‘PORTRAITS” DE ALGUNS DEPOENTES DO QUILOMBO MUMBUCA
A EDUCAÇÃO NO QUILOMBO MUMBUCA
3.2 A EDUCAÇÃO DO NEGRO NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO
As possibilidades que escravos e forros dispunham para serem alfabetizados num contexto de limitação educacional como os do período colonial e imperial, não são contempladas por estudiosos da época no campo da História da Educação. O que se sabe é que os Jesuítas poderiam ter alfabetizado os negros, em diferentes regiões do Brasil. TOBIAS (1972) relata que o negro não tinha direito à educação jesuítica e Werebe (1997) diz que era possível a educação profissional para os negros, mestiços e índios por parte dos jesuítas, mas não esclarece se estes estavam presentes nos colégios da ordem religiosa ou como isso se dava.
Assim, se era possível a educação profissional dos negros pelos jesuítas, o que se pode levantar como hipótese é que os muitos grupos negros podem, quando em área de influência jesuítica, terem tido acesso à educação ou pelo menos parte de seus membros. Um livro do bispo jesuíta Dom João Evangelista Martins Terra, chamado o Negro e a Igreja (1988), fornece parte da resposta frente à crítica de que os jesuítas nada fizeram para defender os negros da escravidão e que reforçaram a servidão. Terra (1988) refuta as principais teses contra os jesuítas, apresentando provas contundentes de que os jesuítas alfabetizaram negros tal como o fizeram com os índios. Uma carta de Pe. Vieira é resgatado pelo autor, evidenciando a preocupação deste para com a situação dos negros, que eram em maior número que os índios.
“Ao deixar seu cargo de Visitador em 1691, Vieira já reconhecia que se devia
dar maior atenção aos negros no Brasil que aos índios pois o número daqueles era muito maior. Numa carta escrita da Bahia a 1º de junho de 1691, Vieira afirma que “sendo muito maior sem comparação o número de negros que os dos
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CARDOSO (2004) no texto intitulado As aulas Régias no Brasil faz um aprofundamento sobre as aulas régias, suas potencialidades e defeitos. p. 179-191.
índios, assim como os índios são catequizados nas suas próprias línguas, assim os negros o são na sua (...) por isso tantas são as escolas das mesmas línguas que temos instituído nesta Província, quantas a variedade delas, das quais não podem passar a outros estudos os nossos religiosos moços sem primeiro serem examinados e aprovados” nessas línguas. (cartas de Vieira, III 604-606). Nessa mesma carta Vieira insiste na necessidade do aldeamento permanente e fixo para que o grande número de negros possa ser catequizado” (p.95).
Terra (1998) dá nomes às várias fazendas ou aldeamentos de negros e de índios na qual os negros eram instruídos. Cita que os jesuítas portugueses foram talvez os pioneiros na educação dos africanos em África, assim como o foram também no Brasil. Os missionários jesuítas, principalmente africanos, tentavam reorganizar nas grandes fazendas um sistema social baseado em parte na vida comunitária das aldeias africanas, mas havia também escolas para a alfabetização das crianças e oficinas de especialização profissional diversificadas para os jovens. O autor fala que a experiência de aldeamentos dos escravos negros em grandes fazendas era para facilitar-lhes a formação profissional e que esta ficou abortada com a expulsão dos jesuítas em 1759.
Os jesuítas acreditavam que para os negros se tornarem civilizados e católicos era necessário o ensino e a instrução da lei e da doutrina. Instrução era associada à educação moral. Educar para conter os impulsos dos gentios, educar para o trabalho, educar para o bem e para o útil como convinha no período colonial, a uma compreensão de mundo de caráter mais centrado na aculturação dos gentios e também dos negros.
Outro jesuíta, Serafim Leite (1938), pesquisou durante 40 anos a vida dos jesuítas no Brasil, consultando os arquivos do Antigo e do Novo Mundo, verificando todos os manuscritos e fontes históricas que continham qualquer informação sobre os jesuítas no Brasil. Também ele irá demonstrar que a Igreja foi a única instituição do período colonial que alfabetizou os negros.
Serafim Leite diz:
“Os escravos negros não eram livres para buscarem a instrução média e
superior, nem os senhores os compravam para os mandar aos estudos e fazer deles bacharéis ou sacerdotes. A instrução ou educação, que lhes permitiam, essa, e mais do que essa, lhes ensinava a Igreja, a única educadora do Brasil até ao fim do século XVIII, representada por todas as organizações religiosas do Clero Secular e do Clero Regular que possuíam casas no Brasil” (1938, p.200).
A Igreja alfabetizava os negros e esta não era só realizada pelos jesuítas, mas também por outros segmentos da Igreja Católica, tais como os franciscanos e membros do clero secular.
Muitas críticas são conhecidas sobre a intenção e a pedagogia dos jesuítas, mas apesar disto, alguns negros souberam aproveitar e utilizaram a instrução em benefício próprio, como mostra o caso relatado na carta escrita por uma escrava chamada Esperança Garcia, do Piauí, publicada por Mott (85)39 e escrita em 06/09/1770. Esperança Garcia era uma escrava pertencente a uma das fazendas reais que foram incorporadas à Coroa quando da expulsão dos padres jesuítas. Nesta carta ela reclama ao governador do Piauí que o Capitão Antônio Vieira de Couto a retira de sua fazenda original e a faz cozinheira em outro local. Ela pediu para não se separar de sua família e batizar sua filha.
