6. CAPÍTULO 6 A terceira CGAA
6.2 Os elementos constitutivos do abuso fiscal visado pela CGAA
6.2.3. Quanto ao elemento intelectual
6.2.3.1. O elemento intelectual a finalidade principal ou uma das finalidades principais
Após as alterações promovidas pela Lei n.º 32/2019, de 3 de maio, observa-se que onde antes o n.º 2 do artigo 38.º da LGT se referia a atos ou negócios jurídicos essencial ou principalmente dirigidos à obtenção de vantagens fiscais, se refere agora a norma a
516 De notar que o elemento intelectual tem uma dignidade igual à que é reconhecida ao elemento
resultado, não se devendo confundir aquele elemento com este, não se podendo substituir a verificação de um elemento pela verificação do outro, de modo a que, por exemplo, pudesse a CGAA ser aplicada nos casos em que se verifique ter existido a motivação fiscal exigida mas em que não se observou o resultado fiscal pretendido, ou nos casos em que se verifique ter sido obtida uma vantagem fiscal pese embora a obtenção de tal vantagem não tivesse sido uma das principais motivações do contribuinte beneficiado.
517 Como nota LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 177, e o demonstra, por exemplo, a
discussão em redor do valor da expressão finalidade principal ou uma das finalidades principais de obter uma vantagem fiscal no âmbito do artigo 6.º da ATAD, como vimos supra, em 5.7.3.1 do presente trabalho.
518 Note-se que até quem, como Diogo Leite de Campos, mantinha algumas dúvidas quanto à
pertinência deste elemento perante a primeira CGAA - vd. LEITE DE CAMPOS, Evasão Fiscal, Problemas Fundamentais, p. 217) -, parece-nos que vinha aceitando já a relevância do elemento intelectual: “Ao praticarem os actos ou celebrarem os negócios previstos no n.º 2 do art. 38.º da LGT, com o fim (exclusivo ou principal) de diminuírem a carga fiscal, os cidadãos estão, não a gerir os seus assuntos próprios, mas a gerir os assuntos do Estado, os impostos, ingerindo-se na esfera jurídica do Estado. Desta ilegitimidade decorre a ineficácia dos actos praticados a nível da sua relevância fiscal.” – cf.LEITE DE CAMPOS e COSTA
158 construções ou séries de construções realizadas com a finalidade principal ou uma das finalidades principais de obter uma vantagem fiscal.
Tal alteração parece-nos ser prenhe de significado.
Desde logo, cumpre assinalar que o legislador nacional, através desta alteração, alinhou o elemento intelectual da CGAA pelo que, a esse respeito, consta do artigo 6.º da ATAD, ainda que esta não fixe expressamente o que se deva entender por finalidade principal ou uma das finalidades principais para efeitos da GAAR. Do alinhamento operado pelo legislador nacional resulta que também a interpretação deste aspeto da CGAA não poderá, de futuro, passar ao lado de qual venha a ser a interpretação de tal trecho do artigo 6.º da ATAD.
Desta forma, e recordando o que já tivemos oportunidade de afirmar quanto ao teste subjetivo contido no artigo 6.º da ATAD519, tendemos a militar no campo que considera
que o elemento intelectual se encontra preenchido nos casos em que se verifique que um dos motivos, propósitos ou objetivos (finalidades) que conduziram o contribuinte a participar na construção ou série de construções sob análise, foi a intenção de diminuir a sua dívida tributária, e se verifique que esta motivação foi ainda, pelo menos, uma das motivações principais que conduziram à concretização dessa construção ou série de construções. Entendido este elemento deste modo, estamos perante um padrão menos exigente que aquele que encontraríamos caso fosse referido à essencialidade da motivação.
A intensidade que se reconheça ao elemento intelectual em sede de uma CGAA é importante, pois que influencia o âmbito de aplicação dessa norma, mas não nos parece que seja uniforme ao longo das cláusulas gerais antiabuso (ou doutrinas jurisprudenciais equivalentes) previstas em cada ordem jurídica, podendo encontrar-se cláusulas em que o elemento motivacional se considera verificado com a mera presença de motivações fiscais ou com a presença de uma motivação fiscal preponderante, ainda que não exclusiva520, ou se considera verificado apenas quando a motivação fiscal seja a única
519 vd., a este propósito, 5.7.3.1 do presente trabalho.
520 Será o caso da doutrina jurisprudencial fraus legis, aplicável desde 1926 nos Países Baixos -
vd. R.KOK e I.M.VALDERRAMA, “Netherlands Branch Report”, in Cahiers de Droit Fiscal International, Volume 103ª, IFA, 2018, p 547.
