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1 INTRODUÇÃO

2.3 ECONOMIA FEMINISTA

2.3.1 Economia feminista e economia social e solidária

Assim como a economia feminista, a ESS procura na prática e na teoria criar a economia de forma que ela seja “centrada no trabalho, na cooperação e na solidariedade” (QUINTELA, 2006, p. 22), em que diversas reflexões sobre práticas fazem ascender a ideia de que economia deve ser centrada na valorização do trabalho livre gerido pelos próprios trabalhadores. A ideia de economia como oikos nomia (regras/cuidados da casa) é reforçada nesse sentido de que a sociedade se torne cidadã ativa e organizada em diversas formas cooperativas e associativas de produzir, comercializar, consumir, financiar, em torno de valores de corresponsabilidade e solidariedade, justiça social. Assim como a valorização das relações sociais num contexto de preocupação com a sustentabilidade ambiental, igualdade, justiça de gênero, raça e valorização do trabalho reprodutivo (QUINTELA, 2006; SANTOS, 2010).

A economia feminista e a ESS podem ser bastante convergentes ao se perguntarem a quem atende a economia e como ela pode ser útil às pessoas. Além de que, ambas se debruçam numa crítica sobre a separação entre o econômico e o social. A economia feminista, com suas muitas vertentes, pode ajudar a ampliar a observação da ESS ao papel das mulheres e sua inserção nos grupos de produção, comercialização, consumo, bem como construir instrumentos de ação que permitam diminuir as diferenças entre homens e mulheres (QUINTELA, 2006; SANTOS, 2010)2.

Outro ponto de possível convergência é a busca em visibilizar as formas econômicas de sustentação material praticada pelas mulheres de maneira concreta, buscando seu bem viver, uma vez que o entendimento delas da realidade é distinto do dos homens (QUINTELA, 2006).

Ou seja, a ESS é interessante para a economia feminista como uma possibilidade de romper a divisão sexual do trabalho (dos homens) no espaço público e trabalho reprodutivo (de mulheres) na esfera privada (NOBRE, 2014).

2 Ao apresentar um enfoque ecológico da história, Warren Johnson (1981, p. 33,

34) afirma que “son muchas las razones para crer que fueran las mujeres, a lo largo de um extenso período, las inventoras de la agricultura. Así como había tabúes que excluían a las mujeres de la caza, los hombres, generalmente, no recogían alimentos vegetales. Las mujeres se dedicarían a encontrar maneras nuevas de usar las plantas, ya que en caso de conseguirlo se incrementaría la capacidade de abastecimento del medio y se podría tener un respiro en la ingrata tarea del control de la población”.

A ESS pode contribuir no enfrentamento às desigualdades de gênero por meio da utilização de recursos variados, com foco prioritário nas necessidades humanas e na constituição de espaços de proximidade assegurados principalmente pela dedicação das mulheres (SPECHT, 2009).

Portanto, ao se perguntar sobre que economia se quer construir, que formas de relações sociais estão sendo construídas, é preciso desvelar o trabalho das mulheres na ESS e aliar o que o movimento feminista destaca em termos de igualdade, autonomia e superação das relações de poder dos homens sobre as mulheres como o que a ESS aborda em relação à superação ao sistema econômico centrado no capital por outro, mais preocupado com o trabalho autogerido, cooperativo, dialógico e solidário entre as pessoas no processo de produção. Assegurar a construção de um sistema econômico diferente do que está posto, no qual as riquezas serão conduzidas pela sociedade e não vice-versa, como também outra qualidade na relação entre homens e mulheres (QUINTELA, 2006).

