5.4 Conclus˜ ao
6.1.1 Efeitos causados pelas constru¸ c˜ oes
Os padr˜oes de fluxo de ar em torno dos edif´ıcios em grandes centros urba- nos podem ser bastante complexos, principalmente quando existem v´arias constru¸c˜oes pr´oximas umas das outras. Alguns fenˆomenos f´ısicos caracter´ısticos podem ser verifica- dos devido a intera¸c˜ao do fluxo de ar com a topografia local. Um deles, conhecido como downdraught effect (Fig. 34), ocorre quando o vento atinge a superf´ıcie de um edif´ıcio e, sem ter mais para onde ir, ´e acelerado para cima, para baixo e ao redor dele, contornando o obst´aculo. Nesse tipo de situa¸c˜ao, o ar direcionado para a parte de baixo promove um aumento da velocidade do vento ao n´ıvel da rua que, dependendo da sua intensidade, pode causar desconforto aos pedestres e, em casos extremos, ser perigosos.
Figura 34 – Devido a altura do pr´edio, parte do fluxo de ar ´e desviado para o n´ıvel da rua. Esse fenˆomeno ´e comumente conhecido como downdraught effect.
Fonte: Pr´oprio autor.
O efeito de Venturi (Fig.35) tamb´em pode ser verificado nas cidades. Quando v´arios edif´ıcios est˜ao pr´oximos uns dos outros, formando um corredor, o fluxo de ar tende a diminuir a press˜ao nessa canaliza¸c˜ao e aumentar a velocidade. O fluxo pode ser controlado atrav´es de projetos paisag´ısticos, como a planta¸c˜ao de ´arvores, ou a inser¸c˜ao de elementos estruturais. Al´em dos efeitos aerodinˆamicos aqui citados, v´arios trabalhos mostram outras formas de impacto resultantes da intera¸c˜ao entre os edif´ıcios e o vento [50, 51, 35, 52, 37]. Estudos de vento a n´ıvel de pedestre realizados [53, 54, 55, 56] indicam que a velocidade do vento superior a 5,5 m/s torna a caminhada desconfort´avel, enquanto que ventos superiores a 25 m/s, tipicamente de rajadas, s˜ao considerados perigosos pois podem comprometer o equil´ıbrio dos pedestres. A Tab. 5 mostra a rela¸c˜ao entre a faixa
Figura 35 – A canaliza¸c˜ao faz com que o fluxo de ar acelere na regi˜ao entre os edif´ıcios. Esse ´e o chamado efeito de Venturi.
Fonte: Pr´oprio autor.
de velocidade dos ventos com a categoria de conforto e sua respectiva descri¸c˜ao. Tabela 5 – Crit´erios de conforto desej´avel de vento para pedestres em v´arios ambien- tes.
Classe de Conforto Descri¸c˜ao Tipos de Locais (Exemplos)
Sentado Uvento ≤ 3.9 m/s Ocorrencia: > 70% do
tempo. Caf´esterra¸cos,externos,pra¸cas, jardins,p´atios, monumentos.
Em p´e Uvento ≤ 6.1 m/s Ocorrencia: > 80% do
tempo. Entradas de edif´ıcios, ´aresde lazer, estacionamentos, cal¸cadas.
Caminhando Uvento ≤ 8.3 m/s Ocorrencia: > 80% do
tempo. Aceit´avel para caminhadas e outrs atividades f´ısicas.
Desconfort´avel Uvento > 8.3 m/s Ocorrencia: > 20% do
tempo. Impr´oprio para caminhada. Perigoso Uvento > 25 m/s Ocorrencia: > 0.01% do
tempo. Perigoso para caminhada. Fonte: Adaptado de [57].
6.2 Metodologia
A fim de verificar as modifica¸c˜oes causadas ao escoamento do ar em uma zona litorˆanea devido a presen¸ca de obst´aculos topogr´aficos como pr´edios e casas, foi realizada uma simula¸c˜ao num´erica utilizando a caixa de ferramentas CFD OpenFOAM. Adotamos como base o solver simpleFoam para a simula¸c˜ao, por ser indicado para fluxo turbulento, estacion´ario e incompress´ıvel. O modelo k- foi adotado como modelo de turbulˆencia.
