DEPARTAMENTO DE F´ISICA
PROGRAMA DE P ´OS-GRADUAC¸ ˜AO EM F´ISICA
MAUR´ICIO SOARES DE ALMEIDA
ESTUDO COMPUTACIONAL EM POROELASTICIDADE E MEC ˆANICA
DOS FLUIDOS
FORTALEZA 2018
ESTUDO COMPUTACIONAL EM POROELASTICIDADE E MEC ˆANICA DOS FLUIDOS
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de P´os-Gradua¸c˜ao em F´ısica da Universidade Federal do Cear´a, como requisito parcial para a obten¸c˜ao do T´ıtulo de Doutor em F´ısica.
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Area de Concentra¸c˜ao: F´ısica da Mat´eria Condensada.
Orientador: Prof. Dr. Murilo Pereira de Al-meida.
FORTALEZA 2018
ESTUDO COMPUTACIONAL EM POROELASTICIDADE E MEC ˆANICA DOS FLUIDOS
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de P´os-Gradua¸c˜ao em F´ısica da Universidade Federal do Cear´a, como requisito parcial para a obten¸c˜ao do T´ıtulo de Doutor em F´ısica.
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Area de Concentra¸c˜ao: F´ısica da Mat´eria Condensada.
Aprovada em 30/07/2018.
BANCA EXAMINADORA
Prof. Dr. Murilo Pereira de Almeida (Orientador) Universidade Federal do Cear´a (UFC)
Prof. Dr. Cl´audio Lucas Nunes de Oliveira Universidade Federal do Cear´a (UFC)
Prof. Dr. Francisco Nepomuceno Filho Universidade Federal do Cear´a (UFC)
Prof. Dr. Luiz Oz´orio de Oliveira Filho Universidade Estadual Vale do Acara´u (UVA)
Prof. Dr. Francisco Leandro de Oliveira Rodrigues Universidade Estadual Vale do Acara´u (UVA)
Biblioteca do Curso de F´ısica
A000p Almeida, Maur´ıcio Soares.
ESTUDO COMPUTACIONAL EM POROELASTICIDADE E MEC ˆANICA DOS FLUIDOS / Maur´ıcio Soares de Almeida. – Fortaleza, 2018.
112.:il.
Tese (doutorado) - Universidade Federal do Cear´a, Centro de Ciˆencias, Depar-tamento de F´ısica, Fortaleza, 2018.
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Area de Concentra¸c˜ao: F´ısica da Mat´eria Condensada. Orienta¸c˜ao: Prof. Dr. Murilo Pereira de Almeida.
1. Poroelasticidade. 2. Ondas el´asticas. 3. Edif´ıcios. 4. Ventos. 5. Fortaleza-CE. I. T´ıtulo.
A Deus, pelo dom da vida. `
A minha amada esposa, Emiliane, pelo apoio, carinho e compreens˜ao durante essa jornada.
`
A minha m˜ae, Maria Sˆonia, e a minha tia Elizeuda e seu marido Roosevelt, pelos valorosos ensinamentos apresentados ao longo da minha vida.
Ao professor Murilo, pela orienta¸c˜ao e paciˆencia.
Aos professores Ascˆanio e Oz´orio, pelas ricas contribui¸c˜oes.
A todos meus amigos e colegas que contribu´ıram de forma direta ou indireta para a conclus˜ao deste trabalho.
`
n˜ao me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como n˜ao sou comunista, n˜ao me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho cat´olico. Como n˜ao sou cat´olico, n˜ao me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; j´a n˜ao havia mais ningu´em para reclamar...”
Este trabalho consiste em um estudo computacional em mecˆanica do cont´ınuo: aplica¸c˜oes em poroelasticidade e no estudo da influˆencia de edif´ıcios sobre os ventos em uma zona litorˆanea. Uma primeira an´alise foi realizada para verificar, atrav´es de modelos com-putacionais, a influˆencia que poros vazios ou incrusta¸c˜oes em rochas causam sobre a propaga¸c˜ao de ondas mecˆanicas. Para isso, foi comparado o tempo em que ondas do tipo P e S levavam para se propagar em um meio com essas caracter´ısticas, quando as propriedades el´asticas das incrusta¸c˜oes, como densidade e m´odulo de cisalhamento, eram alteradas. Utilizou-se como metodologia a resolu¸c˜ao num´erica das equa¸c˜oes diferenciais parciais das ondas el´asticas atrav´es do m´etodo dos elementos finitos usando o software FEniCS, cuja plataforma possibilita a implementa¸c˜ao de problemas de multi-f´ısica, onde diferentes equa¸c˜oes diferenciais podem ser resolvidas num mesmo dom´ınio espacial. Um conjunto de malhas com porosidade distintas foi criado para um dom´ınio bidimensional, onde foram tra¸cados sismogramas sint´eticos para serem analisados e comparados com re-sultados de meios homogˆeneos. A segunda parte da pesquisa consistiu em um estudo da intera¸c˜ao vento-edif´ıcios em uma regi˜ao da beira-mar de Fortaleza. Devido o crescimento da popula¸c˜ao nos grandes centros urbanos, a necessidade da cria¸c˜ao de edif´ıcios cada vez maiores torna-se imediata. Esse fenˆomeno tamb´em pode ser verificado em regi˜oes tur´ısticas, onde ´e preciso hospedar um n´umero elevado de pessoas. Essa verticaliza¸c˜ao interfere no fluxo de vento e pode afetar o conforto e a seguran¸ca de pedestres. Outra con-sequˆencia ´e a redu¸c˜ao da ventila¸c˜ao natural em bairros mais afastadas da orla mar´ıtima. Para melhor compreender esse fenˆomeno, um conjunto de simula¸c˜oes num´ericas foram re-alizadas utilizando a caixa de ferramenta OpenFOAM, onde foram resolvidas as equa¸c˜oes RANS com a turbulˆencia formulada pelo modelo k− . Foram considerados os casos onde os ventos eram provenientes das dire¸c˜oes NNE e SSE, com diferentes intensidades. A regi˜ao estudada correspondia a uma ´area de 1, 6× 105m2. Com os resultados, foi poss´ıvel
identificar os pontos em que acontecem uma maior acelera¸c˜ao do fluxo, provocado pelo efeito de Venturi, al´em do mapeamento de zonas de recircula¸c˜ao. Um perfil de velocidade vertical tamb´em foi tra¸cado. Para ventos superiores a 5 m/s, foi identificado uma redu¸c˜ao de 23% da sua intensidade, em localidades situadas a 1 km de distˆancia das barreiras criadas pelos edif´ıcios. Curvas da energia cin´etica turbulenta, dissipa¸c˜ao turbulenta e da fun¸c˜ao de participa¸c˜ao da energia cin´etica ao longo do dom´ınio tamb´em foram plotadas.
This work consists of a computational study in the mechanics of the continuum: appli-cations in poroelasticity and in the study of the influence of buildings on the winds in a coastal zone. A first analysis was performed to verify, through computational models, the influence that empty pores or incrustations in rocks cause on the propagation of mechani-cal waves. For this, the time in which P and S waves were propagated in a medium with these characteristics was compared when the elastic properties of the scale, such as den-sity and shear modulus, were altered. The numerical resolution of the partial differential equations of the elastic waves using the finite element method using the FEniCS software, whose platform allows the implementation of multi-physics problems, where different dif-ferential equations can be solved in the same spatial domain were used as methodology. A set of distinct porosity meshes was created for a two-dimensional domain, where synthetic seismograms were plotted to be analyzed and compared with homogeneous media results. The second part of the research consisted of a study of the wind-building interaction in a region of Fortaleza’s waterfront. Due to population growth in large urban centers, the need for ever-increasing building becomes immediate. This phenomenon can also be seen in tourist regions, where a large number of people are required. This verticalization in-terferes with the wind flow and can affect the comfort and safety of pedestrians. Another consequence is the reduction of natural ventilation in neighborhoods further away from the sea shore. To better understand this phenomenon, a set of numerical simulations were performed using the OpenFOAM toolbox, where the RANS equations were solved with the turbulence formulated by the k- model. We considered the cases where the winds came from the NNE and SSE directions, with different intensities. The region studied corresponded to an area of 1, 6× 105m2. With the results, it was possible to identify the
points at which a greater acceleration of the flow, caused by the Venturi effect occurs, besides the mapping of recirculation zones. A vertical velocity profile was also plotted. For winds above 5 m/s, a 23% reduction in intensity has been identified at locations 1 km away from barriers created by buildings. Curves of energetic turbulent kinetics, turbulent dissipation, and the role of the energetic kinetics along the domain were also plotted.
