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Edfor

No documento O automóvel (páginas 77-82)

IV. Automóveis Portugueses - O Início

IV.II. Edfor

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Herédia colocaria rodas duplas no eixo traseiro do seu automóvel29, passando a constar quatro pneus na traseira do seu veículo, em vez dos habituais dois.

Esta alteração, que hoje nos pode ser remetida para uma normal prática desportiva de utilizar rodas maiores e mais largas atrás, na época não existiria ainda, cabendo a tão mundialmente desconhecido português uma das grandes inovações do automobilismo (essencialmente) de competição que surgiriam nos mais competitivos modelos desportivos de todo o mundo somente depois da II Guerra Mundial.

Tal fator, deverá ser ainda mais enaltecido porque, mesmo na década de 50, quando surgiriam os denominados Fórmula 1 com pneus maiores atrás, seriam, então, simplesmente maiores, e não necessariamente mais largos. Tal prática, de aumentar a largura do pneu, e por conseguinte, a área de aderência ao solo, para um efeito de condução bem mais estável - que em termos práticos é sinónimo daquilo que Herédia conseguiu ao alinhar dois pneus em conjunto - surgiria com maior ênfase no topo do desporto automóvel mundial somente na década de 60, nada menos do que trinta anos após tão singular descoberta nacional.

78 O Automóvel: Design Made In Portugal

Fig. 47: Edfor, de 1937 Fig. 48: Eduardo Ferreirinha Fig. 49: Cartaz do Salão do Porto de 1939 com o Edfor na capa

É em tom de resposta a um artigo lançado na década de 30 pela revista O Volante, sobre a capacidade (ou falta dela) de Portugal produzir um veículo próprio31, que Eduardo Ferreirinha apresenta ao mundo, no Salão do Porto em Abril de 1937, a sua mais recente conquista no panorama automóvel nacional: o Edfor Grand Sport. Este automóvel, alimentado por um motor V8 de competição da Ford, começou por receber, por parte de Ferreirinha, uma drástica modificação no que à sua performance diz respeito: os pistões, que até então se mantinham inalterados, foram redesenhados e produzidos pela própria EFI32, numa tentativa de possibilitar uma melhor relação de rotações no V8, que passou a debitar uns interessantes 90cv, numa cilindrada de 3620cc. E se o motor do Eduardo Ford - Edfor, tinha sofrido tão vital alteração, o que dizer quanto ao resto do veículo?

IV.II.I. A surpresa do Design nacional

O Edfor apresenta-se no Salão de 1937 como um veículo que, mais do que ter um motor modificado, é, na realidade, um modelo que pretende marcar a diferença por toda uma carroçaria fabricada de raiz "em alumínio, montada num esqueleto também inteiramente fundido em liga de alumínio"33, algo que era, "nessa altura, um processo de construção inédito."34 Deste modo, a carroçaria do Edfor pesava somente 150kg, sendo que a sua tara não ultrapassava os 970kg. E desde logo, o cartaz que acompanhava o veículo, aquando da sua apresentação, revela-nos:

31 Ibid., p. 10.

32 Ibid., p. 10.

33 FÉRIA, Luís Palma - A história do sector automóvel em Portugal : 1895-1995. Lisboa : GEPE, 1999. p. 9.

34 RODRIGUES, José Barros - Automóveis Portugueses. Caramulo : Museu do Caramulo – Fundação Abel e João de Lacerda, 2010. p. 10.

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"Ao apresentarmos uma marca portuguesa de automóveis, tivemos principalmente em vista o início experimental duma indústria que tem de resto possibilidade de vir a montar-se no nosso país. Não tivemos a pretensão de fabricar completamente automóveis, nem isso era possível, dados os importantes e indispensáveis meios que para tal fim seriam necessários. Limitamo-nos, pois, em aproveitar órgãos de chassis novos, modificando-os e fabricando uma grande parte. Existem, de resto, diversas marcas europeias que fizeram o mesmo. Tivemos, porém, a preocupação de apresentar inovações e soluções de fabrico novas, sendo algumas mesmo inéditas."35

Com esta inovadora carroçaria de dois lugares, tipo torpedo, o Edfor mostrava ter, nas suas linhas, interessantes soluções de performance, acopladas com uma forte vertente estética, desde logo salientadas por três distintas hipóteses de saídas de ar, colocadas no primeiro protótipo na face lateral do veículo. Destas, apenas a saída superior foi utilizada na versão final, numa mostra de procura pela melhor eficiência de arrefecimento do potente motor.

Contando com uma "apurada aerodinâmica empírica"36, a carroçaria do Edfor mostrava-se bem trabalhada, com guarda lamas e uma traseira que em muito se baseiam na tipologia formal do streamlining americano, onde tais considerações são ainda verificadas no eixo frontal, com uma face arredondada envolvente do chassis, ou duas abas bastante aerodinâmicas que unem o torpedo aos guarda lamas traseiros. De facto, este Edfor em muito faz lembrar o Chevrolet Coupe ou o BMW 328 Roadster do mesmo ano, quer seja na formalidade do torpedo e dos guarda-lamas, quer seja pelas soluções de trancas e dobradiças inerentes ao capot e às portas. Contudo, o Edfor mostra ter, na sua aparência, uma menor brutalidade de formas, não parecendo ter o peso do Chevrolet, nem a agressividade do BMW.