Figura 36: Vista superior da regi˜ao de estudo obtida pelo Google Maps. A geometria foi constru´ıda para os edif´ıcios contidos na ´area de destaque.
Fonte: Pr´oprio autor.
A regi˜ao escolhida corresponde a uma ´area de aproximadamente 1,6×105 m2,
que engloba doze quarteir˜oes densamente constru´ıdos (Fig. 36) na praia do Mucuripe em Fortaleza - CE, Brasil.
As constru¸c˜oes da regi˜ao em estudo possuem dimens˜oes diversas, podendo chegar a cerca de 80 metros de altura. As larguras das ruas variam entre 10 e 20 m. A geometria do problema foi desenvolvida utilizando o Google SketchUp, que ´e um software pr´oprio para a cria¸c˜ao de modelos tridimensionais.
A malha tridimensional foi gerada com o pr´orpio OpenFOAM, atrav´es do uti- lit´ario snappyHexMesh [58], que permite a utiliza¸c˜ao de arquivos com formato Stereolitho- graphy (STL) ou Wavefront Object (OBJ) como precursores para a gera¸c˜ao de malhas, possibilitando a inclus˜ao de formas geom´etricas complexas e at´e topografias na simula¸c˜ao. Ela ´e composta por c´elulas do tipo hexahedra (hex) e split-hexahedra (split-hex). Um maior refino foi dado para as regi˜oes mais pr´oximas as paredes (Fig. 37).
A malha gerada foi dividida em duas regi˜oes, conforme sugerido em [59] e [43], sendo a maior com dimens˜oes de 1800×615×180 m em comprimento, largura e altura, respectivamente (Fig. 38) e a menor, mais refinada pr´oximo aos edif´ıcios, com dimens˜oes 365×450×90 m em comprimento, largura e altura, respectivamente. Esse refino ´e ne- cess´ario para se ter uma melhor compreens˜ao do comportamento do fluido ao interagir com as estruturas, como o campo de velocidade local e a estrutura de fluxo gerado na
Figura 37: Malha criada pelo OpenFoam atrav´es do snappyMexMesh, com aproximadamente 3, 7× 106 c´elulas. Um maior refinamento foi dado nas proximidades dos edif´ıcios.
Fonte: Pr´oprio autor.
regi˜ao de esteira.
As condi¸c˜oes iniciais e de contorno s˜ao de fundamental importˆancia na mo- delagem de CFD, pois ser˜ao respons´aveis pela evolu¸c˜ao da simula¸c˜ao influenciando dire- tamente no resultado. Conforme pode ser observado na Fig. 38, o dom´ınio tinha quatro limites f´ısicos definidos: inlet, para a de velocidade do vento que foi adotada como sendo constante em toda regi˜ao; outlet, para a press˜ao; trˆes condi¸c˜oes de contorno de simetria (left, right and top) onde os efeitos desses limites s˜ao desprezados no dom´ınio computa- cional; e noslip, onde o ch˜ao e todas as faces dos edif´ıcios foram definidas como paredes antiderrapantes, em que a velocidade do ar possui magnitude igual a zero. Tamb´em foi adotado o n´umero de Courant ≤ 1, para manter a convergˆencia e precis˜ao da simula¸c˜ao. O passo de tempo incremental foi de 0.05 s com um end time de 400 s, onde se alcan¸cou a convergˆencia esperada de 10−6 para a componente ao logo do fluxo da velocidade e 10−3
para o campo de press˜ao.
A Fig. 39 mostra a orienta¸c˜ao geogr´afica da ´area simulada com as dire¸c˜oes que foram adotadas para incidˆencia dos ventos. Muito embora, na maior parte do ano, os ventos que sopram nessa regi˜ao s˜ao provenientes da dire¸c˜ao leste/sudeste, tamb´em foi considerado o caso do escoamento no sentido norte-sul, para efeito comparativo, uma vez que nesse sentido o fluido encontraria uma menor quantidade de barreiras (apenas 3 quarteir˜oes contra 4 quando soprado de leste para oeste).
Para os casos em que o fluxo de ar percorrem longas distˆancias, como em campos, desertos ou em amplos terrenos, ´e recomendado utilizar um perfil de velocidade vertical para a velocidade dos ventos. No nosso caso, preferimos adotar como entrada uma velocidade constante de 5 m/s, uma vez que a altura de rugosidade de lagos e oceanos ´e baixa, exercendo uma pouca influˆencia no escoamento do ar devido a homogeneidade e re-
Figura 38: Dom´ınio computacional.
