CAPÍTULO I Delineamentos da Pragmática
1.4 OS ATOS DE LINGUAGEM
1.4.1 PRINCÍPIO DA INTERAÇÃO: PERGUNTA E RESPOSTA
No âmbito da pragmática encontraremos o princípio da interação como princípio básico. Na troca de mensagens33 entre emissor e receptor é que encontraremos o princípio da interação, como um complexo de numerosos modos de comportamento que condicionam o significado.
Acerca do tema, vejamos:
(...) mesmo a respeito da unidade mais simples possível, será obvio que uma vez aceito todo o comportamento como comunicação, não estaremos lidando com uma unidade de mensagem monofônica mas com um complexo fluído e multifacetado de numerosos modos de comportamento – verbais, tonais, posturais, contextuais, etc. – que, em seu conjunto, condicionam o significado de todos os outros. Os vários elementos desse complexo (consideração como um todo) são capazes de permutas muito variadas e de grande complexidade, que vão desde o congruente ao incongruente e paradoxal (WATZLAWICK, BEAVIN e JACKSON; 2001, p. 46).
33 Aqui se utiliza a expressão mensagem como uma unidade comunicacional isolada, para a finalidade de não
propiciar confusão com o termo mais amplo de comunicação, tal como expostos por WATZLAWICK, BEAVIN e JACKSON. Pragmática da comunicação humana. 12. ed. São Paulo: Cultrix. 2001, p. 46.
O professor Tercio Sampaio Ferraz Júnior chama a atenção para o fato de que nos estudos das ações humanas há destaque no aspecto complexo do comportamento dos “atores, no seu relacionamento mediado por mensagens” (2002, p. 14-15).
Em contraposição, a dogmática jurídica simplifica a ideia de agentes, traduzindo numa coisificação do que a pragmática toma por complexo padrão de relação e interação. Ferraz Júnior procura enfatizar a relação da dogmática jurídica com o princípio da interação da seguinte maneira:
Se tomarmos, por exemplo, um conceito básico como o de direito subjetivo, em que pesem as diversas análises críticas que a noção tem sofrido, notamos que os manuais e a prática universitária continuam a falar em facultas agendi para defini-lo. Embora a doutrina não deixe de pôr em relevo o aspecto relacional do conceito, ligando-o a direito objetivo, ao sujeito agente, etc., a noção acaba assumindo, para o usuário do termo, uma pseudo-realidade própria, até que, finalmente, direito subjetivo se converta realmente num fenômeno isolado, algo que se tem. Assim, o vocabulário dogmático, ainda que não despreze os contextos interpessoais (oposição de direito
erga omnes), guarda forte sentido monádico (2002, p. 15, grifo do autor).
O mesmo raciocínio poderia ser utilizado para abordar a conceituação dos chamados direitos "in rem" e direitos "in personam", nos quais há uma forte tendência de encontrarmos no vocabulário dogmático o sentido monádico dos agentes34.
Sobre a perspectiva pragmática há um evidente relevo do princípio da interação. É a sociedade composta pela interação e mediada de interações linguística. E esta não é passível apenas de observação distante pelo direito, mas percebível e interpretada pelos sentidos sedimentados no contexto simbólico, não havendo espaço para autointerpretação, mas para a compreensão através da intervenção desta mesma interpretação com o uso dos meios pragmáticos (HABERMAS, 1990, p. 84).
O modelo a ser adotado é aquele que põe o comportamento adotado em estado de incerteza, havendo interação com outro comportamento que apresenta fundamento e segurança. Estes comportamentos são tratados como pergunta e resposta.
O ser humano age e se comporta também no sentido de que se orienta e reflete. Falando ele traz para o presente um comportamento passado ou futuro. Este trazer para o presente algo já acontecido ou por acontecer significa um estar inseguro do seu próprio presente, que põe em estado de incerteza os fundamentos de seu agir. Denominemos pergunta este comportamento. Perguntar significa, pois estar inseguro quanto ao seu próprio comportamento. Daí a possibilidade de, perguntando, distinguir entre as finalidades e as consequências do seu agir e, assim, entre o falar fundamentado e o não fundamentado. A partir disto, a ação de pergunta permite a distinção entre diversas possibilidades de ação: dever agir, poder agir,
34 A esse respeito é muito pertinente a abordagem elaborada por Alf Ross, na sua obra Direito e Justiça, da
querer agir, etc. Perguntar, porém, não é uma ação no vácuo, mas se articula num mundo circundante. Este mundo constitui-se de justificações, atos de falar que aparecem com a pretensão de autoridade, isto é, são capazes e estão prontos para oferecer fundamentos e exigir confiança. São ações (de falar) que chamamos, então, de consistentes. O comportamento locucional que se apresenta como consistente chamamos de resposta. (Ferraz Júnior; 2002, p. 15-16, grifo do autor).
A adoção do modelo de pergunta resposta traz um complexidade em si mesmo, vez que quem pergunta desafia alguém para uma resposta, da mesma forma que quem responde pode desafiar o outro a fundamentar sua pergunta (2002, p. 16).
Neste passo, o professor Ferraz Júnior salienta o caráter reflexivo do ato de falar, esclarecendo que essa reflexividade “significa que a relação interacional admite sempre um aumento de complexidade no interior da situação comunicativa” (2002, 16) e exemplifica:
Se alguém diz: “o senhor está preso por prática de lenocínio” e o outro responde, “não discuto a sua ordem, mas não aceito a qualificação de lenocínio”, na situação comunicativa, a ordem de prisão adquire uma complexidade maior, na medida em que transferimos o modelo pergunta/resposta para os fundamentos da ordem (2002, 16).
