CAPÍTULO 1 – MANEJO PARTICIPATIVO: NOVA VISÃO DE NATUREZAS E SOCIEDADES?
1.4 Globalização, Modernização Reflexiva e a Sociedade de Risco
Para Giddens (1997) a modernidade em sua primeira fase atuou no sentido de destruir as estruturas da tradição,34 embora tenha havido interconexões entre as duas. O autor destaca as características da modernidade: a separação de tempo e espaço, ou o alongamento das relações sociais; os mecanismos de desencaixe – sistemas abstratos que separam as interações do lugar; e reflexividade institucional, a maneira como o conhecimento é utilizado para organizar e transformar a vida social. Mas a globalização nessa segunda fase tem um caráter dialético, onde “eventos em um pólo de uma relação muitas vezes produzem resultados divergentes ou mesmo contrários em outro” (GIDDENS, 2002, p. 27).
Entretanto, em sua segunda fase, a modernização pode ser caracterizada como um processo de oposição a si mesma (de sua versão anterior) ameaçando as próprias instituições que criou, como o Estado, os partidos, a família nuclear etc. Para o autor, isso acontece principalmente devido ao processo de globalização. Enquanto a tradição controlava o espaço por meio do controle do tempo, a globalização é ação à distância, onde a ausência predomina sobre a presença, graças à reestruturação do espaço.
Giddens afirma que a primeira fase de globalização dirigida à expansão das instituições que tiveram origem no Ocidente está sendo ultrapassada. A desincorporação mediante sistemas abstratos é descentralizada, pois corta a conexão orgânica com o lugar de onde a tradição dependia. Embora ainda dominada pelo poder ocidental a globalização não pode mais ser qualificada como uma questão de imperialismo unilateral, já que o processo é dialético. A fase atual de globalização não deve ser confundida com a fase precedente, em cujas estruturas atua no sentido de cada vez mais subverter (GIDDENS, 1997, p. 119). Sendo a sociedade global uma sociedade de espaço indefinido (não mundial), os elos sociais têm de ser feitos e não herdados do passado.
34 A tradição pode ser definida como o conteúdo normativo articulado através do trabalho contínuo de interpretação feito por guardiães (xamãs, patriarcas locais) que pretendem identificar laços que ligam o presente ao passado (GIDDENS, 1997). O autor argumenta que a colaboração entre a modernidade e tradição tenha sido crucial à sua primeira fase: “o Estado moderno continuou a extrair as fontes tradicionais de legitimação – como o direito divino do soberano e da sua família de governar. Meios de controle centralizados, de ‘cima para baixo’” (GIDDENS, 1997, p. 115).
A globalização pode ser assim definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar numa direção anversa às relações muito distanciadas que os modelam […] Ao mesmo tempo em que relações sociais se tornam lateralmente esticadas e como parte do mesmo processo, vemos o fortalecimento de pressões para autonomia local e identidade cultural regional. (GIDDENS, 1991, p. 69).
As instituições predominantes da condição moderna (capitalismo industrial, democracia, ciência e tecnologia, individualismo) também geraram a globalização, a crise ecológica e a sociedade de risco (GIDDENS, 1997; BECK, 1997). Essa segunda fase da modernização – a alta modernidade ou a modernidade reflexiva (GIDDENS, 1990) – tem novas formas e cria o individualismo repaginado e um capitalismo verde com tecnologias sustentáveis e consumidores ecológicos.
Para Lash et al. (1996), a própria maneira na qual a temática ambiental veio à tona – de forma autoritária, positivista, tecnológica, epistemologicamente realista, ou seja, escondendo dimensões culturais e sociais da crise ambiental – já demonstra suas raízes na ontologia ocidental que separa a sociedade da natureza fazendo da última o objeto, ao mesmo tempo, fonte de recursos e descarga de rejeitos. Nota-se também que o reconhecimento de uma crise do ambiente prescreve soluções baseadas nas mesmas estruturas institucionais: o mercado, a ciência, a tecnocracia e a democracia representativa.
