5. A FELICIDADE – UMA NECESSIDADE DO HOMEM
5.2. A FÓRMULA DA FELICIDADE
5.2.3. O TERMO C – CIRCUNSTÂNCIAS
Este termo está relacionado com as particularidades individuais, ou seja, as condições na qual se encontra a vida de cada um. Algumas circunstâncias externas que podem ou não influenciar a felicidade são: condição financeira, casamento, vida social, emoção negativa, idade, saúde, educação, clima, raça, gênero e religião; elas podem melhorar o índice de felicidade, mas essa mudança muitas vezes é impraticável ou bastante onerosa.
Em uma pesquisa realizada em quarenta países, foram inquiridas mil pessoas sobre o nível de satisfação com a vida por intermédio do seguinte questionamento:
Em uma escala de 1 (insatisfeito) a 10 (satisfeito), qual o seu nível de satisfação com a vida como um todo atualmente?
Com o resultado a pesquisa, foi elaborada a tabela abaixo fazendo a relação da satisfação com a vida em diferentes países com o poder de compra de cada um, considerando o poder de compra dos Estados Unidos = 100. Inclui-se aqui o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH17 para servir de parâmetro para novas observações.
16 Seligman 2004: 66.
17 Índice criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq com a colaboração do também economista indiano Amartya Sem e vem sendo usado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD no seu relatório anual. Os três pilares que constituem o IDH (saúde, educação e renda) são mensurados da seguinte forma: Uma vida longa e saudável (saúde) é medida pela expectativa de vida; O
País Satisfação com a vida Poder de compra IDH Bulgária 5,03 22 0,786 Rússia 5,37 27 0,788 Bielo-Rússia 5,52 30 0,793 Letônia 5,70 20 0,814 Romênia 5,88 12 0,786 Estônia 6,00 27 0,846 Lituânia 6,01 16 0,818 Hungria 6,03 25 0,831 Turquia 6,41 22 0,722 Japão 6,53 87 0,912 Nigéria 6,59 6 0,471 Coréia do Sul 6,69 39 0,909 Índia 6,70 5 0,554 Portugal 7,07 44 0,816 Espanha 7,15 57 0,885 Alemanha 7,22 89 0,920 Argentina 7,25 25 0,811
República Popular da China 7,29 9 0,699
Itália 7,30 77 0,881 Brasil 7,38 23 0,730 Chile 7,55 35 0,819 Noruega 7,68 78 0,955 Finlândia 7,68 69 0,892 Estados Unidos 7,73 100 0,937 Holanda 7,77 76 0,921 Irlanda 7,88 52 0,916 Canadá 7,89 85 0,911 Dinamarca 8,16 81 0,901 Suíça 8,36 96 0,913
Tabela 5.1 - Satisfação com a vida 𝑥 Poder de compra 𝑥 IDH (Adaptado a partir de dados coligidos por Seligman 2004: 68)
acesso ao conhecimento (educação) é medido por: i) média de anos de educação de adultos, que é o número médio de anos de educação recebidos durante a vida por pessoas a partir de 25 anos; e ii) a expectativa de anos de escolaridade para crianças na idade de iniciar a vida escolar, que é o número total de anos de escolaridade que um criança na idade de iniciar a vida escolar pode esperar receber se os padrões prevalecentes de taxas de matrículas específicas por idade permanecerem os mesmos durante a vida da criança e o padrão de vida (renda) é medido pela Renda Nacional Bruta (RNB) per capita expressa em poder de paridade de compra (PPP) constante, em dólar, tendo 2005 como ano de referência (PNUD 2013).
Podemos tecer algumas observações interessantes a partir dos dados acima:
A satisfação com a vida e o poder de compra do país caminham na mesma direção; porém quando o Produto Interno Bruto – PIB ultrapassa 8.000 dólares a relação desaparece e o aumento da riqueza não implica maior satisfação com a vida.
O Brasil, a Argentina e a China apresentam um nível alto de satisfação com a vida do que se poderia imaginar baseando-se em sua riqueza. Os valores culturais da Argentina e do Brasil e os valores políticos da República Popular da China podem justificar o alto índice.
O alto nível de satisfação da Índia, China e Nigéria nos mostra que o dinheiro não compra a felicidade.
O poder de compra dos Estados Unidos e Japão dobrou nos últimos cinquenta anos e a satisfação com a vida não apresentou alteração.
