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Efeitos da dispensa sem justa causa no curso da

4. Efeitos da incapacidade temporária no contrato de trabalho

4.2. A suspensão contratual decorrente da incapacidade laborativa

4.2.7. Extinção contratual

4.2.7.2. Efeitos da dispensa sem justa causa no curso da

Anteriormente vimos que a dispensa sem justa causa ocorrida no curso da suspensão contratual é um ato nulo (artigos 9º, 471 e 476 da CLT e artigo 63 da Lei 8.213/91).

Agora, necessário abordar as consequências jurídicas do ato demissional nulo. Inicialmente, saliente-se que não há qualquer correlação entre a teoria das nulidades do contrato de trabalho com a nulidade da dispensa, por se tratarem de tema completamente diverso.

Pela teoria geral civilista das nulidades do ato jurídico, o ato nulo não produz qualquer efeito jurídico, restituindo-se as partes ao estado em que antes dele se achavam, conforme determinado no artigo 182 do Código Civil:

Art. 182. Anulado o negócio jurídico, restituir-se-ão as partes ao estado em que antes dele se achavam, e, não sendo possível restituí- las, serão indenizadas com o equivalente.

A restituição do status quo ante, no Direito do Trabalho, implica no restabelecimento do contrato de trabalho, com a consequente reintegração do trabalhador ao emprego.

A CLT prevê, expressamente, a reintegração na dispensa inválida de empregado estável, conforme previsto no artigo 495 e 496:

Art. 495 - Reconhecida a inexistência de falta grave praticada pelo empregado, fica o empregador obrigado a readmiti-lo no serviço e a pagar-lhe os salários a que teria direito no período da suspensão. Art. 496 - Quando a reintegração do empregado estável for desaconselhável, dado o grau de incompatibilidade resultante do dissídio, especialmente quando for o empregador pessoa física, o tribunal do trabalho poderá converter aquela obrigação em indenização devida nos termos do artigo seguinte.

Evidenciam-se pelos dispositivos transcritos que as normas trabalhistas estabelecem o status quo ante (restabelecimento do contrato de trabalho com os salários do período) e, quando desaconselhável (em razão do caráter intuito

persoane do contrato de trabalho), sua conversão em perdas e danos

(indenização dobrada, no caso).

Do mesmo modo, a dispensa nula no contrato de trabalho suspenso ocasiona o restabelecimento do contrato de trabalho e a reintegração do trabalhador. Didaticamente, pode-se afirmar que, no plano jurídico, o contrato de trabalho volta a ter sua vigência restabelecida e, no plano fático, o empregado retorna ao trabalho.

Não raramente, ocorre de o empregado permanecer incapacitado e não retornar ao trabalho. Nessas situações, apenas haverá o restabelecimento do contrato de trabalho (plano jurídico), o qual permanecerá suspenso até a alta médica do empregado e, por consequente, seu retorno ao trabalho (plano fático).

Esclareça-se que, durante esse período em que o empregado aguardou a declaração judicial de nulidade de sua dispensa até o restabelecimento do contrato de trabalho, detém todos os direitos e vantagens inerentes ao contrato de trabalho suspenso, como anteriormente abordados (recordando-se que por estar licenciado sem remuneração em gozo do auxílio- doença, não há que se falar em salários do período, conforme artigo 476 da CLT e artigo 63 da Lei 8.213/91). Esses direitos e vantagens serão convertidos em indenização equivalente (artigo 182 do Código Civil por autorização do artigo 8º, parágrafo único, da CLT).

Nesse sentido, colaciona-se a seguinte jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. DOENÇA. CÂNCER. CONHECIMENTO PRÉVIO DA EMPRESA. DISPENSA OCORRIDA QUANDO SUSPENSO O CONTRATO DE TRABALHO. NULIDADE DA DESPEDIDA. DECISÃO QUE DETERMINA A MANUTENÇÃO DO PLANO DE SAÚDE PORQUE O BENEFÍCIO

FOI MANTIDO PELO EMPREGADOR DURANTE A SUSPENSÃO DO CONTRATO DE TRABALHO. A tese da empresa agravante é de que não há falar em nulidade da rescisão do contrato de trabalho, pois não há comprovação de que a autora encontrava-se incapacitada para o trabalho e, em gozo de benefício previdenciário (auxílio-doença), quando da respectiva dispensa. A tese do e. Tribunal Regional é de nulidade da rescisão do contrato de trabalho, tendo em vista que este encontrava-se suspenso quando se deu a dispensa (2/8/2007), por motivo de doença (câncer) diagnosticada em 2002 e que, ainda, cujo tratamento ainda está em andamento. Incidência da Súmula nº 126/TST.