Tabela 1 – Valores de k e nas equa¸c˜oes de transporte. . . 44 Tabela 2 – Parˆametros utilizados para a simula¸c˜ao do meio el´astico homogˆeneo. . . . 61 Tabela 3 – Dimens˜oes da camada de esponja. . . 69 Tabela 4 – Comparativo dos erros entre as simula¸c˜oes. . . 70 Tabela 5 – Crit´erios de conforto desej´avel de vento para pedestres em v´arios ambientes. 75
Figura 1 – Movimento caracter´ıstico de uma onda longitudinal. A vibra¸c˜ao das part´ıculas e a propaga¸c˜ao da onda est˜ao na mesma dire¸c˜ao. . . 22 Figura 2 – Nas ondas transversais, as vibra¸c˜oes das part´ıculas se d˜ao em uma dire¸c˜ao
perpendicular a da propaga¸c˜ao da onda. . . 22 Figura 3 – Diagrama mostrando a propaga¸c˜ao da onda de superf´ıcie. . . 23 Figura 4 – As ondas Rayleigh propagam-se como as ondas na superf´ıcie da ´agua. . . 23 Figura 5 – Tens˜oes sobre um elemento na dire¸c˜ao x. . . 24 Figura 6 – Transi¸c˜ao do escoamento laminar par o turbulento, com Re' 2, 5 ×103. 33
Figura 7 – Deforma¸c˜ao sofrida por um elemento de fluido devido a tens˜ao cisalhante. 34 Figura 8 – As linhas de corrente em torno da bola s˜ao sim´etricas. . . 34 Figura 9 – A camada limite ´e laminar por uma curta distˆancia a jusante da borda de
ataque; existe uma regi˜ao de transi¸c˜ao onde, depois dela, o escoamento torna-se completamente turbulento. A velocidade do fluido varia de zero at´e U∞ atrav´es da camada limite. . . 35
Figura 10 –Espectro de energia em fun¸c˜ao do n´umero de onda. O m´aximo da energia se d´a para os redemoinhos que possuem o menor n´umero de onda. A medida que esse n´umero aumenta, a energia decresce rapidamente. . . 36 Figura 11 –Conhecida como ´arvore da pregui¸ca, essa ´arvore que fica no munic´ıpio de
Jericoacoara-CE cresceu inclinada devido aos fortes ventos que existem na regi˜ao. . . 38 Figura 12 –Perfil vertical da velocidade do vento desde a superf´ıcie at´e a altura do
vento geostr´ofico. O comprimento da rugosidade (z0) ´e a altura onde a
velocidade ´e nula. . . 39 Figura 13 –Comparativo entre o custo computacional dos modelos de turbulˆencia. . . 41 Figura 14 –Esquema de solu¸c˜ao num´erica de uma equacao diferencialL. . . 46 Figura 15 –Balan¸co de massa. . . 46 Figura 16 –Exemplo de bloco criado pelo blockMesh. Cada v´ertice ´e escrito em uma
lista, de tal forma que possa ser acessado utilizando seu r´otulo. Neste caso, a borda que conecta os v´ertices 1 e 5 ´e curva (lembrando que o tipo de borda ´e especificado no blockMesh). . . 49
hexa´edricas (b) que preenche toda a regi˜ao dentro do limite externo e em seguida come¸ca um processo de divis˜ao e refino nas superf´ıcies especifi-cadas (c). Quando essas divis˜oes estiverem conclu´ıdas, um processo de
remo¸c˜ao das c´elulas ser´a iniciado (d). . . 50
Figura 18 –Discretiza¸c˜ao do dom´ınio com uma malha triangular. . . 52
Figura 19 –Cole¸c˜ao de componentes que formam o projeto FEniCS. . . 54
Figura 20 –Sequˆencia de execu¸c˜ao dos componentes de FEniCS. . . 54
Figura 21 –Malha gerada gerada para as simula¸c˜oes. As diferentes cores indicam as subdivis˜oes do dom´ınio. . . 60
Figura 22 –`A esquerda tem-se as frentes de onda para o instante de tempo t = 6, 8× 10−3s. O detalhe da separa¸c˜ao entre ondas primarias e secundarias ´e apresentado no lado direito da figura. . . 60
Figura 23 –O aumento do coeficiente de viscosidade no meio em que as incrusta¸c˜oes est˜ao submetidas, promove um retardamento a propaga¸c˜ao das ondas. . 61
Figura 24 –Uma simula¸c˜ao foi realizada com todo dom´ınio tendo densidade ρ0. Em seguida, novas simula¸c˜oes foram feitas modificando a densidade na regi˜ao R3, que corresponde as incrusta¸c˜oes circulares no meio s´olido. As imagens correspondem a propaga¸c˜ao das ondas geradas para o instante de tempo t = 6,8×10−3s. A sequˆencia apresentada evidencia o retardo na frente de onda devido o aumento da densidade da referida regi˜ao, bem como as reflex˜oes geradas devido a mudan¸ca de meio. . . 62
Figura 25 –Uma simula¸c˜ao foi realizada com todo dom´ınio tendo densidade G0. Em seguida, novas simula¸c˜oes foram feitas modificando o m´odulo de cisa-lhamento na regi˜ao R3. As imagens correspondem a propaga¸c˜ao das ondas geradas para o instante de tempo t = 6,8×10−3s. Pela sequˆencia ´e poss´ıvel verificar o aumento da velocidade de propaga¸c˜ao das ondas devido ao crescimento do m´odulo de cisalhamento. . . 63
Figura 26 –Deslocamento no ponto P1 em fun¸c˜ao do tempo, devido a varia¸c˜ao da densidade das incrusta¸c˜oes no meio el´astico. . . 64
Figura 27 –Deslocamento no ponto P1 em fun¸c˜ao do tempo, devido ao aumento no m´odulo de cisalhamento das incrusta¸c˜oes no meio el´astico. . . 65
Figura 28 –A varia¸c˜ao da densidade produz mudan¸cas mais significativas `a velocidade de propaga¸c˜ao das ondas em meios el´asticos do que a mudan¸ca do m´odulo de cisalhamento. . . 66
de referˆencia utilizados para calcular o tempo m´edio de chegada da frente de onda. . . 66 Figura 30 –As curvas apresentam uma aparente convergˆencia no tempo de atraso da
onda el´astica, ao se propagar pelo meio, devido a presen¸ca das lacunas. Em todos os casos, os poros foram considerados circulares. O que os diferenciava de uma malha para outra, era apenas o tamanho do diˆametro e a disposi¸c˜ao espacial. . . 67 Figura 31 –A maior regi˜ao, em cor laranja, ser´a a camada de esponja. . . 67 Figura 32 –Solu¸c˜ao num´erica sem a camada de esponja no instante de tempo t = 10 s. 69 Figura 33 –Solu¸c˜ao num´erica para diferentes tipos de fun¸c˜ao no instante de tempo t
= 10 s. . . 70 Figura 34 –Devido a altura do pr´edio, parte do fluxo de ar ´e desviado para o n´ıvel
da rua. Esse fenˆomeno ´e comumente conhecido como downdraught effect. 74 Figura 35 –A canaliza¸c˜ao faz com que o fluxo de ar acelere na regi˜ao entre os edif´ıcios.
Esse ´e o chamado efeito de Venturi. . . 75 Figura 36 –Vista superior da regi˜ao de estudo obtida pelo Google Maps. A geometria
foi constru´ıda para os edif´ıcios contidos na ´area de destaque. . . 76 Figura 37 –Malha criada pelo OpenFoam atrav´es do snappyMexMesh, com
apro-ximadamente 3, 7 × 106 c´elulas. Um maior refinamento foi dado nas
proximidades dos edif´ıcios. . . 77 Figura 38 –Dom´ınio computacional. . . 78 Figura 39 –A regi˜ao escolhida possui um formato geom´etrico retangular. Sendo
as-sim, o vento que incide pelo leste atravessa uma maior ´area constru´ıda de obst´aculos (4 quarteir˜oes), em rela¸c˜ao ao incidente pelo norte (3 quar-teir˜oes). . . 79 Figura 40 –Efeito de Venturi devido a canaliza¸c˜ao do vento. ´E poss´ıvel perceber um
aumento de 20 a 40% na velocidade do fluxo de ar no in´ıcio das ruas em rela¸c˜ao a velocidade inicial. Essa an´alise foi feita para uma altura de 1, 6 m acima do n´ıvel do solo. . . 80
DD e EE correspondem a planos verticais onde foram calculados o fator de participa¸c˜ao π. Tamb´em ´e poss´ıvel observar o efeito de Venturi nas ruas mais estreitas, al´em de v´ortices nas proximidades dos obst´aculos. Nas ´areas circuladas a velocidade do vento sofreu uma acr´escimo de 24% em rela¸c˜ao a definida como condi¸c˜ao de entrada. . . 81 Figura 42 –Glyph do campo de velocidade. ´E poss´ıvel observar zonas de recircula¸c˜ao
entre os pr´edios e o downdraught effect. Estruturas localizadas nessas regi˜oes ou nas zonas de canto, podem experimentar press˜oes de vento muito al´em daquelas para as quais tenham sido projetadas, caso tenham negligenciado esse fator. . . 82 Figura 43 –Campo de velocidade para diferentes alturas. Para estes casos, foi
ado-tada como condi¸c˜ao de entrada uma velocidade com m´odulo de 5 m/s. . . 83 Figura 44 –Divis˜ao do dom´ınio em planos verticais ao longo do eixo x. Em cada uma
dessas se¸c˜oes, foi calculada a velocidade m´edia dos ventos e o fator de participa¸c˜ao. . . 84 Figura 45 –Varia¸c˜ao da velocidade dos ventos ao longo do eixo x. Os edif´ıcios est˜ao
compreendidos entre o intervalo de 20 a 380 m e foi considerado para a condi¸c˜ao de inlet ventos provenientes da dire¸c˜ao NNE. . . 84 Figura 46 –Varia¸c˜ao da velocidade dos ventos ao longo do eixo x. Foram simulados
cinco velocidades distintas para inlet: 1 m/s, 2 m/s, 3 m/s, 4 m/s e 5 m/s. Nesse caso foi considerado que os ventos s˜ao incidem atrav´es da dire¸c˜ao ESE. Os edif´ıcios est˜ao compreendidos entre o intervalo de 0 a 450 m. . . 85 Figura 47 –Gr´afico da fra¸c˜ao Umin/Umax × Umax para valores de Umax entre 1 m/s
e 5m/s. Observe que a fra¸c˜ao decresce de ≈ 0.45 para ≈ 0.4 e que a segunda derivada ´e positiva. . . 85 Figura 48 –Gr´afico da energia cin´etica turbulenta (k) para valores de Uinlet entre
1m/s e 5m/s. Note que a energia cin´etica turbulenta aumenta com o crescimento de Uinlet. . . 86
Figura 49 –Dissipa¸c˜ao da energia cin´etica turbulenta () para valores de Uinlet entre
1 m/s e 5 m/s. Observe que a dissipa¸c˜ao da energia cin´etica turbulenta aumenta com o crescimento de Uinlete ´e mais forte sobre a ´area constru´ıda. 86
Figura 50 –Participa¸c˜ao calculada nos planos verticais tra¸cados em: x=0, x=110, x=220, x=340 e x=450. . . 87
