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VI. O caso específico da MGF

4. Efeitos da MGF

Em virtude de se tratar de um procedimento, em regra, não medicamente assistido, realizado frequentemente nas mais precárias condições de salubridade, é gerador de graves consequências para a saúde e vida da criança/mulher, com efeitos sentidos durante toda a vida165.

MARTHA C. NUSSBAUM166 identificou algumas das consequências da MGF, conforme

se segue,

Female genital mutilation is linked to extensive and in some cases lifelong health problems. These include infection, hemorrhage, and abscess at the time of the operation; later difficulties in urination and menstruation; stones in the urethra and bladder due to repeated infections; excessive growth of scar tissue at the site, which may become disfiguring; pain during intercourse; infertility (with devastating implications for a woman’s other life chances); obstructed labor and damaging rips and tears during childbirth. De igual modo, as consequências para a saúde da criança e mulher foram identificadas pelo Conselho da Europa e pela Amnistia Internacional da seguinte forma167:

Immediate consequences of FGM include excessive bleeding and septic shock, difficulty in passing urine, infections and sometimes death. In addition to the severe pain during and in the weeks fallowing the cutting, women who have undergone FGM experience various long-term effects – physical, sexual and psychological. These include chronic pain, chronic pelvic infections, and the development of cysts, abscesses and genital ulcers. There can be excessive scar tissue formation, infection of the reproductive system, decreased sexual enjoyment and painful intercourse. Although the scientific research addressing the psychological consequences o FGM is limited, documented psychological consequences include fear of sexual

165 À semelhança da MGF, também a circuncisão masculina comporta riscos para saúde dos

circuncidados, que vão desde hemorragias até à morte da criança. V. ANTÓNIO LUÍS BARATA DE BRITO

CARVALHO NEVES, A Circuncisão Religiosa como Tipo de Problema Jurídico-Penal, pp 21-22; SAMI A. ALDEEB ABU-SAHLIEH, Circoncision Masculine et Féminine – Débat Religieux, Médical, Social et

Juridique, pp. 200 e ss.

166 V. “Judging Other Cultures: The Case of Genital Mutilation”, p. 120.

167 V. The Council of Europe Convention on Preventing and Combating Violence Against Women and

Domestic Violence – A tool to end female genital mutilation, Strasbourg, COE – Amnesty International,

November 2014, p. 7. Disponível para consulta em www.coe.int (www.coe.int/t/dghl/standardsetting/ convention-violence/brochures/IstanbulConventionFGM%20Guide%20EN.pdf) (consulta efetuada em 27 de novembro de 2014).

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intercourse, pot-traumatic stress disorder, anxiety, depression and memory loss.

Para além destas, a não utilização de material esterilizado, o recurso ao mesmo utensílio em mais do que uma criança e a ausência de anestesia contribuem para o agravamento das consequências, entre as quais a transmissão do vírus do VIH. Ainda que tal procedimento passasse a observar as exigências do meio hospitalar, tal apenas reduziria alguns riscos associados, não sendo por esse motivo uma solução a considerar.

Num estudo levado a cabo pela OMS, foram analisados eventuais problemas possíveis de ocorrer durante a gravidez e parto. Nesse sentido, entre novembro de 2001 e março de 2003, em cerca de 28 maternidades no Burkina Faso, Gana, Quénia, Nigéria, Senegal e Sudão, foram acompanhados os partos em 28.393 mulheres, com e sem MGF, conforme se segue168:

sem MGF MGF Tipo I MGF Tipo II MGF Tipo III Total Burkina Faso 938 19% 1 097 23% 2 172 45% 609 13% 4 816 Gana 1 841 60% 353 11% 867 28% 33 1% 3 094 Quénia 1 681 40% 865 21% 1 201 29% 420 10% 4 167 Nigéria 646 12% 3 369 63% 1 310 24% 41 1% 5 366 Senegal 733 21% 837 24% 1 850 54% 29 1% 3 449 Sudão 1 332 18% 335 5% 371 5% 5 463 73% 7 501 Total 7 171 25% 6 856 24% 7 771 27% 6 595 23% 28 393

