IMPACTOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA SOBRE O TRABALHO INFANTO JUVENIL
3.1 ESTUDOS RECENTES SOBRE O TRABALHO INFANTO-JUVENIL NO BRASIL
3.1.3 Efeitos dos programas de bolsa-escola sobre a probabilidade de crianças e adolescentes trabalharem
Nos tópicos anteriores, apresentamos duas avaliações distintas, uma ex-ante e outra ex-
post, cujo objetivo era destacar os efeitos de programas de bolsa escola sobre o trabalho infanto-juvenil no Brasil. Em ambos os trabalhos, os resultados indicam que a presença de programas de bolsa-escola tende a elevar a matrícula das crianças e adolescentes em escolas, a diminuir a proporção de crianças inativas ou apenas trabalhando, elevar a proporção de crianças e adolescentes que estudam e trabalham ou que apenas estudam, sem afetar de forma decisiva a proporção de crianças e adolescentes que trabalham.
Neste tópico, trataremos do artigo escrito por Ana Lúcia Kassouf e por Adriana Ferro em 2005, intitulado Avaliação dos Impactos dos Programas Bolsa-Escola sobre o Trabalho
Infantil no Brasil. Neste artigo, as autoras propõem avaliar os efeitos de programas de bolsa escola sobre o trabalho infanto-juvenil analisando se a participação em programas de bolsa escola é capaz de reduzir a probabilidade de crianças e adolescentes trabalharem e se a participação em programas de bolsa-escola é capaz de reduzir o número de horas trabalhadas pelas crianças.
Para alcançar os objetivos propostos, Kassouf e Ferro (2005) definiram um conjunto de variáveis que influem sobre o exercício de trabalho por parte de crianças e adolescentes e que freqüentemente são citadas pela literatura especializada no assunto. Estas variáveis foram utilizadas posteriormente como variáveis independentes em um modelo probit em que a variável dependente assume o valor um quando a criança trabalha e zero quando ela não trabalha. Por fim, as mesmas variáveis independentes foram utilizadas para estimar o número de horas trabalhadas pelas crianças.
As variáveis independentes escolhidas pelas autoras reúnem um conjunto de características individuais das crianças (gênero, raça, idade), características de background familiar (idade,
107 escolaridade e estimativas do logaritmo dos salários dos pais), características de composição da família (número de irmãos mais novos, número de irmãos mais velhos, número de irmãos na mesma faixa etária e número de adultos), dummies que indicam o Estado de origem da criança e uma dummy que indica se a criança participa (ou não) de programas de bolsa escola. O banco de dados utilizado pelas pesquisadoras foi a Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD), coletado em 2001 e que trazia um suplemento sobre acesso a serviços de saúde e sobre trabalho infantil, seccionado para conter informações apenas sobre as crianças de seis a quinze anos.
Uma análise preliminar dos rendimentos oriundos de atividades de trabalho e obtidos por crianças e adolescentes mostra que o valor dos benefícios (R$15,00 por criança até um limite de três crianças) é capaz de compensar o custo de oportunidade representado pelos salários de mercado das crianças de seis a dez anos - cerca de R$3,00 por mês - e das crianças de 11 a 15 anos de idade que trabalham e estudam, pois estas recebiam, em média, R$16,00 por mês. Para as famílias que atendem aos critérios de elegibilidade e cujos filhos somente estudam, a participação é uma forma de elevar a renda mensal sem alterar a escolha ocupacional de seus filhos. Para as crianças e adolescentes com onze ou mais anos de idade e que trabalham exclusivamente, a decisão de participar do programa reduz a renda familiar. Neste sentido, haveria uma importante pressão em favor da evasão escolar a partir dos onze anos de idade porque, a partir desta faixa etária, o valor dos benefícios passa a ser inferior aos ganhos possíveis no mercado de trabalho.
Com base nos resultados do modelo Probit, observa-se que a participação em programas bolsa-escola eleva a probabilidade de a criança e o adolescente trabalhar na zona urbana e rural em 0,71% e 3,62% respectivamente. Apesar de se esperar o contrário, este resultado é compreensível quando levamos em conta o fato de o programa selecionar crianças e adolescentes oriundas de estratos mais pobres e que, por isto, estariam mais propensos a exercerem trabalho.
