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II. Revisão da Literatura

2.2. Visibilidade da Receita Fiscal

2.2.2. Indicadores da Visibilidade da Receita Fiscal

2.2.2.3. Elasticidade dos Impostos

A elasticidade do sistema fiscal, como vimos anteriormente, apresenta-se como forma de ilusão fiscal e advém do impacto produzido nas receitas do governo através de alterações do rendimento, mantendo-se as taxas de imposto constantes. A este propósito, Buchanan (1967) explica que no caso de aumentos de imposto decorrentes de ajustes automáticos o aumento das receitas advém de uma resposta automática do sistema fiscal a alterações da actividade económica, e este aumento da carga fiscal poderá ou não ser percepcionado e consciencializado pelos contribuintes. A progressividade das taxas de imposto é muito sensível a este tipo de processos. Assim, o ajuste automático permite ao governo iludir o contribuinte uma vez que este subestima a sua carga fiscal, por um lado, e por outro permite-lhe realizar um maior nível de despesa pública por via do aumento de receitas gerado.

88 Partindo deste pressuposto, Oates (1975) apresenta como medida da elasticidade o rácio entre as receitas de impostos sobre o rendimento e as receitas fiscais totais (Heyndels e Smölders, 1994, 1995). Oates (1975) testa esta variável para explicar o crescimento da despesa pública, concluindo que esta é estatisticamente significativa.

Oates (1975) elabora um estudo sobre a relação entre elasticidade do imposto sobre o rendimento e o crescimento da despesa pública. Neste estudo as alterações da despesa pública são explicadas por quatro factores, um dos quais a elasticidade da estrutura do imposto sobre o rendimento. Oates testa diversas variáveis proxy como o somatório das receitas individuais como percentagem das receitas totais, o somatório das receitas de impostos sobre as empresas sobre as receitas totais e o somatório das receitas dos impostos individuais e sobre as empresas sobre o total das receitas fiscais. A noção geral é a de que quanto maior for a percentagem de receitas geradas por impostos sobre o rendimento maior o rendimento da elasticidade do sistema fiscal como um todo. Estas variáveis quando testadas na regressão para explicar as variações na despesa pública apresentam um coeficiente positivo e estatisticamente significativo.

Craig e Heins (1980) testam a hipótese de, ceteris paribus, existir uma relação positiva entre a elasticidade do sistema fiscal e a despesa pública estadual. Na regressão apresentada a variável dependente escolhida é a despesa estadual per capita e a variável associada à elasticidade é obtida através do recurso aos dados da Advisory Commission on Intergovernmental Relations relativos a 1970 e 1975. Os coeficientes obtidos após a regressão são positivos e estatisticamente significativos, o que permite a estes autores corroborarem as conclusões de Oates (1975).

DiLorenzo (1982) apresenta um artigo no qual se propõe analisar teórica e empiricamente os efeitos da elasticidade dos impostos no crescimento da despesa pública. A elasticidade, que permite medir o impacto de alterações no rendimento nas receitas fiscais, é definida pela variável impostos sobre o rendimento ponderados pelas receitas fiscais totais, tal como Oates (1975) a apresenta. Espera-se que a elasticidade dos impostos esteja correlacionada positivamente com a despesa, pelo que sistemas fiscais mais elásticos terão como implicação maiores cargas fiscais. Após a estimação dos coeficientes através de OLS e para uma amostra de 66 concelhos, os coeficientes obtidos são negativos e estatisticamente significativos. Assim, os autores referem que de acordo com os resultados obtidos no modelo proposto, a uma maior elasticidade está associado um crescimento da despesa

89 menor. Este resultado não invalida contudo a hipótese de ilusão fiscal uma vez que Craig e Heins (1980) afirmam que para testar a elasticidade dos impostos a variável dependente mais apropriada não é a taxa de crescimento da despesa mas sim o nível de despesa pública, já que a ilusão fiscal pode provocar alterações ao nível da despesa embora essas alterações possam não ser de crescimento contínuo.

Hunter e Scott (1987) aplicam uma metodologia diferente para testar se a elasticidade dos impostos sobre o rendimento tem repercussão na despesa pública, devido à presença de ilusão fiscal. Observando as decisões de redução de impostos através da diminuição das taxas de imposto, numa amostra constituída por 40 estados, durante o período de 1976/83 concluem que se efectuam reduções das taxas de imposto em sistemas mais elásticos, caso contrário verificar-se-ia uma expansão indesejada do sector público dadas as elevadas receitas fiscais obtidas aquando da manutenção das taxas.

Misiolek e Elder (1988) pretendem explicar o comportamento da despesa local em 1984. Para além de variáveis que consideram standard, incluem a elasticidade dos impostos, medida através das variáveis propostas por Oates (1975). Esta variável é estatisticamente significativa no que diz respeito à sua influência no comportamento tanto das receitas como nas despesas locais.

Greene e Hawley (1991) baseados nos pressupostos de Hunter e Scott (1987) apresentam novos resultados. No seu estudo incluem como variável independente relativa à elasticidade aquela que é proposta por Rosem e Feenberg (1986/87). Esta medida de elasticidade, que os autores consideram melhorada, apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente significativa o que corrobora a tese de Hunter e Scott quando estes referem que a elasticidade dos impostos tem implicações na redução das taxas de imposto.

Heyndels e Smolders (1994) testam a elasticidade do sistema fiscal enquanto fonte de ilusão fiscal com capacidade de induzir a alterações no comportamento da despesa local. A variável relativa à elasticidade é definida tal como Oates (1975) sugere, ou seja, percentagem de imposto sobre o rendimento nas receias fiscais totais que são calculadas através do somatório de dois impostos locais muito importantes, imposto sobre o rendimento e imposto sobre a propriedade. A amostra deste estudo tem por base 302 municípios flamengos e após a regressão dos dados através de OLS o coeficiente obtido para a variável elasticidade é estatisticamente significativo embora o sinal negativo obtido seja diferente do sinal positivo que se esperava obter. Porém, os autores apresentam como explicação plausível para este desvio no sinal o

90 enviesamento das receitas de impostos sobre a propriedade, uma vez que estes podem ser transferidos de um município para outro fazendo com que a maiores fracções de imposto sobre a propriedade correspondam menores níveis de elasticidade. A possibilidade de efectuar transferências de impostos reduz o preço dos bens e serviços locais o que poderá estimular a procura desses mesmos bens e serviços e, consequentemente, fazer aumentar a despesa local. Apesar disso, a hipótese da elasticidade contribuir para criar efeitos ilusórios não tem suporte empírico de acordo com o modelo proposto por Heyndels e Smolders, em função dos resultados apresentados.