Fonte: Pr´oprio autor.
gularidade da superf´ıcie [60]. Al´em disso, a distˆancia da regi˜ao do dom´ınio definida como entrada aos primeiros edif´ıcios j´a faz surgir naturalmente um suave perfil de velocidade vertical dos ventos. Para a sa´ıda foi definido a press˜ao total como zero.
Foram simulados os casos onde o vento incide tanto pela dire¸c˜ao ESE (predo- minante na regi˜ao), como pela dire¸c˜ao NNE, para efeito de compara¸c˜ao no bloqueio do fluxo de ar devido a faixa de constru¸c˜oes.
O OpenFOAM disponibiliza uma s´erie de bibliotecas especializadas para definir as condi¸c˜oes de contorno em uma superf´ıcie. Para o nosso caso, como estamos interessados em analisar o comportamento do fluido pr´oximo ao solo, optamos pela condi¸c˜ao de parede no-slip. Isso implica em fazer um maior refinamento da malha nas proximidades dessa regi˜ao, o que aumenta consideravelmente o tempo de simula¸c˜ao. A utiliza¸c˜ao de distintas formas de fun¸c˜ao de parede em simula¸c˜oes do tipo RANS pode ser melhor compreendida atrav´es dos trabalhos [61] e [62].
A simula¸c˜ao foi realizada no Laborat´orio de Simula¸c˜ao Num´erica de Redes e ´
Oleos Pesados (LSNROP) da Universidade Federal do Cear´a. Foi utilizada uma m´aquina de uso pessoal, com processador Dual-Core AMD Opteron(tm) Processor 2218×4 com 32 Gb de mem´oria RAM. Dezessete simula¸c˜oes foram realizadas variando parˆametros do projeto, como sentido e intensidade da velocidade dos ventos. Em cada uma delas, o tempo total de simula¸c˜ao variou entre 2 a 15 dias, rodando em paralelo, de acordo com o refino da malha. Os resultados obtidos foram processados e analisados atrav´es do visualizador ParaView.
Figura 39: A regi˜ao escolhida possui um formato geom´etrico retangular. Sendo assim, o vento que incide pelo leste atravessa uma maior ´area constru´ıda de obst´aculos (4 quarteir˜oes), em rela¸c˜ao ao incidente pelo norte (3 quarteir˜oes).
Fonte: Pr´oprio autor.
6.3 Resultados
Foi observado a presen¸ca do efeito de Venturi (Fig. 40). Os canais formados pelas ruas fazem com que o fluxo de ar acelere, promovendo uma velocidade de vento no in´ıcio das ruas (R1, R2, R3, e R4) maior que a condi¸c˜ao de velocidade definida para
inlet (5 m/s). Ventos com velocidade superior a 6 m/s, como os presentes nessas regi˜oes, podem ser desconfort´aveis para caminhadas e outras atividades f´ısicas, al´em de provocar suspens˜ao de poeira e contribuir para a maior dispers˜ao de poluentes. A Fig. 41 tamb´em mostra o mesmo comportamento para os ventos provenientes da dire¸c˜ao ESE. Nas regi˜oes circuladas houve um acr´escimo de 24% na velocidade dos ventos devido o efeito de cana- liza¸c˜ao. Geometrias complexas criam regi˜oes com significativas diferen¸cas de velocidade e bons projetos urbanos precisam empenhar esfor¸cos para diminuir essas discrepˆancias.
Foi poss´ıvel identificar a presen¸ca de zonas de recircula¸c˜ao formadas a jusante dos edif´ıcios e tamb´em o downdraught effect, conforme demonstrado pelo filtro Glyph da Fig. 42. Al´em disso, ´e poss´ıvel observar a acelera¸c˜ao do fluxo na dire¸c˜ao vertical, a fim de contornar os obst´aculos, ocasionando uma zona de vorticidade na esteira dos edif´ıcios e induzindo uma forte redu¸c˜ao no m´odulo da velocidade.