159 principal motivação para os atos e negócios em causa521, podendo mesmo, no que será a
modalidade de elemento intelectual mais exigente com que nos podemos deparar, considerar-se tal elemento verificado apenas quando não exista qualquer razão económica (não-fiscal) válida para os atos ou negócios em causa522. Reconhecendo que este elemento
da CGAA se encontra hoje harmonizado, certo é que, independentemente de qual seja a nossa opinião a seu respeito, o mesmo terá que assumir a feição que lhe vier a ser reconhecida pelo TJUE no contexto do artigo 6.º da ATAD.
E em que se pode traduzir a finalidade principal de obter uma vantagem fiscal? Ainda que o elemento intelectual, quando é referido à finalidade principal ou uma das finalidades principais, seja menos exigente do que quando é referido à finalidade exclusiva de obter uma vantagem fiscal (abordagem sole purpose) ou à finalidade essencial de obter uma vantagem fiscal (abordagem essential purpose), ainda assim julgamos que se continua a exigir uma motivação fiscal especialmente qualificada, a qual, naturalmente, não pode deixar de ser comprovada. Tal comprovação deverá ser efetuada perante os meios empregues e os resultados dos atos e negócios jurídicos realizados, e limitar-se à demonstração de que a pretensão do contribuinte em relação a uma construção ou série de construções visou, a título principal, obter as vantagens fiscais proporcionadas. De facto, não se deverá confundir a motivação em causa no elemento intelectual com uma outra e diferente motivação - a de obter um resultado ou finalidade contrária ao espírito da norma e ao ordenamento jurídico -, pois a verificação do elemento intelectual não depende do conhecimento que um contribuinte tenha quanto à congruência sistemática ou normativa do resultado fiscal obtido, pelo que a motivação relevante, nesta sede, se cinge a perceber qual tenha sido a motivação que presidiu à escolha dos atos ou negócios jurídicos implementados e quais foram os seus correlativos efeitos fiscais (o elemento meio e o elemento resultado), e, no caso de ter existido uma motivação de cariz fiscal, se esta foi ou não relevante, ao ponto de se poder considerar que foi uma das principais motivações (ainda que não a exclusiva motivação principal) que presidiu à escolha dos atos ou negócios levados a cabo.
Quanto à comprovação ou demonstração da existência e da importância da motivação de ordem fiscal numa determinada construção ou série de construções, parece-nos avisado
521 Como será o caso do texto normativo em França, pese embora a leitura jurisprudencial não seja
tão estrita - vd. CALLOUD, Cahiers de Droit Fiscal International, pp. 322 e 323.
160 sublinhar que se mantém o que se vinha considerando (e que se entende que acontece também perante o teste subjetivo da GAAR), ou seja, que este elemento deve ser analisado sob uma perspetiva objetiva - o que, entre nós, se extrai do n.º 3 do artigo 63.º do CPPT -, admitindo-se que a prova dessa motivação seja feita por recurso a factos ou elementos de prova objetivos, que permitam inferir, com razoável segurança e segundo critérios de razoabilidade e normalidade, a conclusão de que o contribuinte adotou as formas negociais que adotou tendo em vista um fim preponderantemente fiscal523.
Julgamos que se manterá igualmente válida a asserção de que os dados objetivos obtidos deverão permitir ao aplicador da CGAA concluir, diretamente ou, se necessário for, por recurso a ilações ou presunções judiciais, que o elemento motivacional se verifica, ainda que se imponha a salvaguarda da possibilidade do contribuinte poder demonstrar, nos mesmos termos, tanto a existência de uma exclusiva ou essencial motivação económica não fiscal524 como a inexistência ou irrelevância da motivação fiscal.
Perante a anterior redação da CGAA defendia-se, quanto ao que seria exigido demonstrar no âmbito deste elemento, que à administração fiscal caberia igualmente provar que inexistia qualquer outra motivação que não a motivação fiscal em relação à estrutura em causa525. Um requisito como este estará em consonância com a modalidade
de elemento intelectual mais exigente com que nos podemos deparar - nos termos da qual esse elemento apenas se considera verificado quando não existir qualquer razão económica válida para os atos ou negócios em causa -, mas não é essa, contudo, a perspetiva que melhor se adequa aos termos em que a CGAA atualmente enuncia o elemento intelectual. Deste modo, julgamos que à administração fiscal caberá demonstrar e provar, face a uma determinada construção ou série de construções, que lhes presidiu, como sua motivação principal ou uma das suas motivações principais, uma motivação de ordem fiscal (correspondente à obtenção da vantagem fiscal identificada em sede do elemento resultado), não se lhe exigindo que demonstre igualmente a inexistência de alguma outra motivação para lá dessa motivação fiscal. Atente-se que uma exigência como essa seria hoje até destituída de efeito prático, uma vez que, como estamos em crer, a existência simultânea de uma motivação económica extrafiscal relevante e de uma
523 vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, pp. 182 e 183. Não estávamos já longe, portanto, de
todos os factos e circunstâncias relevantes, expressão que agora encontramos no n.º 2 do artigo 38.º da LGT. Sobre o significado desta expressão vd. supra, 5.7.3.3, in fine, do presente trabalho.
