• Nenhum resultado encontrado

1 INTRODUÇÃO

2.6 FENONOMIA E ISONOMIA

2.6.1 Paradigma paraeconômico e Economia Social e

Guerreiro Ramos faz uma reflexão profunda a respeito dos estudos de administração e vai além desse campo - reflete sobre a sociedade e a maneira de percebê-la.

De modo geral, a ideia de sociedade multicêntrica de Guerreiro Ramos aproxima-se dos conceitos da economia plural (afinal Polanyi foi um dos inspiradores de Guerreiro Ramos). Com isso, destaca-se, nessa

concepção, a economia mercantil (de interesse individual), não mercantil (a obrigação) e não monetária (impulso reciprocitário, a lógica da dádiva) (TONET, 2004; FRANÇA FILHO, 2010).

Nesse sentido, Guerreiro Ramos é um crítico contumaz da sociedade de mercado como centro da sociedade atual. Atualmente, o mercado é a referência, a razão e o objetivo dos indivíduos na sociedade contemporânea. Guerreiro Ramos (1989) afirma que, na história da humanidade, não há registro de uma sociedade em que o mercado desempenhe um papel tão central na mente do indivíduo quanto na atualidade.

Entretanto, França Filho (2010, p. 192) ressalva que há, principalmente nos países do sul, uma série de atividades regidas prioritariamente pela solidariedade, com “as mais variadas formas de relações de troca, sem tradução monetária e alimentando um circuito econômico ampliado, que passam a ser incorporados à análise do funcionamento econômico, com a noção de economia plural.” Dessa maneira, a exclusividade da economia de mercado como fonte de riqueza é posta à prova, enquanto uma visão ampliada da economia, que contemple as outras formas de economia, de maneira complementar, enquanto criadoras e consumidoras de riqueza, é apresentada.

Há um entendimento, em razão do predomínio do paradigma econômico, de que, como o mercado é o único capaz de promover desenvolvimento, e que as alternativas a ele seriam sempre condições subalternas, dependentes em relação a essa dinâmica ou, ainda, como funcionais ao sistema, quando se apresentam como saídas assistenciais à situação de extrema pobreza (FRANÇA FILHO, 2010).

Entretanto, esse modelo, atualmente, não está conseguindo dar respostas às crises que se apresentam, porém não há um esgotamento do modelo, a extinção do mercado, apenas uma insuficiência enquanto modo de regulação socioeconômico. Ele organiza a vida de parte da população por um lado e, por outro, é excludente ao não conseguir absorver o considerável número de pessoas que precisam de trabalho. Uma solução a isso seria fortalecer e consolidar uma outra forma de economia, que valorizasse aspectos que não apenas o econômico, importante, afinal o mercado é um forte meio de regulação social por meio das trocas tanto monetárias quanto de produtos, mas não pode ser entendido como único (TONET, 2004; FRANÇA FILHO, 2010).

Nesse sentido, a paraeconomia de Guerreiro Ramos estaria em consonância com as discussões de outra economia, como a ESS, parecem aproximar-se ao defenderem uma economia plural, que possui maneiras de articulação inéditas em relação às dimensões econômicas,

sociais, políticas, culturais e ambientais. A ESS contribuiria, nesse cenário, ao conceber um novo modo de estabelecer o ato econômico, não substituindo a economia vigente, porém como uma forma alternativa de produzir riquezas, sem uma noção desvirtuada de uma nova economia, que sirva de ajuste às disfunções do sistema econômico vigente. Ressaltando o que Guerreiro Ramos (1989) defende a respeito da sociedade multicêntrica – não se pode prescindir do mercado e suas características, entretanto, com tamanho e influência reduzidos. Ou seja, um tipo organizacional que convive com esse sistema, porém, num caráter mais plural de economias e de tensões entre as lógicas diferentes, e que busca um equilíbrio entre elas para atingir uma sustentabilidade. A economia de mercado seria apenas, uma forma social possível entre outras, nas quais estariam os empreendimentos sociais e solidários (TONET, 2004; ARAÚJO, 2010; FRANÇA FILHO, 2010).

Cabe ainda destacar, a necessidade de uma nova consciência no entendimento da sociedade atual. Guerreiro Ramos (1989) fundamenta a racionalidade substantiva com base na ética e amplia a análise para além da relação atual entre razão e cálculo. Serva (1997b), ao falar de Guerreiro Ramos, afirma que a racionalidade substantiva é um atributo do indivíduo e, por meio dela, os indivíduos caminham em busca da autorrealização e da emancipação individual, porém considerando o direito dos outros nessa mesma caminhada. Para o equilíbrio dessas posições, estaria o debate racional e o julgamento ético-valorativo das ações. Dessa maneira, percebe-se uma visão distinta da busca do sucesso individual, do cálculo utilitário, predominante na sociedade centrada no mercado.

A ESS, por sua vez, tem um entendimento próprio da sociedade atual ao retirar o foco do mercado, equilibrando com o social, o que contempla uma diversidade de atividades humanas. Visa buscar o sentido primeiro da economia, ou seja, de uma oikonomia, em que a preocupação maior é no atendimento das necessidades das pessoas – necessidades entendidas numa perspectiva muito mais ampla do que, apenas, a de demanda de consumo de mercadoria. É a economia não separada das dimensões culturais, políticas, éticas, com autonomia, sem privar do caráter substantivo (LISBOA, 2002, 2009; RATTNER, 2008).

