2. Marx e Clastres contra o Estado
2.2 A sociedade contra o Estado de Pierre Clastres
2.2.4 Parentesco e mitos contra o Estado
Se Clastres estuda as estratégias políticas ameríndias contra a emergência do poder coercitivo, o autor as trabalha, também, em duas áreas clássicas da etnologia, a saber as relações de parentesco e a mitologia.
Em um de seus primeiros artigos, ―Independência e exogamia‖, o antropólogo coloca que ―a exogamia local encontra o seu sentido em sua função: ela é o meio da aliança
política‖ (1963, p. 82). Os casamentos entre grupos distintos e seus laços de parentesco
constituem parte da ação contra a forma-Estado. Clastres descreve, em sua etnografia dos Guayaki, como a aliança política entre dois grupos rivais se concretiza pela nominação de um bebê pelo membro de um grupo adversário, criando assim relações de parentesco. O nascimento envolve toda a tribo. Não se trata de assunto de uma família, mas do coletivo como um todo e ―se as circunstâncias o exigem e bem se prestam‖, observa-se ―o estabelecimento de verdadeiras relações políticas, que abrem em uma unidade fechada sobre si um horizonte de aliança com uma outra unidade igualmente fechada sobre si‖
(1972a, p. 33).
Isto se manifesta igualmente na caça. Nenhum homem consome sua própria caça, flechando, assim, para os outros. Há uma troca permanente e tal tabu alimentar ―possui também um valor positivo, já que opera como um princípio estruturante que funda a sociedade Guayaki como tal‖, colocando ―todos os homens na mesma posição, uns com relação aos outros‖. É, assim, ―ato fundador da troca de alimentos entre os Guayaki, isto é, como um fundamento da sua própria sociedade‖ (1966, p. 131-132). Reciprocidade e parentesco contra o Estado2223.
O contra-o-Estado reflete-se igualmente na mitologia ameríndia. Em sua crítica aos etnomarxistas em ―O retorno das Luzes‖, o autor os acusa de olvidar ―o mundo do mito e dos ritos‖ assim como a ―dimensão do religioso‖ (1977a, p. 203). Clastres coloca, nesse sentido, que ―os mitos são pensados sem dúvida entre si, como o escreve Lévi-Strauss, mas pensam primeiro a sociedade: são o discurso da sociedade sobre si mesma‖ (1980, p. 247). O antropólogo trabalha, desse modo, os mitos como meio de difusão de valores éticos e políticos igualitários, tendo em vista que ―toda mitologia carrega em si uma filosofia virtual, se sempre oferece um comentário sobre a natureza do poder‖ (Sztutman, 2009a, p. 154).
É nestes termos que o autor apreende os cantos dos grandes sábios Guarani. Tais palavras indicam ser ―porque a totalidade das coisas que compõe o mundo podem ser ditas segundo o Um, e não segundo o múltiplo, que o mal está inscrito no mundo (…), nós não somos culpados, nós sofremos pelo destino o peso do Um: o mal, é o Um‖ (1974a, p. 11-12). Em seu livro A Fala Sagrada: mitos e cantos dos índios Guarani, o autor relata as palavras de Soria, um xamã:
E eis o que profere, em uma fresca noite de inverno, na sua floresta do Paraguai, junto a uma fogueira que atiçava pensativamente de vez em quando: ―As coisas em sua totalidade são uma. E, para nós, que não havíamos desejado isso, elas são más" . Ele reunia assim o mal desse mundo ruim e a razão desse mal; a infelicidade da condição dos habitantes desse mundo e a origem de sua infelicidade. E porque a totalidade das coisas que compõem o
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Numa abordagem semelhante, a antropóloga Barbara Glowczewski, a respeito dos Warlpiri (Austrália), defende que seu ―sistema de parentesco – que se estende a todos os totens e seus locais associados – parece favorecer estratégias sociais para evitar estruturas de dominação centralizadas: uma situação ecoando a 'sociedade contra o Estado' de Clastres‖. Esta defende, ademais, que ―a recusa de um poder centralizado parece fundado (…) numa maneira particular de estender o parentesco (sob a forma da filiação e de alianças simbólicas) à gestão da terra, de seus recursos e dos saberes associados‖ (2008, p. 87).
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mundo pode se dizer segundo o Um e não segundo o múltiplo que o mal está inscrito na superfície do mundo. E quanto a nós, os adornados, não é esse mundo que desejávamos, não
somos culpados, sofremos o destino do peso do Um: o mal é o Um: nossa existência está doente, achy, por se desenrolar sob o signo do Um.
Vêm então os tempos felizes dos longos sóis eternos, a morada calma onde o ser não se diz mais segundo o Um, o espaço indivisível dos seres dos quais se pode dizer que são ao mesmo tempo homens e deuses.
Eco familiar demais, dizíamos, que faz ressoar em nossos ouvidos tal pensamento. Não
reconhecemos aí, com efeito, quase até na precisão dos termos, o pensamento metafísico
que desde sua mais longínqua origem grega anima a história do Ocidente? Em um caso e outro, pensamento do Um e do não-Um, pensamento do Bem e do Mal. Mas os sábios pré-
socráticos diziam que o Bem é o Um, enquanto que os pensadores guarani afirmam que o Um é o Mal (1974c, p. 14-15).
De acordo com ―o fundamento do universo religioso guarani‖, o Um relaciona-se com a ―imperfeição, podridão, feiúra: terra feia, o outro nome da terra má. Ywy mba'e megua é o reino da morte. De toda coisa em movimento sobre uma trajetória, de toda coisa mortal, dir- se-á – o pensamento guarani diz – que ela é uma‖. O Um liga-se à ―morte: destino daquilo que é um. Por que são mortais as coisas que compõem o mundo imperfeito? Porque são finitas, porque são incompletas. Aquilo que é corruptível morre de inacabamento, o Um qualifica o incompleto‖. A perfeição é o dois; ―o Mal é o Um. O Bem não é o múltiplo, mas o dois, ao mesmo tempo o um e seu outro, o dois que designa verdadeiramente os seres completos‖ (1972b, p. 190-191). Volta-se a este ponto adiante.
Dessa forma, ―Clastres extrai desse discurso uma versão da filosofia ameríndia da 'sociedade contra o Estado'‖ (Sztutman, 2009a, p. 155). O contra-o-Estado desdobra-se em várias facetas e relações: revolução copernicana, chefia, guerra e mitos, havendo uma confronto entre forças heterogêneas no seio das organizações ameríndias.