4. PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO
4.1. ECONOMIA DA CULTURA
A contemporaneidade tem reservado um espaço especial para a cultura que, segundo Rubim (2006: 8), atravessa as esferas da sociedade. A cultura ganha relevo na economia, chamando a atenção dos governos, das agências multilaterais, dos bancos de desenvolvimento e ainda das organizações não governamentais.
A economia e a cultura vêm mantendo uma relação íntima nas últimas décadas, segundo Paulo Miguez (2009a), o poder econômico tem o mesmo peso do poder político- ideológico pois, hoje, a cultura não tem só um expressivo peso econômico. É a própria “economia como um todo [que] depende cada vez mais, em seu conjunto, das dimensões culturais” (Negri e Cuoco apud Miguez 2009b: 25). Segundo Porsse (2005: 127), a economia da cultura é uma vertente da economia que se preocupa com os efeitos das atividades econômicas relacionada às manifestações artísticas e criativas da sociedade. Economia da cultura é essa produção de serviços culturais e sua circulação.
Vale salientar que muitas manifestações culturais não tomam seu lugar no mercado, ou seja, não são rentáveis. A economia criativa consiste naquelas indústrias que têm sua origem na criatividade individual, habilidade e talento e que tenha o potencial para criação de riqueza e trabalho pela geração de ideias, produtos e/ou serviços (Massachusetts 2006: 97).
Segundo Ana Carla Fonseca Reis (2012: 10), a economia da cultura coloca a seu favor o suporte da economia e essa não seria a ideia: “a ideia não é colocar a cultura a serviço da economia, mas pensar em como se valer de instrumentos econômicos de modo que nossos talentos culturais possam se realizar profissionalmente”. A economia da cultura trata de como lidar com a política pública, não com a sua criação. As expressões economia da cultura e economia criativa entram em conflito conceitual, mas em sua concepção essa última veio ampliar o conceito da outra. Segundo a autora, a expressão economia criativa, embora pouco compreendida, é um termo mais abrangente que envolve tudo da economia da cultura:
Economia da Cultura engloba atividades relacionadas [...] à criação, produção, e comercialização de conteúdos que são intangíveis e culturais em sua natureza. Estes conteúdos estão protegidos pelo direito autoral e podem tomar a forma de bens e serviços. São intensivos em trabalho e conhecimento e que estimulam a criatividade e incentivam a inovação dos processos de produção e comercialização (Unesco 2005: 53)
A Unesco, numa concepção mais ampla da economia da cultura, inclui em seu conceito os processos criativos e de produção, preocupando-se com sua disseminação, além de sua comercialização.
O fato é que as culturas populares e as indústrias emergem discussão que vai além das preocupações dos teóricos da economia. As indústrias culturais não conseguem dar conta da relação entre economia e cultura, mas rendem-se à economia capitalista. Surge, na fronteira com a economia da cultura e nas instituições multilaterais, a noção de economia criativa. Segundo Miguez (2009b: 32), ao potencializarem-se as atividades culturais emergem as indústrias criativas. Para esse autor, cabe considerar que economia criativa abarca a economia da cultura:
(...) a economia criativa como ampliação do campo pode ser vista economia da cultura, da mesma forma que a economia da cultura pode ser vista como uma ampliação do campo da economia da arte – até porque, no conjunto, a chamada economia criativa reúne setores, práticas e dinâmicas sócio-econômicas que, a rigor não são estranhas ao campo da economia da cultura (Miguez 2009b: 29).
A concepção de economia cultural se coaduna com a recente concepção de economia criativa. Há que se considerar, inicialmente, que cultura deve ser entendida como arte, mas entendendo que no conceito de criatividade a cultura vai além da questão da arte, uma diferença básica se dá entre as atividades culturais como trabalho e aquelas que utilizam a cultura com fins de produzir bens culturais não para fins de execução artístico-cultural mais para outras finalidades.
