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Educadora reclama da falta de oportunidade

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O SURGIMENTO DE UMA NOVA FIGURAÇÃO: TEMPO DE RESISTÊNCIA, REVOLTA E CONFLITOS

EDUCADOR INFANTO-JUVENIL

02 Educadora reclama da falta de oportunidade

A1: Porque eu não tinha como ensinar a

criança, eu acho que eles tinham que ensinar mais a gente, você vai pra escola faz o ensino médio mas... Eu parei de estudar porque eu casei muito nova e depois que eu comecei a trabalhar eu voltei pra fazer o colegial, ai quando eu terminei o colegial, eu fui atrás do magistério, mas não tinha mais, ai não teve... Ai não teve como me formar, né! Então pra mim foi difícil porque eu não sabia como fazer o... Como lidar com a criança? Como aplicar? Como fazer aquilo ali? Eu sabia eu fazer! Mas não sabia aplicar!

10 Educadora faz reclamação

de situação salarial que não à possibilita que tenha um nível de vida

igual as das PDI

A2: Eu fico tão chateada, elas estão todas de

uniforme, todas bonitinhas, eu queria uma camisetinha escrita educador, tal e tudo, isso... Eu não tenho condições de comprar o que elas têm entendeu? Eu não tenho condições, eu queria muito andar bem arrumada, andar com um agasalho, andar com uma bota, mas eu não tenho... Se eu fizer isso, eu vou deixar minha família, então isso ai cria... Elas podem, elas ganham mais, me desculpa (choro).

12 Educadora se revolta

contra descaso do sindicato

A2: o sindicato ia lutar primeiro para PDI para

o piso, porque elas tinham o estudo, e depois pra gente educadora, ai, falaram que iam lutar primeiro por elas tal... Ai, falaram que a gente tinha que pegar material, pegar isso aqui pra entrar com processo, com o juiz lá... Pra provar que a gente tem a mesma função que elas, que é desvio de cargo, pra gente poder igualar o salário, mas... Não deu em nada.

13 Educadora expõe

sentimentos de desgosto com relação à profissão –

diz não ter sido fácil suportar as PDI

A2: Eu vou falar pra você... A gente

aguentava elas, porque tinha que fazer! Mas não por gosto, quando foi esta fase... Aí! Eu estava aqui porque tinha que estar aqui, mas não por que me dava prazer! Eu vinha trabalhar porque eu tinha que estar aqui e tinha que assinar meu ponto! Não por que... Nossa hoje eu vou pra escola, com aquela vontade de ir! Muitas vezes eu agi assim sim! Entendeu.

15 Educadora diz que tem

muito mais a oferecer, mas existem barreiras que

dificultam, e o salário é uma delas.

A3: Acho que agente é muito barrada e acaba

não florescendo o que tem pra mostrar, entendeu? E o salário! O salário também! Porque a gente vai lá todo mês, pega hoje e amanhã não tem mais nada, né! (risos)

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04 Educadora fala sobre a

dificuldade de fazer um curso devido a carga

horária de trabalho somada as tarefas

domésticas

A4: Na época que eu entrei, em mil

novecentos e bolinha, eu pensei até em fazer o magistério, mas a gente trabalhava oito horas por dia, tinha que chegar em casa e fazer tudo! Era muito cansativo, não dava! e outra coisa também, na época teve três educadoras que fizeram e eu vi como era puxado!

04 Educadora fala da

privação que sofreu como sendo uma forma de benção ou prova divina

A4: É por isso que eu falo que Jeová sabe o

que faz, porque na época que começou a ficar ruim o salário, foi a época em que minhas filhas já começaram a trabalhar, e ajudar do jeito que podia em casa.

05 Educadora indica

sentimento de nostalgia e atribui o baixo nível salarial à prefeitura e a Deus os fatos ocorridos

na hora certa

A4: Mas eu ganhava bem [risos] na época

eram dois salários mínimos, foi quando entrou o PT que ficou ruim, pra falar a verdade no último ano do mandato do prefeito Prisco nós já não tivemos aumento, e ficamos mais quatro anos sem aumento! Se contarmos todos os anos sem aumento, vai dar [pensativa] dezesseis anos sem aumento. É por isso que eu falo que Jeová sabe o que faz, por na época que começou a ficar ruim o salário, foi a época em que minhas filhas já começaram a trabalhar, e ajudar do jeito que podia em casa.

