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2.2 Mãe-Terra, ecologia e modos de viver integrados com a natureza

2.2.3 Modos de viver integrados com a natureza

2.2.3.2 Ecovilas

Em 1998, as Ecovilas foram nomeadas oficialmente na lista da ONU como uma das 100 melhores práticas para o desenvolvimento sustentável, como modelos de vida sustentável20. No relatório de Robert Gilman “Ecovilas e Comunidades Sustentáveis” pela primeira vez uma Ecovila foi definida como “um assentamento de escala humana, multifuncional, no qual as atividades humanas são integradas sem danificação ao mundo natural, de forma a apoiar o desenvolvimento humano saudável, podendo continuar no futuro indefinido” (GILMAN,

1991, p. 10). Em 1995, na conferência “Ecovilas e Comunidades Sustentáveis - modelos de vida no Século XXI”, foi estabelecida a Rede Global de Ecovilas-GEN.

Beatriz Weber (2016) explica que o conceito de Ecovila, resgatado do termo örkdorf utilizado pelo movimento ativista alemão anti-nuclear na década de 1980, passou a ser difundido e utilizado a partir desse relatório de Robert Gilman, sob encomenda da organização Gaia Trust, em 1991. Salienta ainda que, no relatório, foi realizado um minucioso levantamento das principais comunidades intencionais de caráter ambientalista e sustentável em atividade. Conclui dizendo que quatro anos após a divulgação do relatório, o conceito seria melhor sistematizado e popularizado na conferencia que estabeleceu a rede de Ecovilas-GEN e foi realizada na comunidade Findhorn, localizada na Escócia, do qual participaram cerca de 400 pessoas provenientes de 40 países distintos. Este encontro marcaria oficialmente a criação da Rede (WEBER, 2016, P. 420-421).

Segundo Thomas Enlazador (2009), com o objetivo de criar e apresentar ao mundo exemplos do que significa viver em harmonia com a natureza de uma maneira sustentável, a rede GEN tenta promover o desenvolvimento de comunidades, sejam rurais ou urbanas, para a implementação de atividades que integrem o ser humano ao meio natural. Para o autor, a ideia é favorecer o envolvimento humano sustentável, perpetuando assim, por meio de gerações, uma nova cultura de ocupação humana-“ecologizada, de paz e solidária” (ENLAZADOR, 2009, p.182).

O autor também diz que, no Brasil, o conceito de comunidades alternativas ainda é muito usual e cita o ENCA - Encontro Nacional de Comunidades Alternativas, que acontece desde 1978. Cita também a ABRASCA-Associação Brasileira de Comunidades Alternativas, entidade sem fins lucrativos que atrai diversas pessoas em seus mais de trinta anos de estrada. Finaliza dizendo que o ENCA, que nasceu no auge do movimento de contracultura (conhecido como movimento Hippie) solidificou-se e tem a missão de cuidar de um encontro que hoje é referência mundial no meio, um espaço já tradicional para compartilhar experiências das comunidades.

De fato, no Brasil, há uma diversidade de comunidades, sendo que algumas se denominam Ecovilas, outras comunidades alternativas, tradicionais, ancestrais, dentre outros nomes. O ENCA é um marco de encontro, reunindo moradores de diversas comunidades, assim como pessoas que se interessam pelo tema e por uma vivencia voltada à natureza e ao aprendizado

de tecnologias sociais sustentáveis, como: captação de água da chuva, aquecedores solares, bio-construção, permacultura, etc. O ENCA é um encontro de diversas tribos, das aguas, florestas, cidades, etc. Tem a presença do movimento indígena, do movimento dos adeptos da Ayuasca em suas diferentes linhas, do movimento Hare Krishna, e diversos outros.

Iniciado em 1978, cada ENCA trouxe diversos aprendizados e formou muitas parcerias e redes pelo Brasil e mundo. Um dos marcos foi o IX ENCA: o primeiro pós ditadura militar, sendo o que reuniu mais pessoas até então e contou com o marco histórico da fundação do Partido Verde. O IX ENCA aconteceu na comunidade Hare Krishna chamada Nova Gokula, localizada em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Neste mesmo ano, Carlos A. P. Tavares publicou o livro “O que são comunidades alternativas”, uma das obras pioneiras sobre o assunto. Nele, o autor afirma a existência de centenas de comunidades no Brasil (Tavares, 1985, p. 63).

