CAPÍTULO V O Discurso
5.2 ELEMENTOS DO DISCURSO E FUNÇÕES PRAGMÁTICAS LEIS DO
59 Artigos 282, 283, 284, 300, 302, dentre outros, do Código de Processo Civil. Acrescente a lição de
CHIOVENDA: Se não se ministra a prova, ou não logra êxito, o efeito dessa falta de prova repercute sobre a parte que - segundo os princípios do ônus da prova - tinha o encargo de produzi-la. Essa parte perderá a causa. Isto prevalece, sobretudo, quanto à prova do autor: actore non probante reus absolvitur. Mesmo se a prova for insuficiente, deverá aplicar-se normalmente o mesmo princípio. Instituições de Direito Processual Civil. 2. ed. Campinas: Bookseller. 2000, p. 461. v. II. Ressalte-se, ainda, as diversas presunções existentes na temática do ônus da prova. Mas a ideia principal permanece: Como regra, o alegado deve ser provado, sob pena de perder a causa.
Das diversas possibilidades de abordagem dos elementos do discurso, enquanto discussão, e seu regramento, é de evidenciar-se a análise dos três elementos básicos identificados na comunicação, qual seja, o orador, o ouvinte e o objeto da discussão.
As chamadas leis do discurso, termo de DUCROT (1977), desempenham um papel considerável na interpretação dos enunciados e estabelece uma espécie de competência retórica-pragmática. Não se pode fazer comparação com as leis que cuidam da gramaticalidade das frases, mas de "uma espécie de código de bom comportamento dos interlocutores" (MAINGUENEAU, 1996, p. 115). São normas que supõe-se respeitadas quando se efetua uma discussão.
A respeito de tais regras não há uniformidade de tratamento entre os diversos autores. GRICE, por exemplo, faz com que todas as normas dependam de uma espécie de metaprincípio, o princípio da cooperação: "Que a sua contribuição para a conversação corresponda ao que é exigido de você, no estágio atingido por esta, através do objetivo ou da direção aceita do intercâmbio falado no qual você está envolvido" (1991, p. 26).
Tais regras foram duramente criticadas por postularem uma visão ilusionária de possível harmonia dos intercâmbios verbais. Leva a crer que os interlocutores colaboram para alcançarem o êxito de enunciações conformes a um ideal. Maingueneau destaca que:
Na realidade, não se trata de saber se, de fato, os locutores sempre respeitam essas regras mas de perceber que o intercâmbio verbal, como qualquer atividade social, repousa num "contrato" tácito ( que varia evidentemente de acordo com os gêneros de discurso) (1996, p. 115-116).
Nessa concepção, podemos distinguir três princípios gerais e, pelo menos, três leis, o que fazemos apenas com o sentido ilustrativo no presente trabalho.
O primeiro deles é o princípio da cooperação. Conforme afirmado acima, GRICE (1991) apresenta-o como um metaprincípio. "Isso é compreensível já que ele se contenta em colocar que os sujeitos falantes que se comunicam se esforçam por não bloquear o intercâmbio, por fazer a atividade discursiva ter êxito" (Maingueneau, 1996, p. 117). O orador e o ouvinte reconhecem os direitos e os deveres vinculados à troca de mensagens (ou elaboração do intercâmbio).
O segundo é o principio da pertinência. Conforme salienta Maingueneau, alguns autores como D. Sperber e D. Wilson consideram-no como o axioma fundamental do intercâmbio verbal, afirmando:
De maneira muito intuitiva, um enunciado é tanto mais pertinente quanto com menos informação leva o ouvinte a enriquecer ou modificar ao máximo seus conhecimentos ou suas concepções. Em outras palavras, a pertinência pragmática de um enunciado é diretamente proporcional ao número de consequências pragmáticas que acarreta para o ouvinte e inversamente proporcional à riqueza de informação que ele contém. (1996, p. 118).
É conveniente esclarecer que os autores referidos, na metade dos anos oitenta, mais precisamente em 1986, lançaram sua teoria da pertinência, tomando uma perspectiva estritamente cognitivista, com a proposta de redução e modificação do aparato griceano. O ponto de partida foi a concepção da cognição humana como tendente à maximização da pertinência. Explicando melhor, à seleção e o processamento de estímulos que têm um maior impacto sobre o organismo com um esforço de processamento mínimo, denominando de Primeiro Princípio da Pertinência ou Princípio Cognitivo da Pertinência (CRUZ in DASCAL, 1999, p. 116). É importante transcrevermos a lição de Begoña Vicente Cruz como esclarecimento do princípio em estudo:
Sperber y Wilson tipifican tres tipos de efecto cognitivo: a) implicaciones contextuales (supuestos que el individuo deriva al combinar la nueva pieza de información con otras que ya poseía); b) reforzamientos o aumentos del grado de certeza que un individuo asigna a un supuesto; c) eliminaciones de supuestos que entran en contradicción con la nueva información. Un estímulo es tanto más pertinente cuantos más efectos cognitivos tiene para el individuo y cuanto menor es el esfuerzo que tiene que invertir para obtener dichos efectos (Idem, ibidem, p. 116).