A Fig. 43 mostra o perfil de velocidade dos ventos para diferentes alturas em rela¸c˜ao ao n´ıvel do solo. Como era de se esperar, o impacto causado ´e maior para os n´ıveis mais pr´oximos da superf´ıcie e vai diminuindo a medida que nos distanciamos do solo. A zona de esteira criada atr´as dos obst´aculos revela a interferˆencia dos grandes
Figura 40: Efeito de Venturi devido a canaliza¸c˜ao do vento. ´E poss´ıvel perceber um aumento de 20 a 40% na velocidade do fluxo de ar no in´ıcio das ruas em rela¸c˜ao a velocidade inicial. Essa an´alise foi feita para uma altura de 1, 6 m acima do n´ıvel do solo.
centros urbanos ao fluxo de ar, impactando as regi˜oes situadas a jusante.
Foram criados planos verticais ao longo do dom´ınio para verificar a varia¸c˜ao da velocidade dos ventos a medida que o fluxo de ar contorna os obst´aculos (Fig. 44). Para tanto, ap´os atingir a convergˆencia esperada para o estado estacion´ario, integrou-se a velocidade dos ventos em cada um desses planos e o resultado obtido foi dividido pela ´area de cada se¸c˜ao (32850 m2).
A Fig. 45 mostra os resultados obtidos para o caso em que os ventos s˜ao oriun- dos da dire¸c˜ao NNE. Observamos que nos planos que interceptavam as ´areas constru´ıdas a velocidade m´edia diminui em compara¸c˜ao com a velocidade nos planos anteriores `a regi˜ao edificada e tamb´em que ela tende a aumentar ap´os essa regi˜ao. Nesta simula¸c˜ao, os edif´ıcios est˜ao compreendidos entre o intervalo de 20 a 380 m ao longo do eixo x. Dessa forma, para a posi¸c˜ao x = -200 m, vemos que a velocidade m´edia dos ventos ´e 5 m/s. A medida que se aproxima das constru¸c˜oes a velocidade decresce rapidamente, chegando a ser cerca de 46% menor imediatamente ap´os os obst´aculos e depois volta a crescer su- avemente. Um quilˆometro depois dos edif´ıcios ainda foi poss´ıvel verificar uma redu¸c˜ao de velocidade dos ventos de aproximadamente 18,3% o que est´a coerente com o perfil de velocidade obtido na Fig. 43.
As dire¸c˜oes predominantes dos ventos nessa praia s˜ao E, SE e ESE. Por isso, realizamos novas simula¸c˜oes em que a magnitude da velocidade definida para inlet variou
Figura 41: Ventos predominantes da dire¸c˜ao ESE. Cores variando do azul (menor velocidade) at´e o vermelho (maior velocidade). As linhas AA, BB, CC, DD e EE correspondem a planos verticais onde foram calculados o fator de participa¸c˜ao π. Tamb´em ´e poss´ıvel observar o efeito de Venturi nas ruas mais estreitas, al´em de v´ortices nas proximidades dos obst´aculos. Nas ´
areas circuladas a velocidade do vento sofreu uma acr´escimo de 24% em rela¸c˜ao a definida como condi¸c˜ao de entrada.
de 1 m/s a 5 m/s, considerando que o vento era proveniente da dire¸c˜ao ESE. Novamente analisamos a velocidade m´edia de U sobre os planos verticais perpendiculares `a dire¸c˜ao do fluxo principal e obtivemos resultados similares ao caso anterior. Nessa nova situa¸c˜ao, os edif´ıcios est˜ao compreendidos entre o intervalo 0 a 450 m, ao longo do eixo x. Em x = -200 m, a velocidade m´edia dos ventos era igual ao valor definido para inlet. Foi observado que quanto maior a velocidade dos ventos, mais inclinada era a curva at´e o ponto imediatamente ap´os os obst´aculos (x = 420 m), sugerindo uma maior perda relativa. Para o caso em que vinlet = 5 m/s, foi observado uma redu¸c˜ao de aproxima-
damente 59% em x = 420 m e uma redu¸c˜ao de 23% um quilˆometro ap´os os obst´aculos. Visando melhor representar esse comportamento, plotamos as velocidades normalizadas U/Umax que s˜ao mostradas na Fig. 46. Observamos que as curvas coincidem antes da
regi˜ao constru´ıda e que elas reagem ao m´ınimo sobre a ´area constru´ıda. Depois dessa regi˜ao, o vento tende a recuperar sua velocidade em uma distˆancia muito maior. Antes
Figura 42: Glyph do campo de velocidade. ´E poss´ıvel observar zonas de recircula¸c˜ao entre os pr´edios e o downdraught effect. Estruturas localizadas nessas regi˜oes ou nas zonas de canto, po- dem experimentar press˜oes de vento muito al´em daquelas para as quais tenham sido projetadas, caso tenham negligenciado esse fator.
