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RECONQUISTA DA TERRA: A LUTA DO PRESENTE

“PORTRAITS” DE ALGUNS DEPOENTES DO QUILOMBO MUMBUCA

Sentinela 14 Milton Nascimento

2.3 RECONQUISTA DA TERRA: A LUTA DO PRESENTE

Atualmente, os moradores do quilombo se encontram envolvidos no processo de reconquista do território original adquirido pelo fundador José Cláudio, através do Artigo 68, da Constituição Federal de 1988.

Esta é chamada de Constituição cidadã, porque foi produto de uma demorada luta pela redemocratização do país, o seu texto revela a disposição da lei em atender às reivindicações de diferentes grupos de interesse. Um dos grupos contemplados foi o dos remanescentes de quilombo, que foram reconhecidos como integrantes do patrimônio cultural brasileiro. Nesta constituição, patrimônio cultural se refere tanto aos bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, incluindo-se as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver nos termos comandados pelos artigos 215 e 216, o qual no parágrafo 5º, do inciso V, determina:

“Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos quilombos.”

Este novo conceito de patrimônio cultural, segundo Silva e Anjos (2004), além de valorizar a diversidade étnica na formação da nacionalidade, supera a noção, derivada da

legislação anterior, de preservação voltada apenas a bens e monumentos representativos do passado, ampliando-se a regra de proteção para alcançar os elementos vivos e imateriais, em uma concepção dinâmica e abrangente dos diversos processos culturais gerados pela sociedade brasileira.

Nessa mesma direção, atendendo às reivindicações do movimento negro, no sentido de proteger os direitos das comunidades negras, o Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias consagra que:

“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir- lhes os títulos respectivos. “

Dessa forma, a Constituição Federal reconhece e assegura a propriedade definitiva aos quilombolas, além de competir ao Estado à emissão dos títulos da terra. Cabe à Fundação Cultural Palmares a finalidade de promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira, ou seja, a implementação do Artigo 68 da Constituição.

Leite (2000) esclarece que, após a implantação desta lei, inaugura-se uma nova pauta na política nacional: afrodescendentes, partidos políticos, cientistas e militantes são chamados a definir o que vem a ser o quilombo e quem são os quilombolas. Para os quilombolas, o termo quilombo significa um direito a ser reconhecido e não propriamente e apenas um passado a ser rememorado.

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) foi convocada pelo Ministério Público para elaborar um novo conceito de remanescente de quilombo, porque até então prevalecia a versão do significado do Quilombo de Palmares, como unidade guerreira construída a partir de um suposto isolamento e auto-suficienência. Parecia difícil compreender uma demanda por

regularização fundiária a partir de tal conceito. O documento elaborada pela ABA, completa Leite (2000),

“...posiciona-se criticamente em relação à uma visão estática do quilombo,

evidenciando seu aspecto contemporâneo, organizacional, relacional e dinâmico, bem como a variabilidade das experiências capazes de serem amplamente abarcadas pela ressemantização do quilombo na atualidade Ou seja, mais do que uma realidade inequívoca, o quilombo deveria ser pensado como um conceito que abarca uma experiência historicamente situada na formação social brasileira” (p.4).

No texto constitucional, é a comunidade o sujeito da oração, pois dela derivam os remanescentes, denominados posteriormente de quilombolas. A autora diz que a leitura que faz do Artigo 68 não deixa dúvida quanto ao fato de que é o grupo, e não o indivíduo, que norteia a identificação destes sujeitos do referido direito. O que será considerado é o modo de vida coletivo, não é a terra, portanto, o elemento exclusivo que identificaria os sujeitos do direito, mas sim sua condição de membro do grupo. Seguindo essa linha de raciocínio, o que é mais recorrente no significado de quilombo é a idéia de nucleamento, de associação solidária em

relação a uma experiência intra e intergrupos. A terra, base geográfica, está posta como condição de fixação, mas não como condição exclusiva para a existência do grupo. Tanto é verdade que muitos grupos que hoje moram na cidade e que perderam a terra insistem em manter-se como grupo, como o caso do Paiol de Telha, no Paraná. Portanto, a participação na vida coletiva, o esforço de consolidação do grupo, a capacidade de auto-organização e o poder de auto-gestão dos grupos para identificar e decidir quem é e quem não é um membro da sua comunidade, mais do que a cor da pele, é o que se configura na nova definição de quilombo.

Mumbuca, como vários outros quilombos no Brasil, está no processo de reconquista da terra. Esse quilombo já conquistou a CERTIDÃO DE AUTO-RECONHECIMENTO, conferida pela Fundação Cultural Palmares, que certifica declaradamente que são remanescentes das

comunidades dos quilombos. Esta certidão foi publicada no Diário Oficial da União nº 43, de 04 de março de 2004, Seção 1, f. 07.

Há várias etapas para que os remanescentes de Mumbuca tenham a posse definitiva da terra, uma delas é brigar contra a criação de uma Reserva Biológica denominada Mata Escura, de 50.890 ha, que incide sobre o território etno-histórico da comunidade. A extensão desta reserva atingirá dois municípios: Almenara e Jequitinhonha. Entre os diversos tipos de Unidade de

Conservação, a Reserva Biológica é a mais restritiva em termos de presença humana, não sendo

sequer permitida a visitação pública. Muitos moradores da Mumbuca usam da área para colher mel e praticar outras atividades extrativistas, além desta ser passagem para outros sítios.

A criação da reserva impedirá o trânsito da comunidade na Mata Escura, além de que o isolamento que será imposto a alguns moradores, cercará os caminhos, ferindo também constitucional de ir e vir. A implantação da reserva no tamanho estipulado pelo governo poderá

expulsar mais de cinco mil pessoas da região. As comunidades atingidas por esta Reserva se defendem contra a criação desse projeto, argumentando que sempre utilizaram a região sem causar um grande impacto ambiental, ao contrário dos fazendeiros, que sempre a exploraram de maneira não sustentável, como é o caso da existência de duas carvoarias no entorno da Mata Escura.

Representantes de várias comunidades, os quilombolas, juntamente com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jequitinhonha, outras lideranças e movimentos sociais estão na luta contra a criação dessa Reserva e negociam alternativas para conservação do local.

Os quilombolas da Mumbuca, juntamente com outros afrobrasileiros de quilombos espalhados pelo Brasil, foram estimulados pelo artigo 68, a renovar as forças e trazer para o século XXI, o novo abolicionismo, do embate judicial para reconquistar o que estava perdido, para dar novo sentido à indiferença de ser negro na atualidade.

O quilombo da Mumbuca, é também esta voz que não quer calar, tem quase 150 anos de história. De grande proprietário e prósperos produtores se transformaram em um grupo que se espreme em menos de 10 % do território original e lutam com a produção de mandioca para não morrerem de fome. O documento da terra de 1862, que por tantas décadas foi desprezado, hoje é um instrumento legal para que recuperem o território original deixado pelo fundador José Cláudio de Souza.

Reconstruir a história do quilombo não foi em vão. Atender ao apelo, ao lampejo de um relâmpago do passado que insiste em se fazer no presente, tem o significado: vulto negro em meu

rumo vem mostrar a sua dor plantada nesse chão (...) precisa gritar sua força ê irmão sobreviver, a morte ainda não vai chegar se a gente na hora de unir os caminhos num só não

fugir nem se desviar(....) A música sentinela de Milton Nascimento é a voz que não quer se

calar.

CAPÍTULO III