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3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

4.2 INOVAÇÕES DO PROGRAMA

A partir da pesquisa de mestrado que se iniciou em 1982, citada no Histórico do Programa, foram testados dois conjuntos de matéria orgânica que poderiam ser utilizados na agricultura: o lixo e o lodo. O composto de lixo parecia ser a solução mais viável, pelo preconceito que se tinha em relação aos metais pesados que seriam provenientes do lodo de esgoto, com a ideia que havia muitas ligações irregulares de esgoto industrial.

Esse estudo foi aprofundado justamente porque, na literatura internacional, como o lodo era muito utilizado no mundo inteiro, os metais pesados não eram um problema. Era necessário que houvesse um estudo para a confirmação ou não de metais pesados no lodo de esgoto em âmbito nacional.

No Brasil não havia pesquisa sobre lodo de esgoto para disposição na agricultura, então além de metais pesados, o estudo deveria abranger sanidade, métodos de higienização, critérios de recomendação de lodo, conteúdo, considerando que a realidade nacional é diferente das pesquisas internacionais, monitorando a quantidade e qualidade da matéria orgânica, nitrogênio, fósforo, potássio, micronutrientes, poluentes e também a aceitação pública.

Após os estudos do Programa Interdisciplinar de Pesquisa de Reciclagem Agrícola, apoiado por diversos programas de governo voltados para o desenvolvimento, o lodo de esgoto demonstrou aos pesquisadores que sua utilização era segura e com grande potencial de resposta do solo aos nutrientes (FERREIRA; ANDREOLI, 1999).

A questão crucial para o aproveitamento do lodo de esgoto nas áreas agrícolas seria desenvolver um tipo de higienização que aliasse baixo custo e fácil operacionalidade, resultando em uma inovação de produto e processo descrita no Quadro 1 da página 25 (SCHUMPETER, 1985), desenvolvida no Brasil, com a Higienização de Lodos por Estabilização Alcalina Prolongada – EAP, mais conhecida como caleação do lodo, conforme trecho a seguir:

Eu vejo assim, que no início a principal tecnologia que a gente precisa ter é a higienização, o restante é transporte, é mais logística, é gestão, não tem muita questão de tecnologia, é desaguamento e higienização, a outra questão que interferiria era a instabilidade, mas o nosso lodo já é estabilizado no

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próprio tratamento de esgoto. Iniciou-se com a aplicação de cal, que foi uma pesquisa da Sanepar que resultou no processo de estabilização alcalina prolongada que não está na resolução Conama, mas que a gente comprovou mediante pesquisa que era eficiente e o Conama permite que outros processos sejam propostos desde que comprovados cientificamente, esse processo está na nossa resolução do Estado [...] Na época foi um processo, a tecnologia mais viável pra Sanepar, não tanto por questão econômica, mas por questão operacional, então a gente já tinha operadores especializados em tratamento de esgoto e eu queria criar mais um processo e esse processo não poderia exigir muito (entrevista com S-06).

A utilização da cal virgem ou hidratada misturada ao lodo, apresenta-se interessante pela característica predominantemente ácida na maioria do solo brasileiro, agregando valor ao lodo que também adquire a característica de corretivo de solo, substituindo o calcário aplicado para correção do pH, aliando o meio científico com as necessidades do mercado, segundo Rosenberg (2006).

O uso de material alcalino reativo para a higienização do lodo reduz patógenos, aumentando a temperatura e o pH a pelo menos 12, e nessas condições formando amônia a partir do nitrogênio liberado, estabilizando o material física, química e biologicamente.

A caleação torna o biossólido inerte, com odor reduzido, patógenos eliminados ou significativamente reduzidos, fácil de ser desaguado, com a redução de metais pesados, por meio de reações químicas que alteram suas condições.