É interessante imaginar o efeito de uma carta escrita por uma mulher escrava, letrada e que se dirige ao Governador do Estado do Piauí. Não se sabe a resposta dada, mas esta carta nos leva a pensar que a alfabetização do negro, fato tão pouco conhecido, proporcionou a esta escrava a possibilidade de fazer tal reivindicação, como deve ter proporcionado a muitos outros reivindicar direitos, denunciar e registrar fatos, dirigir-se à autoridade, sem que a história e, em particular a história da educação, tenha foto, registros e análises sistemáticas desses fatos.
Pelo teor da correspondência, a escrava Esperança Garcia demonstra o efeito da catequese desta ordem religiosa sobre sua vida. A preocupação dela era estar com a família e batizar sua filha. A instrução com forte componente religioso, pode assim, ter construído caminhos diversos para diferentes sujeitos e diversos grupos negros esquecidos pela história oficial da colônia e do império, com conseqüência na visibilidade de negros alfabetizados e dos grupos dos quais faziam parte, mas também, resultando em invisibilidade para historiadores e analistas do período.
É assim que a afirmação dos religiosos jesuítas que só a Igreja Católica alfabetizou os negros no período colonial, merece um contraponto com outro autor, Gonçalves (2000), afirma que, embora os historiadores tenham assinalado as preocupações da Igreja Católica em catequizar os negros no Brasil, que inclui batismo, catequese e outros sacramentos, não há registros de uma ação educativa que os iniciasse na árdua tarefa da leitura dos evangelhos. A palavra escrita lhes
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era inacessível, afirma ele. E questiona, se a escrita era inacessível, como eram doutrinados? Diz o autor:
“No catolicismo imposto às classes populares “a figura do Cristo Revelado no
Novo Testamento é praticamente desconhecida.” 40 São os ‘santos’ que estão na base do catolicismo popular. Assim, a catequese dos africanos no Brasil não se fez acompanhar de um processo que pressupusesse, antes de mais nada, a aquisição da leitura. Na realidade, não se buscava decifrar no Novo Testamento as mensagens do Cristo Revelado; o catolicismo dos negros, no período colonial, foi estruturado a partir de suas devoções aos santos e à Virgem Maria.” (GONÇALVES, 2000, p.331)
O que se pode dizer é que a evangelização daquela época não era baseada no ensino do Novo Testamento e sim na doutrina e no culto dos Santos e à Virgem Maria. Porque o povo não tinha acesso à Bíblia e sim a poucos livros que ensinavam a doutrina e a catequese. A discussão proposta por Gonçalves mostra que a Igreja não alfabetizou os negros para serem doutrinados e que a catequese não os emancipou para a liberdade. Como afirma Gonçalves (apud Valente, 1994. p.329), “ela não foi uma religião da liberdade. Ao contrário, ela legitimou prática e teoricamente o sistema colonial, aplicando castigos “aceitos na época como princípio moral da formação do trabalhador” e ameaçando os escravos fujões com a excomunhão”
Nesse contexto, a história geral e particular do grupo negro da Mumbuca se coloca como várias possibilidades e hipóteses. Ainda que alfabetizado por alguém da Igreja Católica, a pergunta permanece: como José Cláudio foi alfabetizado e qual o contexto desta alfabetização? Esta pergunta se confronta com a impossibilidade da história da educação de oferecer subsídios que expliquem o contexto da educação na transição entre o período colonial e imperial no Brasil.
Reis (2005) afirma que fez um balanço bibliográfico no campo da História da Educação e, concordando com outros autores, percebe uma grande lacuna com respeito à história da educação do negro no Brasil.
Os fragmentos de registros, como a carta da escrava citada por Mott e outros exemplos de negros que eram alfabetizados, permitem constatar duas evidências: 1ª) é mais fácil encontrar na literatura exemplo de negros alfabetizados e escolarizados a partir da segunda metade do século XIX, por se tratar de uma época de transição para a abolição, pois fazia parte da prática dos abolicionistas alfabetizarem os negros para que estes contribuíssem com o movimento
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OLIVEIRA, P.R. “Catolicismo popular como base religiosa”. In: CAMAGO, C.P.F. (org.) Católicos, protestantes e espíritas. Petrópolis:Vozes, 1973, p.7.
abolicionista. Outra possibilidade era que o governo teve que promover políticas para assistir as crianças que se tornaram livres após a Lei do Ventre Livre41 e, por último, período em que a economia estava se ajustando à modernização do país com a exigência de profissionalização da mão-de-obra; 2ª) a educação dos negros na primeira metade do século XIX não era prerrogativa da escola. As iniciativas eram privadas, por isso a escassez de registros desta época, como afirmam Fonseca (2002) e Karash (2000). Este último exemplifica o caso do Rio de Janeiro e cita o censo de 1834 (tabela abaixo), que mostra quão poucas pessoas de cor eram estudantes. Embora não identifique o nível educacional, ele registra o número de adultos livres do sexo masculino e estudantes menores, não registrando estudantes do sexo feminino.