Scott Lash et al. (1996) identificam uma mudança na política ambiental nos anos 1980 para uma preocupação maior com problemas globais. Compromissos globais vistos como prioritários e o discurso ambientalista se modifica com a institucionalização de uma ideia de desenvolvimento sustentável (WCED, 1987): onde sistemas tecnológicos e econômicos em eterna expansão são vistos como compatíveis com a sustentabilidade ambiental. A natureza torna-se parte da agenda das empresas, dos governos e das instituições multilaterais. Para esses autores, a transformação do discurso de ameaças ambientais para desenvolvimento sustentável prometia superar a oposição entre natureza e cultura, pois envolvia conceitos de equidade global, justiça, direitos humanos que seriam aspectos intrínsecos do problema ambiental. A representação dos problemas ambientais em
termos monetários (como a valoração econômica dos serviços ambientais, por exemplo) intensificou ainda mais a dominação desse paradigma tecnicista nas ciências sociais.
Ulrich Beck caracteriza essa nova condição moderna como uma transformação das nações ocidentais de uma sociedade industrial ou de classes, cuja principal questão é a distribuição da riqueza socialmente produzida (minimizando efeitos negativos como a desigualdade), para outra sociedade de risco,35 onde os riscos produzidos devem ser prevenidos ou mitigados. Na sociedade de risco conflitos em relação à distribuição dos bens (renda, empregos) são encobertos pelos conflitos na distribuição de males (poluição, riscos à saúde, degradação ambiental). Enquanto esses desenvolvimentos forem vistos sob a ótica conceitual da sociedade industrial, e, portanto, como efeitos negativos de ação aparentemente responsável e calculável, seus efeitos de destruição permanecerão irreconhecíveis (BECK, 1997).
Para Ulrich Beck (1997) a principal questão que enfrentamos atualmente é se a simbiose histórica entre o capitalismo e a democracia (ocidental) pode ser generalizada em uma escala global, sem consumir suas bases físicas, culturais e sociais. Para o autor, a sociedade de risco surge na continuidade dos processos de modernização, onde as certezas da sociedade industrial dominam (consenso no progresso e abstração dos efeitos e dos riscos ecológicos), mas são os efeitos e as ameaças que surgem da modernidade que acabam questionando e destruindo as suas bases. Por fim, a expansão e a intensificação da intenção do controle terminam produzindo o oposto – a imprevisibilidade e o risco (BECK, 1997).36 A modernização acaba se tornando autônoma e em virtude do seu dinamismo, a sociedade moderna acaba com suas formações de classe, com suas camadas sociais, ocupações, com os papéis dos sexos, com a família nuclear, com a agricultura, com os setores empresariais e com formas de progresso técnico e econômico. Esse novo estágio é o da modernização reflexiva que implica em uma radicalização da modernidade, mas com uma ordem política e econômica intacta. A modernização reflexiva para Beck (1997) não se trata da possibilidade dos agentes de adquirirem capacidade de reflexão sobre sua existência e, assim, modificá-las. Refere-se ao fato de que quanto mais avança a modernização das sociedades modernas,
35 Beck define risco como uma maneira sistemática de lidar com perigos e incertezas introduzidas pela própria modernização. Ou seja, para este autor os perigos são reais, enquanto os riscos são construídos socialmente.
36 O que por sua vez produziria um conflito sobre as bases da racionalidade.
mais ficam dissolvidas, consumidas, modificadas e ameaçadas as bases da sociedade industrial – o que pode ocorrer sem reflexão, ultrapassando o conhecimento e a consciência.
Embora os iniciadores da modernidade procurassem certezas para substituir os dogmas preestabelecidos, a modernidade efetivamente envolve institucionalização da dúvida (GIDDENS, 1991). Na sociedade de risco há o retorno da incerteza, ou seja, a vida é marcada por contingência e imprevisibilidade criadas, por sua vez, pelo próprio desenvolvimento do conhecimento humano (GIDDENS, 1997). Além disso, a ação na sociedade de risco não pode reivindicar solução definitiva: “viver e agir na incerteza torna-se uma espécie de experiência básica”.
Em um sentido político e existencial, a questão fundamental que temos em mãos é:
será que a nova imprevisibilidade e desordem fabricadas podem ser resolvidas recorrendo-se às velhas instituições da sociedade industrial (mais tecnologia, mais mercado, mais governo)? (BECK, 1997). Em um primeiro momento as consequências são vistas como riscos residuais (externalidades) e a sociedade ainda toma decisões e ações segundo o padrão da velha sociedade industrial. Mas isso não deve resolver os problemas da sociedade industrial.
Segundo Beck (1997), as formas e medidas organizacionais, os princípios éticos e legais (como responsabilidade, culpa, princípio de punir o poluidor), assim como procedimentos de decisão política (como o princípio da maioria), não são adequados para compreender ou legitimar esse retorno da incerteza e da falta de controle.
