t II Período de tempo decorrido entre “ti” e “tf”
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 COMPORTAMENTO PLÁSTICO
2.2.2 Efeito da temperatura
As faixas de trabalho a quente, a morno e a frio podem ser caracterizadas através da temperatura homóloga (Th = T/Tfusão), que permite classificar a forma de conformação dos metais da seguinte maneira (DIETER, 1981; BRESSAN, 2011): trabalho a frio (<0,3Th), trabalho a morno (0,3 a 0,5Th) e trabalho a quente (>0,5Th).
Segundo Bressan (2011) a distinção entre trabalho a quente e a frio também pode ser feita em função da temperatura em que se dá a recristalização efetiva do material. Segundo Dieter (1981) o trabalho de conformação a quente é efetuado normalmente em temperaturas acima de 0,6Tf e a altas taxas de deformação no intervalo de 0,5 a 500s-1. Neste caso o trabalho a
quente é definido como a deformação sob condições de temperatura e taxa de conformação tais que os processos de recristalização ocorram simultaneamente com a deformação. No trabalho a quente o encruamento e a estrutura distorcida dos grãos produzida pela deformação são rapidamente eliminados pela formação de novos grãos, livres de deformação, como resultado da recristalização. O mecanismo predominante de recristalização no trabalho a quente é a recristalização dinâmica, enquanto na deformação a frio ocorre em condições em que os processos de recuperação e recristalização não ocorrem simultaneamente (COSTA E SILVA e MEI, 2006).
O que se percebe é que a curva tensão-deformação derivadas do teste de tração são fortemente dependente da temperatura em que se realiza o teste e em geral a resistência diminui e a ductilidade aumenta com a temperatura. Entretanto, mudanças estruturais tais como precipitação, endurecimento por deformação ou recristalização pode ocorrer em certas faixas de temperatura, alterando o comportamento. Processos termicamente ativados favorecem a deformação e reduzem a resistência em temperaturas elevadas. Segundo Dieter (1981) em temperaturas acima de cerca da metade do ponto de fusão a
deformação pode ocorrer por escorregamento ao longo dos contornos de grão, sendo que este mecanismo se torna mais proeminente com o aumento da temperatura e com a diminuição da taxa de deformação.
A resistência dos metais diminui com o aumento da temperatura, uma vez que a mobilidade atômica cresce rapidamente. Neste caso deve-se esperar que os processos controlados por difusão exercessem um efeito muito mais significativo sobre as propriedades mecânicas à elevada temperatura. Altas temperaturas também resultam numa maior mobilidade de discordâncias devido ao mecanismo de “escalagem”, o que se torna importante devido à maior facilidade de difusão e também porque a concentração de lacunas em equilíbrio aumenta com a temperatura. A temperatura mais elevadas novos mecanismos de deformação podem se tornar operativos assim como podem mudar os processos de deslizamento ou serem introduzidos processos adicionais, por exemplo, a deformação nos contornos de grão torna-se uma possibilidade adicional. Outros aspectos podem estar associados com a instabilidade metalúrgica à elevada temperatura, como o crescimento de grão ou mesmo a oxidação catastrófica ou penetração intergranular de óxidos (DIETER, 1981).
Segundo Meyers (1982) o trabalho a quente requer uma combinação de temperatura e taxa de deformação de tal forma que essencialmente não haja nenhum encruamento produzido pela deformação. A recuperação das propriedades mecânicas do material trabalhado ocorre mediante recristalização dinâmica. Já o trabalho a frio é acompanhado de encruamento. No trabalho a morno a deformação ocorre em temperaturas intermediárias. Os contornos de grão funcionam como sítios de fragilidade a elevadas temperaturas, pois pode ocorrer deslizamento nos contornos de grão levando à fluência plástica e/ou a abertura de vazios ao longo dos contornos.
Para muitos materiais o valor de “m” aumenta e de “n” diminui com o aumento da temperatura (BRESSAN, 2011). Os metais não apresentam encruamento a temperaturas significamente maiores que a ambiente, podendo se deformar continuamente à tensão constante, o que pode se aproximar do princípio do comportamento de fluência (DIETER, 1981). Segundo Naganathan (2010) e Merklein et al (2006b) com o aumento da temperatura de conformação ocorre a redução dos
valores de tensão para promover a deformação, assim como do expoente de encruamento “n” e, de certa forma, da anisotropia. Este comportamento ocorre devido ao balanceamento entre dois efeitos, o endurecimento associado à deformação, com a dinâmica de recuperação da microestrutura induzida pela temperatura.
Zhao et al (2014) levantaram curvas tensão-deformação de engenharia do aço 22MnB5 a diferentes temperaturas (figura 23) e constataram que o valor do limite de resistência é reduzido de aproximadamente 250MPa a 600oC para menos de 100MPa a
900oC. Quanto ao alongamento o valor máximo é conseguido em
temperaturas da ordem de 750oC e que abaixo (600oC) ou acima disto (900oC) o valor do alongamento é menor. Este comportamento muito provavelmente está associado a superplasticidade conforme será abordado adiante.
