-03 e S-06:
[...] o lodo por si só é de composição orgânica, ele vai ter ali, basicamente, os nutrientes ali, nitrogênio e fósforo, que são os mais atrativos, é o que mais é utilizado na agricultura, mas a tecnologia de você adicionar cal virgem pra higienizar ele faz com que ele tenha um, a característica de ser um corretivo
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de solo também, então ele substitui o calcário, então quando você está aplicando o lodo na agricultura, você está deixando de usar o insumo calcário, porque já tem a cal, e ainda está adicionando matéria orgânica com esses nutrientes que ela contém, então nesse aspecto, quanto ao produto final agrega valor (entrevista com S-03).
[...] era uma alternativa para fazer a destinação por falta de outra alternativa que a gente pudesse dar adequadamente para esse material, e pela questão da sustentabilidade, do aspecto econômico, social dessa destinação (entrevista com S-06).
O atrativo para os produtores rurais são os componentes químicos, como o nitrogênio, o fósforo e a cal, que substitui o calcário para correção do solo, gerando economia para os agricultores por não precisarem ter custos com estes insumos, já que o lodo de esgoto reciclado possui esses componentes, absorvidos de maneira eficaz pelo solo e pelas plantas.
A diminuição dos impactos do resíduo gerado com o tratamento de esgoto, a gestão voltada para sua mitigação, prevenção de riscos, acidentes e infrações, como por exemplo a ISO 14001 adquirida pelo sistema de Foz do Iguaçu, aliando sistemas de produção e consumo que respeitam o meio ambiente, caracterizam tipologias da ecoinovação citadas por Kemp e Person (2007) no Quadro 6 da página 40.
As inovações do lodo reciclado, nos processos e nas tecnologias desenvolvidas, obtendo vantagem competitiva e com isso beneficiando sua própria reputação, corroboram com os indutores de negócios com valores agregados da ecoinovação segundo UNEP (2014).
Como indutor de negócio com valor agregado da ecoinovação, apresenta-se a antecipação de normas e regulamentos (UNEP, 2014), presente no programa de reciclagem de lodo, o qual estimulou a criação de regulamentos e legislações, tanto estaduais, quanto nacionais, para normatizar a destinação de forma ordenada, conforme o trecho da entrevista a seguir:
Todos os trabalhos gerados neste programa de pesquisa, eles acabaram sendo publicados, então isto fez com que diversas empresas tivessem acesso a isso e inclusive ele foi fomentador até da resolução Conama [...] Não existia uma norma, nem estadual, nem nacional que regulasse, hoje é a resolução Conama, que regulamentasse a disposição e que desse segurança
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tanto para o agricultor quanto para o produtor do resíduo que tivesse cumprido determinadas normas e ele estivesse resguardado de problemas ambientais, a inovação neste sentido é que foram criados, foram regulamentados normativas para orientar o uso da agricultura, do lodo na agricultura, a resolução Conama e a resolução Sema [...] (entrevista com S- 02).
A entrevista com S-02 demonstra que as publicações da pesquisa referentes à reciclagem do lodo fizeram com que outras empresas tivessem conhecimento da possibilidade de utilizar lodo de esgoto reciclado em áreas agrícolas e que isso culminou na criação de legislações específicas. Outra entrevista que cita a regulamentação nacional, criada posteriormente ao programa, foi com S-04:
No começo não existia nada, nem Conama existia, o negócio foi feito assim, e o Conama veio, essas leis vieram estudando depois que já tinha começado, estudando e vendo, pegando opinião das pessoas, você acha isso, você acha aquilo, foi juntando e foi feito esse tipo de lei, e até hoje, como eu falei para você, nós estamos discutindo algumas questões que possam melhorar, que nós já vimos que não tem problema se acontecer isso ou aquilo, então a gente ainda está em estado de aperfeiçoamento, entendeu, da própria lei (entrevista com S-04).
As criações das Resoluções CONAMA 375/2006 e SEMA 021/09 foram estimuladas pelo programa interdisciplinar de pesquisa da reciclagem de lodo de esgoto, e continua sendo discutida para melhor operacionalização do seu uso. O trecho da entrevista com S-05, expõe que o programa estimulou a legislação nacional e estadual a respeito do uso do lodo na agricultura:
[...] com base na experiência da Sanepar é que foi desenvolvido o Conama, e a Sanepar foi a precursora do Conama [...] tudo o que nós entendemos de Conama, de SEMA, e políticas relacionadas à aplicação do lodo, foram resultados de pesquisa e interesse da própria Sanepar, da necessidade dela (entrevista com S-05).
A entrevista com S-06, demonstra que inclusive o próprio programa, com sua base científica, ainda influencia a formatação e revisão das leis, com a convocação
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de atores para melhorias nos textos, e consequentemente resultando no desenvolvimento dessa reciclagem:
[...] a gente estava participando de uma proposta, de um grupo que está fazendo proposta para a revisão da resolução CONAMA 375, daí com a formação desse grupo vários outros atores começaram a saber do problema e ver alternativa, como uma alternativa [...] (entrevista com S-06).
