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VIDA PESSOAL E VIDA PROFISSIONAL: O ENTRELAÇAMENTO DOS OPOSTOS

5 OFÍCIO, ESTRESSE E ENFRENTAMENTO PRESENTES NAS FALAS E NA INDIVIDUALIDADE DOS PROFESSORES

5.6 VIDA PESSOAL E VIDA PROFISSIONAL: O ENTRELAÇAMENTO DOS OPOSTOS

O pensamento complexo ensina que os opostos se entrelaçam, os antagônicos se relacionam e produzem sentido, o que aparentemente é separado, na verdade se mistura e se cruza. Essa forma de conceber os fenômenos humanos é a mais apropriada para

tratarmos da conciliação entre vida profissional e vida pessoal. O professor é gente, tem família, tem outras preocupações e compromissos além da ação docente. Mas como conciliar essas vivências? Será que alguma delas ocupa mais espaço na vida desse homem, indivíduo, profissional? Existe possibilidade de separação?

Há um tempo em que uma dessas áreas é melhor priorizada: final de semana é da família e evita-se levar trabalhos para casa, nos dizem alguns interlocutores. E se pensarmos que também quando vem para a sala de aula o professor carrega consigo tudo que vive no ambiente familiar, podemos inferir que a separação é muito mais no sentido do que está sendo priorizado naquele momento. Nós, humanos, temos essa maravilhosa capacidade de comportar múltiplas dimensões numa mesma existência, impossível traçarmos linhas divisórias entre pessoal e profissional, entre trabalho e casa, entre professor e indivíduo, essas dimensões se misturam e separam tendo por base mecanismos adaptativos, normativos, conveniências. A clareza dessa realidade e o planejamento pessoal é que permitirão priorizar e se distanciar das situações, como forma de preservação e manutenção da saúde psíquica.

A tão decantada necessidade de separar o que está ligado ainda continua a impor exigências para muitos, e a fala de alguns professores deixa evidente o quanto é difícil conseguir separar o pessoal do trabalho:

Não vou dizer que consigo organizar tudo bonitinho, não. É

misturando o pessoal e o profissional. [...] E aí fica difícil você

separar. (P2).

É o ponto mais complicado. A maioria das pessoas que eu converso, com professores, não consegue ter essa linha divisória tão clara.(..) No final de semana, fica pensando como vai preparar a aula da semana, que assunto vai trabalhar [...] É um pouco negativo. (P7).

Ocorre uma mistura, e nem mesmo a organização pessoal consegue demarcar fronteiras rígidas. Dessa realidade temos muito a aprender. Pessoal e profissional convivendo na mesma pessoa. Essa mistura é tão intensa que costumamos ouvir depoimento de profissionais que nas suas reuniões após o trabalho combinam em não tocar em assuntos profissionais, porém, a conversa que inicia respeitando essa fronteira, quase sempre retorna ao que é comum a todos: experiências de trabalho. Com professores não haveria de ser diferente, nas rodas de conversas estão os alunos, aulas, trabalhos e provas ocupando o palco central. Não é fácil separar. É essa mistura de vida profissional e pessoal que nos fortalece, pois uma contribui com a outra, de uma se tira

motivação para outra. Pessoal e profissional na configuração do estresse e da vida saudável.

É nessa perspectiva que o professor P3 olha sua vida pessoal e sua atividade profissional:

Isso daí dá para conciliar tranquilamente, porque para mim, a minha vida pessoal eu não separo da atividade de professor. […] A minha vida é isso aqui também. Eu me sinto como se estivesse no meu

lazer, eu venho dar aulas com prazer, realmente. [...] A minha função que eu desempenho, era meu sonho, porque eu sempre almejei ser professor. (P3).

Para ele é uma atividade tão familiar, semelhante às que desenvolve em casa ou a uma atividade de lazer. É a realização de um sonho acalentado desde a infância. Talvez comparado ao modo como uma mãe ou um pai ensinam ao filho. De fato, com essa visão não admite separação entre o pessoal e o profissional.

Levando-se em consideração que o ofício docente fez parte dos sonhos de realização desse professor, concordemos que será bem mais fácil a conciliação ou convivência com os papéis de pessoa e de profissional. Não haverá cisão, necessidade de separar o que foi incorporado tão sonhadamente. Pessoa e profissional estarão em sintonia, trabalhar e descansar produz prazer. Esse ofício foi sonhado, desejado, é fonte de prazer.

