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Elaboração dos instrumentos e coleta de dados

MULTIRREFERENCIALIDADE OFÍCIO

2.2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 1 Participantes e cenários da pesquisa

2.2.2 Elaboração dos instrumentos e coleta de dados

Nesta etapa, já tendo explicitado o caráter qualitativo do estudo, nos voltamos para os autores que desenvolveram pesquisas e estudos ligados ao estresse na vida do professor, as estratégias de enfrentamento nas ações cotidianas e o desenvolvimento da resiliência. Buscamos, nas suas publicações, subsídios que pudessem referendar a constituição dos nossos instrumentos de pesquisa.

Assim, a fim de viabilizar o estudo, optamos por empregar dois instrumentos: · questionário, para caracterização inicial dos sujeitos (apêndice A);

· entrevista semi-estruturada (apêndice B);

Tanto na elaboração do questionário quanto da entrevista, usamos como referência os seguintes trabalhos:

· Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (2000);

· Estudos de Lipp sobre o estresse do professor (LIPP, 2002) e as estratégias de enfrentamento;

· Pesquisa publicada em Portugal por Mota-Cardoso et al. (2002) sobre o estresse nos professores portugueses;

· Estudos sobre a resiliência na educação (TAVARES, 2001) e as estratégias de enfrentamento das situações desafiadoras;

· Estudos sobre os ciclos de vida dos professores, de Huberman (1995).

O questionário é de nossa autoria e foi elaborado da seguinte forma: após a leitura dos trabalhos mencionados anteriormente, recebemos um convite para realizar reuniões formativas com professores de duas escolas particulares na zona norte da cidade do Natal, tendo como tema principal o estresse do professor. Na época, março de 2004, ainda elaborando o projeto de pesquisa para a seleção do doutorado, aproveitamos a ocasião para realizar um estudo-piloto e validar nossos instrumentos de coleta de dados. Para tal, elaboramos um questionário, o qual deveria suscitar respostas aos

nossos objetivos de estudo. Os núcleos de sentido e os percentuais de respostas dos professores nesse pré-teste atenderam às expectativas pela qualidade das informações, possibilidades de acréscimos às informações solicitadas, variabilidade de significados para um mesmo fenômeno, familiaridade com a temática e desejo de aprofundamento nas respostas. Frente ao exposto, percebemos que aquele instrumento respondia ao que se propunha, confirmando assim, sua validação. Após sua aplicação com 25 professores, fizemos pequenos ajustes e constatamos sua viabilidade para a pesquisa ainda em fase de elaboração do projeto, uma vez que focalizava a compreensão do estresse, fatores desencadeadores e estratégias de enfrentamento (Apêndice A).

Igualmente ao questionário, o roteiro de entrevista também é de nossa autoria. Formulamos questões abertas, tendo como principal referência os objetivos do estudo, aplicamos junto aos professores mencionados anteriormente, constatamos a viabilidade para o estudo proposto e, após pequenas modificações surgiu o roteiro que utilizamos (Apêndice B).

Convém assinalar, que tanto os instrumentos utilizados por Lipp (2000), quanto os que foram utilizados na pesquisa sobre o estresse dos professores portugueses, foram baseados no MBI – Maslach Burnout Inventary, que consiste numa escala de auto- resposta, criada em 1986 pelas norte-americanas Christina Maslach e Susan Jackson, onde medem a presença ou ausência de estresse no indivíduo, bem como a fase do estresse em que se encontram. Além do MBI, utilizaram uma escala que mede a satisfação no trabalho e outra que avalia a percepção que o sujeito tem do estresse. Conhecendo esses instrumentos e tendo claro que o nosso estudo, em alguns aspectos, se assemelha àqueles, e noutros se diferencia totalmente dos trabalhos especificados anteriormente, optamos pela feitura dos nossos instrumentos, uma vez que nossa preocupação maior estava centrada em investigar como os indivíduos percebem e reagem ao estresse associado ao ofício.

Ainda é preciso registrar que a decisão de utilizar o questionário e a entrevista foi fundamentada nos autores que tratam de metodologia nas ciências sociais - Lüdke e André (1986); Alves-Mazzoti e Gewandsznajder (1998) e Richardson (1999). Esses autores assinalam que as pesquisas qualitativas comportam uma variedade de procedimentos, visando, primordialmente, à complementação de informações. Tendo clara essa possibilidade, definimos que usaríamos primeiro o questionário e, com a caracterização da amostra, selecionaríamos os informantes-chave para fazer a entrevista, no sentido de explorar com profundidade os temas de interesse.

