CAPÍTULO 4 – “TODA AÇÃO DE CONSERVAÇÃO PRECISA SER ACEITA PELA SOCIEDADE”
4.3 Ecoturismo de base comunitária: preservação como desenvolvimento
ligavam conservação à racionalidade do mercado. Projetos de conservação e desenvolvimento seriam incentivos à conservação dos recursos naturais. O manejo de pesca e o ecoturismo eram dois dos principais projetos de conservação e desenvolvimento.
4.3 ECOTURISMO DE BASE COMUNITÁRIA: PRESERVAÇÃO COMO DESENVOLVIMENTO
atendimento a uma demanda espontânea de turistas à área (atividade que foi chamada posteriormente de soft opening).
Com essa experiência preliminar de recepção de visitantes, os técnicos do programa puderam experimentar tanto o produto a ser oferecido (uma combinação de atividades de turismo de natureza e soft adventure [JÁNER, 1998]) como o mercado a ser buscado dentre os perfis de clientes interessados no produto. Além disso, a experiência possibilitou a definição de etapas de implementação, a discussão detalhada das atividades com as comunidades e a melhor forma de utilização da área para o ecoturismo (AZEVEDO, 1998).
Outra vantagem foi o envolvimento direto de comunidades locais com a atividade de turismo. Isso foi particularmente importante porque o turismo é uma atividade econômica totalmente exógena à economia local. Portanto, a atividade é sempre cercada de diversos equívocos – seja em relação ao seu retorno financeiro, aos motivos ou às intenções dos visitantes ou ao impacto da atividade. Essa interação entre turistas e população local logo no início do projeto esclareceu as intenções dos ecoturistas aos olhos dos residentes, deu experiência prática na prestação de serviços para alguns comunitários, e gerou alguns benefícios econômicos, o que rendeu algum interesse no empreendimento por parte de outras comunidades (PERALTA, 2002). Essa fase de planejamento definiu que o produto a ser oferecido deveria conter uma programação de visitação bem elaborada, boa qualidade de guias e de informações, infraestrutura simples, mas confortável e com baixo impacto ao meio ambiente, e a visitação deveria trazer benefícios tanto ao ecossistema como à comunidade local (AZEVEDO, 1998).
Essa fase foi importante inclusive para fornecer subsídios para um estudo de viabilidade econômica mais minucioso e detalhado desenvolvido pela consultora Ariane Jáner, que concluiu que “um investimento em ecoturismo será bem visto pelo mercado de ecoturismo, é operacionalmente e economicamente viável. No médio termo também trará significantes benefícios para a comunidade” (JÁNER, 1998, p. 50). Os resultados do estudo também mostraram que o retorno financeiro da atividade não seria capaz de gerar uma receita às atividades do Instituto Mamirauá, mas apenas às comunidades locais. Mesmo assim, a avaliação foi considerada favorável à atividade e, depois disso, o DFID concordou em apoiar o desenvolvimento do ecoturismo como uma das alternativas econômicas para as
comunidades locais. O investimento feito pela organização foi da ordem de R$ 570 mil ao longo de quatro anos.
Se por um lado essa fase favoreceu a implementação da atividade, também foi marcada por ruídos, disputas e controvérsias internas que se refletiram na atuação do programa nos anos subsequentes. Essas controvérsias foram tratadas em uma reunião realizada em julho de 1998 entre pesquisadores, extensionistas e membros da equipe de ecoturismo, e tinha como objetivo esclarecer alguns questionamentos da equipe do Projeto Mamirauá que se configuravam como “motivos de resistência ao ecoturismo”. Dentre eles: a preocupação com os impactos ambientais e sociais da atividade; a sobrecarga de trabalho; o receio de “perder” a área definida para o ecoturismo;166 a perda da infraestrutura de pesquisa para o programa de ecoturismo; receio de ter que compartilhar informações;
receio de que o ecoturismo não fosse andar ao lado da educação ambiental; visão do ecoturismo como uma atividade “à parte” do Projeto Mamirauá; receio de que o ecoturismo não fosse uma alternativa econômica para as comunidades; o medo da atividade “não vingar”; receio que houvesse frustração do visitante ao visitar a reserva; medo de “perder controle” sobre a situação (ata da reunião de extensão, jul. 1998).
