Capítulo 2: Revisão Bibliográfica
2.7. Efeitos e consequências dos parabenos nos seres vivos
2.7.3. Efeitos estrogénicos dos parabenos – mito ou realidade?
Uma das questões que mais tem preocupado a comunidade científica e gerado maior debate prende-se com o efeito estrogénico destes compostos. Numerosos trabalhos têm sido levados a cabo a fim de clarificar esta questão, mas, no entanto, alguns resultados continuam contraditórios. Se, por um lado, em alguns estudos os parabenos revelaram uma estrogenicidade fraca (Routledge et al., 1998; Golden et al., 2005; Witorsch e Thomas, 2010; Scialli, 2011), noutros a afinidade de ligação destes compostos para os recetores de estrogénio (RE) é elevada e semelhante à do Bisfenol A, um estrogénico potente (Satoh et al., 2000). Isto poderá significar, no mínimo, que estes compostos poderão ter algum potencial estrogénico não negligenciável, e que este poderá, por isso, afetar os mais diversos tecidos, órgãos e as suas funções.
O facto de os parabenos estarem incluídos numa lista de 800 desreguladores endócrinos, entre outras classes específicas que incluem hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, pesticidas, alquilfenóis, dioxinas, ftalatos, ou bifenilos policlorados (Lopez-Darias et al., 2010) significa que os parabenos têm características comuns aos restantes compostos assim classificados. Ou seja, conseguem mimetizar a ação de uma hormona endógena, bloquear receptores hormonais celulares, agir como agonistas (Darbre e Harvey, 2008; Kamata et al., 2008; Watanabe et al., 2013; Wielogórska et al., 2015) ou antagonistas alterando a ação e a
concentração das hormonas naturais do organismo (Byford et al., 2002b; Pugazhendhi et al., 2005; Tabb e Blumberg, 2006; Darbre e Harvey, 2008; Watanabe et al., 2013). Em drosófilas, moscas da fruta a exposição a 0,10% e 0,20% de etilparabeno afetou a expressão de três genes ligados a recetores hormonais e reduziu o tempo de vida e a fecundidade do animal (Liu et al., 2014).
A classificação dos parabenos como desreguladores endócrinoslevou a que suscitassem questões sobre a sua utilização em geral, e, principalmente, em produtos aplicados na pele e, de facto, alguns dados sustentam a preocupação surgida. Estudos in vitro, realizados em queratinócitos, demonstraram que estes quando tratados com parabenos e expostos a raios ultravioleta, durante longos períodos, influenciaram a taxa de proliferação celular, a morfologia das células, a expressão de sintases, o conteúdo em ácido hialurónico e colágeno tipo IV e a ativação de fatores de transcrição, reforçando, assim, a ideia da estrogenecidade dos parabenos em células da pele (Janjua et al., 2007). Foi também evidenciada uma inibição na atividade das estrogénio-sulfotransferases (Sults), pelo bloqueio da sulfatação de estrogénios, o que contribui para o seu aumento (Prusakiewicz et al., 2007b). Esta situação poderá trazer alguns riscos, uma vez que a aplicação continuada de parabenos na pele leva ao aumento de hormonas, o que estimulará, em cascata, a sinalização estrogénica endógena (Prusakiewicz et al., 2007b), e conduzirá a alguma toxicidade e carcinogénese (El Hussein et al., 2007).
Assim, a exposição, pelas mais diversas vias, poderá levar a uma dupla consequência: acumulação de parabenos e de estrogénio, pois, as esterases, tal como outras enzimas, atingem a saturação e mais parabenos siginica mais inibição de sulfatação do estrogénio. Desta forma, ficará intensificada a capacidade estrogénica destes compostos, que agindo como desreguladores endócrinos, influenciam os níveis de estereidogénese e, consequentemente, a reprodução (Oishi, 2002a; Janjua et al., 2007) podendo afetar o desenvolvimento dos órgãos reprodutores masculinos e femininos, em humanos, durante fases críticas da maturação (Lemini et al., 1997; Darbre et al., 2002; Oishi, 2002a; Lemini et al., 2004; Vo e Jeung, 2010).
Na realidade, a exposição a parabenos poderá afetar não só a fertilidade do indivíduo mas também a da sua descendência, pois o feto é particularmente suscetível a agentes de desregulação endócrina, como parabenos, que podem passar a barreira sangue-placenta (Lemini et al., 1997; Frederiksen et al., 2008), o que nos leva a pensar que a margem de
segurança (caso exista nesta fase da vida do ser humano) para a utilização dos parabenos, é muito pequena.
De facto, tem sido demontrado que a exposição materna ao butilparabeno afeta a geração F1 masculina relativamente aos parâmetros reprodutores, como a diminuição do peso relativo dos órgãos reprodutores, a concentração de testosterona no soro, a contagem de espermatozóides viáveis e a produção diária de esperma (Kang et al., 2002; Zhang et al., 2014), observando-se, ainda, um aumento significativo dos níveis de 17-β-estradiol (biomarcador de desregulação endócrina) e variação anormal dos níveis de hormona folículo- estimulante (FSH) e luteinizante (LH) (Zhang et al., 2014).
A expressão do mRNA do recetor de estrogénio alfa e beta foi alterada em ratos descendentes de fêmeas tratadas com BP 200 mg/kg. A geração F1 foi afetada em vários estadios do desenvolvimento, o que resultou numa diminuição de nados vivos e dos sobreviventes ao desmame (Kang et al., 2002).