da ´area ampliada, a diminui¸c˜ao da velocidade ´e gradual e ´ıngreme `a medida que o vento se aproxima dos obst´aculos. Tamb´em ´e poss´ıvel verificar que, para velocidades superiores a 5 m/s, h´a uma convergˆencia no valor da redu¸c˜ao da intensidade dos ventos em cerca de 23%, para localidades que estejam a 1 km de distˆancia ap´os os obst´aculos.
Na Fig.47 plotamos a curva de Umin/Umax× Umax, onde podemos observar que
a fra¸c˜ao Umin/Umaxdiminui quando Umaxaumenta de 1 para 5 m/s. Isso pode sugerir que
a fra¸c˜ao teria um valor assint´otico finito quando Umax → ∞. No entanto, como temos
um n´umero finito de observa¸c˜oes, precisamos executar mais simula¸c˜oes com um valor crescente de Umax para ter certeza desse comportamento.
´
E poss´ıvel observar diferen¸cas de perdas, em rela¸c˜ao a Fig. 45, para o caso em que vinlet = 5 m/s. Isso acontece devido ao aumento da faixa de obst´aculos presentes ao
longo do eixo x, que corresponde a dire¸c˜ao de propaga¸c˜ao da velocidade dos ventos, o que j´a era de se esperar uma vez que aumentando-se a quantidade de pr´edios, aumenta-se o impacto na circula¸c˜ao do ar.
A energia cin´etica turbulenta e suas curvas de dissipa¸c˜ao ao longo do fluxo de vento para as simula¸c˜oes com ventos na dire¸c˜ao ESE, s˜ao mostradas nas Figs. 48 e 49. Observamos que tanto a energia cin´etica turbulenta quanto sua dissipa¸c˜ao aumentam com o aumento da velocidade do vento de entrada (Uentrada) e que a dissipa¸c˜ao de energia
cin´etica ´e mais forte sobre a ´area constru´ıda.
O efeito de canaliza¸c˜ao pode ser estatisticamente quantificado em termos da distribui¸c˜ao espacial da energia cin´etica no sistema. Para isso definimos um n´umero de participa¸c˜ao π que servir´a como parˆametro para analisar como a energia cin´etica do
Figura 43: Campo de velocidade para diferentes alturas. Para estes casos, foi adotada como condi¸c˜ao de entrada uma velocidade com m´odulo de 5 m/s.
sistema encontra-se distribu´ıda em seu interior:
π ≡ n n X i=1 qi2 !−1 1 n ≤ π ≤ 1 , (6.1)
onde n ´e o n´umero total de fluido na grade num´erica, qi ≡ ei/Pnj=1ej e ej ∝ (u2i + v2i) ´e a
energia cin´etica associada a cada c´elula de fluido individual e ui e vi s˜ao as componentes
do vetor velocidade na c´elula i nas dire¸c˜oes horizontal e vertical, respectivamente. Em um fluido uniforme, qi ∼= 1/n para todo i, o que implica em π ∼= 1. Para o caso em que o
fluxo estivesse concentrado em um ´unico n´o, o valor de q seria de uma unidade para esse n´o e zero para os demais pontos da malha [63, 64]. Sendo assim, π seria igual a 1/n.
A participa¸c˜ao em fun¸c˜ao do eixo y foi calculada para os cinco planos verti- cais (AA, BB, CC, DD e EE) que delimitam a regi˜ao ocupada pelos obst´aculos (Fig. 41 e Fig. 44). O resultado obtido est´a representado na Fig. 50 e ajuda a compreender a dinˆamica da canaliza¸c˜ao dos ventos. Para o plano AA, imediatamente antes dos edif´ıcios, ´e poss´ıvel verificar uma participa¸c˜ao compreendida entre 0.7 e 1.0 para todos os pontos tra¸cados. `A medida que se avan¸ca ao longo do eixo x, torna-se not´avel a redu¸c˜ao des- ses valores e a forma¸c˜ao de picos em determinados pontos do gr´afico, que configuram a
Figura 44: Divis˜ao do dom´ınio em planos verticais ao longo do eixo x. Em cada uma dessas se¸c˜oes, foi calculada a velocidade m´edia dos ventos e o fator de participa¸c˜ao.