Segundo reportagens da época, o IX ENCA, em julho de 1985, foi o maior evento no gênero já realizado no Brasil até os anos oitenta. Jamais tanta gente, com cabeças tão diferentes, conseguira se reunir para discutir a identidade de um movimento cuja característica mais evidente sempre foi à multiplicidade de caminhos21.

Voltando ao aspecto das definições entre os termos Ecovilas, Comunidades alternativas, etc. Elazador (2009) diz que a complexidade para definirmos um modelo de Ecovilas brasileiro deve-se, entre tantos motivos, à diversidade sociocultural e as distintas formas de se pensar a criação e gestão dos espaços comuns. Acrescenta que esses espaços têm linhas distintas que passam pela espiritualidade, arte, permacultura, saúde, naturismo, agroecologia, etc. No brasil, as aldeias indígenas, o Movimento Sem Terra (MST), as comunidades alternativas remanescentes do movimento Hippie, aldeias quilombolas e as comunidades tradicionais são espelho e têm importante papel na construção de um modelo de Ecovilas brasileiro (ENLAZADOR, 2009, p.183)

Outro aspecto destacado por Enlazador é que as Ecovilas surgem de acordo com as características de suas próprias bio-regiões e englobam, tipicamente, quatro dimensões: a social, a ecológica, a cultural e a espiritual, combinadas em uma perspectiva que estimula o

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Disponível em: http://www.aldeiaplanetaria.com.br/jornal-outra/comunidades-alternativas/alternativos-na- nova-republica

desenvolvimento comunitário e pessoal. Diz ainda que o conceito de ecovilas oferece um único modelo, embora com múltiplas manifestações locais. No núcleo está a celebração da diversidade cultural, espiritual e ecológica e o impulso para se recriar comunidades humanas em que as pessoas possam redescobrir as relações saudáveis e sustentáveis consigo mesmas, com a sociedade e a Terra. Conclui dizendo que o modelo de Ecovila tem proposto soluções viáveis para erradicação da pobreza e da degradação do meio ambiente e combina um contexto de apoio sociocultural com um estilo de vida de baixo impacto. Assim, cita algumas práticas presentes nas Ecovilas:

Produção local e orgânica de alimentos; utilização de sistemas de energias renováveis; Utilização de material de baixo impacto ambiental nas construções (Bioconstrução ou arquitetura sustentável); criação de esquemas de apoio social e familiar; diversidade cultural e espiritual; governança circular e empoderamento mútuo, incluindo experiência com novos processos de tomada de decisão e consenso; economia solidária, cooperativismo e rede de trocas; educação transdisciplinar e holística; sistema de saúde integral e preventivo; preservação e manejo de ecossistemas locais; comunicação e ativismo global e local (ENLAZADOR, 2009, p.185).

Assim, percebemos que as Ecovilas são modelos de assentamento humano sustentável. Podem ser comunidades urbanas ou rurais de pessoas que tem a intenção de integrar uma vida social harmônica a um estilo de vida sustentável. Para alcançar este objetivo, as Ecovilas incluem em sua organização muitas práticas como as apresentadas acima e diversas outras. Neste contexto, as Ecovilas surgem como modelos alternativos ao padrão insustentável das sociedades modernas, incorporando conhecimentos antigos, milenares e ancestrais à conhecimentos atuais.

Outro aspecto interessante é o destacado por Weber (2016), que diz que uma das principais estratégias de divulgação e reprodução do movimento de Ecovilas tem sido a educação. Em 2005, a mesma corporação Gaia, citada anteriormente, lançou oficialmente o programa Gaia Education - Ecovillage Design Education, o qual aborda quatro dimensões: social, ecológica, econômica e visão de mundo (WEBER, 2016, p.421).

Dentro da questão educativa, Isabel Carvalho (2008), apresenta a ideia do “cultivo de si” e, como a autora afirma, fazendo “certa analogia” com os conceitos de cuidado de si, ou de tecnologias de si, de Foucault. Outro aspecto apresentado pela autora é o de práticas autoeducativas. Diz que não é difícil constatar a crescente aceitação de uma ideia holística de saúde, relacionada ao exercício físico, mental e espiritual entre grupos e indivíduos ecologicamente orientados. A busca por essa vida saudável tem se tornado constitutivo de

várias práticas ecológicas, tais como caminhadas, montanhismo, trilhas, turismo ecológico, assim como de práticas religiosas de peregrinações, vivências, meditações, rituais xamânicos, etc. Acrescenta que também se torna frequente para um conjunto de práticas de espiritualidade a evocação de uma ascese ecológica, no sentido da internalização de sentimentos e procedimentos ecológicos que passam a ser vistos, nesse contexto, como mediação religiosa na busca do sagrado (CARVALHO, 2008, p.289).