Se¸c˜ao 2.2 σii Tens˜ao normal τij Tens˜ao cisalhante σ Tensor de tens˜oes Tensor de deforma¸c˜oes λ e µ Parˆametros de Lam`e G M´odulo de cisalhamento K M´odulo volum´etrico ρ Densidade ~u Deslocamento do s´olido ~b For¸ca de corpo θ Dilata¸c˜ao
cp Velocidade de propaga¸c˜ao da onda prim´aria
cs Velocidade de propaga¸c˜ao da onda secund´aria
~ω vetor rota¸c˜ao Se¸c˜ao 2.3 ~ U Deslocamento do flu´ıdo p press˜ao do fluido β Porosidade k Permeabilidade µ viscosidade ρ11, ρ12 e ρ22 Coeficientes de massa Se¸c˜ao 3.1 Re N´umero de Reynolds µ Viscosidade absoluta µt Viscosidade turbulenta µef f Viscosidade efetiva D Comprimento
U Campo de velocidade do flu´ıdo U∞ Velocidade de corrente livre
E Energia
λ Comprimento de onda dos redemoinhos λ Eq. 3.4 Escala de comprimento
Dissipa¸c˜ao de energia ν Viscosidade cinem´atica
τ Escala de tempo
v Escala de velocidade
u∗ Velocidade de fric¸c˜ao
η Parˆametro escalar de viscosidade
P Press˜ao modificada
z0 Comprimento de rugosidade
zr Altura de referˆencia
α Expoente de Hellmann
U , V e W Componentes do valor m´edio da velocidade u’, v’ e w’ Componentes da flutua¸c˜ao da velocidade β Primeiro parˆametro de Newmark
DNS Direct Numerical Simulation DF Diferen¸cas Finitas
EDP Equa¸c˜ao Diferencial Parcial MVF M´etodo dos Volumes Finitos MEF M´etodo dos Elementos Finitos LES Large Eddy Simulation
LSNROP Laborat´orio de Simula¸c˜ao Num´erica de Redes e ´Oleos Pesados PML Perfectly Matched Layer
RANS Reynolds Averaged Navier-Stokes VTI Vertical Transverse Isotropy UFL Unified Form Language
FFC FEniCS Form Compiler
FIAT Element Finit Tabulator
CFD Computational Fluid Dynamics VTK Visualization Toolkit
1 INTRODUC¸ ˜AO . . . 19
2 MEC ˆANICA DOS S ´OLIDOS . . . 21
2.1 Ondas S´ısmicas . . . 21
2.1.1 Ondas Longitudinais . . . 21
2.1.2 Ondas Transversais . . . 21
2.1.3 Ondas Love . . . 22
2.1.4 Ondas Rayleigh . . . 23
2.2 Propaga¸c˜ao de Ondas El´asticas em Meios Cont´ınuos . . . 23
2.2.1 Ondas P . . . 26
2.2.2 Ondas S . . . 27
2.3 Propaga¸c˜ao de Ondas em Meios Porosos Saturados . . . 28
3 MEC ˆANICA DOS FLUIDOS . . . 32
3.1 Escoamento laminar e escoamento turbulento . . . 32
3.2 Camada limite . . . 33
3.3 Perfil de velocidade dos ventos . . . 37
3.4 As equa¸c˜oes de Navier Stokes . . . 38
3.5 Modelo de Turbulˆencia RANS . . . 41
3.5.1 Modelo k − . . . 44
4 M´ETODOS NUM´ERICOS . . . 45
4.1 Introdu¸c˜ao ao M´etodo dos Volumes Finitos . . . 45
4.1.1 OpenFOAM . . . 47
4.1.1.1 Pr´e-processamento . . . 48
4.1.1.2 Solu¸c˜ao . . . 49
4.1.1.3 P´os-processamento . . . 50
4.2 Introdu¸c˜ao ao M´etodo dos Elementos Finitos . . . 50
4.2.1 FEniCS . . . 53
5 PROPAGAC¸ ˜AO DE ONDAS EL ´ASTICAS EM MEIOS HE-TEROGˆENEOS . . . 56
5.1 Introdu¸c˜ao . . . 56
5.2 Metodologia . . . 58
5.3 Resultados . . . 61
6.1 Introdu¸c˜ao . . . 72
6.1.1 Efeitos causados pelas constru¸c˜oes . . . 74
6.2 Metodologia . . . 75
6.3 Resultados . . . 79
6.4 Conclus˜ao . . . 87
ANEXO A -- INTERNATIONAL JOURNAL OF MODERN PHYSICS C . . . 89
1 INTRODUC¸ ˜AO
Com o aumento do poder de processamento dos computadores nas ´ultimas d´ecadas, tornou-se vi´avel analisar simultaneamente, por meio de simula¸c˜oes num´ericas, os diversos fenˆomenos f´ısicos que acontecem em eventos do mundo real. Esse conceito ´e chamado de multif´ısica.
Antigamente, pequenas simula¸c˜oes poderiam demorar tanto tempo que se tor-navam invi´aveis de serem reproduzidas. Dessa forma, para continuar a pesquisa, os mode-los precisavam sofrer uma s´eria de simplifica¸c˜oes para serem estudados de forma individual. Esta tese apresenta um conjunto de simula¸c˜oes num´ericas em mecˆanica do cont´ınuo para dois estudos de caso: o primeiro consistiu na an´alise dos parˆametros que influenciam a propaga¸c˜ao de ondas mecˆanicas em meios el´asticos homogˆeneos ou meios el´asticos com incrusta¸c˜oes; j´a o segundo, tratou dos impactos causados devido a presen¸ca de edif´ıcios em uma zona litorˆanea na circula¸c˜ao dos ventos, para regi˜oes que estivessem at´e 1,5 km de distˆancia das constru¸c˜oes.
O estudo de perturba¸c˜oes mecˆanicas em meios materiais ´e frequente em f´ısica e dele resultaram v´arias aplica¸c˜oes tecnol´ogicas relevantes tais como o imageamento atrav´es de ultrassom usado em medicina e ciˆencias de materiais, e o imageamento s´ısmico para identifica¸c˜ao, localiza¸c˜ao e prospec¸c˜ao de reservas minerais. No caso de ondas s´ısmicas sobre a crosta terrestre o meio pode ser considerado el´astico e heterogˆeneo. A ind´ustria do petr´oleo usa a prospec¸c˜ao s´ısmica para localizar potenciais reservas de ´oleo e g´as, os quais se encontram em rochas porosas.
No que diz respeito a constru¸c˜ao de grandes edif´ıcios em regi˜oes `a beira-mar, a presen¸ca destes reduzem a velocidade dos ventos em bairros mais afastados da orla, impedindo que haja o processo de refrigera¸c˜ao natural, contribuindo para a forma¸c˜ao das ilhas de calor. Al´em disso, outros impactos como a canaliza¸c˜ao do fluxo de ar, a forma¸c˜ao de zonas de recircula¸c˜ao, a dispers˜ao de poluentes, etc, s˜ao afetados diretamente por essas constru¸c˜oes.
As simula¸c˜oes foram realizadas em softwares gratuitos, de c´odigo aberto (Open-FOAM e FEniCS), que permitiram implementar a abordagem multif´ısica, onde equa¸c˜oes diferenciais parciais distintas puderam ser solucionadas concomitantemente. Por se tratar de problemas que exigiam malhas de geometria complexa e com um grande n´umero de elementos, fez-se necess´ario um estudo de convergˆencia.
Visando uma melhor condu¸c˜ao da leitura deste trabalho, os pr´oximos cinco cap´ıtulos foram organizados de tal maneira que os trˆes primeiros correspondem a
fun-damenta¸c˜ao te´orica exigida para a compreens˜ao dos problemas e os dois ´ultimos s˜ao as aplica¸c˜oes num´ericas nos estudos de caso selecionados. Sendo assim, o segundo cap´ıtulo trata de efeitos relacionados a mecˆanica dos s´olidos enquanto o terceiro cap´ıtulo aborda os conceitos referentes a mecˆanica dos fluidos. O quarto cap´ıtulo apresenta os principais m´etodos num´ericos utilizados para solucionar problemas que envolvam equa¸c˜oes diferen-ciais pardiferen-ciais. Nos cap´ıtulos cinco e seis est˜ao descritas toda metodologia e resultado das simula¸c˜oes da propaga¸c˜ao de ondas el´asticas em meios heterogˆeneos e dos impactos causados pela intera¸c˜ao dos ventos com edif´ıcios em uma zona litorˆanea, respectivamente.
2 MEC ˆANICA DOS S ´OLIDOS
Neste cap´ıtulo ser˜ao apresentados os tipos de ondas s´ısmicas e a teoria para a propaga¸c˜ao de ondas em meios el´asticos e poroel´asticos que estejam completamente saturados.
2.1 Ondas S´ısmicas
O deslocamento causado devido a propaga¸c˜ao de ondas em um meio hete-rogˆeneo ´e bastante complexo. Para o estudo desse tipo de problema s˜ao feitas algumas simplifica¸c˜oes do caso real, como assumir que o deslocamento das part´ıculas presentes no meio ´e el´astico (as part´ıculas retornam para a posi¸c˜ao de origem) e que o meio hete-rogˆeneo pode ser dividido em sucessivas camadas homogˆeneas. Mesmo n˜ao sendo verdade em determinadas regi˜oes, essas simplifica¸c˜oes representam, com boa aproxima¸c˜ao, o com-portamento do caso real.
As ondas s´ısmicas propagam-se de maneira similar `as ondas sonoras. En-tretanto, essas normalmente possuem baixas frequˆencias, compreendidas entre d´ecimos a cent´esimos de Hertz. A amplitude de tais ondas tamb´em decresce com o inverso da distˆancia `a fonte. Elas podem ser de v´arios tipos, sendo as principais: longitudinais, transversais, Love e Rayleigh, onde as duas primeiras s˜ao ondas de corpo, que propagam-se por todo o meio, e as duas ´ultimas s˜ao ondas de superf´ıcie [1].
2.1.1 Ondas Longitudinais
Tamb´em chamadas em sismologia de ondas prim´arias ou simplesmente ondas P, por serem as primeiras a serem registradas quando ocorre um sismo, s˜ao ondas nas quais as part´ıculas do meio oscilam para a frente e para tr´as ao longo da mesma dire¸c˜ao de propaga¸c˜ao da onda (Fig. 1).
Conforme ´e poss´ıvel observar, esse tipo de onda apresenta alternadamente uma regi˜ao de compress˜ao seguida de uma rarefa¸c˜ao (ou de distens˜ao), provocando altera¸c˜oes de volume aos corpos s´olidos el´asticos.
2.1.2 Ondas Transversais
Tamb´em conhecidas como ondas de cisalhamento, ocorrem quando as part´ıculas do meio oscilam perpendicularmente `a dire¸c˜ao de propaga¸c˜ao da onda (Fig. 2). S˜ao mais lentas que as ondas longitudinais e por isso s˜ao chamadas de ondas secund´arias ou ondas
Figura 1 – Movimento caracter´ıstico de uma onda longitudinal. A vibra¸c˜ao das part´ıculas e a propaga¸c˜ao da onda est˜ao na mesma dire¸c˜ao.
Fonte: Adaptado de https://earthquake.usgs.gov
S. Em geral s˜ao ondas em que os esfor¸cos n˜ao mudam o volume de qualquer parte do material.
Figura 2 – Nas ondas transversais, as vibra¸c˜oes das part´ıculas se d˜ao em uma dire¸c˜ao perpendicular a da propaga¸c˜ao da onda.
Fonte: Adaptado de https://earthquake.usgs.gov
Essas ondas podem estar polarizadas no plano horizontal ou vertical sendo chamadas em cada um desses casos de ondas SH ou SV, respectivamente. Em geral, propagam-se apenas em meios s´olidos, uma vez que os fluidos com baixa viscosidade n˜ao suportam tens˜oes de cisalhamento.