Smith e colaboradores propuseram a possibilidade do propilparabeno estar associado à diminuição da reserva de folículos, ou seja ao envelhecimento do ovário humano (Smith et al., 2013a). De facto, outros parabenos além do propilparabeno estimularam a expressão do mRNA da hormona anti-muleriana (AMH) e, consequentemente, inibiram o início da fase da foliculogénese nos ovários (Ahn et al., 2012).
A preocupação/discussão, relativa ao uso de parabenos, ancorada nas suas propriedades estrogénicas e genotóxicas, intensificou-se com os trabalhos de Darbre e colaboradores (2004a) que associaram os parabenos ao desenvolvimento/aparecimento de tumores, ao detetarem a presença destes, principalmente metilparabeno, no tecido tumoral humano. A existência de parabenos, nestes tecidos, foi atribuída ao uso tópico de cosméticos, desodorizantes e antitranspirantes dada a sua presença, ubíqua nas formulações (Shen et al., 2007). Estes parabenos, absorvidos naquela zona do corpo, provavelmente, não sofreram degradação, resistiram à hidrólise por esterases, acabando por se acumular no tecido adiposo (Lobemeier et al., 1996; Darbre et al., 2004b; Janjua et al., 2007), facto este, também, comprovado por trabalhos recentes (Wang et al., 2015).
Apesar de algumas inconsistências levantadas ao trabalho de Darbre e colaboradores, os vários trabalhos que se seguiram em linhas celulares do cancro da mama, apresentaram evidências que apoiaram a hipótese levantada. De facto demonstrou-se que os parabenos mimetizam a ação das hormonas estrogénio e progesterona e induzem o crescimento de células cancerosas (MCF-7) e não cancerosas (MCF-10A) da mama humana (Wrobel e
Gregoraszczuk, 2014) e de células ZR-75-1 dependentes de receptores de estrogénios (RE), as quais estão, também, relacionadas com o desenvolvimento de cancro da mama (Pugazhendhi et al., 2005; Ge e Chang, 2006), embora com um poder estrogénico não tão proeminente como o de 17-β-estradiol. A capacidade dos parabenos na indução da expressão de vários genes CaBP-9k e RPβ em células pituitárias cancerígenas de rato (GH3) foi demonstrada em vários trabalhos (Kim et al., 2012a; Yang et al., 2012). Também o metilparabeno, considerado o parabeno com menor potencial estrogénico, promoveu o ciclo celular, a evasão apoptótica (Goodson et al., 2011) e acentuou os efeitos estrogénicos de bisfenol A, que conduziram à hiperplasia intraductal e formação de novos ductos mamários em ratos, expostos durante 30 e 90 dias (Popa et al., 2014). O facto de o metilparabeno (10-6 M), o n- propilparabeno (10-7 M) e o n-butilparabeno (10-7 M), em concentrações iguais às que se encontram em tecidos mamários, induzirem um aumento significativo na proliferação celular é, na opinião de alguns autores, prova de que existe uma potencial relação entre o seu poder estrogénico e o cancro da mama, uma vez que ocorreu nessas células alteração do fenótipo (Zhang et al., 2013b; Charles e Darbre, 2013; Khanna e Darbre, 2013; Khanna et al., 2014).
A maioria dos trabalhos mais recentes, encontrados na literatura, apresentam evidências a favor da estrogenecidade dos parabenos, e não restam dúvidas de que estes, de um modo geral, podem alterar as funções do sistema endócrino, podendo prejudicar a saúde do organismo e da sua descendência. O facto de aparecerem resultados contraditórios estará relacionado com a diversidade de células, tecidos e organismos em estudo e com as variáveis já anteriormente descritas (capítulo 2.6.3).
Embora as concentrações, de parabenos individuais, usadas em grande parte dos ensaios sejam superiores às contidas em cada um dos produtos utilizados, é importante ter em conta a quantidade de parabenos à qual o organismo está exposto pelas mais diversas fontes, principalmente em fases mais precoces do desenvolvimento. Recentemente, estimou-se que a carga de parabenos encontrados no sangue de crianças poderá ter um efeito estrogénico comparável ao do estradiol (Purdel et al., 2015). É necessário, também, considerar o sinergismo destes compostos entre si ou com outros compostos, (Darbre, 2009; Kim et al., 2012a; Kim et al., 2012b; Vo et al., 2015a) uma vez que um determinado produto não contém apenas parabenos. Deste modo a ausência e/ou fraca estrogenecidade dos parabenos observada em alguns trabalhos, não deve ser interpretada como ausência de perigo no uso destes compostos, pois resultou da sua aplicação/administração pontual, isoladamente, in vitro e/ou in vivo, em testes isolados; não podendo, por isso, comparar-se ao que ocorre no caso dos
seres humanos onde se verifica uma exposição contínua, com a possível consequente absorção sistémica devida à lipofilicidade, relativamente elevada, e baixo peso molecular destes compostos (Akomeah et al., 2007; El Hussein et al., 2007; Pedersen et al., 2007; Nicoli et al., 2008).
Quando se coloca a questão sobre a estrogenecidade dos parabenos, a resposta não pode ser apenas baseada na baixa afinidade de ligação que estes possuem para receptores de estrogénio (quando comparada com a dos estrogénios naturais) antes, devem considerar-se todos os efeitos conhecidos como, por exemplo, a sua capacidade para inibir a sulfatação de estrogénio pelas sulfotransferases, o que leva a um aumento de estrogénio, a sua interferência com os níveis de cálcio citoplasmático, cujo incremento gera um aumento na expressão de gene, proliferação celular e outras respostas fisiológicas (Canosa et al., 2006b). Portanto para a resposta à questão inicial devem considerar-se todos os efeitos conhecidos e considerar, ainda, uma margem significativa para os desconhecidos, assim como para um efeito sinérgico resultante de todos os efeitos.