(AIRR - 12000-32.2009.5.05.0461 , Relator Ministro: Alexandre de Souza Agra Belmonte, Data de Julgamento: 22/10/2014, 3ª Turma, Data de Publicação: DEJT 24/10/2014) – Ementa parcial.

Há algumas situações, diante do interregno temporal, que a dispensa sem justa causa tenha ocorrido durante a suspensão contratual, mas existente a alta médica antes de apreciação judicial do pedido de reintegração.

Nesses casos, há dois entendimentos jurídicos a respeito: a) a dispensa teria se concretizado no momento da alta médica, sem reintegração; e b) por ser a dispensa nula, há o direito de reintegração e o contrato de trabalho somente poderá ser extinto por novo ato do empregador.

O primeiro entendimento se funda na ausência de qualquer estabilidade do empregado após a cessação da suspensão contratual, podendo ser extinto a qualquer momento a partir de então.

O segundo entendimento, tem o condão de restabelecer o contrato de trabalho em sua integralidade, devidos inclusive os salários entre a alta médica (no caso, previdenciária) e a efetiva reintegração. Nesse sentido:

AGRAVO. AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA. JULGAMENTO EXTRA PETITA. NÃO CONFIGURAÇÃO. NULIDADE DA DISPENSA SEM JUSTA CAUSA EFETUADA DURANTE A SUSPENSÃO DO CONTRATO EM RAZÃO DE AUXÍLIO-DOENÇA. Correta a decisão que manteve o entendimento acerca da inviabilidade de resilição unilateral de contrato de trabalho por ato do empregador no período de sustação dos efeitos contratuais (art. 471 da CLT). A dispensa obreira injusta ou desmotivada (isto é, sem os motivos considerados justos pela lei) é vedada nas situações suspensivas. Assim, a decisão agravada foi proferida em estrita observância aos artigos 896, § 5º, da CLT, e 557, caput, do CPC,

razão pela qual é insuscetível de reforma ou reconsideração. Mantém-se, pois, a decisão agravada. Agravo desprovido.

(Ag-AIRR - 51000-29.2006.5.01.0017 , Relator Ministro: Mauricio Godinho Delgado, Data de Julgamento: 27/08/2014, 3ª Turma, Data de Publicação: DEJT 29/08/2014)

Onde se encontrou a manutenção da seguinte decisão Regional:

A outra controvérsia estabelecida nesses autos limita-se à validade do rompimento do contrato de trabalho pelo empregador em período que o empregado se encontrava afastado pelo INSS, recebendo auxílio- doença.

O empregado pretende apenas a reintegração ao posto de serviço por ter sido dispensado durante a suspensão do contrato de trabalho. … determino a sua imediata reintegração aos quadros da ré, no prazo de dez dias, sob pena de multa diária de R$500,00, a partir da citação do empregador, e pagamento dos salários vencidos e vincendos, em sentido estrito, a partir de 2/12/2005, ocasião da alta médica pelo ente previdenciário.

Com efeito, compreendida nula a dispensa realizada no curso da suspensão contratual, necessário o restabelecimento do status quo ante. Somente um novo ato jurídico válido poderá extinguir o contrato de trabalho.

Isso significa que nada impede de o empregador realizar nova dispensa após a alta médica do empregado, ainda que durante a discussão judicial sobre a validade da primeira dispensa. Competirá a ele, no entanto, levar ao conhecimento do juízo esse novo ato de dispensa (artigo 818 da CLT) a fim de que seja observado quando do julgamento da lide (artigo 462 do CPC).

Caso o empregador opte por não realizar uma nova dispensa (válida), o restabelecimento do contrato de trabalho após certo período de discussão judicial acarretará um enorme prejuízo ao empregador.

Todavia, esse não é um argumento jurídico para se compreender que a extinção contratual ocorre após a alta médica do empregado, com a cessação da

suspensão do contrato de trabalho, tal qual a dispensa sem justa causa equivalesse a um ato sob condição suspensiva193.

Registre-se que o raciocínio lógico-jurídico desse último entendimento não encontra guarida na Súmula 396, I, do TST, que trata de estabilidade provisória, o que analisaremos a seguir.