CAPÍTULO 3: CONSELHO TUTELAR DA RESTINGA
3.1. ELEIÇÕES PARA O CARGO DE CONSELHO TUTELAR DE PORTO ALEGRE: GESTÃO 2011 A
Pela primeira vez, na última eleição para função de conselheiro tutelar, ocorrida no dia 10 de abril de 2011, na cidade de Porto Alegre, os eleitores porto-alegrenses puderam votar somente na área de abrangência correspondente a sua residência. De acordo com a área de abrangência de moradia dos eleitores, seus títulos eleitorais foram cadastrados para a realização dessas eleições de 2011. Sendo assim, os eleitores tiveram que votar nos candidatos
que concorriam para o disputado cargo de conselheiro tutelar de sua área de abrangência. A população na cidade de Porto Alegre elegeu para a gestão 2011-2014, o pleito de conselheiros tutelares, constituído por cinco membros, em cada uma das dez microrregiões, escolhidos por meio de voto facultativo.
Esses candidatos a conselheiros tutelares se organizaram para concorrência ao cargo constituindo alianças e conciliações que viabilizaram as composições de chapas, que disputam ao posto de conselheiro tutelar. Cada uma dessas conciliações era constituída por cinco candidatos a função de conselheiro(a) tutelar, visando forjar dentre os eleitores opções possíveis de candidatos a serem eleitos no pleito do conselho tutelar da Restinga. Entretanto, os candidatos à função de conselheiro tutelar de conciliações adversárias podiam ser votados pelos eleitores, bem como serem eleitos neste pleito.
Os conselheiros tutelares eleitos tinham como sua primeira tarefa assumir seus postos de trabalho, em 1º de Maio de 2011, fato que ocorreu na Câmara Municipal de Vereadores da cidade de Porto Alegre. Durante a realização da vivência no campo empírico deste estudo, percebi que alguns candidatos ao cargo de conselheiro tutelar da Restinga possivelmente pertenciam a algum partido político, pois havia um intenso patrocínio eleitoral para a disputa desse atual pleito de conselheiros tutelares no bairro Restinga.
Durante essa pesquisa interventiva, acompanhei o processo eleitoral para o posto de trabalho de conselheiro tutelar da Restinga e durante o momento antecedente às eleições foram realizadas confraternizações que foram ofertadas por alguns candidatos à função de conselheiro tutelar dessa comunidade, cujo objetivo visava o exercício de práticas paternalistas de se relacionar com os eleitores, que participariam de forma não obrigatória da
votação para eleger conselheiros tutelares da Restinga em nossa cidade de Porto Alegre. Ainda, identifiquei como prática adotada nessa eleição para conselheiros tutelares de 2011 a produção intensa de “santinhos” de alguns candidatos, visando a campanha eleitoral para ocupação do posto de trabalho de conselheiro tutelar. Essas práticas eleitorais são muito semelhantes às adotadas pelos candidatos das esferas políticas municipais, estaduais e federal. Sendo assim, percebe-se que alguns conselheiros tutelares incorporam a lógica vigente de se fazer política, muitos deles até mesmo ascendem em postos de trabalho, realizando carreira política como vereadores da cidade de Porto Alegre. Desse modo, desempenhar o posto de trabalho de conselheiro tutelar serve como um “trampolim” para no futuro lançar-se na concorrência para um posto de trabalho da esfera política.
É importante ressaltar que, no ano de 2011, enquanto educadora e servidora vinculada à prefeitura de Porto Alegre, trabalhei como mesária voluntária, onde havia essa
necessidade, neste caso, fui mesária em uma escola de votação localizada na Lomba do Pinheiro na cidade de Porto Alegre. Fiz minha inscrição como voluntária para trabalhar neste momento importante, obtendo a possibilidade de conhecer a dinâmica de funcionamento das eleições para conselheiros tutelares de nossa cidade.
