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SUMÁRIO

4 O DESAFIO DA ABORDAGEM AMBIENTAL NO ENSINO DE QUÍMICA

4.1 A FORMAÇÃO E A ATUAÇÃO DOCENTE

4.1.1 Elementos formadores da concepção de professores

Assume-se que as concepções diversas de indivíduos sejam formadas por meio da circulação de ideias entre distintos coletivos de pensamento. Com isso, supomos que as concepções de docentes da disciplina Química sejam fortemente influenciadas no contexto de sua formação profissional, entretanto, não desconsideramos outros possíveis elementos que, além da trajetória acadêmica e formativa, irão determinar a maneira de pensar dos indivíduos.

Definimos três unidades que podem indicar, sinteticamente, como se formam as concepções dos professores sob a perspectiva ambiental, sendo eles: Vida Acadêmica, Vida Escolar e Vida Extracurricular, localizados representativamente na figura 3.

Figura 3 – Localização representativa dos elementos de formação de concepções.

Fonte: Elaborada pela autora.

*As cores e os tamanhos dos círculos são meramente ilustrativos.

A seguir, caracterizamos as três unidades de formação de concepções.

Unidade 1: Vida Acadêmica

A influência da Vida Acadêmica é recorrente nos resultados de pesquisas que analisam concepções de professores e estudantes, permitindo-nos assumi-la como interferente nas atividades profissionais. Tal indicação esteve muito presente entre as pesquisas que discutiram o Ensino de Ciências e a abordagem de assuntos ambientais. Leite (2009), por exemplo, afirma que as representações sobre meio ambiente podem ser o resultado da formação inicial; o autor (2009), assim como Marques et al. (2007), sugere que as dificuldades na abordagem de assuntos ambientais relacionadas à prática docente podem, também, ser consequências da formação inicial. Gouveia, Oliveira e Quadros (2009) comentam a dificuldade de docentes quanto a abordagem de assuntos

relacionados ao meio ambiente e propõem que os problemas ambientais coetâneos à formação inicial dos professores não sejam também coetâneos a sua prática docente.

Entendemos que a vida acadêmica de um indivíduo tem importância sobre suas concepções e nos fundamentamos na ideia de que a tradição de uma área especializada é estável e, por isso, muito coercitiva (DELIZOICOV; FERRARI; LEITE, 2001). Encaramos que seja existente uma tradição acadêmica ou, talvez, um ou mais estilos de pensamento (que retratam visões epistemológicas), que orientam a prática de um coletivo de especialistas químicos e que influenciam na formação dos licenciandos, inclusive no estímulo para que abordem ou não, e na maneira como são abordadas as questões ambientais em sala de aula.

Unidade 2: Vida Escolar

A influência da Vida Escolar pode ser percebida por meio dos diferentes componentes que constituem a prática escolar, também presentes nas discussões de resultados nas pesquisas de Leite (2009) e de Gouveia, Oliveira e Quadros (2009), que interferem no fazer do professor, como o conteúdo programático da disciplina (obrigação com a disciplina e com o vestibular), o projeto político pedagógico da escola (obrigação com a escola), os livros didáticos (LD) (objeto da prática escolar tomado como direcionador de aulas ou como um currículo mínimo) e por aspectos como o tempo disponível para a disciplina.

Os baixos salários pagos aos professores e a falta de estrutura escolar (ausência de laboratórios de ensino e equipamentos) são também constituintes das dificuldades ou são obstáculos à ocorrência de mudanças na abordagem dos assuntos ambientais, influenciando a maneira de ensinar do professor (MARQUES et al., 2007).

Unidade 3: Vida Extracurricular

As compreensões que as pessoas têm das coisas e do mundo, segundo Santana e Valentin (2010, p. 389) são “[...] um processo decorrente de uma atividade de construção mental do real”, como “[...] estruturas mentais (conscientes ou inconscientes) compostas por crenças, conceitos, significados, regras, imagens mentais e preferências”, ou valores e motivações. São “[...] formas de ver o mundo, de pensar e de agir, que possuem um papel determinante na

orientação do pensamento e da ação [...]” e que podem não estar relacionadas ao conhecimento científico ou ao âmbito escolar, isto é, nesta dimensão, denominada influência da Vida Extracurricular.

Falcão e Roquette (2007) identificam, em sua pesquisa, a influência da opção religiosa na compreensão de estudantes sobre a natureza e o meio ambiente. Já Gouveia, Oliveira e Quadros (2009) citam a influência da mídia não especializada. É esta unidade, principalmente, que propicia as diferenças entre os indivíduos formados academicamente em um mesmo coletivo de pensamento e que atuam na mesma área profissional, como os professores da disciplina Química. São as suas histórias de vida, os lugares onde nasceram e cresceram, as pessoas com quem convivem e compartilham experiências e valores que irão formar as distinções no pensar/agir entre os indivíduos.

Salientamos a compreensão da epistemologia de Fleck (2010): “Ao mesmo tempo em que ele valoriza a individualidade, ele a coloca sob a dimensão do ‘como é que a produção individual interage com o coletivo’. Em suma, é o coletivo que baliza a produção individual.” (DELIZOICOV, 2007, p. 89).

Consideramos a Vida Extracurricular como situação importante da vida do indivíduo, porém, nesta pesquisa, buscamos as possíveis características de um coletivo formado por professores da rede estadual de Educação Básica de Florianópolis/SC e não nos preocupamos com o que se limita a um indivíduo em especial, sendo suficiente conceber a existência deste elemento de formação como uma unidade de interferência.

Diferentemente, concebemos a Vida Acadêmica e a Vida Escolar como duas dimensões imprescindíveis para os resultados sobre a compreensão dos professores sobre SAmb. A primeira, temos como hipótese ser a mais relevante na formação das compreensões buscadas por considerar o ambiente acadêmico mantenedor de uma maneira de pensar suficientemente coesa sobre o meio ambiente e as inter-relações mantidas com os seres humanos. Supomos ainda que exista, no meio acadêmico, a influência da QV e, principalmente, da QAmb (com mais tempo histórico), mesmo que não exista de maneira efetiva a institucionalização de tais perspectivas na formação inicial (ZUIN, 2011). A segunda, consideramos como “morada” de nossa pesquisa, já que todos os dados coletados recaem sobre a atividade docente, buscando compreender em que medida a maneira de pensar sobre o assunto meio ambiente e sobre a SAmb do professor se aproxima de sua maneira de agir.

4.2 CARACTERÍSTICAS DA ABORDAGEM AMBIENTAL