A utilização de um questionário prévio, conforme Richardson (1999), contribui para delimitar o problema estudado, permitindo a identificação de casos representativos. Neste estudo, os dados colhidos do questionário nos permitiram a identificação ou seleção dos professores que seriam entrevistados, cujo critério para escolha foi pautado na riqueza de informações e exposição de situações, ainda no questionário, que revelaram maior ligação com o tema. Também o interesse e a receptividade em participar do estudo, além da vontade de conhecer sobre o tema, serviram como segundo critério para a seleção dos que seriam entrevistados.

Com relação aos questionários, Laville e Dionne (1999) reconhecem que, além da aplicação possibilitar uma gama variada de informações, num curto espaço de tempo, ainda podem ser respondidos, sem que seja necessária a presença de um aplicador. Assim, para viabilizar a eficácia da aplicação, na instituição pública, optamos por entregar os questionários à secretária do Curso de Administração que se dispôs a aplicá- los. Estabelecemos um prazo (15 dias) para que os instrumentos fossem devolvidos. A secretária os entregou aos nove professores para que respondessem individualmente e, em seguida, os recolheu para nos serem devolvidos.

Na instituição particular, pela facilidade de acesso aos professores, distribuímos os questionários aos 8 professores e marcamos um prazo (8 dias) para que eles os devolvessem. Após devolução, tanto pela instituição pública quanto da particular, fizemos o tabelamento das informações para melhor caracterizar a amostra e selecionar os que seriam entrevistados. Os dados dos questionários foram, inicialmente, agrupados em tabelas separadas (Apêndice C – instituição pública e Apêndice D – instituição particular), entretanto, como não optamos por fazer estudo comparativo entre as instituições, a fim de obtermos uma visualização integrada, fizemos a fusão das duas tabelas (Apêndice E), constituindo-se numa caracterização de todos os professores participantes do estudo.

Além do questionário, conforme já expresso, escolhemos a entrevista semi- estruturada como um dos instrumentos para nossa coleta de dados. Vale ressaltar que a entrevista semi-estruturada constitui instrumento privilegiado pelas possibilidades que oferece. Buscamos em Richardson (1999, p. 207-208), a compreensão do significado da expressão como instrumento:

O termo entrevista é construído a partir de duas palavras, entre e

vista. Vista refere-se ao ato de ver, ter preocupação de algo. Entre

indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa duas pessoas ou coisas. Portanto, o termo entrevista refere-se ao ato de perceber

realizado entre duas pessoas.

A entrevista semi-estruturada, de acordo com o autor, pode ser chamada de entrevista em profundidade, visto que, em vez de responder a uma pergunta em que já se apresentam as opções previamente, o entrevistado é convidado a falar do que considera mais relevante em relação a determinado problema. Assim, por meio de uma conversa guiada, o participante poderá fornecer informações detalhadas, que posteriormente serão tratadas qualitativamente. Reiterando a riqueza de contribuições fornecidas pela entrevista semi-estruturada, Laville e Dionne (1999, p. 188) reafirmam a flexibilidade dessa modalidade:

A entrevista oferece maior amplitude do que o questionário, quanto à sua organização: esta não estando mais irremediavelmente presa a um documento entregue a cada um dos interrogados, os entrevistadores permitem-se, muitas vezes, explicitar algumas questões no curso da entrevista, reformulá-las para atender às necessidades do entrevistado. Muitas vezes, eles mudam a ordem das perguntas em função das respostas obtidas, a fim de assegurar mais coerência em suas trocas com o interrogado.

Também Lüdke e André (1986) referem que a entrevista desempenha papel importante, não apenas em atividades de cunho científico, mas também em muitas outras atividades humanas. Esses autores advertem os entrevistadores para que não antecipem ou direcionem a resposta do entrevistado, bem como valorizem a opção por instrumentos que permitam a flexibilidade do pesquisador. Assinalam a interação que se estabelece do entrevistador com os entrevistados, chegando a criar uma atmosfera de influência recíproca. O clima de reciprocidade estimula para que as informações possam fluir de maneira mais autêntica e cooperativa. Não se pode, entretanto, deixar de enfatizar o respeito que deve ser conferido aos entrevistados. Esse respeito inclui desde as questões éticas, nas quais se garante o sigilo das informações fornecidas, até a marcação de local e horário onde será realizada a entrevista.