Em se tratando de uma pesquisa de cunho jurídico, na qual são utilizados aspectos relevantes da linguística e da semiótica, com destaque para a perspectiva pragmática, devemos fazer uma análise, ainda que perfunctória, da chamada interação assimétrica. Salientando que há quem sustente35 que tal interação ocorre, muitas vezes no cotidiano da vida prática jurídica.
1.4.1.1 Interações assimétricas.
Nas chamadas interações assimétricas ocorre fenômeno um pouco diferente do tratado até aqui.
Ducrot (1977, p. 17-19), tomando a noção de implicatura conversacional de Grice, apresenta as condições de existência do ato da enunciação como leis do discurso que equivalem ao cálculo do que deve ser suposto para a existência do princípio da cooperação de Grice. É a relação hierárquica entre os interlocutores que irá determinar qual a natureza do
35 Cf. ALVES, Virgínia C. F. Inquirição na justiça: estratégias linguístico-discursivas. Porto Alegre: Sérgio
discurso, simétrica ou assimétrica. Em condições de relações simétricas há entre os interlocutores a mesma relação de direitos e deveres discursivos, estabelecendo-se, desta forma, um processo semelhante ao de negociação. A implicação é que as regras de interação são bilaterais.
Nas interações assimétricas, por outro lado, o direito do interlocutor com status ou posição inferior se manifestar é restrito, e podem estar pré-fixados pelo ritual do evento. Um exemplo apresentado como típico é a realização de uma audiência, para oitiva de testemunhas, perante uma vara qualquer, e tendo em vista o princípio presidencialista na condução do trabalho. O juiz faz as perguntas, o depoente responde-as, o juiz determina a redução do texto verbal para o escrito, o escrevente (ou digitador) acata do modo como foi ditado pelo juiz. Neste caso, as regras de interação são previamente determinadas e comandadas ou conduzidas por um dos interlocutores, o qual tem direito à tomada de turno e à introdução dos tópicos tratados.
Ao analisar as inquirições judiciais, Alves (2003, 60-61) observa que aquelas se dão pelo modelo pergunta resposta e aponta:
O recorte na interação pragmática demarcou a unidade consignada como prototípica do evento pois a interrupção pelo juiz da estrutura discursiva dialogada e início da consignação indica que a interação propiciou uma porção significativa de informação para ser documentada.
A questão que se apresenta, é saber se na relação discursiva é passível de romper-se essa possível assimetria que se realiza em um dos modos do discurso jurídico. Para tal, iremos abordar a forma como se dá esta interação e a opção do diálogo realizado um pouco mais adiante.
Devemos salientar, desde já, que tais questões não podem fazer parte da normalidade do discurso jurídico, a sobreposição de um dos interlocutores sobre os demais, a ponto de promover um desequilíbrio da relação. A opção deve ser pelo diálogo dialógico. Incorporar a autoridade ou o autoritarismo na relação jurídica é algo que não é compatível com o estágio atual do direito. E mais, esta assimetria é aparente, pois no direito brasileiro as relações processuais são sempre mediadas pela intervenção de profissionais habilitados e com privatividade para o exercício da postulação jurídica. Os possíveis desvios ocorridos em inquirições judiciais podem dar-se por questões de ordem patológicas dos envolvidos na
dinâmica do ato, especialmente dos chamados operadores do direito36 os quais devem respeitar as regras estabelecidas para realização do discurso.
Saliente-se que a legislação brasileira, em especial a processual penal, tem adotado a possibilidade da realização do discurso dialógico também nos atos judiciais, explicitando a simetria do discurso jurídico, especialmente na audiência judicial37.
Apresentadas as principais fontes da pragmática contemporânea, é necessário compreender como se dá a interação entre o do discurso e a utilização do âmbito da pragmática na ciência jurídica. Assim, também, delimitaremos os principais aspectos do discurso jurídico que deverão ser abordados.
Antes de adentrar na análise da presença da pragmática no âmbito jurídico é necessário apontar, ainda que sucintamente, o desenvolvimento histórico do discurso jurídico, em especial no último século, com destaque para aspectos importantes do trabalho do pensamento de Chaïm Perelman e Theodor Viehweg.
36 Preferimos a expressão profissionais do direito, que reflete a totalidade da atividade jurídica, sem contar a
possibilidade de interpretação sob o ponto de vista da dualidade de trabalhos práticos e intelectual, melhor situando, à distinção combatida desde Karl Marx entre trabalho manual e intelectual e sua valorização. Posicionamo-nos, em relação à expressão operadores do direito, que a concepção da atividade desenvolvida pelos profissionais do direito recebe uma "captio diminutia" grave e aproxima-a com a, ainda inexistente, de técnicos em legislação aplicada. Preferimos designar as diversas atividade como profissionais do direito, advogados, juízes, promotores de justiça, etc.
37 No Processo Penal houve alteração significativa nos atos de oitivas de testemunhas, com a nova redação do
art. 212, do Código de Processo Penal, permitindo às partes efetuarem suas perguntas diretamente. Afasta desta forma, pelo menos no processo penal, a intervenção do juiz de modo a afastar uma possível simetria naquelas interações. "Art. 212. As perguntas serão formuladas pelas partes diretamente à testemunha, não admitindo o juiz aquelas que puderem induzir a resposta, não tiverem relação com a causa ou importarem na repetição de outra já respondida. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
Parágrafo único. Sobre os pontos não esclarecidos, o juiz poderá complementar a inquirição. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008)". Já o Código de Processo Civil mantêm a sistemática de observar o princípio da presidência da audiência pelo juiz, conforme o artigo , que transcrevemos:
"Art. 416. O juiz interrogará a testemunha sobre os fatos articulados, cabendo, primeiro à parte, que a arrolou, e depois à parte contrária, formular perguntas tendentes a esclarecer ou completar o depoimento".