Explicando um pouco mais o conceito do cultivo de si, a autora salienta sobre uma experiência do sagrado, no sentido de que a reconexão com a natureza passa a fazer parte de um sistema de crenças ecológicas. Diz que a convergência entre estes dois universos de práticas parece indicar horizontes imaginativos comuns entre ecologia e espiritualidade, o que ela vai chamar de práticas de cultivo de si, como caminho para a saúde e o bem estar físico, mental e espiritual:

A ideia de cultivo será tomada aqui em duas acepções que procuraremos considerar de forma articulada: uma que remete ao sujeito (self) e a outra ao ambiente. Quando referida ao sujeito (self), o cultivo de si incorpora um conjunto de práticas auto- educativas que vamos identificar como uma forma de ascese no mundo, que visa o aperfeiçoamento pessoal por meio do cuidado do corpo e da alma1. Assim, enquanto o cuidado do corpo supõe um aprendizado sobre alimentação saudável, exercício físico, uso de medicinas alternativas, o cuidado da alma compreende igualmente um domínio de saberes relativos a novas formas de espiritualidades, terapias alternativas, meditação, dentre outras (CARVALHO, 2008, p.290).

A autora conclui dizendo que o cultivo do ambiente, por sua vez, refere-se fundamentalmente à preocupação ecológica com a sustentabilidade da natureza, a educação ambiental e a sobrevivência do planeta. Assim, argumenta que podem ser elencadas, neste campo de práticas, o “consumo ecológico, a reciclagem, a arquitetura agro-ecológica”, dentre outras (CARVALHO, 2008, p.290).

Neste contexto, no que se refere à práxis ecológica, segundo Enlazador (2009), o projeto de uma Ecovila adota desenhos da permacultura, o que envolve o designer, planejamento para a implantação e manutenção consciente de ecossistemas produtivos que tenham a diversidade, estabilidade e resistência dos ecossistemas naturais. Conclui dizendo que a permacultura resulta na integração harmoniosa entre as pessoas e a paisagem, o que prove alimentação, energia, habitação e outras necessidades, sejam materiais ou transcendentes.

Neste sentido, destacamos que essas práticas, fundamentadas nesses conceitos, trazem diversas alternativas ambientais em níveis macro e micro. A permacultura, assim como a agroecologia são bases fundantes das Ecovilas.

O conceito de permacultura foi criado na década de 1970 por dois australianos (Bill Mollison e David Holmgren). A permacultura é uma reunião dos conhecimentos de sociedades ancestrais e técnicas atuais, que proporcionam alternativas inovadoras ligadas à sustentabilidade. O objetivo é criar uma cultura permanente, baseada na cooperação e reciprocidade entre os seres humanos e a natureza. A agroecologia caminha na mesma direção e o uso contemporâneo do termo data também de 1970. Todavia, a ciência e a prática da agroecologia têm a idade da própria agricultura, fundamentadas em um estudo da agricultura indígena. Segundo Marsha Hanzi, a mensagem da permacultura é a seguinte:

Resgatar e amar um pedaço da Mãe-Terra é muito mais profundo do que simplesmente criar sistemas para manter vivo o nosso corpo físico: é o resgate profundo da relação do homem com a natureza, de substituir o tempo de relógio - nossa escravidão - por ritmos. Tempo de caju, tempo de manga. O levantar e pôr do sol. A lua minguando e crescendo... E percebemos que, de fato, precisamos de MUITO POUCO para sentir a felicidade; que a integração com a beleza natural é uma fonte de satisfação mais profunda e serena do que grandes conquistas no mundo urbano (HANZI, 2008, p.9).

A autora salienta que a permacultura é um sistema de design, com foco no uso sustentável da Terra e da vida. É a busca de uma integração harmoniosa entre as pessoas e a natureza e, por isso, trata de plantas, animais, pessoas, construções e infraestruturas de forma que tudo esteja conectado entre si. Argumenta que seria trabalhar com a natureza e não contra ela, entendendo que o ser humano é parte do sistema natural e não superior a ele.

