IMPACTOS DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA SOBRE O TRABALHO INFANTO JUVENIL
3.1 ESTUDOS RECENTES SOBRE O TRABALHO INFANTO-JUVENIL NO BRASIL
3.1.2 Um estudo não simulado dos impactos dos programas de bolsa-escola sobre o trabalho infanto-juvenil no Brasil a partir do pareamento pelo escore de
propensão
A indisponibilidade de informações suficientes para embasar o estudo dos impactos do Programa Bolsa Escola federal sobre o trabalho infanto-juvenil no Brasil motivou Ferreira, Bourguignon e Leite (2002) a desenvolver um modelo comportamental que permitisse esclarecer ex-ante como as famílias alocariam o tempo disponível de seus filhos em resposta ao programa. Tal esforço era, naquele momento, factível porque havia, naquele momento, apenas o conhecimento dos parâmetros fundamentais do programa (valor das transferências, critérios de inclusão e de seleção, condicionalidades etc.).
Em relação aos Programas de Bolsa Escola municipais, as circunstâncias eram diferentes. Graças ao fato de já serem praticados por mais tempo, diversos levantamentos davam conta de sua existência, permitindo o desenvolvimento de estudos empíricos a fim de analisar seus efeitos sobre o trabalho de crianças e adolescentes. Em artigo intitulado The Impact of Cash
Transfers on Child Labor and School Attendance in Brazil (2004), os pesquisadores Eliana Cardoso e André Portela fazem uso do método do Pareamento pelo Escore de Propensão7 (PEP) a fim de avaliar os efeitos dos Programas de Bolsa-Escola sobre o trabalho de crianças e adolescentes no Brasil.
Em trabalhos empíricos, o objetivo de se avaliar os efeitos de políticas públicas sobre características comportamentais de uma determinada sociedade demanda a reunião de um conjunto de informações que permita afirmar se a presença desta política permitiu o alcance dos resultados de interesse. Para tanto, o pesquisador deve ser capaz de poder comparar a situação anterior ao desenvolvimento da política pública com a situação posterior à sua consolidação. Em outras palavras, o pesquisador deve possuir um contrafactual que o permita, após a devida comparação, afirmar se os objetivos das políticas analisadas foram alcançados ou não.
Contudo, nem sempre é possível conhecer as condições da sociedade antes do estabelecimento das políticas públicas. No que tange a análise dos efeitos de programas de bolsa-escola sobre o trabalho infanto-juvenil, a dificuldade enfrentada por Cardoso e Souza (2004) consistia na ausência de informações relativas à situação prévia das crianças e adolescentes beneficiadas pelo programa. Uma forma de compensar esta dificuldade seria
7 A metodologia do Pareamento pelo Escore de Propensão será explicada a rigor no segundo tópico deste capítulo.
104 comparar diretamente os resultados observados para os beneficiados e para os não beneficiados. No entanto, o fato de a participação no programa não ser aleatória, já que os eleitos devem atender aos critérios de elegibilidade do programa, os resultados advindos da comparação direta entre as pessoas do grupo de tratamento e de controle estarão enviesados porque são grandes as chances de se comparar pessoas do grupo de beneficiados com pessoas do grupo de não beneficiados e que não podem participar do programa.
Para superar esta dificuldade, Cardoso e Souza (2004) adotaram a metodologia do Pareamento pelo Escore de Propensão (PEP) para analisar o efeito dos programas de bolsa- escola sobre o trabalho das crianças e adolescentes com idades entre dez e quinze anos. Esta metodologia permite que se comparem os resultados observados para as crianças e adolescentes beneficiadas com os resultados alcançados pelas não beneficiadas, estabelecendo pares entre beneficiados e não beneficiados desde que estes apresentem probabilidades similares entre si de participação nos programas de bolsa-escola. Tais probabilidades são estimadas através de um modelo com variável dependente limitada e tomam por base um conjunto de características individuais, familiares, geográficas etc. de ambos os grupos. A partir desta metodologia, obtêm-se dois importantes parâmetros, a saber, o efeito médio do tratamento sobre o tratado (Average Treatment on Treated - ATT), e o efeito médio do tratamento (Average Treatment Effect - ATE). O ATT corresponde à diferença média entre os resultados alcançados por beneficiários e não beneficiários, dada a probabilidade de participarem do programa, enquanto o ATE corresponde à diferença entre os resultados médios observados para os beneficiados e não beneficiados.