E explica como se delineia o princípio da pertinência à atividade comunicativa:
Aplicado a la actividad comunicativa, el principio general toma una forma más precisa debido a la peculiaridad del estímulo que se procesa. A diferencia de otros estímulos, los que proceden de una intención comunicativa se distinguen por su carácter ostensivo, esto es, porque reclaman de forma abierta la atención de la audiencia y la dirigen hacia las intenciones del emisor. Dicho comportamiento modifica el entorno cognitivo de la audiencia y hace mutuamente manifiesta una intención doble por parte del emisor: la intención de informar de algo (intención
informativa) y una intención, de segundo orden, de informar a la audiencia de su
intención informativa (intención comunicativa). Podemos dar cuenta de la necesidad de este segundo tipo de intención para que podamos hablar de conducta comunicativa con el siguiente ejemplo. Imaginemos que quiero que mi nuevo compañero de despacho sepa que leo alemán (intención informativa). Puedo satisfacer mi intención de dos formas: una encubierta, por ejemplo dejando varios libros en alemán encima de mi mesa, o de forma abierta, mostrándole mi intención de informarle de que leo alemán, diciéndole "Leo alemán". Nótese que mientras que en el primer caso mi compañero tiene evidencia directa, más o menos certera, de que leo alemán, en el segundo no hay evidencia directa alguna de la información que se quiere transmitir, pero sí de que poseo una cierta intención informativa. En este caso, el reconocimiento de dicha intención por parte de mi compañero es fundamental para que mi intención informativa sea satisfecha. Nótese también que
en el primer caso, al no hacer ostensiva mi intención de comunicar algo, corro un riesgo mayor de fracasar: mi compañero puede no reparar en los libros, o en qué idioma están escritos, o pensar que están escritos en holandés, o incluso que no son míos (Idem, p. 116-117).
O terceiro e último princípio é o da sinceridade. Os interlocutores devem afirmar apenas o que consideram verdadeiro, só ordenar o que querem ver realizado, perguntar apenas o que esperam conhecer como resposta (MAINGUENEAU, 1996, p. 120-121). Há uma suposição de que os interlocutores aderem a suas palavras.
Dascal faz uma aproximação do princípio da sinceridade, nominando-o de princípio da veracidade e conceituando como aquele no qual "nos orienta a atribuir a Karl crenças e desejos que estão de acordo com os significados atribuídos por M às sentenças e com as intenções comunicativas 'normais' associadas ao uso dessas sentenças" (2006, p. 224). Traz interessante exemplo, a título de ilustração, o qual é oportuno transcrevermos:
Por exemplo, se M atribui a "lonlay!" o significado "um leão está presente", então A0 deveria incluir, entre outras atitudes proposicionais, um desejo de não proferir
"lonlay!", a não ser que um leão esteja presente, uma crença de que seus companheiros tem um desejo similar, uma crença que um leão está presente quase sempre quando ele ouve alguém proferir "lonlay!" (Idem, ibidem, p. 224)60
Vê-se, porém, que a sinceridade não passa de uma espécie de regra do jogo, e não uma tese sobre a efetiva sinceridade dos sujeitos. Há uma oscilação entre uma concepção cínica desse princípio (não existe nem sinceridade, nem falta de sinceridade, mas sujeitos que dizem o que é necessário para serem integrados numa coletividade) e uma concepção psicológica ou ética (ser sincero é dizer o que pensa). Para nossa finalidade já deixamos acentuado que o dever de prova é o centro ético e lógico da discussão. Assim, o princípio da sinceridade é um elemento acessório, que não integra o cerne da discussão, devendo haver uma prioridade ao dever de prova como primordial à busca de uma racionalidade do discurso.
Ao lado dos princípios, que podemos afirmar serem muito gerais, é possível mencionar ao menos três leis61 do discurso mais específicas, que se referem ao conteúdo dos enunciados.
A primeira delas, é a lei da informatividade que é uma das mais utilizadas. O campo de aplicação desta lei é extremamente amplo, "pois exclui que se fale para não dizer nada" (MAINGUENEAU, 1996, p. 123). Essa lei impõe que, para que os enunciados transmitam
60 A exposição refere-se às noções de interpretação radical e real, mas apresentamos como uma contribuição para
a tentativa de identificação do princípio da sinceridade como elemento do discurso.
informação, devem ser construídos a partir de informações que o emissor a quem se fala não conheça. Para Fiorin, parte-se da competência do falante, pois seria embaraçoso, contar à mesma pessoa o mesmo fato. “Todas as situações de comunicação que deveriam ser informativas e não o são soam um pouco estranhas” (1999, p. 34).
Já a lei da exaustividade exige que, sobre um dado tema, o enunciador apresente as informações mais fortes e marcantes do fato. “Não se pode, quando se quebrou um objeto, dizer apenas que ele caiu” (Ibidem, p. 34). Segundo o argumento de Fiorin, essa lei não diz respeito à informação simplesmente, mas à “taxa de informação” que se deve apresentar numa troca verbal. É possível observar que a lei de exaustividade está subordinada ao princípio da pertinência.
A terceira e última lei é de modalidade. Maingueneau afirma que "por ela são condenados os múltiplos tipos de obscuridade na expressão (frases complexas demais, elípticas, vocabulário ininteligível, titubeios, etc.)" (1996, p. 126).
Para nossa finalidade não ingressaremos na tematização mais aprofundada de tais princípios e leis, sendo suficiente a menção sobre eles, preferindo a abordagem dos elementos fundamentais da comunicação. Ressalte-se, que no decorrer do trabalho retomamos alguns dos conceitos de princípios e leis do discurso.
Com isso, deixamos claro a identificação da variedade de abordagem e complexidade que o assunto possa trazer, mas optamos, propositalmente, pela análise dos elementos do discurso, em coerência com a proposta apresentada inicialmente.