2.1.3 Ondas Love
S˜ao ondas superficiais resultantes da superposi¸c˜ao de ondas com cisalhamento horizontal das camadas mais superiores da terra, conforme est´a representado na Fig. 3. Recebem esse nome em homenagem ao matem´atico britˆanico que estudou esse modelo, A.E.H. Love.
As ondas Love viajam com uma velocidade menor que as ondas P ou S, mas mais r´apido que as ondas Rayleigh. Essas ondas s˜ao observadas somente quando h´a uma camada de baixa velocidade sobreposta a uma camada/sub-camadas de alta velocidade.
Figura 3 – Diagrama mostrando a propaga¸c˜ao da onda de superf´ıcie. Fonte: Adaptado de https://earthquake.usgs.gov
2.1.4 Ondas Rayleigh
Essas ondas s˜ao o resultado das superposi¸c˜ao de ondas P e SV, como as encon-tradas nas superf´ıcie da ´agua. As part´ıculas do meio que s˜ao atingidas pela perturba¸c˜ao descrevem um movimento el´ıptico contr´ario ao sentido de propaga¸c˜ao conforme represen-tado na Fig. 4.
Figura 4 – As ondas Rayleigh propagam-se como as ondas na superf´ıcie da ´agua. Fonte: Adaptado de https://earthquake.usgs.gov
Embora as part´ıculas atingidas pelas ondas de Rayleigh e Love n˜ao sejam apenas as presentes na superf´ıcie livre, a amplitude do movimento desse tipo de onda decrescem rapidamente com a profundidade.
2.2 Propaga¸c˜ao de Ondas El´asticas em Meios Cont´ınuos
Consideremos um cubo infinitesimal, em equil´ıbrio est´atico, de massa dm e volume dV = dx dy dz. Sejam σij e τij as tens˜oes normais e cisalhantes, respectivamente,
atuantes no centro do elemento diferencial. Nessa nota¸c˜ao o primeiro ´ındice denota o plano no qual a tens˜ao ´e aplicada e o segundo a dire¸c˜ao da tens˜ao. Dessa forma, as tens˜oes atuantes ao longo da dire¸c˜ao x em cada face do elemento podem ser obtidas atrav´es de uma expans˜ao em s´eries de Taylor em torno do centro do elemento, conforme mostrado na Fig. 5.
Figura 5 – Tens˜oes sobre um elemento na dire¸c˜ao x.
Fonte: Fox, et al. Introdu¸c˜ao `a Mecˆanica dos Fluidos. Grupo Gen-LTC, 8a edi¸c˜ao.
for¸cas nessa dire¸c˜ao. Assim procedendo,
dFSx = σxx+ ∂σxx ∂x dx 2 dydz− σxx− ∂σxx ∂x dx 2 dydz + τyx+ ∂τyx ∂y dy 2 dxdz− τyx− ∂τyx ∂y dy 2 dxdz + τzx+ ∂τzx ∂z dz 2 dxdy− τzx− ∂τzx ∂z dz 2 dxdy, (2.1)
o que resulta em, dFSx = ∂σxx ∂x + ∂τyx ∂y + ∂τzx ∂z dxdydz. (2.2)
Seja bx a componente da for¸ca de corpo dFBx, por unidade de massa, ao longo do eixo x. A for¸ca resultante nessa dire¸c˜ao, dFx, ser´a dada por
dFx = dFSx + dFBx = ∂σxx ∂x + ∂τyx ∂y + ∂τzx ∂z + ρbx dV, (2.3)
onde ρ ´e a densidade do elemento infinitesimal. Pela segunda lei de Newton,
dFx = dm ∂2u x ∂t2 = ρ ∂2u x ∂t2 dV, (2.4)
Das equa¸c˜oes (2.3) e (2.4,) conclui-se que ρ∂ 2u x ∂t2 = ∂σxx ∂x + ∂τyx ∂y + ∂τzx ∂z + ρbx, (2.5)
similarmente, para as outras dire¸c˜oes obt´em-se:
ρ∂ 2u y ∂t2 = ∂τxy ∂x + ∂σyy ∂y + ∂τzy ∂z + ρby, (2.6) ρ∂ 2u z ∂t2 = ∂τxz ∂x + ∂τyz ∂y + ∂σzz ∂z + ρbz. (2.7)
Para um material que mant´em caracter´ısticas el´asticas, pode-se expressar as tens˜oes pela lei de Hooke generalizada. Quando trata-se de um meio isotr´opico, que possui propriedades independentes da dire¸c˜ao no espa¸co, a rela¸c˜ao entre o tensor de tens˜oes, σ, e o tensor de deforma¸c˜oes, , ´e simplificada por
σ = λtr () I + 2µ, (2.8)
onde λ = K -2
3G e µ = G s˜ao as constantes de Lam´e, com G sendo o m´odulo de cisalhamento
e K o m´odulo volum´etrico. Al´em disso, I ´e o tensor identidade e a forma matricial do tensor de tens˜oes ´e dada por
σ = σxx τxy τxz τyx σyy τyz τzx τzy σzz . (2.9)
Em um material el´astico e isotr´opico as seguintes rela¸c˜oes s˜ao v´alidas:
σxx = λθ + 2µxx (2.10)
σyy = λθ + 2µyy (2.11)
σzz = λθ + 2µzz (2.12)
τyx= 2µyx (2.13)
τzx= 2µzx, (2.14)
sendo θ = ∂u/∂x = xx + yy + zz a dilata¸c˜ao do material. Dessa forma, podemos
reescrever a Eq. (2.5) da seguinte maneira,
ρ∂ 2u x ∂t2 = ∂ (λθ + 2µxx) ∂x + ∂ (2µyx) ∂y + ∂ (2µzx) ∂z + ρbx. (2.15)
Pela defini¸c˜ao da deforma¸c˜ao, xx = ∂ux ∂x , (2.16) yx = 1 2 ∂ux ∂y + ∂uy ∂x , (2.17) zx = 1 2 ∂ux ∂z + ∂uz ∂x , (2.18)
substituindo as Eq. (2.16), (2.17) e (2.18) em (2.15) ´e poss´ıvel chegar na se-guinte express˜ao ρ∂ 2u x ∂t2 = (λ + µ) ∂θ ∂x + µ∇ 2u x+ ρbx, (2.19)
o mesmo ´e v´alido para as outras dire¸c˜oes. ´E conveniente escrever essa equa¸c˜ao em sua forma vetorial,
ρ∂
2~u
∂t2 = (λ + µ)∇ (∇ · ~u) + µ∇
2~u + ρ~b, (2.20)
onde esta ´e a equa¸c˜ao da elastodinˆamica para ondas el´asticas lineares em um meio ho-mogˆeneo e isotr´opico.
2.2.1 Ondas P
Consideremos o caso trivial onde n˜ao existem for¸cas de campo (| ~b |= 0). Dessa forma a Eq. (2.20) se resume a
ρ∂
2~u
∂t2 = (λ + µ)∇ (∇ · ~u) + µ∇
2~u. (2.21)
Aplicando o operador divergente nos dois lados dessa equa¸c˜ao, obt´em-se:
∇ · ρ∂ 2~u ∂t2 =∇ ·(λ + µ) ∇ (∇ · ~u) + µ∇2~u , (2.22) ρ∂ 2 ∂t2 (∇ · ~u) = (λ + µ) ∇ 2( ∇ · ~u) + µ∇2(∇~·u) , (2.23) onde foi usado∇·∇2~u =∇2(∇~·u). A equa¸c˜ao (2.23), tamb´em pode ser escrita da seguinte
forma: ρ ∂ 2 ∂~ut2 (∇ · ~u) = (λ + 2µ) ∇ 2( ∇ · ~u) , (2.24) ρ∂ 2θ ∂t2 = (λ + 2µ)∇ 2θ. (2.25)
A (2.25) trata-se de uma equa¸c˜ao de onda para a propaga¸c˜ao da dilata¸c˜ao e pode ser reescrita como
∇2θ = 1
cp
∂2θ
∂t2, (2.26)
sendo cp a velocidade de propaga¸c˜ao, dada por
cp =
s
λ + 2µ
ρ . (2.27)
A Equa¸c˜ao (2.25) ´e conhecida como a equa¸c˜ao da onda tridimensional e aparece em muitos problemas f´ısicos. ´E comumente chamada de onda longitudinal P. Em um meio cont´ınuo, el´astico e isotr´opico, os problemas definidos por essa equa¸c˜ao possuem simetria esf´erica.
2.2.2 Ondas S
Aplicando o operador rotacional em ambos os lados da Eq. (2.20) e desconsi-derando as for¸cas de campo, temos
ρ∂
2
∂t2∇ × ~u = (λ + µ) ∇ × ∇ (∇ · ~u) + µ∇ × ∇
2~u. (2.28)
Para prosseguir o desenvolvimento matem´atico, faremos uso das seguintes propriedades: i)∇2~a =∇ (∇ · ~a) − ∇ × ∇ × ~a para um vetor ~a;
ii)∇ × ∇F = 0 para qualquer fun¸c˜ao escalar F ; iii) ∇ · ∇ × ~a = 0 para um vetor ~a;
Podemos escrever∇ × ∇2~u, fazendo uso da propriedade (i), da seguinte forma
∇ × ∇2~u =∇ × [∇ (∇ · ~u) − ∇ × ∇ × ~u] , (2.29) pela propriedade (ii),
∇ × ∇2~u =−∇ × ∇ × ∇ × ~u, (2.30)
substituindo ~a por∇ × ~u na propriedade (i),
∇2(∇ × ~u) = ∇ (∇ · ∇ × ~u) − ∇ × ∇ × ∇ × ~u (2.31) −∇ × ∇ × ∇ × ~u = −∇ (∇ · ∇ × ~u) + ∇2(∇ × ~u) , (2.32) sendo assim, ao substituir (2.32) em (2.30), chega-se em
onde, por interm´edio da propriedade (iii), conclui-se que
∇ × ∇2~u =∇2(∇ × ~u) . (2.34)
Ao substituir (2.34) em (2.28) determina-se a equa¸c˜ao criada ao aplicar o rotacional na equa¸c˜ao da elastodinˆamica
ρ∂
2
∂t2∇ × ~u = (λ + µ) ∇ × ∇ (∇ · ~u) + µ∇
2(∇ × ~u) , (2.35)
entretanto, o primeiro termo depois da igualdade ´e zero, uma vez que o rotacional da divergˆencia de um campo de vetores ´e nulo. Portanto,
ρ∂ 2 ∂t2∇ × ~u = µ∇ 2( ∇ × ~u) , (2.36) ou ainda, ∇2(∇ × ~u) = ρ µ ∂2 ∂t2∇ × ~u. (2.37)
A Eq. (2.37) pode ser reescrita em termos do vetor de rota¸c˜ao ~ω = (1/2)(∇~u). Assim procedendo,
∇2~ω = 1 cs
∂2~u
∂t2, (2.38)
e nesse caso cs ´e a velocidade da onda, obtida por
cs=
r µ
ρ. (2.39)
A Eq. (2.38) ´e uma equa¸c˜ao de ondas transversais ou de cisalhamento, tamb´em chamadas de onda do tipo S (shear ou secund´arias).