A experiência e vivência no campo e a entrevista realizada com um(a) conselheiro(a) tutelar da Restinga revelam ter existido a formação de conciliações que foram feitas pelos conselheiros tutelares, denominada pelo(a) entrevistado(a) como formação de “grupo”, no qual havia candidatos ao posto de conselheiro tutelar pertencentes a partidos políticos. Por outro lado, temos ainda nesses grupos de candidatos eleitos para o cargo que não pertenciam a partidos políticos.
Eu nunca concorri foi à primeira vez, e nesta vez eu fiz na base de 500 votos eu tinha um grupo que concorria comigo. Não tenho, não tinha partido político na época e fui eleita como suplente (CTR 1, entrevista concedida a autora em dezembro de 2012).
Na Rua Eugênio Rodrigues na comunidade da Restinga, encontrei a seguinte propaganda eleitoral de uma das alianças de composições feita pelos candidatos ao cargo de conselheiro tutelar que disputavam uma vaga de trabalho no Conselho Tutelar da Restinga.
FIGURA 02: COMPOSIÇÃO DE CONSELHEIROS TUTELARES CANDIDATOS AO PLEITO DO CT DA RESTINGA GESTÃO (2011-2014)
Primeiramente, o atual pleito de conselheiros tutelares teria seu mandato entre o período de 2011 a 2013, entretanto, com a modificação que foram feitas no artigo 132 do ECA, alterou-se a duração de mandato desta gestão, a qual se finaliza no ano de 2014. Com vigência da nova redação do artigo 132 do ECA, a partir de 25 de julho de 2012, as atuais gestões de conselhos tutelares brasileiros terão mais um ano de duração. As modificações feitas estabelecem que em cada Município e em cada Região Administrativa do Distrito Federal haverá, no mínimo, 1 (um) Conselho Tutelar como órgão integrante da administração pública, composto de 5 (cinco) membros, escolhidos pela população local para mandato de 4 (quatro) anos, permitida 1(uma) recondução, mediante novo processo de escolha eleitoral com voto
facultativo de seus eleitores. Nota-se que, com esta alteração deve haver um conselho tutelar em cada Município e em cada Região Administrativa do Distrito Federal e não mais o mínimo de um CT por região municipal no Estado brasileiro como era definido anteriormente. Define-se também que o conselho tutelar passa a ser um órgão integrante da Administração Municipal. Além disso, determina que as eleições para conselheiros tutelares não mais coincidirão com o ano de eleição para o cargo de prefeito(s) e de vereador(es) dos municípios brasileiros.
Na atual redação, do artigo 134 do ECA, consta que “a Lei municipal ou distrital disporá sobre o local, dia e horário de funcionamento do Conselho Tutelar, inclusive quanto à remuneração dos respectivos membros, aos quais segundo o Estatuto será assegurado o direito à:
I - cobertura previdenciária;
II - gozo de férias anuais remuneradas, acrescidas de 1/3 (um terço) do valor da remuneração mensal;
III - licença-maternidade; IV - licença-paternidade; V - gratificação natalina.
“Parágrafo único. Constará da lei orçamentária municipal e do Distrito Federal previsão dos recursos necessários ao funcionamento do Conselho Tutelar e à remuneração e formação continuada dos conselheiros tutelares”.
Em relação às mudanças, no artigo 134 do ECA, destaca-se a obrigatoriedade de constar em lei orçamentária os recursos, que os municípios e o Distrito Federal devem
reservar somente para a realização da remuneração e formação continuada55 destinada aos conselheiros tutelares eleitos. Dessa forma, no ECA de 1990, a remuneração dos conselheiros tutelares deixa de ser de caráter eventual. Essas modificações também asseguram direitos trabalhistas aos sujeitos que desempenham a função de conselheiro tutelar na sociedade brasileira.