09 Educadora indica

sentimento de de desanimo com a profissão

– e diz não ter estudado antes porque não era uma

exigência – faz comentário depreciativo sobre prática que as PDI

não tem

A4: Eu não estudei porque eu não quis! Mas

quando foi falado numa reunião que só PDI teriam aumento, as meninas chegaram aqui chorando, as PDI foram as únicas citadas na reunião com o sindicato, e as meninas educadoras falaram mesmo que não iam fazer mais nada! foi a diretora que teve um jeitinho todo de conversar para contornar a situação, mas as meninas falam que não estudavam porque não exigiam, e não deram oportunidade! Conhecimento as educadoras têm bastante, e temos que valorizar o que nós sabemos, e às vezes elas nem tem todo este conhecimento.

Obtivemos, nas falas, relatos em que as educadoras justificam a razão de estarem em posição de desvantagem salarial e de formação. Na tabela acima vimos, por parte das educadoras, o reconhecimento de que são

outsiders, atitude que contradiz o discurso que sustenta a valorização pelo

O sentimento de vitimização é destacado por Goffman (2004), como sendo uma característica central de um outsider. É a postura de quem aceita tal posição, mas destaca que ainda há quem a queira mudar (é o caso das educadoras que buscaram formação e mesmo assim continuam sendo apontadas como aquelas que eram educadoras) ou corrigir, a fim de atingir a posição desejada:

Em alguns casos lhe seria possível tentar corrigir diretamente o que considera a base objetiva de seu defeito, tal como quando uma pessoa fisicamente deformada se submete a uma cirurgia plástica, uma pessoa cega a um tratamento ocular, um analfabeto corrige sua educação e um homossexual faz psicoterapia. (Onde tal conserto é possível, o que freqüentemente ocorre não é a aquisição de um- status completamente normal, mas uma transformação do ego: alguém que tinha um defeito particular se transforma em alguém que tem provas de tê-lo corrigido.) Aqui, deve-se mencionar a predisposição à vitimização como um resultado da exposição da pessoa estigmatizada a servidores que vendem meios para corrigir a fala, para clarear a cor da pele, para esticar o corpo, para restaurar a juventude (como no rejuvenescimento através do tratamento com gema de ovo fertilizada), curas pela fé e meios para se obter fluência na conversação. Quer se trate de uma técnica prática ou de fraude, a pesquisa, freqüentemente secreta, dela resultante, revela, de maneira específica, os extremos a que os estigmatizados estão dispostos a chegar e, portanto, a angústia da situação que os leva a tais extremos (GOFFMAN, 2004, p.11)

São vários os motivos que fazem com que as educadoras, exprimam sentimentos de vitimização. Dentre eles estão: a timidez, a falta de oportunidade e apoio da prefeitura para a formação ao longo do percurso profissional e o baixo nível salarial.

Outro aspecto importante destacado por Goffman (2004), no caso de estigmatizados com sentimento de vitimização, é a questão do esforço

individual, algo muito presente no discurso das educadoras, que tendem a

afirmar, com grandeza, o quanto sabem na prática a mais que as PDI, o que representa uma contradição, quando vemos em suas falas queixas sobre o fazer pedagógico:

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A1: Porque eu não tinha como ensinar a criança, eu acho que eles tinham que

ensinar mais a gente, você vai pra escola faz o ensino médio, mas... Eu parei de estudar porque eu casei muito nova e depois que eu comecei a trabalhar eu voltei pra fazer o colegial, ai quando eu terminei o colegial, eu fui atrás do magistério, mas não tinha mais, ai não teve... Ai não teve como me formar né! Então pra mim foi difícil porque eu não sabia como fazer o... Como lidar com a criança? Como aplicar? Como fazer aquilo ali? Eu sabia eu fazer! Mas não sabia aplicar!

Como vimos, a educadora aponta razões pelas quais se encontrou impossibilitada de realizar um curso de formação, dizendo como foi difícil lidar com conceitos pedagógicos, na prática, quando se viu diante do desafio imposto pela prefeitura.

Outra educadora encara de outra forma a situação:

A4: É por isso que eu falo que Jeová sabe o que faz, porque na época que

começou a ficar ruim o salário, foi a época em que minhas filhas já começaram a trabalhar, e ajudar do jeito que podia em casa.