Os resultados revelaram um aumento das complicações durante e pós-parto para as mulheres submetidas à MGF, conforme se segue:

população alvo recurso a cesariana hemorragias pós-parto = ou > 500ml > estadia hospitalar Sem MGF 7171 510 425 452 MGF Tipo I 6856 463 583 450 MGF Tipo II 7771 493 530 729 MGF Tipo III 6595 294 432 373

168 Para um maior detalhe dos resultados aqui citados, v. “Female genital mutilation and obstetric

outcome: WHO collaborative prospective study in six African countries” in The Lancet, Volume 367, N. 9525, 3 de junho de 2006, p. 1837 (1835-1841). Disponível para consulta em www.thelancet.com

(www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(06)68805-3/fulltext), bem como em

www.who.int (http://www.who.int/reproductivehealth/publications/fgm/fgm-obstetric-study-en.pdf) (consultas efetuadas em 7 de novembro de 2014).

83 Perante os tipos I e II ocorreu um aumento do número de hemorragias pós-parto e, consequentemente, uma maior estadia no hospital.

Já no que se refere ao baixo peso dos recém-nascidos, foram registados os seguintes casos: n.º de partos contabilizados peso do bebé < 2500g Sem MGF 7150 713 MGF Tipo I 6835 714 MGF Tipo II 7759 907 MGF Tipo III 6542 527

À primeira vista poder-se-ia afirmar que os tipos I e II da MGF potenciaram o nascimento de bebés com pouco peso. No entanto, há que atender, igualmente, às inúmeras insuficiências, quer alimentares, quer de cuidados de saúde, vividas em contexto africano. n.º de partos contabilizados necessidade de reanimação do bebé Sem MGF 6927 522 MGF Tipo I 6478 581 MGF Tipo II 7341 690 MGF Tipo III 6449 446

Já no que se refere à necessidade de reanimar o bebé, foram registados mais casos nos tipos I e II. n.º de partos contabilizados morte do bebé Sem MGF 7171 296 MGF Tipo I 6856 422 MGF Tipo II 7771 486 MGF Tipo III 6595 193

Assim como também foram registados mais casos de morte entre os bebés nos tipos I e II da MGF.

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Em suma, o estudo concluiu pela verificação de um maior número de ocorrências perante mulheres submetidas à MGF. Conforme se pode ler nas conclusões do estudo169,

These results show that deliveries to women who have undergone FGM are significantly more likely to be complicated by caesarean section, postpartum haemorrhage, episiotomy, extended maternal hospital stay, resuscitation of the infant, and inpatient perinatal death, than deliveries to women who have not had FGM.

De referir que o estudo foi realizado em ambiente hospitalar, o que poderá ter atenuado alguns dos efeitos da MGF. Conforme também é salientado nas conclusões mesmo170,

(…) postpartum haemorrhage and obstructed labour are likely to have more serious results outside the hospital setting.

É nossa opinião que a falta de preparação e a insuficiência de meios produziriam resultados diferentes em todos os vetores analisados e não apenas nestes dois, mas produziriam resultados diferentes também para as mulheres não mutiladas.

Na verdade, os primeiros anos do século XXI foram profícuos na divulgação de estudos demonstrativos das consequências negativas da MGF. Estudos que segundo CARLA

MAKHLOUF OBERMEYER, eram mal documentados e não sustentavam as conclusões obtidas171 e eram por isso merecedores de fortes críticas, não obstante reconhecer-se o impacto negativo da MGF na saúde da mulher.