A antecipação de normas e regulamentos provocada pelo programa de pesquisa estabeleceu os processos desenvolvidos para que a reciclagem de lodo de esgoto na agricultura fosse realizada de forma ambientalmente segura.
Na agricultura, os resultados do uso de lodo de esgoto foram visíveis para os produtores rurais. Nas safras de milho, o grão ficou mais pesado, sadio, gerando maiores espigas, o tamanho da planta foi maior, com a cor verde mais acentuada, o pé cresceu mais rápido e mais viçoso. As folhas da planta ficam maiores e menos enrugadas, efeito da nutrição adequada.
A soja responde com maior número de vagens viáveis, resistência à seca, mais vagens e mais grãos dentro de cada vagem, planta maior, mais viçosa e de cor verde mais acentuada. Um dos entrevistados também utilizou em pomares de pêssego e alega que o pêssego ficou maior e seus pés duraram mais. As entrevistas realizadas com agricultores participantes do programa confirmam como essa ecoinovação trouxe benesses aos usuários:
[...] na planta que nem no milho você vê pelo grão, e dá um grão sadio, pesado, a gente sabe onde é as partes mais fracas da planta, onde amarela, onde não, nestas partes onde a planta vem amarela, daí joga, dá para ver que a planta já vem verde, já vem bonita, não é que nem antes que vinha aquela planta, amarela, fraca, está bem forte. Estímulo é uma coisa que foi melhor de tudo, que a gente viu resultado, que deu resultado, se não desse um resultado positivo a gente não ia pegar [...] (entrevista com A-01).
Os resultados da aplicação do lodo de esgoto nas culturas agrícolas são visíveis na planta, comparando com plantações em que não foram utilizadas. A entrevista com o agricultor A-02 demonstra que o milho é uma cultura que responde bem à aplicação de lodo de esgoto:
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[...] o milho, principalmente, na primeira safra que você aplicou, plantou, você já vê a diferença, se fazer lado a lado, que nem água para o vinho, o milho responde muito bem esse lodo. Ele já vem mais rápido né, mais verde, mais bonito. Ele cresce mais viçoso, mais verde, a produção aumenta né, na hora de colher depois a produção é mais né, que já dá para ver que a planta está crescendo muito melhor, já vê, a produção com certeza vai ser melhor [...] excelente, não tem do que se queixar (entrevista com A-02).
A velocidade do crescimento da planta é maior em relação às que não tiveram lodo, a cor verde fica mais intensa e a quantidade de grãos é maior. O cálcio contido na cal também é importante para o bom desenvolvimento das culturas de soja e milho, deixando rapidamente o solo pronto para o plantio:
A safra passada deu muita soja, muito milho também. Bem, eu digo que foi rápido porque a gente espalhou no mês de junho e no mês de final de agosto, isso do ano passado né, já foi plantado milho, então boa parte do cálcio, ele libera rápido [...] o curto prazo, depois que foi jogado, a cor verde muito forte (entrevista com A-03).
A entrevista com A-04 expõe que fazendo um comparativo com plantas que receberam e com as que não receberam lodo, a diferença é visível, o lodo além de corrigir o solo com a cal, ainda possui diversos nutrientes que não seriam supridos com apenas um tipo de adubo:
Aumentou, deu mais graúdo, até o pêssego eu fiz, deixei umas linhas sem colocar, aí eu vi o resultado [...] ela vai crescer mais (a soja), não vai abortar tanta vagem, conforme o tempo, aborta bastante, então ela ajuda, ela deixa o pé mais forte, mais resistente, vamos dizer na seca também, se você está com uma planta fraca, deu uma sequinha ela não este bem enraizada né, o que vai acontecer, ela vai enraizar melhor, ela vai puxar mais, então a vantagem é isso aí [...] para a terra vai, ela precisa, necessita, porque às vezes o calcário existe três tipos de calcário, então hoje a gente faz a análise, pede o calcítico, o calcário branco é outro, então esse eu acho que ele vem todos eles e mais um pouco, e talvez mais alguma coisa que a terra precisa né, porque não adianta você só plantar e todo ano, todo ano jogando aquele adubo ali, precisa daquele adubo e está faltando outras coisas, na terra, você vai gastar e não vai ter o resultado talvez, que faça, o resultado que o lodo faz (entrevista com A-04).
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É unânime que o lodo de esgoto reciclado aumenta a produtividade, tanto pela correção do pH do solo, quanto pela matéria orgânica e elementos químicos que são inerentes à sua composição, aumentando o tamanho das plantas e as tornando mais resistentes.
O diagrama representado na Figura 6, apresenta a família das Ecoinovações do Programa:
Figura 6: Ecoinovações do Programa
Fonte: Dados da Pesquisa (2019).