2.3 Propaga¸c˜ao de Ondas em Meios Porosos Saturados
Em seu primeiro trabalho sobre ondas el´asticas que se propagam em meios porosos [2], Biot formulou um modelo que representava os casos de baixas frequˆencias, onde a suposi¸c˜ao de fluxo de Poiseuille era v´alida. Os poros foram considerados totalmente saturados por um fluido viscoso, como ´agua. Em sua teoria, as tens˜oes aplicadas sobre um volume unit´ario (cubo) de um sistema s´olido-fluido poderiam ser divididas em duas partes:
1) componentes de for¸cas atuantes nas partes s´olidas de cada face do cubo σx τz τy τx σy τz τy τx σz , (2.40)
2) e as for¸cas que atuam nas partes fluidas de cada face do cubo, representadas por s 0 0 0 s 0 0 0 s , (2.41)
sendo s um escalar proporcional a press˜ao p do fluido de acordo com
s =−βp, (2.42)
e β a fra¸c˜ao da ´area de fluido por unidade de se¸c˜ao transversal.
Por meio dessas defini¸c˜oes ´e poss´ıvel escrever o tensor de tens˜oes da parte s´olida, ex 12γz 12γy 1 2γx ey 1 2γz 1 2γy 1 2γx ez , (2.43) com ex = ∂ux ∂x , etc., (2.44) γz = ∂ux ∂y + ∂uy ∂x , etc., (2.45)
onde ux, uy e uz s˜ao as componentes do vetor deslocamento do s´olido.
Similarmente, ´e poss´ıvel descrever o deslocamento m´edio do fluido e representar o fluxo volum´etrico. A tens˜ao no elemento de fluido ´e definida pela dilata¸c˜ao,
= ∂Ux ∂x + ∂Uy ∂y + ∂Uz ∂z , (2.46)
sendo Ux, Uy e Uz as componentes do campo vetorial de deslocamento do fluido.
e isotropia do material, ´e poss´ıvel reduzir as rela¸c˜oes tens˜ao-deforma¸c˜ao a σx = 2N ex+ Ae + Q (2.47) σy = 2N ey + Ae + Q (2.48) σz = 2N ez+ Ae + Q (2.49) τx = N γx (2.50) τy = N γy (2.51) τz = N γz (2.52) s = Qe + R, (2.53)
com e = ex + ey + ez. Ao examinar o significado dessas constantes, percebe-se que A e
N correspondem aos coeficientes de Lam`e, da teoria da elasticidade, onde N representa o m´odulo volum´etrico do material [2].
O coeficiente R ´e uma medida da press˜ao necess´aria no fluido para deslocar um determinado volume de fluido para o elemento infinitesimal em an´alise, enquanto o volume total permanece constante. O coeficiente Q est´a relacionado a natureza do acoplamento entre a mudan¸ca de volume da parte s´olida e da parte fluida.
Ap´os escrever a energia cin´etica do sistema e aplicar as equa¸c˜oes de Lagrange, ´e poss´ıvel chegar mediante algum algebrismo na equa¸c˜ao que descreve a dinˆamica do movimento: ∂σx ∂x + ∂τz ∂y + ∂τy ∂z = ∂2 ∂t2 (ρ11ux+ ρ12Ux) , (2.54) ∂s ∂x = ∂2 ∂t2(ρ12ux+ ρ22Ux) , etc. (2.55)
Nesse caso, ρ11, ρ12, e ρ22 s˜ao coeficientes de massa que levam em conta o fato do fluxo
relativo de fluidos atrav´es dos poros n˜ao ser uniforme. As equa¸c˜oes para a propaga¸c˜ao de ondas s˜ao obtidas substituindo as tens˜oes nas rela¸c˜oes dinˆamicas (2.54) pelas express˜oes de tens˜ao e deforma¸c˜ao apresentadas na Eq. (2.47). Sendo assim, temos:
N∇2~u +∇ [(A + N) e + Q] = ∂ 2 ∂t2 ρ11~u + ρ12U~ (2.56) ∇ (Qe + R) = ∂ ∂t2 ρ12~u + ρ22U~ , (2.57)
de tal forma que as seis equa¸c˜oes para as seis componentes desconhecidos dos desloca-mentos ~u e ~U determinam completamente a propaga¸c˜ao.
dentro da matriz s´olida. Reescrevendo as Eqs. (2.56) e (2.57) em termos da fun¸c˜ao de dissipa¸c˜ao, temos: N∇2~u +∇ [(A + N) e + Q] = ∂ 2 ∂t2 ρ11~u + ρ12U~ + b∂ ∂t ~u− ~U (2.58) ∇ (Qe + R) = ∂ ∂t2 ρ12~u + ρ22U~ − b∂ ∂t ~u− ~U, (2.59) onde o coeficiente b est´a relacionado a permeabilidade da lei de Darcy com k dado por:
b = µβ
2
k , (2.60)
3 MEC ˆANICA DOS FLUIDOS
Os movimentos turbulentos s˜ao caracterizados por flutua¸c˜oes instantˆaneas da velocidade, temperatura e outros escalares que dificultam a cria¸c˜ao de uma abordagem determin´ıstica do fenˆomeno [3] . Trata-se, portanto, de uma caracter´ıstica do escoamento e n˜ao do fluido. Em virtude destas flutua¸c˜oes, o estado turbulento possui significativa contribui¸c˜ao no transporte de momento, calor e massa.
A compreens˜ao da turbulˆencia ´e de grande interesse pr´atico, pois est´a presente em diferentes escalas, desde a dinˆamica da atmosfera a escoamentos em dutos ou canais. A sua modelagem permite reduzir custos, aumentar eficiˆencia e melhorar a seguran¸ca de projetos tecnol´ogicos como turbinas e´olicas, na matriz energ´etica ou ve´ıculos terrestre, mar´ıtimo e a´ereo, nos meios de transporte.
3.1 Escoamento laminar e escoamento turbulento
Um escoamento ´e dito do tipo laminar quando o fluxo segue de forma orde-nada, com baixas oscila¸c˜oes ou em lˆaminas planas e paralelas, como sugere o pr´oprio nome. J´a o escoamento turbulento acontece quando as part´ıculas fluidas se misturam rapidamente devido a flutua¸c˜ao do campo de velocidade, gerando um movimento ca´otico e, aparentemente, aleat´orio (Fig. 6). Esse fenˆomeno acontece quando as for¸cas viscosas no fluido n˜ao conseguem amortecer tais oscila¸c˜oes.
O fluxo turbulento promove um aumento nas for¸cas de arrasto e na dissipa¸c˜ao da energia, sendo por isso que na maioria das vezes tenta-se evit´a-lo. Entretanto, h´a situa¸c˜oes onde a turbulˆencia ´e desej´avel, como no escoamento do sangue atrav´es dos vasos sangu´ıneos, pois o movimento aleat´orio permite o contato de todas as c´elulas de sangue com as paredes dos vasos para trocar oxigˆenio e outros nutrientes [4].
Uma forma de identificar a separa¸c˜ao de um escoamento laminar para o es-coamento turbulento ´e atrav´es do n´umero de Reynolds (Re), que mede a raz˜ao entre as for¸cas de in´ercia e viscosas, dado por
Re = ρU D
µ , (3.1)
em que ρ e µ s˜ao, respectivamente, a massa espec´ıfica e a viscosidade do fluido e U e D s˜ao a velocidade e o comprimento t´ıpicos do escoamento.
Um fluido de alta viscosidade ´e capaz de conter as flutua¸c˜oes mais efetivamente que um fluido de baixa viscosidade e, por isso, permanecer laminar mesmo que esteja
Figura 6 – Transi¸c˜ao do escoamento laminar par o turbulento, com Re' 2, 5 ×103.
Fonte: Structure and dynamics of round turbulent jets [5].
sujeito a vaz˜oes relativamente altas. Entretanto, as for¸cas de in´ercia geradas por um fluido de alta densidade, devido `as flutua¸c˜oes aleat´orias no movimento, poder˜ao ser t˜ao significativas que este fluido poder´a sofrer uma transi¸c˜ao para o regime turbulento mesmo em vaz˜oes relativamente baixas.
3.2 Camada limite
O estudo da hidrodinˆamica permitiu a explica¸c˜ao de escoamentos limitados devido as considera¸c˜oes impostas na formula¸c˜ao da teoria, dentre elas a de o fluido ser ideal. Sendo assim, este era assumido como laminar, incompress´ıvel e n˜ao viscoso. Para os casos onde a intera¸c˜ao fluido estrutura fosse desprez´ıvel e que se utilizasse ´agua ou ar, que possuem baixa viscosidade, a teoria fornecia bons resultados.
Euler adicionou em suas equa¸c˜oes a compressibilidade do fluido. Sua express˜ao correspondia `as equa¸c˜oes de Navier-Stokes quando as componentes dissipativas fossem irrelevantes frente `as convectivas. Apesar do avan¸co gerado, muitos resultados de experi-mentos conhecidos na literatura ainda divergiam de resultados te´oricos previstos. Grande parte disso era devido aos efeitos viscosos.
Consideremos o caso onde um fluido repousa entre duas placas planas e infinitas separadas por uma distˆancia infinitesimal y (Fig. 7). A experiˆencia mostra que, em fluidos Newtonianos, ao se aplicar uma for¸ca na placa superior, deslizando-a horizontalmente com uma velocidade u, ´e produzida uma tens˜ao de cisalhamento τ no fluido dada por,
τ ∝ du
dy. (3.2)
A viscosidade absoluta (ou dinˆamica) nada mais ´e do que a constante de pro-porcionalidade na Eq. 3.2, sendo portanto uma caracter´ıstica do fluido. Logo,
τ = µdu
Assumir um fluido como n˜ao viscoso traz grandes implica¸c˜oes, como por exem-plo a n˜ao existˆencia de for¸cas de arrasto. Sendo assim, se fosse poss´ıvel empurrar um barco em uma ´agua com viscosidade zero, ele seguiria com velocidade constante, uma vez que n˜ao existiria for¸cas resistivas que ocasionassem a dissipa¸c˜ao de energia no sistema.