Concordamos com Marsha Hanzi, pois acreditamos que amar a Mãe-Terra significa resgatar nossa perdida relação com a natureza, modificando nossa vida, filosofia e frequência temporal. Assim, substituir conceitos e valores voltados para o individualismo, a separação e o dinheiro por acolhimento, arte e harmonia com a natureza e suas forças. Acreditamos que o respeito pela sabedoria da natureza pode nos ensinar um novo meio de vida. Esse é um dos princípios da permacultura, dentro de um viés de observar a natureza e, assim, desenvolver técnicas que possam planejar a sustentabilidade de quintais, casas, sítios, fazendas, comunidades, ecovilas, bairros, assentamentos e qualquer outro local, seja na cidade ou no campo.

Nesta mesma perspectiva, abordando sobre agroecologia, Miguel Altieri (2004) explana que ela fornece os princípios ecológicos básicos para o estudo e tratamento de ecossistemas, produtivos, preservadores dos recursos naturais, culturalmente sensíveis, socialmente justos e economicamente viáveis. Reflete que a agroecologia fornece uma estrutura metodológica de trabalho para a compreensão mais profunda da natureza dos agroecossistemas e dos princípios segundo os quais funcionam. Trata-se de uma nova abordagem que integra os princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos à compreensão e avaliação do efeito das tecnologias sobre os sistemas agrícolas e a sociedade como um todo. A agroecologia utiliza os agroecossistemas como unidade de estudo, ultrapassando a visão unidimensional-genética, agrônoma, edafológica-e incluindo dimensões ecológicas, sociais e culturais. Argumenta ainda que, na agroecologia, a preservação e ampliação da biodiversidade dos agroecossistemas é o primeiro princípio utilizado para produzir auto-regulação e sustentabilidade (IBIDEM, p. 20-25). Contudo, Altieri destaca que:

Porém, restaurar a saúde ecológica não é o único objetivo da agroecologia. De fato, a sustentabilidade não é possível sem a preservação da diversidade cultural que nutre as agriculturas locais. O estudo da etnociência (o sistema de conhecimento de um grupo étnico local e naturalmente originado) tem revelado que o conhecimento das pessoas do local sobre o ambiente, a vegetação, os animais e solos pode ser bastante detalhado. O conhecimento camponês sobre os ecossistemas geralmente resulta em estratégias produtivas multidimensionais de uso da terra, que criam, dentro de certos limites ecológicos e técnicos, a auto-suficiência alimentar das comunidades em determinadas re giões (Toledo et al., 1985). Para os agroecologistas, vários aspectos dos sistemas tradicionais de conhecimento são particularmente relevantes, incluindo aí o conhecimento de práticas agrícolas e do ambiente físico, os sistemas taxonômicos populares e o emprego de tecnologias de baixo uso de insumos (ALTIERI, 2004, p.26).

De fato, pensar em sustentabilidade negligenciando os saberes tradicionais, a oralidade e o conhecimento passado de geração a geração entre camponeses, indígenas e povos das florestas é inviável. A ciência é marcada por sua arrogância e menosprezo por outras formas de conhecimento. A agroecologia quebra essa lógica e faz um diálogo horizontal com diversas formas de saber. Os sistemas agrícolas e as culturas de plantio tradicionais surgiram no decorrer de séculos de interação e trocas entre seres humanos e natureza e, assim, representam as experiências acumuladas de agricultores interagindo com o meio ambiente. Dessa forma, para que a agroecologia consiga alcançar um de seus objetivos de os camponeses se tonarem os arquitetos e atores de seu próprio desenvolvimento, ela deve sempre continuar aberta a aprender e a escutar esses sujeitos(as). Na verdade, pensamos que toda ciência deve partir desses princípios.

As discussões sobre ecologia, Ecovilas, permacultura e agroecologia trazem diversos pontos em comum, com os saberes indígenas e ancestrais sobre a Mãe-Terra. Esse esforço de pensar em novos processos de luta e de resistência, por meio de saberes que compreendem a natureza como ser vivo, demonstra uma vertente comprometida com a transformação social e com o respeito ao meio ambiente. Ao redor do mundo, temos presenciado experiências vivas protagonizadas por sujeitos(as) e grupos sociais que enfrentam as opressões do sistema vigente e constroem alternativas de mudança para um mundo mais equilibrado. Acreditamos que os saberes indígenas e ecológicos são fundamentais no estabelecimento desse equilíbrio, pois, após essas discussões, percebemos que a ecologia e as cosmovisões ancestrais têm a ver não apenas com o meio natural, mas com as formas de relações e percepções entre seres humanos e natureza.