Além disso, a noção unidimensional, com base apenas na noção de mercado, sem contemplar a complexidade da sociedade atual, com as dimensões sociais e ecológicas, não se sustenta mais. Essa visão reducionista limita o potencial de criação de riqueza e emprego sob outras formas, que não são percebidas pela lógica atualmente predominante (SAUVAGE, 1996; LECHAT, 2002).

Por isso, a importância de uma economia plural, de fortalecimento das organizações da sociedade civil, com atividades econômicas que desenvolvam projetos sociopolíticos, ou seja, que as dimensões sociais, econômicas e políticas estejam contempladas, sem necessariamente, privilegiar nenhuma (ANDION; SERVA; LÉVESQUE, 2003).

Outro ponto importante de aproximação é com relação às formas alternativas de ocupação e emprego. Guerreiro Ramos (1989) entende que as pessoas devem ter ocupações que podem ter finalidade econômica ou não, porém, que assegurem a realização individual, que despertem o interesse sobre aquilo que está fazendo. Ao construir o modelo, reforça essa concepção e elenca as atividades domésticas, as atividades de subsistência e as atividades voluntárias para exemplificar seu ponto de vista. Contrapõe essa ideia à de emprego, em que o indivíduo é avaliado pela produção, que tem como finalidade atender às demandas da sociedade de mercado, e, com isso, não se realiza, pois suas necessidades não são contempladas nesse cenário (GUERREIRO RAMOS, 1989; TONET, 2004).

A ESS, nessa mesma linha de pensamento, defende uma articulação entre as várias esferas da sociedade e, assim, considera outras formas de atividades, incluindo aquelas que, não necessariamente, têm valor econômico - nas esferas mercantil, não mercantil, não monetária. Não numa lógica de rentabilidade do que se investiu, e sim na realização de interesses reais dos grupos participantes nessas iniciativas. Ademais, associa a ideia de solidariedade no meio das atividades econômicas. Com isso, a eficiência dos empreendimentos é medida em razão da equidade, da autogestão, da não aceitação ao modelo hegemônico. Afinal, os empreendimentos são organizados de maneira autogestionária e, assim, as decisões são tomadas de modo coletivo, o que promove uma maior consciência política de seus membros. A ênfase é na coletividade dos meios de produção, o que assegura uma solidariedade importante aos participantes, uma vez que consolida uma organização mais justa e ética. Como afirma Gaiger (2009), são práticas econômicas com princípios não utilitaristas, que contêm sociabilidades densas e decisivas à sobrevivência de amplos segmentos sociais. Essas atividades primam pela solidariedade acima do interesse individual e o ganho material, afirmando-se pela socialização dos recursos produtivos e adoção de critérios igualitários, podendo ser compostas por organizações de produtores, consumidores, poupadores, entre outros (SINGER, 2003; LAVILLE; GAIGER, 2009; ARAÚJO, 2010).

Em seu paradigma paraeconômico, Guerreiro Ramos (1989) apresenta um modelo de sociedade com várias formas organizacionais, no intuito de oferecer um ambiente que contemple diversas possibilidades de ocupação, que podem ser desde sistemas complexos, como o econômico, quanto extremamente simples, como as fenonomias (GUERREIRO RAMOS, 1989; TONET, 2004).

A ESS, por seus princípios e estruturação, contempla formas organizativas alternativas, com possibilidades de articulação importantes entre a sociedade civil, o Estado e o setor privado como associações, cooperativas, movimentos sociais. Isso porque possuem um projeto comum, com destaque para o social, preocupando-se com as contribuições para a sociedade ou para o coletivo. São empreendimentos de diversas modalidades de organizações econômicas, que têm como base a autogestão, a cooperação, a eficiência e a viabilidade. São compostos por indivíduos que foram excluídos do mercado, ou por suas convicções, ou por procurarem alternativas coletivas de sobrevivência (ANDION, 2003; GAIGER, 2003).

Para finalizar, o homem é encarado como ator das mudanças sociais tanto nas análises de Guerreiro Ramos, quanto nos princípios da ESS. Principalmente ao se pensar sua importância nas articulações entre os coletivos - como cooperativas, associações e movimentos sociais - e como maneira de aumentar a capacidade organizativa.

O homem parentético de Guerreiro Ramos é um ator crítico de si próprio e da sociedade em que está inserido. As isonomias refletem na sua diversidade de composições, de alguma maneira, esse perfil de pessoas interessadas em problemas da comunidade; e as fenonomias tem o sujeito atento às suas singularidades, porém provido de consciência social, além do que, sua opção não significa abandono da sociedade e sim uma tentativa de sensibilizar outros indivíduos de outras experiências que possam apreciar (GUERREIRO RAMOS, 1989; TONET, 2004).

É possível perceber, portanto, no que foi apresentado, uma convergência entre os aspectos do paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos e os conceitos da ESS. São propostas conceituais passíveis de caminharem juntas. Nesse sentido, esse trabalho apropria-se dos conceitos das isonomias e das fenonomias para analisar o processo de empoderamento das mulheres associadas à ESS. Tem-se a ideia de que as mulheres, no processo de empoderamento, traçam uma trajetória fenonômica, ao longo do tempo, que se consolida nos espaços isonômicos. A trajetória fenonômica, a que me refiro, pode ser entendida como uma movimentação do indivíduo no sentido de romper

com a síndrome comportamentalista, num movimento que se aproxima do enclave fenonômico. Além disso, os movimentos sociais, especificamente nesse caso a ESS, podem ser percebidos como espaços que privilegiam o coletivo, sem que se perca a individualidade, ou seja, com características isonômicas em confluência com as trajetórias fenonômicas.

Esses aspectos serão detalhados mais adiante, durante as interpretações.