Figura 7 – Deforma¸c˜ao sofrida por um elemento de fluido devido a tens˜ao cisalhante. Fonte: Pr´oprio autor.
Outro exemplo seria o escoamento de um fluido incompress´ıvel em torno de uma bola (Fig. 8). Tomando como hip´otese que o n´umero de Reynolds seja muito grande, o fluido poderia ser tratado como n˜ao viscoso o que ocasionaria uma simetria nas linhas de corrente e no campo de press˜ao em torno da bola. Consequentemente, poderia-se concluir que n˜ao haveria for¸cas de arrasto resultantes sobre a bola devido a press˜ao ou atrito, o que constitui o famoso paradoxo de d’Alembert. Evidentemente isso n˜ao condiz com a realidade, pois um fluido real, naturalmente, op˜oe resistˆencia ao deslocamento de um corpo atrav´es dele. Esse paradoxo seria resolvido por Prandtl, cerca de 150 anos depois, com o conceito de camada limite.
Figura 8 – As linhas de corrente em torno da bola s˜ao sim´etricas. Fonte: Pr´oprio autor.
Prandtl mostrou [6] que muitos escoamentos viscosos podem ser analisados dividindo o escoamento em duas regi˜oes, uma perto da fronteira s´olida e a outra cobrindo o resto do escoamento. Apenas na camada delgada junto `a superf´ıcie do obst´aculo (chamada de camada limite) o efeito da viscosidade ´e importante. Tal camada possui espessura consideravelmente menor do que as dimens˜oes do obst´aculo e nela a velocidade varia
rapidamente, desde um valor nulo junto `a parede (fato experimental conhecido), at´e um valor caracter´ıstico do escoamento, no seio do fluido. Para a regi˜ao fora da camada limite, o efeito da viscosidade ´e desprez´ıvel e o fluido pode ser tratado como n˜ao viscoso. Isso explica, por exemplo, o porque de part´ıculas de poeira aderirem `as p´as de um ventilador mesmo se ele estiver girando rapidamente.
A camada limite tanto pode apresentar escoamento laminar como turbulento. A Fig. 9 ilustra como se d´a essa transi¸c˜ao1 em uma placa plana. Diversos fatores podem
influenciar nessa transi¸c˜ao, tais como o gradiente de press˜ao, a rugosidade superficial, transferˆencia de calor, etc.
Figura 9 – A camada limite ´e laminar por uma curta distˆancia a jusante da borda de ataque; existe uma regi˜ao de transi¸c˜ao onde, depois dela, o escoamento torna-se com-pletamente turbulento. A velocidade do fluido varia de zero at´e U∞ atrav´es da camada
limite.
Fonte: Adaptado de Fox, et al. Introdu¸c˜ao `a Mecˆanica dos Fluidos. Grupo Gen-LTC, 8a
edi¸c˜ao.
Chama-se de espessura de pertuba¸c˜ao, δ, a distˆancia da superf´ıcie na qual a velocidade encontra-se dentro de 1% da velocidade de corrente livre U∞.
Em 1941 o matem´atico sovi´etico Kolmogorov formulou uma teoria para ex-plicar o processo de dissipa¸c˜ao de energia no fluxo turbulento [7]. Ele concluiu, atrav´es de seus experimentos, que o campo de velocidade induzido por todos os v´ortices levava a um estiramento m´edio desses v´ortices, reduzindo o seu diˆametro. Por conserva¸c˜ao do momento angular, quando o diˆametro diminui, a taxa de rota¸c˜ao (vorticidade) e a energia cin´etica rotacional aumentam. Dessa forma, a energia cin´etica ´e transferida dos grandes redemoinhos para os redemoinhos progressivamente menores e menores at´e que torne-se energia interna do escoamento (na forma de calor), sendo esse fenˆomeno conhecida como cascata de energia (ou cascata de Kolmogorov).
1Ainda n˜ao se tem um completo entendimento dos fenˆomenos que desencadeiam a dinˆamica da
Todas as propriedades flutuantes de um fluxo turbulento contˆem energia atrav´es de uma ampla faixa de frequˆencias ou n´umeros de onda (= 2πf /U , onde f ´e a frequˆencia). Isso ´e demonstrado na Fig. 10, que fornece o espectro de energia da turbulˆencia a jusante de uma grade. A energia espectral E(k) ´e mostrada em fun¸c˜ao do n´umero de onda (k = 2π/λ), onde λ ´e o comprimento de onda dos redemoinhos. A energia espectral E(k) (unidades m3/s2) ´e a energia cin´etica por unidade de massa e por unidade de n´umero de
ondas de flutua¸c˜oes em torno do n´umero de onda k. O diagrama mostra que o conte´udo de energia atinge o pico nos n´umeros de onda baixos, de modo que os redemoinhos mai-ores s˜ao os mais energ´eticos. Eles adquirem sua energia atrav´es de fortes intera¸c˜oes com o fluxo m´edio. O valor de E(k) diminui rapidamente `a medida que o n´umero de onda aumenta, portanto os menores redemoinhos tˆem o menor conte´udo de energia. As me-nores escalas de movimento em um fluxo turbulento (comprimentos da ordem de 0,1 a 0,01 mm e frequˆencias em torno de 10 kHz em fluxos t´ıpicos de engenharia turbulenta) s˜ao dominadas por efeitos viscosos [8].
Figura 10 – Espectro de energia em fun¸c˜ao do n´umero de onda. O m´aximo da energia se d´a para os redemoinhos que possuem o menor n´umero de onda. A medida que esse n´umero aumenta, a energia decresce rapidamente.
Fonte: Adaptado de Veersteg, et al. An introduction to computational fluid dynamics: the finite volume method. Pearson Schweiz, Volume 20.
associado com pequenas escalas, que incluem a taxa de dissipa¸c˜ao de energia por unidade de massa (m2s−3) e a viscosidade cinem´atica ν(m2s−1), s˜ao expressas por
comprimento λ = ν 3 1/4 , (3.4) tempo τ =ν 1/2 , (3.5) velocidade v = (ν)1/4. (3.6)
A taxa de dissipa¸c˜ao viscosa pode ser relacionada com escalas de comprimento e velocidade da turbulˆencia de larga escala da seguinte forma
≈ U
2
t = U3
L , (3.7)
onde t = L/U . A an´alise dimensional pode ser usada para obter propor¸c˜oes das escalas de comprimento, tempo e velocidade dos redemoinhos entre as pequenas e grandes escalas de turbulˆencia: λ = ν 3 1/4 = ν 3L U3 1/4 = 1 Re3/4L⇒ λ L = Re −3/4 (3.8) τ =ν 1/2 = νL U3 1/2 = 1 Re1/2t ⇒ τ t = Re −1/2 (3.9) v = (v)1/4= vU 3 L 1/4 = 1 Re1/4U ⇒ v U = Re −1/4. (3.10)
As escalas associados a pequenos v´ortices s˜ao muito menores que aquelas dos grandes v´ortices, mais energ´eticos, e a diferen¸ca -chamada de separa¸c˜ao de escala- aumenta com o n´umero de Reynolds.
3.3 Perfil de velocidade dos ventos
A Terra ´e aquecida de forma desigual pelo Sol, devido a sua inclina¸c˜ao em torno do pr´oprio eixo, do movimento de rota¸c˜ao, entre outros fatores. Isso faz com que surja uma diferen¸ca de densidade nas massas de ar, que provoca a circula¸c˜ao atmosf´erica e determina a forma¸c˜ao dos ventos.
O tipo do perfil da velocidade dos ventos encontrado em uma determinada regi˜ao ´e fun¸c˜ao do relevo, da vegeta¸c˜ao, presen¸ca de lagos, casas, edif´ıcios, al´em das condi¸c˜oes clim´aticas [9]. A intensidade de sua velocidade pode ser fator decisivo para a mudan¸ca de paisagens naturais, conforme mostrado na Fig. 11, transporte de dunas,
sementes, etc.
Figura 11 – Conhecida como ´arvore da pregui¸ca, essa ´arvore que fica no munic´ıpio de Jericoacoara-CE cresceu inclinada devido aos fortes ventos que existem na regi˜ao.
Fonte: Pr´oprio autor.
Existem v´arios modelos que tentam representar a extrapola¸c˜ao do perfil verti-cal dos ventos na camada limite superficial, sendo o perfil logar´ıtmico e a lei de potˆencia os mais utilizados.
O perfil logar´ıtimo (Fig. 12) ´e uma rela¸c˜ao semi-emp´ırica normalmente apli-cada para os 100 m mais baixos da atmosfera. Nele, a velocidade u(z) ´e dada por,
u(z) = u ∗ k ln z z0 , (3.11)
onde a u∗ ´e a velocidade de fric¸c˜ao, k ´e a constante de von K´arm´an e z
0 ´e o comprimento
de rugosidade que ´e uma caracter´ıstica do tipo da superf´ıcie.
A lei de potˆencia, devido sua simplicidade, ´e amplamente utilizada para fins de energia e´olica. Nela, a velocidade do vento a uma certa altura z ´e encontrada da seguinte forma u(z) = u(zr) z zr α , (3.12)
sendo zr uma altura de referˆencia e α o expoente de Hellmann, que ´e empiricamente
derivado e varia dependendo da estabilidade da atmosfera. 3.4 As equa¸c˜oes de Navier Stokes
A dinˆamica da circula¸c˜ao atmosf´erica ´e um processo complexo que depende dos efeitos de convec¸c˜ao, capaz de alterar a velocidade dos ventos devido ao fluxo de calor e, tamb´em, da presen¸ca de obst´aculos topogr´aficos, como edif´ıcios e constru¸c˜oes, com
Figura 12 – Perfil vertical da velocidade do vento desde a superf´ıcie at´e a altura do vento geostr´ofico. O comprimento da rugosidade (z0) ´e a altura onde a velocidade ´e nula.
Fonte: O aproveitamento da energia e´olica [10].
os quais o fluxo possa interagir, resultando em zonas de acelera¸c˜ao ou recircula¸c˜ao. O escoamento de ar sobre as cidades obedece a equa¸c˜ao da continuidade,
∂ρ
∂t +∇ · (ρ~u) = 0, (3.13)
sendo ρ a densidade do fluido, t o tempo e ~u a velocidade.