A manutenção do pH 12 por vários dias reduz a viabilidade dos ovos de helmintos de 86 a 100%, tornando o lodo praticamente livre de organismos prejudiciais à saúde humana, importante para a saúde da população do Estado, conforme citado na entrevista com S-01:

[...] obviamente o perfil da nossa população, como é muito pior do que o perfil

de populações europeias, principalmente em relação a helmintos, que são vermes intestinais que eliminam seus ovos pelas fezes e este é o método genético da manutenção da espécie, então nós focávamos nisto daí, como os ovos de helmintos eram os mais resistentes, a gente focava no ovo de helminto, se a gente matasse o de helminto é porque o resto já estava morto, e os resultados são fantásticos, se você pegar o nível de contaminação, o nível de helmintos no Paraná durante a pesquisa, caiu drasticamente, no final as pesquisas de higienização começaram a ficar difíceis, porque a quantidade

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de ovos de helmintos caiu tanto no Paraná e em grande parte por causa do programa de lodo, que a população melhorou tanto de perfil de saúde que hoje o lodo já tem níveis tão pequenos de ovos de helmintos, que muitas vezes nós temos que inocular ovos de helmintos no lodo, para poder pesquisar técnicas de higienização. Eu acho que o programa de lodo foi o maior exterminador de helmintos que apareceu aqui no Estado, veja um reflexo na área da saúde decorrente do setor de saneamento, que nunca foi adequadamente avaliado [...] (entrevista com S-01).

Segundo entrevista com S-01, à medida que o lodo de esgoto foi sendo caleado e seus patogênicos foram sendo inviabilizados, melhoraram os níveis de saúde da população do Estado, já que anteriormente o lodo era disposto sem tratamento, o que causava contaminação no meio ambiente, mas sua esterilização diminuiu os casos de ingestão de helmintos viáveis no território paranaense.

O próprio Programa Interdisciplinar criado para o estudo do lodo para destinação agrícola foi uma inovação no Brasil, aliando diversas áreas de pesquisa, o que nunca havia sido utilizado, considerando que as relações são a orientação para a inovação, conforme Tidd e Bessant (2015).

A destinação do lodo para a agricultura no Estado do Paraná é uma inovação de produto nacional, em termos de fertilizante e corretivo agrícola, promovendo sustentabilidade ambiental com a reciclagem de nutrientes. Possui matéria orgânica de qualidade, favorecendo a formação de agregados, tornando o solo mais propício à penetração de raízes e à vida microbiana, com maior absorção de água e resistência às erosões.

Durante um período todo o processo de destinação do lodo para a agricultura foi realizado por uma empresa terceirizada que ao invés da cal utilizava um produto patenteado chamado Nviro, uma mistura de calcário e resíduos industriais que promovia o processo de estabilização alcalina com secagem acelerada, as reações físicas, químicas e biológicas com o lodo eram muito semelhantes às com a cal, e seu produto utilizado na agricultura da mesma forma que o lodo caleado. Após o término do contrato dessa licitação, a Sanepar internalizou todo o processo de destinação agrícola do lodo.

A disposição do lodo na agricultura é a melhor opção para sua destinação. Transformando-se no solo, ele o beneficia e é absorvido em pouco tempo, mas se for

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destinado para um aterro, o resíduo fica inerte por tempo indeterminado, gerando um passivo, cuja responsabilidade é da empresa geradora.

Apesar do custo competitivo com aterros, a destinação do lodo para a agricultura é prioridade no Estado do Paraná, buscando cumprir metas da Lei nº 12.305/10 - Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que prevê a prevenção e a redução na geração de resíduos e um conjunto de instrumentos para propiciar o aumento da reciclagem e da reutilização, mas ainda falta comprometimento de alguns setores da empresa de saneamento em internalizar essa visão, conforme trecho a seguir:

[...] um motivo grande para isso é o custo, na verdade não é só o custo, é a burocracia, complexidade do uso agrícola e além disso o custo, por quê? Porque o aterro está com custo competitivo e até mais baixo que o uso agrícola, então pra enviar o lodo para um aterro eu preciso que seja um aterro licenciado, um contrato pra fazer essa destinação e uma empresa licenciada que me transporte até lá, não preciso estar fazendo caracterização lote a lote, higienização, todo o controle, projeto agronômico, análise de solo, de metais e tal, então a complexidade do processo no momento que o custo do aterro se tornou competitivo, ela realmente está levando a quem não tem o comprometimento com a sustentabilidade, tem mais a visão econômica, vou ter que ter uma preocupação muito grande com isso por um custo menor ou igual [...] Mas essa questão ainda não está bem internalizada pelos gestores, que o aterro, você é corresponsável até se der algum problema no aterro, mas não é uma questão que a pessoa, que os gestores internalizaram que possa acontecer algum problema (entrevista com S-06).