Países com um alto IDH, como por exemplo, Bulgária, Rússia, Bielorrússia, Letônia, Romênia, Estônia, Lituânia, Hungria, Turquia e Japão apresentam um baixo índice de satisfação com a vida em relação a países que apresentam um IDH menor, tais como, Nigéria, Índia e Brasil, o que corrobora com a afirmativa que a condição de vida não implica maior satisfação com a vida, desde que observado o mínimo de sobrevivência.
O que influencia a felicidade, com relação à condição financeira, é a importância que se dá ao dinheiro. “A renda extra fez tão pouco para produzir uma sociedade mais feliz, deve haver algo bastante ruim em grande parte disso” (Layard 2008: 184). Na sociedade atual, profundamente materialista, os indivíduos que valorizam em demasia o dinheiro em relação aos outros objetivos de vida estão menos satisfeitos com o que ganham e com a vida de um modo geral.
Sobre a relação existente entre dinheiro e felicidade há um trecho da publicação de Eduardo Giannetti (2002: 127-129) que conta a passagem, na cidade de Kaduna localizada na região Norte da Nigéria, de um recém-formado brasileiro em sua primeira experiência profissional para ajudar na implantação de uma fábrica de refrigerantes. Ele não conhecia nada sobre o país, teve que olhar no mapa para ver a localização. O que, no entanto, considerava pior eram as imagens e ideias preconcebidas, “cenas terríveis de fome, sofrimento e crianças cadavéricas (...) um país sombrio, devastado pela exploração imperialista, governado por ditadores sanguinários e vivendo na franja de um sobreviver precário e amargo. O Horror.” A sua chegada, foi um choque brutal: “o país era sem dúvida um caos: absurdamente corrupto,
bagunçado, e, para os nossos padrões, miserável (...) tudo isso, no entanto, eu mais ou menos esperava”. Para a sua surpresa e longe das ideias preconcebidas o que chamou a sua atenção foi “a vitalidade afetiva, o calor humano e a pura alegria de viver que os nigerianos de um modo geral exibiam nas mais corriqueiras ações do dia-a-dia”. Considerou um fenômeno de difícil explicação, mas de contundência inapelável, “uma felicidade involuntária, uma forma de exuberância, um estado de ânimo que emanavam espontaneamente do sangue e da alma das pessoas tornando o simples existir uma benção, independente de qualquer razão ou lógica”. Em seu retorno, decidiu passar uns dias em Londres e o contraste se impôs como um raio; ao caminhar pelas ruas e conversar com as pessoas constatou o paradoxo da existência e do aproveitamento dos bens materiais:
o ensombrecimento do céu acima do animal humano era uma consequência do avanço da civilização (...) que mundo estranho, os africanos que quase nada possuem, fazem milagres ao transformar o pouco em muito; já os europeus, com tudo o que tinham, são como bruxos às avessas na proeza de transformar muito em tão pouco (...) era como se os londrinos trouxessem não a dor e o desgosto, mas o fardo de existir estampado na fronte (Giannetti 2002: 129).
Tão grande foi o impacto dessa experiência em sua vida, que declarou “a impressão que tenho é que, em apenas dois meses de África, aprendi e mudei tanto quanto em cinco anos de faculdade e fazendo dois cursos” (Giannetti 2002: 127).
O fato de ser casado ou não e ter uma vida social satisfatória influenciam a felicidade? Uma pesquisa do National Opinion Research Center, que entrevistou 35 mil pessoas nos últimos 30 anos nos Estados Unidos mostrou que 40% das pessoas casadas se declararam “muito felizes”, enquanto que 24% das solteiras, separadas e viúvas deram a mesma resposta. Um casamento infeliz prejudica a felicidade e a vantagem, em termos de felicidade, para os casados tem relação com o envelhecimento e a parte financeira, ou seja, haverá alguém para compartilhar a velhice e as despesas decorrentes de uma vida em comum. As pessoas muito felizes se destacam das pouco felizes, por terem uma vida social rica e plena, passando pouco tempo solitárias e o máximo tempo em convívio social. Estes dois fatores, casamento e vida social, mostram que as pessoas mais sociáveis têm a possibilidade maior de se casar do que as tímidas (Seligman 2004: 72 – 75).