Tratando da trajetória pessoal e profissional percorrida pelos professores, Isaia (2001), afirma que a dimensão profissional é constituída da dinâmica entre o eu individual e o eu coletivo. Essa dimensão pessoal ou individual envolve aspectos da ordem do eu real e do eu ideal. No eu real o professor se percebe de forma mais autêntica, conhece suas possibilidades e fragilidades ou limitações. Enquanto isso, no eu ideal estão os desejos, aquilo que o professor gostaria de ser, mas que sabe ainda não ter atingido, mas que estabelece como meta. A distância entre o que se sabe ser e o que gostaria de ser passa a causar conflito quando as exigências externas não são correspondidas. Nesse patamar, a conciliação entre vida pessoal e profissional se apresenta como uma força a pressionar o professor a se posicionar entre o real e o ideal.

Administrar essas duas dimensões de vida é um exercício de sabedoria. Primeiro porque a linha divisória é tênue, depois porque as cobranças nas duas esferas, embora diferenciadas, exigem a seu tempo, prioridade. Um outro dado bastante evidenciado: o tempo que o professor passa em sala de aula não é suficiente para dar conta do seu

ofício, embora essas horas trabalhadas nem sempre sejam remuneradas. Levar trabalho para casa faz parte da rotina, como afirmam alguns professores:

Agora estou conseguindo separar melhor meus horários, e eu digo assim: sábado e domingo [...] eu não pego nada da universidade, pra tentar relaxar .E ai deixo pra fazer os trabalhos nos horários livres durante a semana, pra poder ter uma horário de lazer(..) Eu tento

conciliar mas a Universidade tem um papel bem forte na minha

vida[...] Eu busco conciliar minha vida. (P4).

É meio difícil, agente leva muito trabalho pra casa […] mas da para conciliar o tempo. […] Separando as atividades, por exemplo, corrigir prova só de madrugada. (P5).

É preciso saber administrar o tempo. Saber conciliar trabalho e lazer. Essa administração é muito pessoal, requer sabedoria, equilíbrio e capacidade de estabelecer prioridades.

O professor P5, acima citado, escolhe a madrugada como forma de complementar sua atividade profissional, podendo com isso sobrar mais tempo durante o dia para dedicar-se à família, lazer e outras atividades pessoais. E a saúde, e as horas de repouso que o corpo necessita? Estamos diante de uma estratégia que dificilmente produzirá adaptação positiva, visto que haverá uma descompensação biológica, dificultando assim as possibilidades de homeostase.

Sabemos que a atividade docente, além do formal que é ministrar aulas, requer uma série de outras ações atribuídas ao oficio: preparar as aulas, manter-se atualizado, elaborar e corrigir provas e trabalhos. Todas essas atividades demandam esforço e tempo, portanto, deveriam estar contempladas dentro da jornada de trabalho do professor. Lamentável constatarmos que a exploração do trabalho humano nos retira a possibilidade de estarmos mais próximos dos que amamos, e para evitar esse distanciamento nos submetemos a entrar pela madrugada dando conta do que nos é pedido.

Também essa conciliação das esferas profissional e pessoal, conforme outro interlocutor, sofre variações ligadas ao gênero, ou seja, para as pessoas do sexo feminino, constitui-se uma tarefa ainda mais desafiadora, uma vez que são muitas as tarefas ou os papéis que precisa exercer: professora, dona de casa, esposa-mulher e mãe.

Eu penso que ser mulher e ser professora, ser profissional na área ou em qualquer uma delas […] é bem complicado ainda. Não é que o

mundo seja machista, o mundo ainda é muito masculino [...] Então é um conjunto e certamente muito estressor, é um conjunto muito grande para conciliar.

E muita correria, muito resultado, resultado, resultado, isso é enlouquecedor. (P6).

Causa-nos certa angústia entrar em contato com esse registro. O pesquisador não está imune de se ver projetado em algumas cenas ou narrativas dos colaboradores do estudo. Dessa forma, a identificação profissional e de gênero permite uma compreensão do que é dito e vivido. Nas palavras do interlocutor são situações estressoras e cobranças enlouquecedoras. Importante entendermos que o processo de enlouquecimento, associado ao trabalho, conforme Dejours (1992) começa a ser configurado quando se constata uma distância muito grande entre o que se exige do sujeito e aquilo que este é capaz de oferecer. Estariam as professoras mais próximas da loucura do que os professores? Uma coisa é certa, individualmente, quase sempre, elas são muito mais exigidas.