524 vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 183.
525 vd., neste sentido, G. LOPES COURINHA, “Portugal Report”, in Cahiers de Droit Fiscal
161 motivação fiscal igualmente relevante não invalida a verificação, nesse caso, do elemento intelectual.
A CGAA continua sem cuidar de listar os indícios a considerar pela administração fiscal em sede de avaliação da presença de uma motivação fiscal preponderante, nem sequer estabelece uma lista de critérios objetivos sobre os quais se possa repousar a constatação de que estamos perante uma motivação fiscal relevante, pelo que esta norma não estabelece qualquer preferência526, tal como não estabelece qualquer exclusão, quanto
aos factos, indícios ou elementos de prova que possam ser utilizados. É, contudo, apontada a conveniência, perante um ato ou negócio jurídico, em atentar nas obrigações e direitos legalmente acordados entre as partes, ou na sucessão de efeitos produzidos pelos atos praticados, notando-se que perante formas complexas e insólitas, escolhidas em detrimento de vias usualmente consagradas para a obtenção do resultado não fiscal, esta análise impor-se-á, sabendo-se que, quanto mais insólita, complexa ou inusual se revelar a estrutura escolhida, mais facilitada fica a tarefa do aplicador da CGAA quanto à demonstração da verificação do elemento intelectual527.
6.2.4. Quanto ao elemento normativo
Verificados que estejam os elementos meio, resultado e intelectual - elementos estes cuja verificação é de natureza factual -, faltar-nos-á ainda verificar a presença do elemento normativo, o qual se reconduz a uma questão de direito: saber se o resultado tributário que se pretendeu alcançar através daquela construção ou série de construções é ou não reprovável quando confrontado com a intenção ou o espírito da lei fiscal, do Código do Imposto em causa ou do próprio ordenamento jurídico-tributário528, ou, na expressão
legal agora vigente, se uma vantagem fiscal frustra o objeto ou a finalidade do direito fiscal aplicável.
A circunstância de este elemento não ter conhecido, até à entrada em vigor da Lei n.º 32/2019, de 3 de maio, uma expressa consagração na letra do n.º 2 do artigo 38.º da LGT
526 Nota-se que, em jurisdições que optaram por estabelecer preferências deste género, são
indicados como indícios a ter em conta, por exemplo, a forma como a estrutura foi montada e executada, a forma e a substância do esquema ou estrutura, a evolução da posição financeira do contribuinte em resultado desse esquema ou estrutura ou a sua oportunidade - vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 184.
527 vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 185. 528 vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 186.
162 - pese embora seja uma das mais fortes exigências dirigidas às cláusulas gerais antiabuso de acordo com a sua respetiva doutrina explicativa -, foi uma circunstância suficiente para que se tenham, entre nós, lançado dúvidas sobre a pertinência deste elemento na aplicação da CGAA529.
O que está verdadeiramente em causa no elemento normativo é a desconformidade do resultado obtido pelo sujeito passivo, através dos atos ou negócios jurídicos realizados, com a ratio legis, o espírito ou o propósito da lei, os princípios do Código em causa ou do próprio sistema fiscal, sendo este elemento o que verdadeiramente ilustra o desvalor jurídico-tributário de uma determinada conduta e que permite ver nessa prática uma elisão fiscal.
É este elemento, por conseguinte, um requisito insuperável de uma cláusula geral antiabuso, sendo através dele que se afere da antijuridicidade do resultado fiscal pretendido pelo contribuinte, pelo que a exigência do elemento normativo há de ser pressuposta, mesmo quando tal elemento não se encontre expressamente firmado na letra da norma530, pois do que trata o elemento normativo é de verificar a reprovação
normativo-sistemática531 dos atos, negócios ou construção levada a cabo, sob a perspetiva
dos seus efeitos fiscais, cabendo o ónus da sua alegação à administração fiscal532.
Estamos, quando tratamos do elemento normativo, a cuidar do fundamento radical que legitima a aplicação da cláusula geral antiabuso.