A destinação do lodo para o aterro depende somente do aterro e do transporte serem licenciados, enviando o lodo somente desaguado. Enquanto a destinação para a agricultura envolve a caleação, a formação de lotes, projeto agronômico, análises de solo, transporte e espalhamento, tornando o aterro bastante atrativo, principalmente pela falta de vontade da gestão, além do aterro competir em termos de custos em relação à agricultura.

A destinação do lodo para a agricultura deve ser prestigiada quando o lodo assim o permitir, já que não causa passivos ambientais e a absorção pelo solo elimina os resíduos gerados, mesmo que seus custos sejam maiores, cumprindo a PRNS, mas muitas vezes não ocorre por falta de comprometimento dos gestores.

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A complexidade da destinação agrícola com o envolvimento de diversos atores é uma inovação no sentido que transforma um resíduo em um adubo de alta qualidade, poupando matéria prima que seria necessária para a produção de fertilizantes, conforme entrevista com S-02:

[...] quando você faz o destino para a agricultura você tem higienização, você tem o transporte do lodo para a agricultura, você tem o espalhamento, você tem a pulverização disso para uma área muito maior, então a complexidade disso envolve muito mais atores e a responsabilidade em uma área muito maior, então neste ponto de vista ele acaba sendo uma inovação, e na forma como ele foi concebido inicialmente aqui [...] Do ponto de vista agronômico, o efeito nos solos é uma inovação, é uma forma de você aproveitar o resíduo para adubar o solo ou recuperar um solo que tinha problemas a partir de um resíduo, então ali tem um retorno grande com relação a isso [...] (entrevista com S-02).

Apesar de envolver mais atores e mais espaço físico, a destinação para a agricultura foi uma inovação concebida no Estado do Paraná, aproveitando um resíduo, que estaria inerte em um pátio ou em um aterro, para a fertilização do solo, destinando corretamente o resíduo e evitando a utilização de adubos químicos.

O estímulo para essa alternativa foi a falta de opção do que seria feito com o lodo gerado nas ETEs que estavam sendo construídas e a falta de aterros licenciados para receber esse resíduo, resultando na pesquisa de destinação para a agricultura.

No início do programa de lodo, não haviam equipamentos adequados para a realização do processo, tanto no tratamento quanto na disposição, sendo criados ou adaptados para a realidade dos processos desenvolvidos no Paraná, conforme citado na entrevista com S-02:

[...] essa foi uma inovação grande de processo, desenvolvimento de equipamentos para aplicação do lodo na agricultura no Brasil, porque não existiam equipamentos, então houve o desenvolvimento de equipamentos para fazer a mistura com lodo e cal em pequenas estações, alternativas de estocagem em pequenas estações e a alternativas de aplicação na agricultura (entrevista com S-02).

Os equipamentos desenvolvidos ou adaptados para a reciclagem do lodo, envolvem desde equipamentos para a caleação, para melhoramentos no deságue, e

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equipamentos para espalhamento do lodo no solo, concebendo inovações de produto e processo dentro do programa.

O programa provocou também mudanças na estrutura interna da Sanepar, institucionalizando processos e procedimentos para o cumprimento das questões burocráticas e legais. Essas mudanças incluem a realização de análises físicas, químicas e biológicas, e a montagem de uma equipe de profissionais para dar assistência agronômica.

Na agricultura a aceitação foi pela confiança depositada nos técnicos que faziam a divulgação do programa e também por ter indicações de vizinhos que já haviam utilizado. Vendo o aumento da produtividade nas propriedades vizinhas, muitos aceitaram testar o novo fertilizante que estava sendo distribuído gratuitamente. Acostumados com dejetos de animais para adubação das culturas, o odor não foi uma barreira para a utilização do lodo, por ser um material estabilizado assim que é incorporado ao solo o odor é suprimido.