Quanto à globalização, é notório entre os teóricos da economia que o fenômeno não é recente, pois desde o final da segunda guerra mundial e com a queda do muro de Berlim, a globalização se expande agressivamente, segundo Tolila, assumindo o espírito bélico, no campo do comércio internacional, distanciando-se da concorrência harmoniosa. O “impulso agressivo da concorrência internacional” e os embates internos sobre a utilização dos recursos são fatores, segundo o supracitado autor, que levam à reflexão sobre a economia do “setor cultural”9. (Tolila 2007: 18)
Vale ressaltar que isso não significa o aprisionamento da cultura, mas reconhecer que ela enfim fixou terreno:
O fato novo é, de agora em diante, não considerar essa conduta como um grilhão para a cultura, destinado a aprisioná-la a lógicas “estrangeiras”, mas a possibilidade de
dispor de ferramentas e conceitos suscetíveis de ajudar no desenvolvimento do setor cultural em seu conjunto e permitir aos que o defendem apoiar-se em argumentos e problemáticas convincentes. (...) durante muito tempo censurou-se ao setor cultural e às administrações encarregadas de sua regulamentação seu “amadorismo econômico”, na verdade, sua despreocupação diante dos problemas financeiros ou da organização. Pensar hoje a economia do setor cultural não constitui de modo algum uma derrota dos argumentos humanistas a respeito da cultura que todos conhecemos e defendemos. Não significa um abandono do terreno na luta pela defesa de um desenvolvimento cultural; significa, ao contrário, a ocupação de um terreno suplementar do qual o setor cultural e seus principais atores há muito desertaram deixando o campo livre para as pressões negativas. Pensar a economia do setor cultural é uma arma para a cultura (Tolila 2007: 19).
Como se pode verificar pelas palavras do autor referenciado, a economia da cultura deve ser vista como um fator positivo no sentido de otimizar o setor cultural, em termos de demarcar sua existência futura. Segundo Manoel Marcondes Neto (2011), em entrevista concedida a Central Brasileira de Notícia – CBN -, e autor do livro Economia da Cultura:
Contribuições para a construção do campo e histórico da gestão das organizações culturais no Brasil, em co-autoria com Luzia Angeleti Ferreira, a economia da cultura está relacionada à
difusão dos bens culturais, tornando o produto cultural amplamente difundido e comercializável, pronto para ser consumido pela sociedade. Segundo ele, havia muito preconceito no meio artístico com a questão do marketing cultural, que para o artista não havia ligação com o trabalho que desenvolviam. As empresas sentiam dificuldade de tratar do negócio com o artista, mas os produtores culturais surgem para intermediar essa relação e hoje evoluiu-se muito, embora ainda haja preconceito.
A recém-aparição das políticas públicas culturais, as discussões internacionais sobre os direitos e a diversidade cultural suscitaram grandes revelações da cultura como bem coletivo:
Compreende-se melhor agora o sentido das lutas de influências que hoje se travam tanto no setor cultural como nos outros setores de bens coletivos, dado que o ideal neoliberal tende à sua privatização generalizada em detrimento mesmo de sua natureza econômica. Nesse sentido, pode-se dizer que essas doutrinas não são efetivamente enfoques econômicos no sentido estrito, mas posições partidárias e ideológicas que “absolutizam” apenas uma parte do econômico sem levar em conta sua complexidade (Tolila 2007: 30)
A cultura como um meio “de elevação”, isto é, de “distinção” e de abertura para o mundo levaram tanto europeus quanto os latino-americanos a voltarem-se para “o ato criador” e os artistas como fontes e origem de valores culturais. Já os americanos, ao falarem de “entretenimento”, focalizam no alvo comprador que deseja o relaxamento e a distração. Segundo Tolila (2007: 35), a fruição proporcionada pelo alcance desse alvo é industrializada
tanto nos bens e produtos culturais. Os europeus e os latinos não são afeitos a “viver a cultura como uma matéria-prima” que pode ser produzida em série, como fazem os americanos:
Dimensão dos mercados, visão internacional, espírito empresarial, enfoque financeiro totalmente descomplexado caracterizam o esforço americano. É sobre essas bases que os Estados Unidos adquiriram a posição dominante que hoje ocupam. É sobre essas bases que se criaram no mundo uma situação desfavorável para o desenvolvimento equilibrado das culturas, um contexto de verdadeiro “império” cultural (duplicando ele mesmo outros desígnios imperiais), uma conjuntura em que o peso das ameaças se tornou suficientemente determinante e sufocante para autorizar uma resistência e a pesquisa ativa de novas relações (Tolila 2007: 49).