O DFID concordou em financiar o empreendimento de ecoturismo desde que o Projeto Mamirauá garantisse uma política de minimização de impactos sociais e ambientais da atividade, garantia que foi dada pela coordenação geral do Projeto. Entretanto, a responsabilidade pelo monitoramento de tais impactos foi delegada para outras equipes do Projeto: pesquisa e extensão – o que, obviamente, desagradou a ambas as equipes.167
A postura da equipe de ecoturismo de implementar uma atividade econômica de prestação de serviços, com o objetivo de “gerar lucros” e portanto ter que atuar como uma empresa, criou preocupações em relação a uma suposta divergência de filosofias de trabalho com a equipe de extensão. Além disso, a postura crítica do programa de ecoturismo em relação às atividades de extensão contribuiu também para o distanciamento e a falta de
166 A área do Lago Mamirauá que era onde muitas pesquisas eram realizadas.
167 A ideia geral assumida pelo programa de ecoturismo desde o ponto de partida era que o fluxo de turistas (máximo de mil) na área seria incapaz de produzir impactos negativos significativos. Quanto aos impactos sociais o Projeto garantiu ao DFID que a equipe de extensão iria considerar os impactos sociais como parte de um programa de monitoramento de organização comunitária e impactos do Projeto sobre a qualidade de vida das populações e que um modelo seria desenvolvido no Setor Mamirauá para que os impactos do ecoturismo fossem medidos. Entretanto, isso não aconteceu nos primeiros anos.
confiança mútua entre as equipes. A visão da equipe de ecoturismo na época era que as comunidades locais ainda não tinham um nível de organização suficiente para receber a atividade econômica e que seria o papel da equipe de extensão – e não a do turismo – preparar as comunidades.
A relação com os pesquisadores foi também problemática devido a uma controvérsia em relação à infraestrutura de ecoturismo. Essa infraestrutura era inicialmente destinada à estadia dos pesquisadores em campo. Porém, com o início da atividade de ecoturismo a coordenação geral do Projeto Mamirauá a destinou exclusivamente para recepção de ecoturistas, o que desagradou alguns pesquisadores que utilizavam a infraestrutura.168 Além disso, a equipe do programa de ecoturismo tinha expectativas de que os pesquisadores atuassem na atividade de ecoturismo não só através do monitoramento de impactos, mas também que fizessem parte da programação oferecida aos ecoturistas apresentando palestras e divulgando suas pesquisas.
Em suma, essa postura proativa, crítica e voltada para o estabelecimento de uma atividade de cunho empresarial não foi bem aceita por membros do Projeto Mamirauá e criou certo distanciamento entre as equipes. Reflexo disso foram as críticas recebidas pelo programa na Assembleia Geral de 1999, conforme relatado no início deste capítulo.169 Essa situação culminou em novembro de 2000, quando a coordenação do programa de ecoturismo em reunião de avaliação geral do Instituto Mamirauá classificou a atividade de ecoturismo como um corpo estranho dentro do Instituto.
Entretanto, a coordenação do Projeto Mamirauá não compartilhava da animosidade do resto da equipe em relação à atividade de ecoturismo. Pelo contrário, o biólogo José Márcio Ayres via a atividade como promissora e investia tanto seu tempo quanto os recursos institucionais para a consolidação da mesma. Nos primeiros anos do Instituto Mamirauá (entre 1999 e 2002) a Pousada Uacari serviu de apoio para as atividades de divulgação do Instituto, primeiro em termos logísticos – pois recepcionava visitantes, equipes de filmagem, financiadores –, e mais tarde em termos estratégicos, pois se configurava como verdadeira
168 Alguns pesquisadores ficaram com a convicção de que o projeto de ecoturismo havia roubado a infraestrutura de pesquisa. Dez anos depois estes pesquisadores do Instituto Mamirauá ainda lembravam-se do episódio e cobravam do programa de turismo de base comunitária a substituição da infraestrutura.