Uma pesquisa conduzida, por mais de vinte anos, pelo German Socio-Economic Panel (Layard 2008: 86), demonstrou que, tanto homens como mulheres, tornam-se mais felizes com o matrimônio; a viuvez mostrou-se avassaladora nos níveis de felicidade, em maior intensidade entre os homens do que entre as mulheres; o divórcio causa nos anos que o antecedem uma
diminuição no índice de felicidade, o ano em que ocorre é o que registra o pior momento, nos anos seguintes o nível de felicidade dos homens tende a voltar para o normal, o mesmo não acontece com as mulheres, que continuam a sofrer.
Em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, Norman Bradburn (apud Seligman 2004: 74) perguntava sobre a frequência de emoções positivas e negativas e esperava uma relação inversa sobre elas, ou seja, quem experimentasse muita emoção positiva experimentaria pouca emoção negativa e vice-versa. O senso comum diz que muito sofrimento impede a alegria, mas o resultado da pesquisa de Bradburn não demonstrava tal fato. Comprovou-se que existe uma moderada correlação negativa entre as emoções, assim, quem experimentar muita emoção negativa na vida, apresentará uma emoção positiva abaixo da média, mas não estará predestinado a uma vida sem alegria. De um mesmo modo, a emoção positiva prevalecendo indica uma proteção moderada contra a tristeza. Certamente, a relação entre as emoções, positivas e negativas, não é de total oposição; como se processa e as causas que a suportam é muito pouco claro e a resposta a essa questão é um desafio para a Psicologia Positiva (Seligman 2004: 74-75).
Gente jovem ser mais feliz não condiz com a realidade atual e o idoso mal-humorado, irritado e implicante é um clichê que não corresponde à realidade. Um estudo realizado em quarenta países com um universo de sessenta mil adultos dividiu a felicidade em três componentes: satisfação com a vida, que sobe ligeiramente com a idade; estado de espírito agradável, que diminui um pouco com o passar dos anos e o estado de espírito negativo que se mantém estável. A intensidade das emoções é que se altera com a idade; situações como “sentir- se no apogeu” ou “no fundo do poço” tornam-se menos comuns com o avançar dos anos e o acúmulo de experiências (Seligman 2004: 75).
Gozar de boa saúde não implica diretamente sobre a felicidade, o que importa é a percepção subjetiva que se tem a respeito da nossa saúde; encarar positivamente a saúde debilitada deve-se a uma capacidade inata de adaptação à adversidade. Procurar um médico ou encontrar-se hospitalizado não altera a satisfação com a vida, mas atinge a percepção subjetiva da saúde que traz emoções negativas. Pacientes com câncer apresentam uma satisfação global da vida pouquíssimo diferente dos indivíduos saudáveis. Em casos de doenças incapacitantes e demoradas, a felicidade e a satisfação com a vida diminuem menos do que se poderia imaginar; pacientes acometidos de um problema crônico, por exemplo, uma cardiopatia, apresentam aumento da felicidade no ano posterior ao diagnóstico, provavelmente isso aconteça “porque as pessoas têm considerável capacidade de se adaptar às limitações físicas” (Layard 2008: 90).
Em indivíduos com diversos problemas de saúde a felicidade diminui com o tempo. Dessa forma uma doença moderada não causa infelicidade, mas uma doença grave, sim (Seligman 2004: 75-76).
A educação, o clima, a raça e o gênero não apresentam nenhuma justificativa plausível para alterar a felicidade de um indivíduo. Observa-se que o nível de instrução, obtido por uma pessoa de baixa renda, pode proporcionar um maior rendimento e consequentemente um ligeiro aumento da felicidade (Layard 2008: 83). A capacidade de adaptação faz com que o nível de felicidade não se altere em temperaturas baixas, pelo que o sonho de alguns de encontrar a felicidade em um país tropical não tem sentido. Homens e mulheres não apresentam disparidade com relação à felicidade. A questão racial não apresenta relação fundamental com a felicidade (Seligman 2004: 76).
A partir de dados obtidos em pesquisas, comprovou-se que as pessoas que se dedicam a alguma religião são mais felizes e apresentam uma satisfação maior com a vida do que aqueles que não tomam parte de qualquer religião. Existe uma coalizão entre os que partilham da mesma fé, formando um grupo de indivíduos coeso. Para Seligman existe uma ligação mais básica: “as religiões infundem esperança no futuro e dão significado à vida” (Seligman 2004: 77).