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EIs classificadas segundo a categoria “Geral (Diversos)”

No documento Eloísa Moriel Valença (páginas 122-127)

CAPÍTULO V DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

5.8. EIs classificadas segundo a categoria “Geral (Diversos)”

Nesta categoria encontra-se uma miscelânea de EIs que não puderam ser classificadas nas categorias anteriores. Elas estão relacionadas a jogos, alimentos, situação econômica, objetos, construções, instrumentos musicas, esportes, entre outros elementos. A título de ilustração, trazemos a análise de algumas delas.

O núcleo come il cacio sui maccheroni pode ser combinado com uma série de verbos, tais como essere (ser), stare (estar), capitare (acontecer), venire (vir), cadere (cair), cascare (cair) e piovere (chover). As EIs mais comuns foram essere come il cacio sui maccheroni e arrivare come il cacio sui maccheroni. A primeira EI possui o sentido adverbial “de modo muito apropriado para alguma coisa, um toque final” e a segunda EI é usada “para dizer de uma coisa, de uma pessoa ou de um acontecimento que ocorrem no momento certo e que são capazes de auxiliar na conclusão e na perfeição”. Esse é um dos casos no qual o tradutor deve estar muito atento ao contexto nos quais estão inseridas essas EIs, pois dependendo do verbo que as acompanha, o significado será diferente e, por consequência, o correspondente também. Para a EI essere come il cacio sui maccheroni, propomos o correspondente cair [servir] como uma luva, e para a EI arrivare come il cacio sui maccheroni, chegar [vir] em boa hora; vir [bem] a calhar. Essa expressão retrata a cultura italiana, para a qual a culinária é um elemento fundamental. Assim como a combinação entre cacio (queijo ralado) e maccheroni (macarrão) é algo perfeito, impecável.

O núcleo alla chetichella também retrata uma EI com caráter adverbial e significa “escondido, sem ser notado, sem fazer barulho”. O núcleo alla chetichella deriva da palavra cheto (quieto, calmo, silencioso). Na web, encontramos o núcleo acompanhado por diversos verbos como entrare (entrar), andarsene (ir-se embora), uscire (sair), fuggire (fugir), fare (fazer). De acordo com o verbo com o qual o núcleo é combinado, existem algumas nuances de significado pragmático. Para ilustrar, os verbos de movimento entrare, andarsene, fuggire e uscire alla chetichella teriam como correspondente idiomático a EI entrar, ir-se embora, fugir, sair de fininho. Já a EI fare alla chetichella possui, como significado, fazer alguma coisa às escondidas Para esta, propomos como correspondente a EI fazer [algo] por debaixo dos panos.

Observamos que, em alguns casos, ao buscarmos correspondentes idiomáticos para as EIs italianas, deparamo-nos com extensões de significado diferentes. Para ilustrar essa colocação, apresentamos a EI dichiarare [fare] forfait. Essa expressão significa “render-se, desistir, declarar-se vencido ou incapaz de continuar alguma coisa”, para a qual foram propostos os correspondentes jogar a toalha e entregar os pontos. A EI italiana é utilizada em contextos esportivos, porém, os correspondentes brasileiros, podem ser usados em contextos de uso muito mais amplos e não apenas os esportivos. Além disso, embora tenhamos encontrado, no dicionário de Rocha (2011), a expressão Fazer forfait, com o significado de “faltar a um compromisso ou a uma obrigação”, esta última não é muito frequente em português, assim como o é em italiano.

A EI in zona Cesarini, por sua vez, teve origem a partir de um culturema. Esta expressão alude ao jogador de futebol Renato Cesarini que marcava gols frequentemente nos últimos minutos do jogo, como o que, em 1931, ajudou a Juventus a ganhar uma importante partida contra a Hungria. O correspondente brasileiro proposto, aos 45(46) do segundo tempo, não se refere apenas a algo que acontece para salvar a situação, mas além desse sentido, refere-se também àquilo que acontece de última hora. Contudo, o culturema que faz referência ao jogador Renato “Cesarini”, se perde no correspondente indicado, embora seja mantido o contexto esportivo das partidas de futebol.

Apesar das dificuldades de tradução dos FBDM, devido aos elementos culturais particulares de cada comunidade, conseguimos encontrar correspondentes idiomáticos parciais em português para a maioria das expressões italianas.

Dentre as dificuldades apontadas por Baker (1992) para a tradução dos idiomatismos estão: (a) a falta de equivalentes na língua alvo, pelo fato de cada sociedade enxergar o mundo e expressar essa visão de mundo, de maneiras diferentes; para estes casos, a autora sugere a tradução por paráfrase; (b) a semelhança entre idiomatismos da língua fonte e alvo, mas cujos contextos de uso e frequência de uso são diferentes entre as línguas.

Ao apontar alguns caminhos para a tradução de idiomatismos, Baker (2002) aponta as estratégias de: (1) utilizar um idiomatismo de sentido e formas semelhantes, ou seja, que tenha aproximadamente o mesmo significado do idiomatismo da língua fonte e que consista em itens lexicais equivalentes; (2) utilizar um idiomatismo de sentido semelhante, mas constituídos por itens lexicais diferentes (o que seria uma “adaptação”, para alguns autores).

