2.6. EFEITOS DOS CONTRATOS
2.6.4. Efeitos particulares do contrato
Decorrem dos contratos bilaterais efeitos jurídicos particulares, pois para ambas as partes envolvidas há obrigações dependentes uma da outra que, descumpridas, acabam dando ensejo ao uso de institutos como o direito de retenção, a exceptio non adimpleti contractus, os vícios redibitórios, a evicção e as arras.
213 FIUZA, RICARDO. op. cit. p. 347.
Para Henri de Page, conforme Maria Helena Diniz, o direito de retenção é o direito em virtude do qual uma pessoa que detém coisa pertencente a outrem tem justo motivo para lhe diferir a restituição até o pagamento do que lhe é devido em razão desta coisa, por seu proprietário.214
O uso do instituto do direito de retenção constitui certeza e garantia de que o credor vai receber o que lhe é devido. O direito de retenção é assegurado a todo possuidor de boa-fé e pode ser alegado sempre que o crédito do possuidor for conexo com a obrigação de restituir. O princípio da eqüidade permeia todo o instituto. As hipóteses de aplicação estão previstas em inúmeros dispositivos, e dentre os quais podem ser citados os artigos 1.219215 e 1.652216 do novo Código Civil. Pelo primeiro, o mandatário tem, sobre a coisa que possua em virtude do mandato, direito de retenção até se reembolsar do que no desempenho do encargo despendeu. O artigo diz respeito ao possuidor de boa-fé, que tem direito à indenização por benfeitorias e, em não sendo ressarcido, poderá exercer o direito de retenção.
Com referência à exceptio non adimpleti contractus, preleciona Silvio Rodrigues:
Se nos contratos bilaterais as prestações são recíprocas e nada se estipulou quanto ao instante de
214 DINIZ, Maria Helena. op. cit. p. 123.
215 Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às voluptuárias, se não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento da coisa, e poderá exercer o direito de retenção pelo valor das benfeitorias necessárias e úteis.
216 Art. 1.652. O cônjuge, que estiver na posse dos bens particulares do outro, será para com este e seus herdeiros responsável:
seu cumprimento, há que se entender serem devidas simultaneamente. De modo que nenhuma das partes pode exigir o cumprimento da obrigação cabente à outra, sem que tenha cumprido a sua.
A idéia inspiradora da regra é sempre a mesma, isto é, que a prestação de um contratante tem como causa e razão de ser a prestação do outro.
Daí contar qualquer das partes, como meio de defesa, quando a outra vem reclamar o cumprimento do negócio sem que haja fornecido sua prestação, com a
“exceptio non adimpleti contractus”. 217
Essa exceção se encontra prevista no artigo 476 do Código Civil de 2002:
Nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro.
Trata-se, pois, de um meio de defesa oponível pelo contratante
o seu dever, dado que cada contratante está sujeito ao estrito adimplemento do contrato.
Ao dispor sobre vícios redibitórios, o Código Civil, em seu artigo 441, estatui:
A coisa recebida em virtude de contrato comutativo pode ser rejeitada por vícios ou defeitos ocultos,
que a tornem imprópria ao uso a que é destinada, ou s 2v442.341517(s)-0.u
O alienante, no magistério de Maria Helena Diniz, tem o dever não só de entregar ao adquirente o bem alienado, mas também o de garantir o uso e o gozo, defendendo-o de pretensões de terceiro quanto ao seu domínio, resguardando-o do risco da evicção, pois pode ocorrer que o adquirente venha a perder a coisa, total ou parcialmente, em razão de sentença judicial, baseada em causa preexistente ao contrato.219
Pela evicção, o alienante do bem efetiva uma garantia a favor do comprador, que se constitui numa obrigação de fazer.
As arras ou sinal são a quantia em dinheiro, ou outra coisa fungível, que um dos contratantes antecipa ao outro, com o objetivo de assegurar o cumprimento da obrigação, evitando o seu inadimplemento. Não se confunde com a cláusula penal, que só pode ser exigida após o inadimplemento, enquanto as arras são pagas de forma antecipada, justamente para evitar o descumprimento do contrato. Se a obrigação vem a ser cumprida normalmente, as arras deverão ser descontadas do preço ou restituídas a quem as prestou. 220
O sinal recebido funciona como garantia do adimplemento e como
Código Civil. Constitui nova espécie de contrato, surgida agora com o advento do novo código, inexistindo tanto em lei esparsa como no Código Civil de 1916, recém-revogado. Registra o Novo Código Civil Comentado, coordenado por Ricardo Fiúza, em nota doutrinária ao artigo 467, que a novel espécie contratual já se encontra regulada nos Códigos Civis português e italiano.222
No escólio de Maria Helena Diniz, tem-se que esse contrato se relaciona com o mandato e com a gestão de negócios, mas sem se confundir com eles, e é similar à cessão de contrato. No contrato com pessoa a declarar, um dos contratantes tem o interesse em fazer-se substituir por pessoa cujo nome pretende ocultar, no momento da celebração do negócio (p. ex., condômino que quer adquirir outras cotas da co-propriedade; vizinho que quer comprar área contígua etc.), embora tal situação possa não ocorrer. É usual para evitar dispêndio com nova venda, em casos de aquisição de bem para revenda, em que há intermediação do adquirente. Pode ser utilizado por quem não deseja, por qualquer razão, ser identificado no início do contrato. Trata-se de cláusula “pro amico eligendo” inserida no contrato, pela qual, no momento da conclusão deste, uma das partes (“stipulans”)
Art. 468. Essa indicação deve ser comunicada à outra parte no prazo de cinco dias da conclusão do contrato, se outro não tiver sido estipulado.
Parágrafo único. A aceitação da pessoa nomeada não será eficaz se não se revestir da mesma forma que as partes usaram para o contrato.
Art. 469. A pessoa, nomeada de conformidade com os artigos antecedentes, adquire os direitos e assume as obrigações decorrentes do contrato, a partir do momento em que este foi celebrado.
Art. 470. O contrato será eficaz somente entre os contratantes originários:
I - se não houver indicação de pessoa, ou se o nomeado se recusar a aceitá-la;
II - se a pessoa nomeada era insolvente, e a outra pessoa o desconhecia no momento da indicação.
Art. 471. Se a pessoa a nomear era incapaz ou insolvente no momento da nomeação, o contrato produzirá seus efeitos entre os contratantes originários.
222 FIUZA, Ricardo. op. cit. p. 368.
reserva a si o direito de indicar a pessoa (“electus”) que deverá adquirir direitos ou que assumirá as obrigações decorrentes do ato negocial (Código Civil, art. 467). Tal indicação, feita por escrito, deverá ser comunicada à outra parte (promittens) dentro de cinco dias da conclusão do contrato, se outro prazo não tiver sido estipulado contratualmente (CC, art. 468). A aceitação do nomeado não terá eficácia se não se revestir da mesma forma usada pelas partes para efetuarem o contrato (CC, art.
468, parágrafo único). Logo, com a aceitação da pessoa nomeada (“electus”), revestida da mesma formalidade do ato negocial, esta passará a ter perante o
“promittens” todos os direitos e deveres oriundos do contrato, a partir do instante de sua celebração, liberando-se, então, o indicante (“stipulans”) (CC, art. 467). Fácil é perceber que aquela aceitação produz efeito “ex tunc”, por isso o nomeado é tido como contratante originário, desaparecendo da relação aquele que fez a indicação.223