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Economia da alteridade e perspectivismo contra o Estado

3. Cosmopolíticas

3.3 Política, natureza, perspectivismo: Viveiros de Castro e a imaginação conceitual amazônica

3.3.2 Economia da alteridade e perspectivismo contra o Estado

A relação é motivada pela diferença, pelo desejo do distinto. Para além das relações de parentesco – isto é produção, circulação e reprodução de pessoas –, existe uma economia da alteridade.

A produção situa-se no âmbito das pessoas mais do que das coisas. A caça, por exemplo, vincula-se mais ao comércio e à troca do que ao trabalho. Ademais, liga-se à ―concepção, comum a muitos povos do continente, segundo a qual o mundo é habitado por diferentes espécies de sujeitos ou pessoas, humanas e não-humanas, que o apreendem segundo pontos de vista distintos‖ (Viveiros de Castro, 2002e, p. 347).

Nesse sentido, Viveiros de Castro defende que os ameríndios são perspectivistas, o que diz respeito à concepção amazônica de que os seres humanos e demais subjetividades

existentes – desde espíritos a plantas, passando por deuses, objetos, fenômenos meteorológicos, animais e acidentes geográficos – podem ver a si mesmos como humanos. Dito de outra forma, ―o modo como os seres humanos veem os animais e outras subjetividades que povoam o universo (…) é profundamente diferente do modo como esses seres veem os humanos e se veem a si mesmos‖ (Viveiros de Castro, 2002e, p. 350).

Trata-se, para Viveiros de Castro, de uma teoria cosmopolítica, não havendo dissociação rígida entre política e natureza. Nesse sentido, a agência vai para além dos seres humanos; ―animais e outros componentes do cosmos são intensivamente pessoas, virtualmente pessoas, pois qualquer um dentre eles pode se revelar ser (ou se transformar em) uma pessoa‖ (2009, p. 22). A condição de pessoa antecede à de humano e a capacidade de ocupar um ponto de vista não é função de espécie, mas de posição, de contexto.

O autor aponta a ambiguidade ocidental entre os conceitos de humanidade (humankind) no qual o homem é um animal em meio a muitos outros e Humanidade (humanity), condição da qual estão excluídos os animais. As cosmologias ameríndias tratam de outro modo a divisão entre homens e animais, pois percebem uma condição originária comum entre homens e animais que se situa não na animalidade, mas na humanidade. Não são os homens que ganham a cultura e distinguem-se da natureza, mas os animais que a perdem.

O mito é, assim, ―uma história do tempo em que os homens e os animais ainda não eram diferentes‖ (Lévi-Strauss e Eribon, 1988, p. 196), falando ―de um estado do ser onde os corpos e os nomes, as almas e as ações, o eu e o Outro se interpenetram, mergulhados em um mesmo meio pré-subjetivo e pré-objetivo. Meio cujo fim, justamente, a mitologia se propõe a contar‖ (Viveiros de Castro, 2002e, p. 355). O ideal de conhecimento amazônico pensa toda relação como social e em termos de diferença, o que implica numa multiplicação de agências e não em sua unificação ou redução numa representação objetiva.

Em detrimento da objetivação na qual a forma do Outro é a coisa, segue-se, no contexto amazônico, uma via diferente, já que ―conhecer é personificar, tomar o ponto de vista daquilo que deve ser conhecido – daquilo, ou antes, daquele; pois o conhecimento xamânico visa um 'algo' que é um 'alguém', um outro sujeito ou agente. A forma do Outro é a pessoa‖ (Viveiros de Castro, 2002e, p. 358). O perspectivismo é um relacionismo. Se a

relação, na ótica ocidental, tem por objetivo compartilhar a semelhança – presentes no conceito de fraternidade –, no mundo indígena, a relação se dá por causa das diferenças. A perspectiva, assim, implica a alteridade. Dialogar com o Outro significa assumir sua alteridade. Diferença e exterior primam em detrimento da identidade e do interior, os outros sendo antes a solução que o problema, reforçando a idéia de encontro e diálogo contra o Um.