169 Quando se fez a associação entre a implementação da atividade de ecoturismo e a demanda do Setor Mamirauá de cobrança de taxa de entrada na área.
vitrine da proposta do Instituto Mamirauá: um exemplo claro de correlação entre conservação e desenvolvimento. Logo nos primeiros anos houve na zona de manejo especial de ecoturismo um sensível aumento na abundância relativa de espécies-chave como os jacarés, os pirarucus, aves aquáticas, além de altas taxas de encontro de primatas nas trilhas (FLECK, 2001).
Para conseguir o apoio e envolvimento das comunidades locais foi desenhada uma estratégia de aproximação com visitas regulares, participação em todos os eventos promovidos pela coordenação do Setor (como encontros de Setor bimestrais e assembleias).
Além disso, o programa realizava encontros com comunidades locais170 para divulgação e avaliação dos resultados de suas atividades, para prestação de contas e planejamento das atividades. A estratégia do programa foi de aproximar-se das principais lideranças locais para obter o apoio necessário para a implementação da atividade.
Com a finalização da construção da infraestrutura de hospedagem em 2001, a inclusão da Pousada Uacari com posição de destaque no guia de viagem Lonely Planet e um maior investimento em marketing, houve o aumento considerável do número de turistas a partir de 2002. A origem dos turistas que se hospedaram na Pousada Uacari foi de 27% de brasileiros e 73% estrangeiros, principalmente americanos (18%), britânicos (10%), alemães (6%) e franceses (6%). Mas a pousada recebeu ao longo dos anos turistas de mais de 45 nacionalidades e de todos os continentes (FIG. 16). Para atingir esses mercados especializados foi fundamental que profissionais externos com habilidades em marketing e idiomas fossem contratados. Resultado disso é que até hoje a promoção do destino, a atração de clientes e a venda de pacotes é totalmente dependente da contratação destes profissionais. O que deixa um gargalo no que tange à possibilidade de autogestão do turismo no futuro.
170 Quatro dentre as sete comunidades locais eram mais envolvidas com a atividade: Vila Alencar, Boca do Mamirauá, Caburini e Sítio São José.
FIGURA 16 – Nacionalidade (%) de turistas que visitaram a Pousada Uacari (1998-2011) Fonte: Programa de Turismo de Base Comunitária/IDSM.
O produto turístico oferecido reunia uma série de características como a abundância de vida selvagem e a relativa facilidade de observação dessa fauna, além do contato com pesquisadores e comunidades locais. Mas além do produto em si (hospedagem e passeios) o destino oferecia uma experiência amazônica, para muitos inesquecível. Nas avaliações feitas por turistas no Tripadvisor,171 a Pousada Uacari recebe destaque por ser considerada uma
“experiência autêntica de contato com a natureza”, para aqueles que desejam “conhecer a Amazônia verdadeira”. São viajantes que querem ter experiências de vida, não apenas conhecer lugares. Muitas dessas avaliações mencionam o destino como “an experience of a lifetime”:
A Pousada Uacari é um lugar realmente fantástico. Se você quiser conhecer a Amazônia genuína, ainda prístina e selvagem: visite o lugar. Simplesmente fantástico! A pousada está em um local remoto, longe da civilização, dando você a chance de ter uma experiência na natureza ainda muito pura.
Recomendo muito. [Holandês].
Muito consistentes com sua proposta de turismo sustentável. Uma maravilha para os amantes da natureza e da ecologia. [Chileno].
171 Site em que viajantes fazem avaliações e comentários sobre destinos turísticos.
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Nacionalidade de Turistas da Pousada Uacari (%)
n = 6068