Ao longo do capítulo, a análise dos elementos que integram os seis itens que foram desenvolvidos, evidenciaram aspectos, ora positivos, ora negativos, seja relativos à percepções do estresse, pelos sujeitos, situados por eles, entre o desgaste e o prazer, seja relativos ao ato de lidar com pessoas, ora visto por uns como fato estressante, e por outros como desafio e fonte de prazer. Os sujeitos foram muito objetivos quando convidados a identificar, no exercício do ofício, os fatores que estão na raiz do estresse, assim como foram férteis em apontar os fatores geradores de satisfação no exercício docente.

Mas foi, sobretudo, nos dois itens finais (5.5 e 5.6), o primeiro relativo às estratégias de enfrentamento do estresse, o outro relativo ao “entrelaçamento de opostos”, ou às atitudes pessoais de encarar ora a vida pessoal, ora a vida profissional.

Um conjunto, portanto, extremamente diversificado de elementos, numa complexa tessitura de contrastes, oposições, concordâncias, estimulações recíprocas, reencontros, confluências, completudes. O discurso dos sujeitos, por reduzida que tenha sido a amostra, dá ampla margem e abertura à heterogeneidade, à diversidade, e considerando as próprias minudências da análise, constata-se que, em todos os momentos, a multirreferencialidade presidiu a esse processo de análise e, na articulação das falas, mesmo os elementos contraditórios, quando postos numa perspectiva dialógica, são suscetíveis de produzirem organização. Assim, associada a análise da fala dos sujeitos com a fala dos autores de referência, à luz dos princípios das vertentes

metodológicas e epistemológicas adotadas nesta tese, foi possível conduzir o estudo sob o prisma do pensamento complexo onde, simultaneamente aos contrastes, às diferenças e aos opostos, se conseguiu identificar compatibilidades de posturas e organização e harmonia nas combinatórias dos elementos relativos ao exercício do ofício docente, do estresse e da resiliência.

Contrariamente ao racionalismo das ciências canônicas que centram a cientificidade na explicação causal dos fatos, o pensamento complexo faz da implicação e da dialogização a busca da intelegibilidade dos fenômenos sociais e humanos. Docência, estresse e resiliência são, evidentemente, fenômenos sociais complexos e, portanto, nada mais natural do que recorrer aos sistemas adaptativos complexos para analisá-los. Todos três conceitos são constituídos por uma diversidade de elementos heterogêneos com interação uns com os outros, e analisá-los em suas funções (ofício docente), em suas origens e seus efeitos (estresse), assim como investigar as estratégias que possam evitá-lo, minimizá-lo ou superá-lo, são processos de organização da diversidade, quer dizer, complexos.

A análise aqui conduzida procurou evidenciar uma relação no conjunto de elementos que, à primeira vista, parecem desorganizados e desconexos, para descobrir neles a natureza de sua organização.

Tudo isto, que aparentemente parece ilógico, exige do indivíduo uma nova racionalidade: é a racionalidade complexa, que privilegia todas as relações que ligam o sujeito à vida, ao seu ambiente. Na visão do pensamento complexo, a análise da realidade exige, também, um tratamento complexo, através da contemplação de todos os seus componentes e aspectos. Nisto, o pensamento de Morin coincide, e se completa, com a abordagem multirreferencial de Ardoino, onde nenhum aspecto pode ser subestimado ou posto de lado, pois uma aparência banal pode comportar conseqüências relevantes.

Enfim, o modelo de análise aqui adotado pode ser representado, esquematicamente, da seguinte maneira:

Ofício docente Estresse Resiliência Sujeitos da amostra Autores de referência I n t e r d is c u r s iv id a d e

Pensamento complexo Multirreferencialidade

Figura 6 – Esquema do modelo de análise Fonte: Elaboração própria

Para finalizar, e retomando o desenho da pesquisa, as falas dos professores ofereceram os elementos componentes das três grandes categorias estabelecidas a priori - ofício docente, estresse e estratégias de enfretamento. A resiliência brotará no entrelaçamento das estratégias que produzem adaptação positiva às adversidades. A complexidade e multirreferencialidade nos ofereceram as lentes para compreender a realidade exposta.

OFÍCIO