Santos (2010) mostra que os dados mapeados nos empreendimentos econômicos solidários apontam para uma participação maior dos homens nesses empreendimentos. Entretanto, não há um tratamento maior desses dados em relação à realidade das mulheres na ESS, o que pode indicar uma necessidade de aproximação entre esses dois estudos: economia feminista e ESS, uma vez que ambos poderiam colocar em suas agendas políticas temas e questões fundamentais para os dois. A aproximação entre os conceitos é importante porque: acreditamos que as iniciativas de Economia Solidária podem criar espaços intermediários entre o privado/doméstico e a vida pública, entre o trabalho remunerado e o não remunerado, podendo contribuir para a superação desses bloqueios por que: criam espaços de discussão, reflexão, deliberação e reivindicações coletivas — acesso à fala pública; possibilitam a participação na transformação das instituições, da legislação e das normas sociais e contribuem para redefinir articulações entre família, mercado, sociedade e Estado (SANTOS, 2010, p. 15).

Mesmo dentro da ESS, as mulheres concentram-se em empreendimentos menores ou em atividades que tendem a reproduzir a divisão sexual do trabalho ao se responsabilizarem por tarefas organizativas. Isso reflete a reprodução das problemáticas vividas pelas mulheres no mundo do trabalho hegemônico, pois os empreendimentos maiores são geridos pelos homens. Mas a ideia é que essas mulheres passem a assumir também, e de maneira crescente, as tarefas de

comercialização, gestão financeira, negociação e incorporação de tecnologias (PESSOA; RAMOS; PEIXOTO, 2004; DANTAS, 2006).

Outro ponto importante da ESS que pode ser alinhado com a economia feminista é a autogestão, ao permitir a construção de uma autonomia das mulheres, exercendo novas práticas, com equidade de gênero, reconhecendo o espaço doméstico como espaço de produção da vida (DANTAS, 2006; SANTOS, 2010).

Dada as desigualdades históricas apontadas, as mulheres precisam refletir em torno da sua participação em empreendimentos alternativos, pois as experiências de ESS estão sendo construídas dentro do sistema predominante (capitalismo) e, muitas vezes, com as contradições que esse apresenta (PESSOA; RAMOS; PEIXOTO, 2004).Atualmente, as mulheres estão presentes nos espaços de articulação do movimento de Economia Solidária no Brasil, seja no Fórum de Economia Solidária, seja nas Conferências Nacionais, atuando em várias agendas no sentido de mostrar que o esforço e as horas de trabalhos das mulheres criam riquezas que podem ser repartidas de forma igualitária, assegurando que todos tenham acesso a ela. Além disso, buscar diminuir a sobrecarga de trabalho e responsabilidades das mulheres, melhorando as condições de trabalho (NOBRE, 2014).

Nobre (2014) sugere que há ainda um desconhecimento dentro do próprio movimento sobre as possibilidades do trabalho feminino. Muitas vezes, as cooperativas de serviço, por exemplo, são pensadas como prestadoras de serviço, sem perceber que podem combinar remuneração com intercâmbio de serviços entre as próprias participantes. O desafio da ESS associada à economia feminista, afirma a autora, é retirar as mulheres do isolamento, politizando-as e auxiliando na criação de novas práticas e saberes, de forma a organizarem o cotidiano de outra maneira, distinta da delineada pela sociedade de mercado.

A ESS tem potencial no sentido de auxiliar as mulheres nessa nova forma de perceber o mundo do trabalho. Entretanto, a ESS também vivencia limites e contradições, pois ao mesmo tempo em que propõe a autogestão como relação entre iguais, há registros de violência contra as mulheres dentro do movimento, além de que muitas continuam sobrecarregadas com o trabalho doméstico juntamente com a atividade remunerada (NOBRE, 2014).

De qualquer maneira, ao serem pensadas juntas, a economia feminista e a ESS propõem novas práticas econômicas que podem descontruir as práticas sociais vigentes, num debate e reconhecimento de pautas transversais que possam erigir uma práxis com possibilidades de inverter a lógica preponderante (SPECHT, 2009).

E essa aproximação entre a ESS e a Economia Feminista pode ser catalisada ao se tratar e trabalhar do empoderamento das mulheres envolvidas nesse movimento.