O autor indaga por que
a combinação de arte e ciência, tecnologia e ecologia, economia e política, resultando em algo diferente, alguma terceira entidade está fora de questão? Por que a própria ciência, que muda tudo, deve ser concebida e conduzida como imutável? É possível uma autoabertura do monopólio da verdade na ciência? (BECK, 1997, p. 38, grifos nossos).
Beck afirma que há muitos caminhos para muitas modernidades possíveis: essa é a réplica da modernização reflexiva. Um dos caminhos é através do que ele chama de subpolítica – agentes externos ao sistema político e corporativo que aparecem no cenário do planejamento social “moldando a sociedade de baixo para cima”.
Um dos exemplos é a subrrevolução feminista que modifica o lado inferior sensível da sociedade industrial – a esfera privada. Outro exemplo é o surgimento dos movimentos ecológicos nos anos 1980:
O fenômeno social mais assombroso e surpreendente da década de 1980 foi o inesperado renascimento de uma subjetividade política dentro e fora das instituições. Grupos de iniciativa do cidadão tomaram o poder politicamente. Foram eles que colocaram em debate a questão do mundo em perigo, contra a resistência dos partidos políticos. (BECK, 1997, p. 30).
Tudo isso seria parte de um processo de individualização – ou de desincorporação e reincorporação dos modos de vida da sociedade industrial por outros modos novos, em que os indivíduos devem produzir, além de representar e acomodar suas próprias biografias37 ou inventar novas certezas. Significa também novas interdependências desencaixadas do espaço. Por isso, para Beck, individualização e globalização são dois lados do mesmo processo de modernização reflexiva.
Beck acentua o papel da subpolítica na construção dos temas centrais da política.
Para ele, a política (ou o sistema político legislativo e executivo) está cada vez mais apolítica,38 enquanto o que era não político na sociedade industrial está se tornando político. Temas centrais da política (como a questão ambiental) não se originaram no mundo dos negócios, na ciência e no Estado, foram colocados na agenda social pelos movimentos sociais. Hoje fazem parte de um discurso universal:
A compulsão para se engajar na salvação ecológica e na renovação do mundo, torna-se universal. Ela une conservadores e socialistas e a indústria química a seus arquicríticos do Partido Verde. Pode-se quase temer que as indústrias químicas venham a continuar com suas propagandas de página inteira e se restabeleçam como uma associação conservacionista! (BECK, 1997, p. 30).
37 O autor dá como exemplo o fato de que tanto homem como mulher, mesmo dentro do casamento, devem operar e persistir como agente individual e planejador de sua própria biografia.
38 “De um tempo para cá, as inovações e decisões sobre o futuro não tiveram sua origem na classe política. Ao contrário, só quando uma ideia se torna banal ela passa para o âmbito da responsabilidade dos partidos e governos… Embora o Ministro dos Correios faça tudo que está ao seu alcance para destruir o serviço postal, as cartas continuam a chegar: a Alemanha pode se permitir ter um governo incompetente porque, afinal, as pessoas que nos entediam nas notícias cotidianas não tem mesmo muita importância” (BECK, 1997, p. 53). Essa interpretação certamente está muito centrada na realidade do sistema político europeu, onde as instituições do Estado estão mais consolidadas, menos suscetíveis às mudanças de governo, devido à existência de políticas de Estado. O que não pode ser dito, por exemplo, de países como o Brasil.
Em relação ao papel da ciência, Beck destaca que ainda reina nas instituições o modelo de racionalidade instrumental não ambígua. Mas na sociedade de risco é preciso romper a visão de que os especialistas sempre sabem o que é melhor para todos. Ou seja, deve-se “desmonopolizar a especialização”. Para Beck, a remoção da tecnologia de seus contextos de utilitarismo militar e econômico, sua desintegração funcional e seu estabelecimento como um subsistema autônomo seriam comparáveis à abolição da ordem feudal divinamente ordenada. Isso resultaria em uma nova divisão de poderes (geradores e consumidores de tecnologia), possibilitando o pluralismo da tecnologia e novas instituições para negociação e intermediação – codeterminação democrática – em que considerações econômicas ocupam plano menos importante (BECK, 1997, p. 41). Isso poderá ser conseguido quando se diminuir a importância do especialista no esclarecimento dos leigos e aumentar o papel do público em engajar-se na ciência, para que esta se torne mais democrática.