−250 0 250 500 750 1000 1250 1500 x (m) 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0 U (m /s ) Uinlet= 5m/s
Figura 45: Varia¸c˜ao da velocidade dos ventos ao longo do eixo x. Os edif´ıcios est˜ao compreendi- dos entre o intervalo de 20 a 380 m e foi considerado para a condi¸c˜ao de inlet ventos provenientes da dire¸c˜ao NNE.
−250 0 250 500 750 1000 1250 1500 x (m) 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 1.0 U /U m a x Uinlet = 1m/s Uinlet = 2m/s Uinlet = 3m/s Uinlet = 4m/s Uinlet = 5m/s
Figura 46: Varia¸c˜ao da velocidade dos ventos ao longo do eixo x. Foram simulados cinco velocidades distintas para inlet: 1 m/s, 2 m/s, 3 m/s, 4 m/s e 5 m/s. Nesse caso foi considerado que os ventos s˜ao incidem atrav´es da dire¸c˜ao ESE. Os edif´ıcios est˜ao compreendidos entre o intervalo de 0 a 450 m. 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0 Umax 0.41 0.42 0.43 0.44 Um in /U m a x
Figura 47: Gr´afico da fra¸c˜ao Umin/Umax× Umax para valores de Umax entre 1 m/s e 5m/s. Observe que a fra¸c˜ao decresce de ≈ 0.45 para ≈ 0.4 e que a segunda derivada ´e positiva.
−250 0 250 500 750 1000 1250 1500 x (m) 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 k (m 2/s 2) Uinlet= 1m/s Uinlet= 2m/s Uinlet= 3m/s Uinlet= 4m/s Uinlet= 5m/s
Figura 48: Gr´afico da energia cin´etica turbulenta (k) para valores de Uinlet entre 1m/s e 5m/s. Note que a energia cin´etica turbulenta aumenta com o crescimento de Uinlet.
−250 0 250 500 750 1000 1250 1500 x (m) 0.00 0.01 0.02 0.03 0.04 0.05 0.06 ǫ( m 2/s 3) Uinlet= 1m/s Uinlet= 2m/s Uinlet= 3m/s Uinlet= 4m/s Uinlet= 5m/s
Figura 49: Dissipa¸c˜ao da energia cin´etica turbulenta () para valores de Uinlet entre 1 m/s e 5 m/s. Observe que a dissipa¸c˜ao da energia cin´etica turbulenta aumenta com o crescimento de Uinlet e ´e mais forte sobre a ´area constru´ıda.
Figura 50: Participa¸c˜ao calculada nos planos verticais tra¸cados em: x=0, x=110, x=220, x=340 e x=450.
forma¸c˜ao dos canais. 6.4 Conclus˜ao
Visando compreender os impactos causados `a intensidade da velocidade dos ventos, devido a presen¸ca dos edif´ıcios situados na orla da praia do Mucuripe, em Fortaleza- CE, foram realizadas um conjunto de simula¸c˜oes num´ericas com o software OpenFOAM, onde estudou-se o comportamento do campo de velocidade do fluido ao interagir com os obst´aculos. Foram simulados casos onde os ventos eram origin´arios das dire¸c˜oes NNE e ESE, com velocidades cuja intensidade variava de 1 a 5 m/s.
O efeito de Venturi foi observado para diferentes dire¸c˜oes de incidˆencia do fluxo. Quando eram provenientes do NNE, com velocidade de 5 m/s, verificou-se uma acelera¸c˜ao no escoamento que resultou em acr´escimos de 20 a 40% da velocidade inicial. Entretanto, quando foram considerados predominantes da dire¸c˜ao ESE, esse aumento foi de aproximadamente 24% para pontos localizados pr´oximo a abertura dos primeiros canais.
como downdraught e zonas de recircula¸c˜ao entre os pr´edios, tamb´em foram observados.