Um outro estudo mais recente, desenvolvido na Gâmbia entre dezembro de 2010 e março de 2011, versou sobre o mesmo tema, embora de forma mais abrangente pois recolheu informação sobre as consequências gerais da MGF. Para tal, contou-se com a colaboração de um total de 588 mulheres. Estas responderam a um questionário e foram submetidas a um exame ginecológico para identificar o tipo de MGF. De entre as 588 mulheres, apenas foram contabilizados os resultados de 570, pois duas revelaram ter sido sujeitas ao tipo III, não sendo um número expressivo para análise, e nas restantes dezasseis não se conseguiu determinar com certeza o tipo de MGF a que haviam sido submetidas. No grupo analisado, 24,4% (139 mulheres) não tinha sido submetida a nenhum tipo de MGF e 75,6% apresentavam os tipos I (57,2% - 326 mulheres) e II

169 V. “Female genital mutilation and obstetric outcome: WHO collaborative prospective study in six

African countries”, p. 1840

170 Ibidem, p. 1840

171 Cfr. “The Consequences of Female Circumcision for Health and Sexuality: An Update on the

Evidence”, in Culture, Health & Sexuality, Theme Symposium: Female Genital Cutting, Vol. 7, No. 5, Sep.-Oct. 2005, pp. 444 e ss. [443-461]; “Female Genital Surgeries: The Known, The Unknown, and the Unknowable”, in Medical Anthropology Quarterly, Vol. 13, No. 1, Mar. 1999, pp. 90 e ss. [79-106].

85 (18,4% - 105 mulheres). Os resultados voltaram a demonstrar uma clara e estreita relação entre a MGF e as complicações durante o parto, não apenas para a mãe, mas também para o recém-nascido. Senão vejamos172,

− No que respeita aos problemas de saúde crónicos, como são exemplo as infecções urinárias, a dismenorreia ou cólica menstrual, a dor e corrimento vaginal, dificuldade na penetração, e relações sexuais dolorosas, com possíveis perda de sangue, o estudo conclui por um significativo aumento de casos perante os tipos I e II da MGF.

− A forma como algumas das consequências se apresentam no corpo da mulher também foram registadas. Desde fibroses, queloides (cicatrizes invulgares), sinéquias vulvares (ou fusão labial), neuromas do clítoris, estes últimos mais raros. Ainda assim, todos eles foram observados no publico alvo do presente estudo, que concluiu serem algumas das consequências da MGF, cuja prevalência aumenta progressivamente quando passamos do tipo I para o tipo II.

− Passando às complicações que podem ocorrer durante o parto, estas afectaram 11,7% das mulheres sem MGF, 39% das mulheres com tipo I e 65,9% das mulheres com tipo II da MGF. Com efeito, os tipos I e II fizeram aumentar os casos de trabalho de parto prolongado, a necessidade de recorrer à episiotomia (pequena incisão feita entre a vagina e o períneo com a finalidade de alargar o canal para expulsão do bebé), bem como a ocorrência de lacerações perineais.

− Já no que se refere às complicações observadas nos bebés, estas ocorreram em 5,3% dos bebés cujas mão não sofreram MGF; 15,6% dos bebés cujas mães foram submetidas ao tipo I e 37,8% dos bebés cujas mães apresentaram o tipo II da MGF. − Sofrimento fetal foi observado em 3,2% dos bebés cujas mão não sofreram MGF;

8,8% dos bebés cujas mães foram submetidas ao tipo I e 26,8% dos bebés cujas mães apresentaram o tipo II da MGF, entre outras complicações.

Os resultados mostram associações significativas em todos os casos observados entre os dois tipos de MGF e o agravamento das complicações na mãe, seja durante o parto ou

172 ADRIANA KAPLAN, MARY FORBES, ISABELLE BONHOURE, MIREIA UTZET, MIGUEL MARTÍN, MALICK

MANNEH, HARUNA CEESAY, “Female Genital Mutilation/Cutting in the Gambia: Long-Term Health Consequences and Complications During Delivery and for The Newborn, in International Journal of

Women’s Health, Volume 2013:5, 17 June 2013, pp. 326-327 (323-331). Disponível para consulta em www.intact-network.net (www.intact-network.net/intact/cp/files/1374265161_ijwh-5-323.pdf) (consulta efetuada em 17 de novembro de 2014).