A4: Conhecimento as educadoras têm bastante, e temos que valorizar o que

nós sabemos, e às vezes elas nem tem todo este conhecimento.

A visão apresentada pela educadora A4, também é descrita por Goffman:

o estigmatizado vê as privações que sofreu como uma bênção secreta, especialmente devido à crença de que o sofrimento muito pode ensinar a uma pessoa sobre a vida e sobre as outras pessoas (GOFFMAN, 2004, p.13).

3.5 Baixa burocratização

A baixa burocratização do sistema de educação, do Município de Ribeirão Pires, é mais evidente na escola afastada do centro, situada a uma

distância significativa, da Secretaria de Educação e dos olhos de quem deveria avaliar e dar respaldo ao funcionamento.

Weber (1974, p.233) fala acerca da questão dizendo que o funcionário moderno, de cargo público ou privado, quer desfrutar de uma estima social específica e, segundo ele, isso ocorre mais próximo da civilização.

Deste modo esse cerco profissionalizante e burocrático chegou ao ensino no Município de Ribeirão Pires tanto em um local mais central e urbano quanto no mais rural. Portanto, segundo Weber.

(...) A posse dos diplomas educacionais está, habitualmente, ligado à qualificação para o cargo. Naturalmente, essas certidões, ou diplomas, fortalecem o elemento estatamental na posição social do funcionário. (WEBER, 1974, p.233)

Assim, apresentamos a visão da posição social funcional, na perspectiva das educadoras e no contexto em que estão inseridas como profissionais burocratizados. Nos apontamentos da pesquisa as educadoras oscilam opiniões sobre a estima social dentro de um sistema em que a baixa burocratização predomina. A esse respeito Weber (1996, p.234).aponta que: “habitualmente a estima social dos funcionários é especialmente baixa onde a exigência de administração especializada e o domínio das convenções estatamentais são fracas”.

Quadro 6 - Apontamentos sobre Baixa burocratização

QUESTÃO SIGNIFICADO DEPOIMENTOS

22 Educadora fala sobre como

impôs sua tradição para PDI

A1: Ou elas se adaptavam a gente ou saia

fora! (...) Não fazia nada, nem da criança ele cuidava, a gente que acabava ajudando, e depois ele não aguentou ficar muito tempo aqui e saiu! Mas as outras entraram no nosso ritmo!

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01 Educadora indica a sua

formação superficial oferecida pelo próprio

sistema

(não cumpre exigências gerais para funcionamento)

A2: Bom, quando eu ingressei, eu não era

educadora, eu era pajem. (...) então a gente não tinha isto... Esta obrigação de fazer essa parte da... Pedagógico da criança. Ensinar! E sim o cuidar! Ai, quando mudaram para educadora, ai foi exigido da gente (...) Foi através dos cursos que foram dados para gente, que agente tinha que começar a... Alfabetizar a criança... Tinha três quatro vezes no ano, ai começaram a falar que a gente não era mais pajem, que a gente era educadora e que a gente ia fazer o papel de professora

05 Educadora apresenta

sentimento nostálgico com relação ao salário

A2: O salário hoje está muito pouco...

Quando eu entrei o salário era de três salários mínimos, e ai quando o PT entrou, ele não deu aumento mais! Ele tirou!

10 Educadora considera que a

junção dos grupos facilitou e admite ter apresentado resistência em exercer a

função pedagógica

A2: Eu acho que facilitou porque elas não

tiveram aquele preconceito, ah... Você é educadora e eu sou PDI, eu vou fazer e você, vai ser minha assistente, isso aqui não teve! Na sala teve! Mas muito foi da gente para com elas, e não delas com a gente, a gente teve aquilo é... Ai a gente é educadora, e... Eu não vou fazer! Ai... Eu mesmo Luna, eu falava que eu ia... Eu era pajem, eu era pajem! E eu não ia fazer mais nada, eu ia só olhar! Já que não me deram aquele aumento, eu vou só olhar!

01 - 02 Educadora faz discurso que

Indica nostalgia – faz apontamentos sobre conflitos entre os grupos

A3: 01 - Mas era bom, era assim mais igual,

não tinha essa briga!

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