A inovação de utilizar lodo é bastante vantajosa pelo fato de substituir o calcário para correção do pH do solo e não causar os transtornos que ele causa: poeira no espalhamento e danos por corrosão em equipamentos. O lodo já é enviado com a cal incorporada em uma massa desaguada, atualmente com cada vez menos água, o que facilita seu espalhamento e incorporação, em um processo de mudança progressivo, conforme teoria de Nelson e Winter (2006).

Além do cálcio, o lodo reciclado é um material que contém matéria orgânica e outros nutrientes que, se não possuísse, deveriam ser comprados à parte pelos agricultores para equilibrar o solo, gerando um custo adicional que é evitado com a reciclagem, o trecho a seguir demonstra a confiabilidade gerada:

[...] funcionou bem, aprendi que às vezes, vale a pena você até, como diz, não, eu não acredito e coisa, mas se fizer um teste vai aprender que é bom né [...] quando eu for plantar eu, eu sei que eu posso “ponhar” o lodo e garantir que vai ser bom né, tudo o que foi plantar, eu tenho certeza que vai ser bom o lodo (entrevista com A-04).

A Sanepar dá prioridade de envio do lodo reciclado para os pequenos agricultores, agricultura familiar, desde que não aumente demasiadamente seus custos devido a alguns fatores, como distância e disponibilidade do produtor.

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As análises de solo são coletadas e encaminhadas pela Sanepar para estudo e monitoramento, verificando quais serão as recomendações agronômicas para cada porção de solo. A logística da destinação, considerando o combustível, e os custos das análises são responsabilidade da empresa.

Por opção dos produtores as análises podem ser realizadas por conta, sendo apresentadas à Sanepar, mas somente para agilizar o processo de recebimento, que por ter alta demanda, às vezes pode ser dificultado. Mesmo que as análises preliminares sejam arcadas pelo agricultor, as análises de monitoramento do solo são responsabilidade da Sanepar.

Outra opção para agilizar o processo é a realização do espalhamento pelo próprio produtor ou o empréstimo de alguma máquina para tal. Neste caso, o custo é arcado pelo agricultor, mesmo assim há apoio e orientação, conforme citado no trecho a seguir:

Eles fazem tudo, eles vêm, se o cara nunca mexeu com essas máquinas, eles vêm regular tudo para fazer a distribuição certa, o primeiro dia é acompanhado por eles, eles vêm, explicam tudo, como que aplicar né, parte de estrada, que deve respeitar, tudo (entrevista com A-02).

O fato da empresa distribuir um adubo orgânico gratuitamente, responsável por custos de análise e logística, de um produto comprovadamente promissor, foi uma inovação para os produtores, utilizando um produto reciclado, mais nutritivo que outros resíduos que já haviam sido utilizados, inovando os processos e os resultados obtidos. A Sanepar como pioneira no Brasil na reciclagem agrícola de lodo, é bastante solicitada para demonstrar sua experiência em todo o mundo, servido como exemplo para outras empresas de saneamento do país, difundindo a inovação segundo Sylos- Labini (1993) e Veblen (1965).

No ano de 2016, o PNUMA, principal autoridade na definição da agenda ambiental mundial, em um programa das Nações Unidas voltado à proteção do meio ambiente e à promoção do desenvolvimento sustentável, divulgou o trabalho de reciclagem agrícola de lodo realizado pela Sanepar, confirmando a importância desse trabalho.

O diagrama representado na Figura 5, apresenta a família das Inovações do Programa:

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Figura 5: Inovações do Programa

Fonte: Dados da Pesquisa (2019).

A Figura 5 demonstra quais foram as inovações emergidas com o programa estudado, com as inovações de produto direcionando o uso do lodo caleado como fertilizante agrícola, e as inovações de processo com inovações nos processos de destinação para a agricultura e o espalhamento nas áreas. A próxima seção descreve como essas inovações foram determinantes para as ecoinovações despontadas pelo programa.