Em relação ao número de horas trabalhadas pelas crianças e adolescentes, participar do programa reduz em 3,04 o número de horas trabalhadas na zona urbana e em 2,80 horas na zona rural. Há que se destacar que a exigência de freqüência escolar naturalmente implica em reduzir o número de horas disponíveis para o trabalho e que este efeito deve ser menor para as crianças que já freqüentavam a escola e trabalhavam ao mesmo tempo.
Quanto ao efeito das características individuais das crianças sobre a probabilidade de elas trabalharem, observa-se que quanto mais velha for a criança, maiores são suas chances de
108 trabalhar (1,98% nas cidades e 12,76% no campo), apesar de a idade não ser estatisticamente significativa na equação de salário. Quanto à raça, maiores são as chances de brancos e pardos trabalharem na zona rural, em relação aos negros. Contudo, se levarmos em conta apenas as crianças que trabalham, os resultados mostram que o número de horas trabalhadas por crianças negras é maior que as horas de trabalho realizadas por crianças brancas na área rural. Além disso, as chances de meninos trabalharem são maiores do que as mesmas chances para meninas (3,10% nas cidades e 20,34% no campo), mas, dado que ambos trabalham, as meninas tendem a trabalhar por mais tempo do que os meninos na zona urbana (2,12 horas), ao passo que o contrário ocorre na zona rural (2,43 horas).
No que diz respeito às características dos pais (background familiar), os resultados apontam que a probabilidade de as crianças trabalharem aumenta na zona rural quanto mais velha for sua mãe. Embora a idade dos pais nas cidades não tenha mostrado efeitos significativos sobre a probabilidade de a criança trabalhar, maior tende a ser o número de horas trabalhadas pelas crianças na medida em que velho é o pai, dado que esta criança trabalha. Neste caso, a idade da mãe não apresentou efeitos significativos. As autoras apontam que este resultado é condizente com a noção de que pessoas mais velhas valorizam o trabalho precoce. Além disso, quanto maior o salário dos pais, menor tende a ser a probabilidade de as crianças trabalharem e menor tende a ser a jornada média das crianças.
Quanto a composição familiar, observa-se que a presença de irmãos adultos não influencia a probabilidade de as crianças trabalharem. Já a presença de irmãos na mesma faixa de idade eleva a probabilidade de as crianças trabalharem em 0,61% e 3,59% nas cidades e no campo, além de elevar em 1,30 horas a jornada semanal das crianças nas cidades e reduzir em 0,36 horas a jornada das crianças no campo. A presença de irmãos menores não altera de modo significativo a probabilidade de as crianças das cidades trabalharem, ao passo que representa um aumento de 1,80% na probabilidade de as crianças da zona rural trabalhar. Dado que a criança trabalha, um irmão a mais com até cinco anos de idade eleva a jornada das crianças em 1,39 nas cidades e em 0,46 horas semanais de trabalho na zona rural.
Com base nos resultados apresentados, Kassouf e Ferro (2005) apontam que a participação no programa implica na redução de cerca de três horas na jornada semanal de trabalho, tanto no campo quanto nas cidades. O valor pequeno deste coeficiente é condizente com o fato de que as crianças que trabalham período integral apresentar menor disposição em deixar de trabalhar porque o valor da bolsa é menor que o custo de oportunidade representado pelos salários de mercado. Já as crianças que estudam e trabalham tendem a participar do programa
109 a fim de elevar a renda familiar, sem necessariamente deixar de trabalhar. Em relação aos efeitos dos programas de bolsa escola sobre a probabilidade de as crianças trabalharem, a participação no programa tende a aumentar as chances de que uma criança exerça atividades de trabalho. Este resultado, diferente do esperado, pode ser explicado pela influência de variáveis omitidas que influenciam na participação do programa e cujo efeito positivo sobre a decisão de trabalhar é maior do que o efeito negativo do programa. Assim, conclui-se que a participação do programa contribui para reduzir a jornada de trabalho das crianças de 6 a 15 anos oriundas de famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo em 2001, mas nada se pode dizer sobre seu impacto sobre a decisão de trabalhar ou não.
3.1.4 Uma análise sobre os efeitos de um conjunto de variáveis, inclusive a