2.4. PRINCÍPIOS
2.4.2. Princípios do Direito Contratual
2.4.2.6. Princípio da relatividade dos efeitos dos contratos
O princípio da relatividade dos efeitos dos contratos funda-se, segundo a teoria clássica, na idéia de que tais efeitos somente são produzidos em relação às partes, que manifestaram a sua vontade, não afetando terceiros. Em relação ao terceiro é res inter alios acta, aliis neque nocet neque prodest, ou seja, o contrato produz seus efeitos somente entre as partes, não aproveitando a terceiros nem os prejudicando.
Esse princípio encontra-se positivado no artigo 928 do Código Civil vigente, com a seguinte redação:
A obrigação, não sendo personalíssima, opera assim entre as partes, como entre seus herdeiros.
Muito embora tenham sido mencionados apenas os herdeiros, também não são terceiros, em face dos contratantes, o sucessor, a título singular ou a título universal de um contratante, embora não tenha participado da formação do contrato, terceiro não é, porque a sua posição jurídica deriva das partes, como tal devendo ser
129 PEREIRA, Caio Mário da Silva, op. cit. p. 166.
130 GONÇALVES, Carlos Roberto. op. cit. p. 33.
tido131. Somente a obrigação personalíssima não vincula os sucessores, e Orlando Gomes132 cita como exemplos o mandato e a fiança, previstos, respectivamente, nos artigos 682, II133, e 836134, ambos do atual Código Civil.
Em síntese, o contrato tem força de lei, mas a sua eficácia, relativa aos efeitos internos, é limitada às partes contratantes. Os efeitos externos, por seu turno, não podem ser desconhecidos pela comunidade.
Extrai-se daí que o princípio da relatividade dos efeitos dos contratos aplica-se em relação não somente aos sujeitos como também ao objeto do contrato.
Relativamente aos efeitos sobre o objeto, diz-se que o contrato tem efeito apenas a respeito das coisas que caracterizam prestação. Se o objeto da prestação, recebido pelo credor em virtude de contrato comutativo, tem defeito oculto que o torna impróprio ao uso a que é destinado ou lhe diminui o valor, ou se dele vem ser privado em virtude de sentença que reconheça o direito de outrem, a eficácia do contrato estará comprometida135.
Sofre exceções, todavia, esse princípio.
Situações existem em que pessoas estranhas ao contrato, ou seja, que não participaram da sua formação, são atingidas pelos seus efeitos. Maria Helena Diniz136 cita como exemplos a estipulação em favor de terceiros (CC, art. 436)137 e o
131 GOMES, Orlando. op. cit. pp. 45-46.
132 Idem, ibidem, p. 46.
133 Art. 682. Cessa o mandato:
(...)
II – pela morte ou interdição de uma das partes;
134 Art. 836. A obrigação do fiador passa aos herdeiros; mas a responsabilidade da fiança se limita ao tempo decorrido até a morte do fiador, e não pode ultrapassar as forças da herança.
135 GOMES, Orlando. op. cit. p. 46.
136 DINIZ, Maria Helena. op. cit. p. 41.
contrato com pessoa a declarar (CC, art. 467)138.
Humberto Theodoro Júnior139 indica, também, como exceções ao princípio da relatividade dos efeitos do contrato os artigos 12140, 13141, 14142, 18143, 19144 e 28145 da Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990, que dispõe sobre a proteção do consumidor, assim se manifestando:
137 Art. 436. O que estipula em favor de terceiro pode exigir o cumprimento da obrigação.
Parágrafo único. Ao terceiro, em favor de quem se estipulou a obrigação, também é permitido exigi-la, ficando, todavia, sujeito às condições e normas do contrato, se a ele anuir, e o estipulante não o inovar nos termos do art. 438.
138 Art. 467. No momento da conclusão do contrato, pode uma das partes reservar-se a faculdade de indicar a pessoa que deve adquirir os direitos e assumir as obrigações dele decorrentes.
139 THEODORO JÚNIOR, Humberto. op. cit. p. 56.
140 Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
141 Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo anterior, quando:
I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados;
II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou importador;
III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
142 Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação de danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
143 Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
144 Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha.
145 Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
De duas maneiras a Lei n. 8.078/90 afetou, mais intensamente, o princípio da relatividade nos contratos de consumo:
a) ao alongar a solidariedade pela reparação dos defeitos dos produtos e serviços, para atingir pessoas que não participaram do contrato firmado entre o fornecedor e o consumidor (arts. 12, 13, 14, 18 e 19) e
b) ao permitir, com largueza, a adoção da teoria da desconsideração da personalidade jurídica (art.
28).
Com isto, o legislador ampliou consideravelmente a área de ação do consumidor, ensejando-lhe garantir-se não só com o patrimônio do fornecedor, no caso de ressarcimento de danos, mas também com o de outras pessoas que figuraram na sucessão da circulação do bem negociado até alcançar o seu destinatário fiscal, e até mesmo outras entidades que não se inseriram no fluxo da operação de consumo, mas que se beneficiaram indiretamente de seus resultados econômicos, como se dá com as várias empresas interligadas num mesmo ‘grupo econômico’.
Deve-se ter presente que o Código Civil de 2002, ao reconhecer a função social ao contrato (artigo 421), atinge sobremaneira o princípio da relatividade dos efeitos do contrato, na medida em que este, além de regulamentar e
proteger os interesses dos contratantes, visa também proteger e tutelar os interesses da coletividade, prevalecendo estes últimos quando em conflitos com aqueles.
A possibilidade de revisão desse princípio já vem sinalizada na conclusão da I Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, realizado no período de 11 a 13 de setembro de 2002, sob a coordenação científica do Ministro Ruy Rosado, do Superior Tribunal de Justiça, que aprova o seguinte Enunciado n. 21:
A função social do contrato, prevista no art.
421 do novo Código Civil, constitui cláusula geral, a impor revisão do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito. 146