Observemos o quadro a seguir:

Quadro 4. Continuum de correspondências – Italiano para o Português

Do total de EIs selecionadas inicialmente não foram incluídas em nosso dicionário as seguintes expressões, já que elas apresentam correspondentes idiomáticos totais em

português: fare la vitoria di perro, spada di Damocle, doccia scozzese, camicia di Nesso, tela di Penelope e risposte sibilline.

Desta maneira, e com base neste continuum, o corpus da pesquisa configura-se assim:

1. Do total de fraseologismos selecionados, só não foram encontrados correspondentes para

13 EIs (EIs sem correspondentes idiomáticos), as quais não foram incluídas no dicionário (embora estejam nas fichas lexicográficas), mas consideramos importante apresentá-las aqui em nossa análise, para poder mostrar a dificuldade de tradução e compreensão dessas unidades. São elas: [andare] In bocca al lupo; [far] le nozze coi ficchi secchi; [essere] come un filisteo; [essere] [fare un] [succedere un] quarantotto; far veder i sorci verdi; essere [avere] un cincinnato; [essere] più tondo dell’O di Giotto; fare un pesce d’aprile; segreto di pulcinella; bussare a quattrini. A categoria para a qual tivemos mais dificuldades para encontrar correspondentes em português foi a categoria Histórico (Guerras/Batalhas), seguida da categoria Mitológico. No caso de necessidade de tradução de uma dessas EIs sugerimos, assim como Baker (2002), uma paráfrases explicativa no português.

2. Todos os demais fraseologismos selecionados nesta pesquisa possuem correspondentes que

são apenas parciais, em português. Foram considerados correspondentes parciais aquelas expressões cujas extensões de sentido não são idênticas em ambas as línguas, por que:

(a) a EI italiana comporta mais de um correspondente em português, devido às suas várias acepções, como é o caso de fare il cireneo que foi traduzida por pagar o pato, mas este recobre apenas um dos seus significados, já que também pode ser ajudar a carregar a cruz e dividir o fardo com alguém.

(b) o correspondente atribuído à EI italiana apresenta também outros significados além daquele que serve para traduzi-la, como no caso de fare il portoghese para o qual sugerimos entrar de bicão, apesar de este correspondente também possuir os sentidos de “entrar sem ser convidado” e “entrar escondido”.

(c) na atribuição de correspondentes tradutórios há perda de elementos fundamentais da língua estrangeira, como é o caso dos culturemas. Assim, todos os correspondentes atribuídos a estas e a outras EIs são apenas parciais: fare come l’asino di Buridano; fare l’Aventino; andare a canossa; aver bevuto l’acqua di Fontebranda; aver bevuto l’acqua del porcellino; portare il soccorso di Pisa; portar vasi a Samo; passare sotto le forche caudine; essere l’Aristarco; fare il bastian contrario; (non) essere i tempi in cui Berta filava; fare le cose alla carlona; dire male di Garibaldi; fare San Martino; essere come il pozzo di San Patrizio;

trovarsi tra Scilla e Cariddi; fare come l’Achille sotto tenda; avere gli occhi di Argo; fare l’Arlecchino servitore da due padroni; fare il pulcinella; essere un azzeccagarbugli; fare il Rodomonte; in zona Cesarini; essere il paese della cuccagna; fare una vita da nababbo etc.

3. Apenas alguns poucos fraseologismos podem ser considerados correspondentes quase-

totais. Ex: Fata Turchina (fada madrinha); Tizio, Caio e Sempronio (Fulano, Sicrano e Beltrano), uma vez que, apesar de as lexias empregadas em ambos os idiomas não desfrutarem exatamente das mesmas características, já que “turchina” faz referência à cor azul turquesa de seu vestido e Tizio, Caio e Sempronio são nomes aleatoriamente escolhidos, ambos os idiomatismos apresentam as mesmas extensões de sentido e são utilizados nos mesmos contextos.

Esses diversos culturemas que foram encontrados na formação das EIs: personagens históricos como Garibaldi, Carlos Magno, Ganimedes, Nesso; personagem bíblico como Cireneu; personagem folclórico como Pulcinella e os santos São Francisco, São Martim e São Patrício, não são compartilhados pela cultura brasileira, portanto foi necessário lançar mão de uma “adaptação” na hora de traduzir as EIs originadas a partir deles, para assim se manter a idiomaticidade das expressões.

Em seu artigo “Cultural difficulties in translations from English into Arabic”, Mares (2012) elenca alguns tipos de dificuldades culturais na tradução de duas culturas muito diferentes: a inglesa e a arábica. Uma das principais dificuldades de tradução trazidas pela autora é a religião. A base religiosa árabe é completamente diferente da inglesa. A primeira diferença que aparece é o uso dos nomes próprios, de acordo com Mares (2012). Os nomes próprios árabes como “Mohammed” e Abdullah” estão relacionados à cultura muçulmana e são retirados do Alcorão. Isso mostra que a sociedade árabe é mais convencional e tradicional do que as sociedades ocidentais, no que diz respeito aos usos de nomes próprios.

Apesar de a cultura italiana e brasileira possuírem uma mesma base (ocidental, herdeiras da cultura greco-romana), as diferenças culturais também se sobressaem. Ainda que a base religiosa brasileira e italiana seja católica apostólica romana, foram encontrados fraseologismos (com Cireneo, San Martin, San Patrizio) que não possuem um correspondente tradutório literal.

No documento Eloísa Moriel Valença (páginas 122-127)