Segundo Cardoso e Souza (2004), as características que influem sobre a probabilidade de crianças e adolescentes participarem dos programas de bolsa-escola correspondem a um conjunto de características individuais das crianças (idade, gênero, raça e uma dummy que informa se a criança reside na zona rural), características de composição familiar (número de crianças de zero a cinco anos; número de crianças com idades entre seis e quinze anos; número de pessoas maiores de 16 anos na família), características dos pais (escolaridade, raça,
dummy de desemprego, que informa se os pais trabalham ou estão desempregados, e renda líquida das transferências) e características dos municípios de origem (médias e desvios- padrão de escolaridade, idade, renda líquida de transferências e a proporção de pessoas vivendo em zonas rurais). O único controle adicional é representado por uma variável dummy que identificam as crianças oriundas de famílias em que um dos pais é ausente.
105 Os autores analisaram os efeitos dos programas de bolsa escola sobre o trabalho infanto- juvenil (i) considerando apenas as famílias pobres, cuja renda per capita era inferior a R$100,00 a preços de 2000, (ii) para todas as famílias com pais empregados e (iii) considerando apenas famílias pobres e com pais empregados. Para a amostra que reúne todas as crianças, observou-se que 95% dos meninos freqüentam a escola no grupo de tratamento, ao passo que 92% freqüentam a escola no grupo de controle. O efeito médio do tratamento (ATE), bastante significativo, é um acréscimo de 3 p.p. de freqüência escolar. Por outro lado, houve queda de 3 p.p. na proporção de meninos fora da escola, o que, a partir deste ponto de vista, deve ser considerado um grande efeito (queda de 37,5%), embora não haja efeito líquido importante sobre o trabalho infantil.
O procedimento também foi realizado para outras quatro categorias: (i) crianças que apenas estudam; (ii) crianças que estudam e trabalham; (iii) crianças que apenas trabalham e (iv) crianças inativas. Os resultados mostram que o programa reduz a proporção de crianças que apenas trabalham e a proporção de meninos inativos, enquanto eleva a incidência de crianças que estudam e trabalham simultaneamente. Devido ao fato de a variação negativa da incidência de crianças que trabalham exclusivamente ser compensada pela variação positiva da proporção de crianças que estudam e trabalham, os programas de bolsa-escola não apresentam efeitos líquidos significativos sobre o trabalho infanto-juvenil. Os resultados para as meninas são similares, com a diferença que o programa apresenta impactos líquidos significativos sobre seu trabalho, com as meninas inativas migrando para o grupo das crianças que estudam e trabalham.
A fim de discorrer sobre os determinantes da freqüência escolar, Cardoso e Souza (2004) utilizaram a amostra pareada para estimar, a partir das características familiares, novamente o modelo logit cujas variáveis dependentes limitadas identificam se a criança freqüenta escola ou creche e se ela trabalha ou não. Os resultados deste novo procedimento os permitem concluir que os rendimentos transferidos às mães produzem melhores resultados do que quando transferidas aos pais, no que diz respeito à freqüência escolar, embora não se mostrem significativas quando relacionadas ao trabalho infantil.
Com base nestes resultados, Cardoso e Souza (2004) tiram suas conclusões sobre o efeito dos programas de bolsa escola. Segundo os autores, os programas de bolsa-escola apresentaram impactos significativos em relação à elevação da freqüência escolar, com resultados robustos e similares para meninos e meninas. Estes resultados sugerem que as transferências foram capazes de afetar a forma como as crianças designam seu tempo
106 disponível entre atividades de trabalho e atividades escolares, pois a incidência de crianças que apenas estudam ou que estão inativas se reduz, enquanto se eleva a proporção de crianças que apenas estudam ou que estudam e trabalham. Por fim, os resultados não indicam que o programa reduza de maneira estrita a proporção de crianças em condições de trabalho porque o valor das transferências é baixo em comparação com os ganhos médios dos pais e porque os rendimentos do trabalho das crianças são importantes para a família.
3.1.3 Efeitos dos programas de bolsa-escola sobre a probabilidade de crianças e