A atmosfera de cooperação estabelecida por ocasião da entrevista permite-nos tratar de temas em que estejam em foco a subjetividade e a vida pessoal do entrevistado. Assim, julgamos esse instrumento adequado aos objetivos da pesquisa, visto que

investigar os fatores que desencadeiam o estresse no ofício docente comporta uma gama de informações que fazem parte da intimidade e subjetividade do professor. Como pesquisadora tivemos o cuidado de conduzir pessoalmente as entrevistas, desde as etapas preliminares de marcação de local e data, até sua realização e apreciação do material escrito pelos participantes.

Tratando da relação do pesquisador com os participantes da pesquisa, Richardson (1999, p.96) adverte que pode haver uma variação, desde o contato relativamente breve de uma entrevista, até uma participação ou convivência mais sistemática com os sujeitos, por meio da observação participante. Assinala o cuidado que o pesquisador deve tomar para não influenciar o comportamento dos entrevistados, de modo a direcionar suas declarações. A forma de estabelecer esse relacionamento, porém, não pode ser rígida:

A administração do relacionamento com os entrevistados é um aspecto importante da validade da pesquisa qualitativa, mas não pode ser prescrito com um procedimento específico, e sua adequação ou eficiência não será imediatamente clara para uma terceira pessoa. O esforço feito pelo pesquisador para estabelecer resultados válidos pode aparecer no relatório, mas a validade será um processo que, em último caso, dependerá da confiança.

É oportuno, ainda, ressaltar que todos os professores selecionados para serem participantes da pesquisa oficializaram a participação pelo preenchimento do Termo de Consentimento (Apêndice F). Neste, além de se disporem a participar, também confirmaram o direito de se retirarem, a qualquer momento do estudo, caso o quisessem. Foram ainda assegurados de que as informações prestadas teriam o anonimato garantido. Adotamos essa estratégia em respeito às recomendações da Resolução nº196, aprovada na 59ª reunião ordinária do Conselho Nacional de Saúde, em 10 de outubro de 1996, em que foram aprovadas as diretrizes e normas regulamentares de pesquisa envolvendo seres humanos no Território Brasileiro (BRASIL, 1996).

2.2.3 Da aplicação

Nas duas instituições de ensino pesquisadas foi mantido um contato preliminar com os professores, tendo sido explicadas as propostas do estudo e solicitada a cooperação deles. A disponibilização em participar foi oficializada pelo Termo de

Consentimento já citado, assinado no período de aplicação dos questionários, que se estendeu entre os dia 1-20/06/2005. Na Instituição particular, o primeiro contato foi mantido por nós, e na Instituição pública, o contato inicial foi feito por intermédio da secretária do Curso. Ocorreu, então, a primeira etapa de coleta de dados, quando foram aplicados os questionários.

Os questionários foram respondidos por 17 professores sendo 8 da Instituição particular e 9 da pública. Essa amostra corresponde a 20% do total de professores do Curso de Administração em cada Instituição. Os questionários foram entregues e respondidos individualmente, sem a necessidade da presença do pesquisador ou aplicador ao lado do participante da pesquisa. Posteriormente, após o preenchimento dos questionários, foi mantido mais um contato com os professores, visando a agradecer a colaboração inicial e informando que alguns voltariam a ser solicitados a participar de uma entrevista mais detalhada sobre o tema.

O critério para a escolha dos que seriam entrevistados, conforme mencionado anteriormente, esteve relacionado a maior aproximação com o objeto de estudo e riqueza de informações disponibilizadas nas questões abertas do questionário. Dos 17 que responderam ao questionário, selecionamos 8 para a entrevista: 4 da Instituição pública e 4 da particular. Mantivemos contato pessoal com cada um e as entrevistas foram marcadas com antecedência, respeitando a disponibilidade de agenda dos professores. Foram realizadas no período compreendido entre 22/06/2005 a 15/07/2005. Conforme já citado, a condução das entrevsitas ficou sob a nossa responsabilidade, tomando cuidado em realizá-las num ambiente silencioso e confortável. Antes de iniciarmos pedíamos permissão para que as falas fossem gravadas, assegurando-lhes que após a transcrição poderiam fazer alterações. Após alterações, os professores devolveram as entrevistas que, posteriormente, fizeram emergir o aprendizado nascido da escuta. Adotamos essa estratégia em virtude do respeito que estabelecemos para com os docentes que se dispuseram a colaborar e dialogar conosco. (APÊNDICE G).

Em todas as etapas da coleta de dados, mediante um processo de observação, fomos captando e registrando, num caderno de anotações, algumas informações, desabafos e depoimento dos professores, que pudessem enriquecer e complementar os dados colhidos.