O movimento de um elemento cubico infinitesimal de fluido, em um sistema de coordenadas retangulares, ser´a descrito pela equa¸c˜ao do momento:
ρDu Dt = ρgx+ ∂σxx ∂x + ∂τyx ∂y + ∂τzx ∂z (3.14) ρDv Dt = ρgy+ ∂τxy ∂x + ∂σyy ∂y + ∂τzy ∂z (3.15) ρDw Dt = ρgz+ ∂τxz ∂x + ∂τyz ∂y + ∂σzz ∂z , (3.16)
sendo σij e τij as tens˜oes normais e cisalhantes, respectivamente. Nesta nota¸c˜ao, o primeiro
´ındice indica o plano no qual a tens˜ao atua e o segundo ´ındice indica a dire¸c˜ao de atua¸c˜ao. Para um fluido Newtoniano, podemos adotar as rela¸c˜oes:
τxy = τyx= µ ∂v ∂x + ∂u ∂y (3.17) τyz= τzy= µ ∂w ∂y + ∂v ∂z (3.18)
τzx= τxz = µ ∂u ∂z + ∂w ∂x (3.19) σxx =−p − 2 3µ∇ · ~u + 2µ ∂u ∂x (3.20) σyy =−p − 2 3µ∇ · ~u + 2µ ∂v ∂y (3.21) σzz =−p − 2 3µ∇ · ~u + 2µ ∂w ∂z , (3.22)
onde p ´e a press˜ao termodinˆamica local e µ a viscosidade dinˆamica. Substituindo as express˜oes das tens˜oes nas equa¸c˜oes do movimento, obt´em-se as chamadas equa¸c˜oes de Navier-Stokes, ρDu Dt = ρgx− ∂p ∂x + ∂ ∂x µ 2∂u ∂x − 2 3∇ · ~u + ∂ ∂y µ ∂v ∂x + ∂u ∂y + ∂ ∂z µ ∂u ∂z + ∂w ∂x (3.23) ρDv Dt = ρgy − ∂p ∂y + ∂ ∂x µ ∂v ∂x + ∂u ∂y + ∂ ∂y µ 2∂v ∂y − 2 3∇ · ~u + ∂ ∂z µ ∂w ∂y + ∂v ∂z (3.24) ρDw Dt = ρgz− ∂p ∂z + ∂ ∂x µ ∂u ∂z + ∂w ∂x + ∂ ∂y µ ∂w ∂y + ∂v ∂z + ∂ ∂z µ 2∂w ∂z − 2 3∇ · ~u , (3.25)
onde do lado esquerdo das equa¸c˜oes temos a contribui¸c˜ao das for¸cas inerciais e do lado direito, as for¸cas de corpo, for¸cas de press˜ao e as for¸cas viscosas, respectivamente.
3.5 Modelo de Turbulˆencia RANS
Existem v´arios modelos para descrever o comportamento turbulento de um fluido2. Entre eles, destacam-se o DNS (Direct Numerical Simulation), de elevado custo
computacional, o LES (Large Eddy Simulation), que realiza modelagem apenas nas escalas sub-malha e o RANS (Reynolds Averaged Navier–Stokes equations) baseado nas equa¸c˜oes de Navier-Stokes m´edias no tempo, sendo largamente utilizado em problemas de f´ısica e engenharia.
O que eleva o custo computacional do modelo DNS ´e o fato de ele resolver todo o espectro da energia cin´etica turbulenta, necessitando assim de malhas muito refinadas. Em contra partida, isso fornece uma maior precis˜ao na solu¸c˜ao do problema, uma vez que obt´em-se os valores instantˆaneos dos campos de press˜ao e velocidade. Em termos gerais, esse modelo ´e atualmente indicado apenas para simula¸c˜oes de escoamentos com baixo n´umero de Reynolds.
O modelo LES resolve diretamente apenas as grandes escalas de turbulˆencia, usando modelos de sub-malha para a modelagem das pequenas escalas. Isso ´e interessante porque reduz os erros obtidos, uma vez que a transferˆencia da energia cin´etica turbulenta se d´a das grandes escalas, mais energ´eticas, para as pequenas escalas, menos energ´eticas. Nos dias atuais, esse ´e um dos modelos mais atrativos para simula¸c˜oes de fluxo turbulento. A Fig. 13 mostra a rela¸c˜ao entre o custo computacional e o grau de modelagem dos modelos RANS, LES e DNS.
Figura 13 – Comparativo entre o custo computacional dos modelos de turbulˆencia. Fonte: Pr´oprio autor.
2Apesar de todos os avan¸cos obtidos nas ´ultimas d´ecadas, ainda n˜ao existe uma teoria abrangente e
A utiliza¸c˜ao das m´edias das equa¸c˜oes de Navier-Stokes e da equa¸c˜ao da con-tinuidade, no modelo RANS, desencadeia os chamados tensores de Reynolds. Estes s˜ao respons´aveis por descrever os efeitos das flutua¸c˜oes turbulentas da press˜ao e da veloci-dade no escoamento do fluido. Existem diversas tentativas de se modelar os fechamentos de segunda ondem das equa¸c˜oes RANS, entre eles os modelos alg´ebricos ou de equa¸c˜oes diferenciais parciais, que utilizam ou n˜ao o conceito de viscosidade turbulenta. Veremos a seguir um breve resumo do desenvolvimento desse modelo.
Em regime de escoamento turbulento, os parˆametros instantˆaneos podem ser determinados em fun¸c˜ao de um valor m´edio e da flutua¸c˜ao em torno desse valor. Dessa forma, sendo U o valor m´edio da velocidade e u0 a flutua¸c˜ao, a componente horizontal da
velocidade instantˆanea ser´a dada por
u = U + u0, (3.26)
similarmente, para as outras componentes
v = V + v0 (3.27)
w = W + w0. (3.28)
Substituindo (3.26), (3.27) e (3.28) nas equa¸c˜oes da continuidade e do momento, aplicando a m´edia de Reynolds e considerando que ρ0 = 0 e p0 = 0, obt´em-se
∂ρ ∂t + ∂ ∂x ρU + ∂ ∂y ρV + ∂ ∂z ρW = 0 (3.29) ∂ ∂t ρU + ∂ ∂x ρU U + ∂ ∂y ρV U + ∂ ∂z ρW U = ρgx− ∂p ∂x + ∂ ∂xσxx− ρu 0u0 + ∂ ∂yτxy− ρu 0v0 + ∂ ∂z τxz − ρu 0w0 (3.30) ∂ ∂t ρV + ∂ ∂x ρU V + ∂ ∂y ρV V + ∂ ∂z ρW V = ρgy− ∂p ∂y + ∂ ∂xτyx− ρv 0u0 + ∂ ∂yσyy− ρv 0v0 + ∂ ∂z τyz− ρv 0w0 (3.31)
∂ ∂t ρW + ∂ ∂x ρU W + ∂ ∂y ρV W + ∂ ∂z ρW W = ρgz− ∂p ∂x + ∂ ∂xτzx− ρw 0u0 + ∂ ∂yτzy− ρw 0v0 + ∂ ∂z σzz− ρw 0w0 . (3.32)
Os termos adicionais dos componentes de velocidade flutuante que surgiram no lado es-querdo das novas equa¸c˜oes s˜ao chamados de tensores de Reynolds que, para um fluido incompress´ıvel, pode ser escrito na forma matricial
uiuj = u0u0 u0v0 u0w0 v0u0 v0v0 v0w0 w0u0 w0v0 w0w0 , (3.33)
onde a soma dos elementos da diagonal principal ´e utilizada para calcular a energia cin´etica turbulenta, k = 12pu02+ v02+ w02.
Adotando a hip´otese de Boussinesq, em que as tens˜oes de Reynolds tem a mesma forma que as tens˜oes viscosas, e a generaliza¸c˜ao proposta por Kolmogorov, rees-crevemos as equa¸c˜oes (3.17)-(3.22) da seguinte maneira [11]:
−ρu0 iu0j = µt ∂Ui ∂xj +∂Uj ∂xi − 2 3µt ∂uk ∂xk δij − 2 3ρkδij, (3.34) onde µt ´e viscosidade turbulenta. Substituindo esse termo nas equa¸c˜oes (3.30)-(3.32)
obtemos, de forma compacta, a base da equa¸c˜ao para os modelos de turbulˆencia, ρ ∂Ui ∂t + Uj ∂Ui ∂xj = ρgi+ ∂ ∂xj µef f ∂ui ∂xj +∂uj ∂xi −∂P ∂xi , (3.35)
sendo µef f a viscosidade efetiva
µef f = µ + µt, (3.36) e P a press˜ao modificada P = p + 2 3µt ∂uk ∂xk + 2 3ρk. (3.37)
Tabela 1: Valores de k e nas equa¸c˜oes de transporte.
Cµ C1 C2 σk σ
0.09 1.44 1.92 1 1.3
3.5.1 Modelo k −
A viscosidade turbulenta n˜ao ´e uma propriedade do fluido, mas uma fun¸c˜ao do escoamento e sua representa¸c˜ao ´e o ponto de partida para os modelos de turbulˆencia3.
O modelo k− ´e um dos mais utilizados em simula¸c˜oes RANS onde µt´e fun¸c˜ao
de dois parˆametros: da energia cin´etica turbulenta k e do taxa de dissipa¸c˜ao turbulenta . Esses parˆametros passam a ser encontrados atrav´es de equa¸c˜oes de transporte [8].
Para a energia cin´etica turbulenta, ∂ (ρk) ∂t + ∂ ∂xj (ρkuj) = µt ∂ui ∂xj + ∂uj ∂xi ∂ui ∂xj + ∂ ∂xj µ + µt σk ∂k ∂xj − ρ. (3.38)
e para a taxa de dissipa¸c˜ao turbulenta, ∂ ∂t(ρ) + ∂ ∂xj (ρuj) = ∂ ∂xj µ + µt σ ∂ ∂xj +C1µt ∂ui ∂xj +∂uj ∂xi ∂ui ∂xj k −C2ρ 2 k. (3.39)
Os valores das constantes das Equa¸c˜oes (3.38) e (3.39) s˜ao fornecidos na Tab. 1 e a viscosidade turbulenta ´e dada por
µt = cµρ
k2
. (3.40)
3Os modelos de viscosidade turbulenta s˜ao baseados na hip´otese feita por Boussinesq que propˆos
uma analogia entre as tens˜oes turbulentas e as tens˜oes moleculares existentes no regime laminar. O principal ponto fraco desta hip´otese est´a no fato da viscosidade turbulenta ser uma grandeza escalar, o que pressup˜oe isotropia.