Das relações de parentesco, abordadas acima, decorre uma posição política decisiva, no sentido de impedir ―a filiação de funcionar como germe de uma transcendência (a origem mítica, o ancestral fundador, o grupo de filiação identitário)‖ (Viveiros de Castro, 2007a, p. 122-23), ou seja de ser Estado. Desse modo, Viveiros de Castro elabora um conceito perspectivista do contra-o-Estado, prolongando Pierre Clastres.

O perspectivismo amazônico manifesta a importância dos xamãs, já que estes possuem a capacidade de incorporar a perspectiva de outras subjetividades, sendo capazes, assim, de agir como interlocutores no relacionamento entre diferentes agentes. O xamanismo é, assim, um tipo de diplomacia cósmica, que é particularmente delicada, pois ―o encontro ou o intercâmbio de perspectivas é um processo perigoso‖ (2002f, p. 357). No contexto amazônico, ―é impossível não ser canibal; mas é igualmente impossível estabelecer consistentemente uma relação canibal ativa de mão única com qualquer outra espécie – ela vai contra-atacar‖ (Viveiros de Castro, 2011b). Tal perigo advém da sempre presente disputa acerca da posição de humano, entre agentes humanos e não-humanos e que se manifesta em certos momentos precisos, como um encontro na floresta ou em sonhos42.

Ao encontrar alguém que pode tanto ser um parente ou animal no mato, se o humano responder, ao apelo do animal, que reclama por ser caçado, ou a seu olhar, ―estará perdido: será inevitavelmente subjugado pela subjetividade não humana e passará para o lado dela, transformando-se num ser da mesma espécie que o locutor‖ (2011b). Nesse caso, a pessoa sofre um mau encontro, um acidente que a separa de sua alma e, caso o xamã não a trouxer de volta, definha e morre. O autor efetua um paralelo entre estes encontros sobrenaturais na

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De acordo com o exemplo clássico do perspectivismo, o homem e o jaguar vêem a si mesmos como humanos; ―os jaguares vêem a si mesmos como humanos, e aos humanos, como porcos selvagens – os jaguares vêem o sangue de suas presas como cerveja de milho, ou alguma outra bebida apreciada por todo humano que se preza‖ (Viveiros de Castro, 2008c, p. 93). Desse modo, dois tipos distintos não podem

selva e a captura pelo Estado, ―como um tipo de protoexperiência indígena do Estado, ou seja, uma premonição da experiência propriamente fatal de se descobrir 'cidadão' de um Estado (a morte e os impostos...)‖ (2011b). O sentido da sempre presença do Estado, defendido por Deleuze e Guattari, é deslocado, ganha a forma do sobrenatural e de uma disputa entre pontos de vista, sobre quem é humano.

Ademais, o perspectivismo contra o Estado dialoga com uma ―filosofia política do canibalismo Yanomami‖ (Albert, 2002), via suas relações inter-comunitárias. Os Yanomami pensam a política na forma de um ―'espaço social total', subdividido pela distinção de um conjunto de alteridades coletivas para as quais a referência a esta totalidade dá sentido e coerência e é articulada por um sistema de reciprocidades (efetivas ou simbólicas)‖ (Albert, 1985, p. 684). Suas relações políticas são pensadas em termos dos yahitheribë (moradores da casa coletiva), hwanathëbë (convidados, amigos, grupos locais aliados), nabëthëbë (estrangeiros, inimigos), hwáthohothëbë (inimigos virtuais ou antigos) e, enfim, tanomaithëbë (inimigos potenciais desconhecidos) (Albert, 1985, p. 193), indicando a impossibilidade de ausência de relação já mencionada.

Se cada comunidade possui autonomia do ponto de vista político e econômico, havendo um ideal, como colocado por Clastres, autárquico, cada grupo mantém distintos tipos de relações com os demais, tais como de parentesco, cerimônias, trocas econômicas, alianças políticas. Constituem, assim, ―conjuntos multicomunitários que mantêm relações hostis, manifestas (incursões guerreiras) ou invisíveis (feitiçaria, xamanismo)‖. Ademais, ―estes conjuntos de comunidades aliadas se sobrepõem parcialmente umas às outras e formam assim, uma vasta rede social e política que abrange de ponta a ponta o território Yanomami‖ (Albert, 2003b, p. 40). Uma teoria canibal do político e do econômico.

Como estas construções (Yanomami e perspectivistas) dialogam com Marx?