Quanto à sua função, o elemento normativo é um garante da aplicação coerente do sistema jurídico tributário, auxiliando o aplicador na obtenção de soluções teleologicamente orientadas, de modo a que a cláusula geral antiabuso funcione como um
529 Compreendendo e defendendo a necessidade deste elemento ou pressuposto, notando, contudo,
a sua omissão na norma correspondente à primeira CGAA, vd. AVELÃS NUNES, Fiscalidade, p. 56. Negando este requisito ou elemento, na medida em que apenas reconhece os elementos de meio e de fim (no qual este autor opera a aglutinação, num único elemento, do que nós aqui denominamos como elemento resultado e elemento intelectual), vd. LEITE DE CAMPOS e COSTA ANDRADE, Autonomia Contratual, p. 10. Negando a utilidade e a autonomia do elemento normativo, defendendo a sua subserviência face aos demais pressupostos ou elementos de facto, considerando que o mesmo se verifica caso os demais requisitos se encontrem verificados, vd. a Decisão arbitral do CAAD de 20/12/2013, proferida no processo n.º 47/2013- T, a Decisão arbitral do CAAD de 13/11/2014, proferida no processo n.º 131/2014-T, a Decisão arbitral do CAAD de 27/11/2014, proferida no processo n.º 51/2014-T, e a Decisão arbitral do CAAD de 11/04/2015, proferida no processo n.º 315/2014-T, todas pesquisáveis em www.caad.org.pt. Aceitando expressamente este elemento como pressuposto de aplicação da CGAA, vd., entre outros, o Acórdão do TCA-Sul de 15/02/2011, proferido no processo n.º 4255/10, o Acórdão do TCA-Sul de 14/02/2012, proferido no processo n.º 5104/10, e o Acórdão TCA-Norte de 28/09/2017, proferido no processo n.º 1188/11.
530 vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 188.
531 Recorremos à certeira expressão cunhada por LOPES COURINHA, Fiscalidade, p. 111. 532 vd. LOPES COURINHA, A Cláusula Geral, p. 190.
163 instrumento de aperfeiçoamento desse mesmo sistema, não dando azo à sua aplicação de um modo imprevisível, o que suscitaria níveis intoleráveis de insegurança jurídica533.
Ademais, sublinhe-se que é o elemento normativo o que acaba por nos permitir distinguir entre os casos de planeamento fiscal lícito e os casos de planeamento fiscal abusivo, pois nos casos em que o legislador tenha avalizado, apoiado ou assumido como normal e aceitável um dado resultado ou vantagem fiscal (ou seja, em que a ordem jurídico-fiscal não demonstre qualquer sinal de rejeição face aos resultados fiscais dos atos ou negócios empreendidos534), devemos considerar que o sistema fiscal não se opõe
ao resultado (fiscal) que decorra de uma dada construção ou série de construções, pelo que não podem essas construções ser, ulteriormente, alvo de aplicação da cláusula geral antiabuso535. A verificação, no âmbito da aplicação da CGAA, da presença do elemento
normativo constitui a pedra de toque quanto à distinção entre planeamento fiscal abusivo e planeamento fiscal lícito, confiando à CGAA a função de delimitar o campo de cada um dos planeamentos fiscais supra referidos. É, pois, uma constatação correta a afirmação de que não existe um entendimento universal do que seja uma cláusula geral antiabuso, ou mesmo do que constitua a elisão fiscal que é visada pelas cláusulas gerais antiabuso536,
pois que tudo depende, em última instância, da concreta cláusula geral e do concreto ordenamento jurídico protegido por essa cláusula geral, daí resultando a impossibilidade de termos uma enumeração universalmente válida das situações que constituam elisão fiscal.
É igualmente o elemento normativo que nos permite vislumbrar na CGAA um instrumento colocado ao dispor da administração fiscal sem que se moleste o princípio da separação de poderes e salvaguardando-se a reserva de lei formal quanto a normas de incidência fiscal, pois que da exigência de verificação do elemento normativo resulta que a CGAA não deverá ser aplicada revogando a vontade do legislador, o que impede que tal cláusula geral venha a ser entendida como atribuindo ao intérprete (a administração fiscal, numa primeira instância, e o poder judicial, em sede de controlo judicial da atuação da administração) o poder de criar regras em matéria reservada a lei formal537. Sem o
elemento normativo, a CGAA poderia transmutar-se num instrumento integrativo de
533 vd. LOPES COURINHA, Cahiers de Droit Fiscal, p. 630. 534 vd. LOPES COURINHA, Cahiers de Droit Fiscal, p. 630.
535 vd., neste sentido, LOPES COURINHA, Cahiers de Droit Fiscal,pp. 625 e 626. 536 vd. KREVER, GAARs, p. 1
164 lacunas538, circunstância esta em que seriam certamente mais espessas e negras as dúvidas
de constitucionalidade envolvendo a previsão e aplicação da CGAA539.