4 M´ETODOS NUM´ERICOS
Os m´etodos num´ericos s˜ao geralmente utilizados para solucionar problemas em que a solu¸c˜ao anal´ıtica n˜ao ´e conhecida. Sendo assim, sua tarefa consiste em resolver uma ou mais equa¸c˜oes diferenciais, substituindo as derivadas existentes por express˜oes alg´ebricas que envolvem a fun¸c˜ao inc´ognita. A solu¸c˜ao ser´a um valor aproximado, devido a discretiza¸c˜ao do dom´ınio, de tal modo que quanto maior for o n´umero de pontos, mais perto da solu¸c˜ao exata ser´a a solu¸c˜ao num´erica.
Em um problema que exista N valores da vari´avel no dom´ınio, teremos N inc´ognitas, sendo necess´arias N equa¸c˜oes alg´ebricas para o fechamento, formando um sis-tema de N equa¸c˜oes a N inc´ognitas. Se quisermos tornar mais precisos nossos c´alculos, aumentando o n´umero de inc´ognitas, o sistema linear a ser resolvido tamb´em vai igual-mente aumentando em n´umero de equa¸c˜oes. O esfor¸co computacional tamb´em cresce e de forma n˜ao linear, se algoritmos especiais, como os multigrid, n˜ao forem empregados [12]. Neste cap´ıtulo ser˜ao apresentados dois dos principais m´etodos num´ericos uti-lizados para solucionar problemas que envolvem equa¸c˜oes diferenciais parciais.
4.1 Introdu¸c˜ao ao M´etodo dos Volumes Finitos
O M´etodo dos Volumes Finitos (MVF) ´e um m´etodo de solu¸c˜ao de equa¸c˜oes diferenciais parciais baseado na resolu¸c˜ao dos balan¸cos de massa, momento e energia de um determinado volume de controle. Basicamente, a aplica¸c˜ao do m´etodo consiste nas seguintes etapas: 1) Discretizar o dom´ınio em pequenos volumes de controle; 2) Formular as equa¸c˜oes integrais de conserva¸c˜ao para cada um desses pequenos volumes; 3) Fazer a integra¸c˜ao das equa¸c˜oes diferenciais em cada volume de controle; 4) Aproximar os valores das vari´aveis nas faces e as derivadas com a informa¸c˜ao das vari´aveis nodais; 5) Resolver o sistema de equa¸c˜oes alg´ebricas obtido.
A Fig. 14 mostra um sistema de equa¸c˜oes alg´ebricas obtidas de uma equa¸c˜ao diferencial, definida em um dom´ınio Ω, atrav´es do processo de discretiza¸c˜ao.
Consideremos o caso em que um s´olido qualquer Q, de fronteiras σ, ´e atra-vessado por um campo vetorial ~A. O teorema da divergˆencia de Gauss (Eq.4.1) mostra a igualdade vetorial entre o fluxo de ~A, sobre uma superf´ıcie fechada S e a integra¸c˜ao volum´etrica do seu respectivo divergente ao longo de todo o volume V delimitado pela
Figura 14 – Esquema de solu¸c˜ao num´erica de uma equacao diferencial L. Fonte: Adaptado de Maliska, Transferˆencia de calor e mecˆanica dos fluidos computacional. Grupo Gen-LTC, 2017.
superf´ıcie. Z Z σ ~ A· ~n dS = Z Z Z Q ~∇ · ~A dV. (4.1)
A aplica¸c˜ao do MVF far´a uso do teorema da divergˆencia de Gauss para con-verter as integrais de volume sobre operadores de gradiente e divergˆencia em integrais de superf´ıcie, uma vez que depois de terem sido definidos os volumes de controle, as equa¸c˜oes de conserva¸c˜ao ser˜ao descritas em sua forma integral para cada um deles.
Para efeito de ilustra¸c˜ao da integra¸c˜ao das equa¸c˜oes diferenciais nos volumes de controle, consideremos o caso de conserva¸c˜ao da massa, Eq. 4.2, sobre um volume elementar bidimensional mostrado na Fig. 15,
Figura 15 – Balan¸co de massa. Fonte: Pr´oprio autor.
∂ (ρu) ∂x +
∂ (ρv)
∂y = 0 (4.2)
sendo u e v as componentes da velocidade. Depois de realizar a integra¸c˜ao sobre o volume especificado, obt´em-se Z l o Z n s ∂(ρu) ∂x + ∂(ρv) ∂y dydx = 0 (4.3) Z n s [ρu|l− ρu|o] dy + Z l o [ρv|n− ρv|s] dx = 0, (4.4)
assumindo que o fluxo de massa no centro da face do volume de controle representa a m´edia da varia¸c˜ao de toda a face, chega-se ao seguinte resultado
ρu∆y|l− ρu∆y|o+ ρv∆x|n− ρv∆x|s = 0, (4.5)
que nada mais ´e do que o balan¸co de massa realizado sobre o volume de controle, podendo ser reescrita da seguinte forma:
˙
me− ˙mo+ ˙mn− ˙ms = 0, (4.6)
comprovando que realizar uma integra¸c˜ao na forma conservativa da equa¸c˜ao diferencial ´e equivalente a fazer o balan¸co.
O MVF continua sendo um dos mais utilizados em problemas de mecˆanica dos fluidos, devido aos bons resultados e estabilidade num´erica. Softwares comerciais como ANSYS Fluent e de c´odigo aberto como OpenFOAM utilizam esse m´etodo na solu¸c˜ao de problemas de dinˆamica dos fluidos computacional.
4.1.1 OpenFOAM
O OpenFOAM (Open source Field Operation And Manipulation) ´e um pro-grama em linguagem de propro-grama¸c˜ao C++, gratuito, utilizado para solu¸c˜ao de problemas de mecˆanica dos fluidos (ou cont´ınuo) tais como fluxos complexos de fluidos envolvendo rea¸c˜oes qu´ımicas, turbulˆencia e transferˆencia de calor, dinˆamica dos s´olidos e eletromagne-tismo. Por ser de c´odigo aberto, permite aos usu´arios a oportunidade de implementar seus pr´oprios solvers, que podem ser utilizados em problemas espec´ıficos, al´em de utilit´arios para pr´e ou p´os-processamento de dados e bibliotecas, que podem ser empregadas em problemas personalizados. O trecho a seguir mostra como ´e poss´ıvel escrever com relativa facilidade, fazendo uso da Programa¸c˜ao Orientada a Objetos, uma equa¸c˜ao diferencial
parcial com a sintaxe adotada no software, para a cria¸c˜ao de um poss´ıvel solver : ∂ρ~U
∂t +∇ ·
φ~U− ∇2µ~U=−∇p a forma codificada ser´a:
1 s o l v e ( 3 fvm : : ddt ( rho ,U) + fvm : : d i v ( phi ,U) 5 − fvm : : l a p l a c i a n (mu,U) == 7 − f v c : : grad ( p ) ) ; 4.1.1.1 Pr´e-processamento
Essa etapa consiste na gera¸c˜ao da geometria, cria¸c˜ao da malha e nas defini¸c˜oes dos parˆametros que ser˜ao utilizados na simula¸c˜ao. Essa etapa ´e de fundamental im-portˆancia, pois consistir´a na gera¸c˜ao da geometria e na discretiza¸c˜ao do dom´ınio compu-tacional. Quanto maior o n´umero de elementos que este tiver, melhor ser´a o resultado da solu¸c˜ao num´erica e, consequentemente, maior ser´a o tempo de simula¸c˜ao uma vez que o n´umero de equa¸c˜oes a serem resolvidas no sistema linear tamb´em aumentam.
Todas as defini¸c˜oes f´ısicas do problema, como condi¸c˜oes de contorno e ou-tros parˆameou-tros que devem ser usados na simula¸c˜ao, devem ser informados no pr´e-processamento.
Apesar de n˜ao possuir um programa de CAD para a constru¸c˜ao de geometrias, o OpenFOAM disponibiliza um utilit´ario, blockMesh, que cria malhas a partir do arquivo de dicion´ario blockMeshDict. Este ´e um arquivo no qual as informa¸c˜oes da geometria s˜ao armazenadas. Sendo assim, o blockMesh lˆe essas informa¸c˜oes e cria os dados da malha em pontos, faces e c´elulas.
O princ´ıpio por tr´as do blockMesh ´e decompor a geometria do dom´ınio em um conjunto de 1 ou mais blocos tridimensionais hexa´edricos Fig. 16, cujas bordas podem ser linhas retas, arcos ou splines. A malha ´e ostensivamente especificada como um n´umero de c´elulas em cada dire¸c˜ao do bloco, informa¸c˜ao suficiente para o blockMesh gerar os dados da malha.
O OpenFOAM tamb´em permite fazer a importa¸c˜ao de arquivos de outros softwares comerciais, para os casos de problemas que exijam geometrias complexas ou
Figura 16 – Exemplo de bloco criado pelo blockMesh. Cada v´ertice ´e escrito em uma lista, de tal forma que possa ser acessado utilizando seu r´otulo. Neste caso, a borda que conecta os v´ertices 1 e 5 ´e curva (lembrando que o tipo de borda ´e especificado no blockMesh). Fonte: Greenshields, Christopher J. ”OpenFOAM user guide.”OpenFOAM Foundation Ltd, version 3.1 (2015).
que necessitem de malhas do tipo n˜ao-estruturadas.
Outra op¸c˜ao para a gera¸c˜ao de malhas ´e fazer uso do utilit´ario snappyHexMesh. Esse utilit´ario permite a cria¸c˜ao de malhas tridimensionais automaticamente a partir de geometrias de superf´ıcies trianguladas no formato Stereolithography (STL) ou Wavefront Object (OBJ). O procedimento consiste em aproximar a malha com a superf´ıcie refinando iterativamente uma malha de partida e transformando a malha hexagonal dividida resul-tante na superf´ıcie, conforme representado na Fig. 17.
4.1.1.2 Solu¸c˜ao
Ap´os a conclus˜ao das etapas do pr´e-processamento, inicia-se o processo de solu¸c˜ao num´erica das equa¸c˜oes diferenciais parciais. Isso ´e feito atrav´es de arquivos exe-cut´aveis (os chamados solvers) que leem as informa¸c˜oes referentes ao problema, como condi¸c˜oes iniciais, condi¸c˜oes de contorno, caracter´ısticas da malha, etc. e resolvem os problemas de mecˆanica do cont´ınuo de acordo com a metodologia previamente especifi-cada.
O OpenFOAM disponibiliza, em seu pacote original, um grande n´umero de solvers que podem ser utilizados nos mais diversos problemas.
Similarmente a outros softwares comerciais, tamb´em ´e poss´ıvel acompanhar os res´ıduos gerados durante a solu¸c˜ao do problema, bem como os valores de convergˆencia e tempo de simula¸c˜ao.