Ao invés, o Edfor mostra-se um veículo muito elegante, sendo considerado "uma viatura espantosa [...] [e] citado na imprensa estrangeira."37

35 SILVA, João Lopes da ; RIBEIRO, Gustavo de Almeida - Automóveis antigos em Portugal. Lisboa : INAPA, 1990. p. 89.

36 RODRIGUES, José Barros - Automóveis Portugueses. Caramulo : Museu do Caramulo – Fundação Abel e João de Lacerda, 2010. p. 10.

37 Ibid., p. 11.

Figs. 50, 51 e 52: Edfor Grand Sport, de 1937

80 O Automóvel: Design Made In Portugal Fig. 53: Manuel de Oliveira em

competição no seu Ford Especial modificado por Ferreirinha

Mas este veículo português, que tão grande destaque e respeito mereceu no Salão do Porto de 1937, contava ainda com duas soluções que ao Design tanto dizem respeito. É que "esta inovadora máquina desportiva, [...] possuía um mecanismo de suspensão controlável pelo próprio condutor, e utilizava vários componentes adquiridos a outros fabricantes estrangeiros, antecipando em várias dezenas de anos o moderno conceito de plataforma38"39, passando ainda pelos raros (na época) tambores em alumínio com alhetas, ou relações de desmultiplicação no volante, para marcha normal e/ou manobras.40

Este automóvel, pilotado e filmado pelo hoje reconhecido cineasta Manoel de Oliveira, recebeu, a par da EFI de Eduardo Ferreirinha, uma curta-metragem de onze minutos intitulada Já se Fabricam Automóveis em Portugal, produzida no ano seguinte ao do lançamento do Edfor. De facto, Manuel de Oliveira tem um papel preponderante na divulgação do Edfor, uma que vez que foi ele que, em 1936, se juntou ao projeto de Ferreirinha e Manuel Menéres, com o seu Ford Especial Menéres & Ferreirinha41, que iria pilotar durante vários anos, naquele que foi o primeiro ensaio do Edfor, com uma carroçaria bem menos estética e mais aerodinâmica - repleta de entradas de ar - que aquela apresentada por Ferreirinha no Salão de 1937.

Embora a elegância deste modelo português, aclamado pela crítica como um dos mais belos da Europa, na sua época, tenho sido transmitida para as pistas do nosso país não por muitos anos seguidos, mas arrancando pelo meio alguns bons resultados, nomeadamente na Rampa do Gradil em 1938, com Manoel de Oliveira ao Volante42, certo é que até 1952 existem registos de circular, em competição, um Edfor pelas estradas de Portugal.

38 Por plataforma, na gíria automobilística, entende-se um conjunto de componentes que podem ser partilhados e assemblados diferentes modelos de automóveis, por vezes até em diferentes marcas. FÉRIA, Luís Palma - A história do sector automóvel em Portugal : 1895-1995. Lisboa : GEPE, 1999. p. 9.

39 Ibid., p. 9.

40 RODRIGUES, José Barros - Automóveis Portugueses. Caramulo : Museu do Caramulo – Fundação Abel e João de Lacerda, 2010. p. 11.

41 Idem - Manoel de Oliveira : Piloto de Automóveis. Casal de Cambra : Caleidoscópio, 2008. p. 29.

42 Ibid., pp. 39-42.

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IV.II.II. Aproximação à Produção em Série

As intenções de Eduardo Ferreirinha eram simples no que ao Edfor diziam respeito: criar um veículo elegante, rápido, e que pudesse ser produzido em pequenas séries, direcionado para um mercado que cada vez mais valorizava a elegância, o estatuto formal, a afirmação do veículo. Ferreirinha conseguiu realmente criar um belo exemplar na sua época, que ainda hoje recebe os mais variados elogios por parte da crítica europeia, sendo, possivelmente, o veículo clássico português que maior fama e referência constitui entre os entusiastas do automobilismo.

Contudo este veloz automóvel, que à época debitava já uns excelentes 160km/h, acabou por sofrer do mesmo mal cronológico que o ATA, vinte e três anos antes. A guerra, neste caso a II Guerra Mundial, veio acabar com as hipóteses de uma produção em série que tinha inclusive já começado. Antes dos confrontos obrigarem ao abandono do projeto, Eduardo Ferreirinha ainda conseguiu concluir quatro43 dos seus Edfor, sem que nenhum outro fosse acabado ou sequer retomado posteriormente. Uma vez mais, um infortúnio mundial acaba com as esperanças portuguesas de produção de um automóvel nacional, com mais um projeto que é obrigado a acabar logo após o seu começo. Após tão boas perspetivas de produção, com uma importante crítica positiva ganha nos meios de comunicação internacionais, o Edfor tinha tudo para se tornar um clássico do Design Automóvel europeu. E embora pese a sua quase inexistência, não perde o mérito de ser, este, verdadeiramente, um exemplo de sucesso e triunfo do automóvel nacional, e um marco histórico para o Design Automóvel em Portugal.

Fica então a questão: sem confrontos, sem conflitos mundialmente conhecidos, até onde teria ido o potencial deste Edfor, a última das criações nacionais até à década de 50?

43 Idem - Automóveis Portugueses. Caramulo : Museu do Caramulo – Fundação Abel e João de Lacerda, 2010.

p. 11.

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No documento O automóvel (páginas 77-82)