A modificação feita, no artigo 135 do ECA especifica que “o exercício efetivo da função de conselheiro constituirá serviço público relevante e estabelecerá presunção de idoneidade moral”. Nota-se a retirada neste artigo da possibilidade que “assegurava aos conselheiros tutelares prisão especial, em caso de crime comum, até o julgamento definitivo”. As modificações que foram feitas no artigo 139 do ECA trarão como consequência o processo de unificação das eleições que serão realizadas a cada 4 (quatro) anos, em território nacional, para o desempenho da função de conselheiro tutelar. Essas eleições ocorrerão no primeiro domingo do mês de outubro do ano subsequente ao da eleição presidencial, prevê também que a posse dos conselheiros tutelares eleitos será realizada em 10 de janeiro do ano subsequente ao processo de escolha. Além disso, os conselheiros tutelares estão proibidos de realizar práticas paternalistas com seus eleitores. Como podemos observar nas modificações realizadas na nova redação do artigo 139 do ECA:
“§1º O processo de escolha dos membros do Conselho Tutelar ocorrerá em data unificada em todo o território nacional a cada 4 (quatro) anos, no primeiro domingo do mês de Outubro do ano subsequente ao da eleição presidencial.
§ 2o A posse dos conselheiros tutelares ocorrerá no dia 10 de janeiro do ano subsequente ao processo de escolha.
§ 3o No processo de escolha dos membros do Conselho Tutelar, é vedado ao candidato doar, oferecer, prometer ou entregar ao eleitor bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive brindes de pequeno valor.”
Atualmente, consta que o (a) candidato (a) ao cargo de conselheiro (a) tutelar nas diferentes (dez) microrregiões da cidade de Porto Alegre, deve comprovar participação em cursos, seminários, jornadas de estudos, cujo objeto de análise tenha sido o ECA e/ou políticas públicas e sociais de atendimento à criança e ao adolescente, cursados pelo menos até cinco anos imediatamente anteriores à realização de sua inscrição para a função de conselheiro tutelar.
55 Compreendo a necessidade de uma formação continuada a partir da conceituação do educador Paulo Freire consultar em: FREIRE, Paulo. A Educação na Cidade. 7.ed. São Paulo: Cortez, 2006.
A inscrição do candidato ao cargo de conselheiro tutelar somente será realizada mediante comprovação de certificados emitidos por entidade técnica, científica, ou órgão público, onde ele tenha realizado a sua formação. Os certificados precisam totalizar, no mínimo, 120 (cento e vinte) horas, podendo ser realizados por meio de módulos com duração mínima de oito horas.
Entretanto, parece-me que além desta formação exigida de qualificação permanente, que é insuficiente para desempenhar a função de conselheiro tutelar, é preciso um conhecimento técnico, prático e educativo que possibilite envolvimento em práticas sociais, nas quais seja possível identificar fatos que ameacem/violem os direitos da criança/adolescente, bem como atentar-se para a recorrência dessas situações vivenciadas pelos sujeitos infantojuvenis e suas famílias. Não basta realizar a identificação desses fatos, é necessário conhecer, agir em relação a eles, aplicando medidas de proteção cabíveis às violações de direitos que são demandadas ao conselho tutelar. Sendo assim, os conselheiros tutelares devem realizar encaminhamentos possíveis às violações de direitos cometidos contra a criança/adolescente. Esses agentes de direitos precisam ter outras posturas em relação às reincidências dessas categorias de violações de direitos nesse equipamento social. Para tanto, é necessária uma formação continuada que possibilite a reflexão em relação a suas atuações como conselheiros tutelares.
Nessa última eleição para o pleito da 7º gestão do conselho tutelar de Porto Alegre, exigiu-se como escolaridade mínima o Ensino Médio completo aos candidatos para essa função, bem como aprovação nos exames de aferição de conhecimentos específicos relacionados à área da infância e da juventude, além de comprovação de engajamento político e social de no mínimo dois anos na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Em folders de divulgação da primeira eleição municipal ao pleito de conselheiro tutelar, para desempenhar essa função social na cidade de Porto Alegre, constava que “não há escolaridade exigida, mas é conveniente chamar atenção para o fato de que o conselheiro tutelar terá que tomar conhecimento de leis, produzir pareceres, enfrentar debates e disputas com autoridades, policiais e judiciais”, evidentemente, em situações que envolvam crianças/adolescentes.
3.2. CONSELHO TUTELAR E A (IN)VISIBILIDADE DA REDE DE