Figura 23 - Curvas tensão-deformação de engenharia para um aço 22MnB5 a diferentes temperaturas.
Fonte: adaptado de (ZHAO et al, 2014)
Estas curvas foram convertidas em curvas tensão- deformação verdadeiras, a partir da qual foram obtidos os valores do expoente de encruamento “n” em função da temperatura, como mostrado na figura 24, onde se constata uma redução do valor com a temperatura. O coeficiente de encruamento representa a capacidade do material suportar uma carga adicional após o seu escoamento e continuar deformando, de modo que quanto maior o valor de “n” melhor é a conformabilidade.
Figura 24 - Evolução do expoente de encruamento em função da temperatura.
Fonte: adaptado de (ZHAO et al, 2014)
Além do coeficiente de encruamento o valor do alongamento total também é um indicador da conformabilidade, seguida da tensão de escoamento e limite de resistência. Segundo o autor, considerando-se o alongamento, a deformação deveria ser feita na temperatura de 600/650oC, que apresenta a
melhor conformabilidade, no entanto, isto gera bainita no resfriamento posterior. Considerando-se estes aspectos o autor conclui que a condição ótima de estampagem seria conseguida na temperatura de 700/750oC. Com isto verifica-se que a melhor prática seria inicialmente aquecer o blanque a elevada temperatura para se conseguir uma completa austenitização, resfriá-lo a temperatura de 700oC e aí sim promover a
conformação, e em seguida resfria-lo rapidamente para se conseguir a têmpera. Isto também permite obter uma microestrutura martensítica mais refinada comparada com o processo de resfriamento direto partindo-se de elevadas temperaturas.
A maior parte dos autores tem utilizado as curvas tensão- deformação através da aplicação de tensão axial para estudar o comportamento plástico dos aços a elevada temperatura. Estas curvas mostram o equilíbrio e o comportamento do material a diferentes estados de tensão, a formação de estricção e a fratura na condição biaxial para um cisalhamento puro. Apesar disto, quando a conformação é realizada a elevada temperatura, a
conformabilidade é intensamente afetada não somente pela intensidade da deformação, mas também pela temperatura em que é realizada, pela taxa de deformação e pela evolução microestrutural que ocorre durante a conformação (KARBASIAN e TEKKAIA, 2010).
Existem diversos testes disponíveis para se estudar a conformabilidade dos materiais, mas todos eles foram desenvolvidos para aplicação a temperatura ambiente. De uma maneira muito comum a avaliação da conformabilidade é feita através de Curvas Limite de Conformação (CLC), mas elas não se mostram suficientemente precisas quando aplicada a elevada temperatura, devido ao comportamento complexo do material e as condições da interface durante o teste. Apesar disto alguns autores propuseram o método de predição de falha em chapa de aço conformada a elevada temperatura baseado no diagrama de limite de conformação com a temperatura como variável adicional, passando a ser designado como “diagrama CLC-T” (TURETTA, 2008a). O autor gerou uma importante contribuição determinando a “curva CLC” para o aço 22MnB5, tipicamente utilizado no processo de estampagem a quente. O ensaio foi realizado a 600oC e mostra uma significante melhoria da conformabilidade em relação a uma curva normal elaborada a temperatura ambiente. Karbasian e Tekkaia (2010) apresentaram a mesma curva CLC obtida por diversos outros autores (figura 25).
Figura 25- Curvas limite conformação de um aço 22MnB5 a diferentes temperaturas.
Merklein e Lechler (2006a), Turetta (2008a) e Nagathan (2010/2012) concluíram que o aumento da temperatura de conformação leva a um decréscimo significante do valor da tensão de deformação do aço 22MnB5, como mostrado na figura 26.
Figura 26 - Curvas tensão-deformação do aço 22MnB5 em diferentes temperaturas.
Fonte: adaptado de (NAGANATHAN, 2010/2012)
Shi et al (2011) avaliaram particularmente as propriedades termomecânicas do aço 22SiMn2TiB a elevada temperatura, entre 600 e 1150oC, deformada isotermicamente
através do ensaio de tração uniaxial, e constataram que este aço apresenta excelentes valores de redução de área, superiores a 80%, e que a ductilidade exibiu significante dependência da temperatura de austenitização, como mostrado na figura 27. Turetta (2008) determinou que além da tensão máxima tanto a tensão de escoamento como o módulo de Young decrescem com o aumento da temperatura, conforme mostrado na figura 28.
Figura 27 - Efeito da temperatura sobre a redução de área (a) e da tensão máxima (b).
Fonte: adaptado de (SHI et al, 2011)
Figura 28 - Efeito da temperatura sobre o módulo de Young (a) e a tensão de escoamento σy0,2% (b) sobre um aço
22MnB5.
(a) (b)
Fonte: adaptado de (TURETTA et al, 2006)