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depois desde, e também no bebé. As sequelas e complicações são de elevada gravidade, conforme se segue173,

The results of the questionnaire and medical examinations indicate that type I and II FGM/C are responsible for the increased prevalence of various long- -term health problems. Higher rates of dysmenorrhea have been documented previously in women with type I and II FGM/C, and attributed to chronic pelvic infection, pelvic congestion due to the small vaginal opening, and genital infection, all being late sequelae of FGM/C. (…)

Clinical examination confirmed that FGM/C can lead to anomalous healing, generating a variety of consequences, including fibrosis, keloid of the clitoris (type I and II FGM/C), and keloid of the labia (type II FGM/C). (…)

Problems during healing can cause adhesion (synechia) of the two portions of the labia minora, and were observed in women with type I or II FGM/C. (…)

Clitoral neuroma was observed in 8.1% of women with type I FGM/C and in 20.6% of women with type II FGM/C, indicating that clitoral neuroma may be a more frequent complication in women with FGM/C than previously thought. (…)

FGM/C has also negative repercussions for delivery and the health of the newborn. Complication rates increased dramatically in women with type I or II FGM/C (39.0% and 65.9%, respectively) compared with women who had not undergone FGM/C (11.7%). The obstetric complication most often found in all three groups was perineal tearing, but with a prevalence three times higher for women with type I FGM/C (27.8%) and five times higher for women with type II (48.8%) (…) attributed to loss of elasticity of the perineal tissue because of scar tissue and abnormal scarring (fibrosis and keloids). This loss of elasticity of the perineum is also thought to be related to the much greater prevalence of episiotomy observed for women with type I (20.0%) and type II (30.5%) FGM/C, in comparison with women who had not undergone FGM/C (3.2%). Prolonged labor was also more frequent among women with FGM/C. (…)

Complications during delivery also have serious repercussions for the health of the newborn. Fetal distress was more commonly observed in the babies of women with type I or II FGM/C, confirming the fact that prolonged labor as a result of FGM/C affects the health of the newborn, as reflected in the stillbirth rates. In addition, the frequency of caput of the fetal head increased from 1.1% (n=1) during deliveries for women without FGM/C to 14.6% and 34.2% for women with FGM/C types I and II respectively, again as a consequence of prolonged labor.

These results highlight the strong relationship between FGM/C and a higher rate of maternal and fetal complications.

173 ADRIANA KAPLAN, MARY FORBES, ISABELLE BONHOURE, MIREIA UTZET, MIGUEL MARTÍN, MALICK

MANNEH, HARUNA CEESAY, “Female Genital Mutilation/Cutting in the Gambia: Long-Term Health Consequences and Complications During Delivery and for The Newborn”, pp. 328-330.

87 À semelhança do estudo anteriormente mencionado, também este apenas levou em conta os partos ocorridos em centros hospitalares, sendo que na Gâmbia a percentagem de partos de ocorrem em casa ascende a 70%, percentagem particularmente elevada em especial nas zonas rurais. Conforme refere o mesmo estudo174,

For this rural population, it can be hypothesized that the obstetric consequences related to FGM/C are even worse.

Por todos estes motivos, pelo continuo sofrimento da mulher, pelo acrescido risco de morte associado, pela impossibilidade de uma vida sexual plena nesta área, a MGF não pode ser tolerada. Por todos estes motivos, o tema tem sido cada vez mais divulgado, num intuito simultâneo de divulgação, esclarecimento e erradicação da prática. Não obstante, ainda que a MGF não envolvesse qualquer tipo de risco para saúde e vida das meninas e das mulheres, a questão manter-se-ia no essencial. Conforme refere ANTÓNIO

LUÍS BARATA DE BRITO CARVALHO NEVES, ainda que a referir-se à circuncisão masculina175,

A questão não aparece apenas nos riscos que a circuncisão possa envolver. Mesmo que ela não envolvesse risco nenhum, o problema, na sua essencialidade, manter-se-ia intocado: a circuncisão traduz-se na amputação irreversível e sem justificação médica de uma parte saudável do corpo da criança. Por si só, este é já um dano que coloca um problema.

Logo, também no que se refere à MGF a questão não deixa de se colocar independentemente dos riscos que acarreta. Ainda assim, somos de opinião que os mesmos deverão ser evidenciados para uma melhor compreensão do fenómeno em causa.