No ano de 1980, foi registrado o ressurgimento da importância do campo de conhecimento denominado políticas públicas, assim como das instituições, regras e modelos que regem sua decisão, elaboração, implementação e avaliação.
Não existe uma só, nem a melhor definição sobre o que são políticas públicas. Para sustentar esta afirmativa, Souza (2006, pp. 20-46), nos apresenta alguns exemplos:
Mead (1995) a define como um campo dentro do estudo da política que analisa o governo à luz de grandes questões públicas e Lynn (1980) a define como um conjunto de ações do governo que irão produzir efeitos específicos. Peters (1986) segue o mesmo: Política Pública é a soma das atividades dos governos que agem diretamente ou através da delegação, e que influenciam a vida dos cidadãos. Dye (1984) sintetiza a definição como o que o governo “escolhe fazer e não fazer”. No entanto, a definição mais conhecida é a de Lasweell, ou seja, decisões e análises sobre política pública implicam responder às seguintes questões: quem ganha o quê, por quê e que diferença faz. Outras definições enfatizam o papel da política pública na solução dos problemas. O papel dos governos nos debates sobre políticas públicas implica responder a questões sobre o espaço que cabe aos governos em defini-las e implementá- las.
Apesar do reconhecimento de que outros segmentos além dos governos se envolvem na formulação de políticas públicas, tais como os grupos de interesse e os
movimentos sociais, e apesar de certa literatura argumentar que o papel dos governos é encolhido por fenômenos como a globalização, a diminuição da capacidade dos governos de intervir, formular políticas e de governar, está em debate há tempos.
Na Europa, a Política Pública surge como desdobramento dos trabalhos baseados em teorias explicativas sobre o papel do Estado e de instituições sociais. Nelas, o Governo é apontado como produtor, por excelência, de políticas públicas.
No Brasil, os estudos sobre as políticas públicas passaram a ter centralidade no início da década de 1980, possibilitando a afirmação de um campo investigativo a respeito da temática, terreno este vinculado, sobretudo à Ciência Política e à Sociologia. A realização dessas pesquisas ocorria em concomitância com o processo de abertura que instaurou a democracia no País.
Segundo Azevedo (1997, p. 59):
[...] naquele momento, tinha o espaço político que permitia desvelar publicamente o quanto as políticas econômicas empreendidas pelo regime autoritário contribuíram para aprofundar a negação dos direitos sociais à maioria, malgrado o alongamento formal das políticas sociais.
Considera-se que a área de políticas contou com quatro grandes “pais” fundadores: Harold Lasweel, Simon, C. Lindblom e D. Eastar. Sobre eles Santos (2001, pp. 170-198) sintetiza:
Laswell (1936) introduziu a expressão “policy analysis” (análises de política pública, como forma de conciliar conhecimento científico/acadêmico. Simon (1957) introduziu o conceito de racionalidade limitada das decisões públicas (policy markers), argumentando que a limitação é minimizada pelo conhecimento racional. Lindblom (1959; 1979) questionou a ênfase do racionalismo de Laswell e Simon e propôs, incorporar na análise de políticas públicas outras variáveis, como: as relações de poder, o papel das eleições, das burocracias, dos partidos e dos grupos de interesse. Easton (1965) contribuiu para a área ao definir a política pública como um sistema, ou seja, como uma relação entre formulação, resultados e ambiente.
Do ponto de vista teórico e conceitual, a política pública em geral e a política social em particular são campos multidisciplinares. Uma teoria geral de políticas implica a busca de sintetizar teorias elaboradas nas áreas da Sociologia, Ciência Política e Economia. Elas
repercutem na economia e nas sociedades e explicam as inter-relações do Estado com política, economia e sociedade.
Segundo Souza (2006, p. 35), pode-se resumir Política Pública como
[...] o campo do conhecimento que busca, ao mesmo tempo, ‘colocar o governo em ação” e/ou analisar essa ação e, quando necessário, propor mudanças no rumo ou curso dessas ações. A formulação de políticas públicas constitui-se no estágio em que os governos democráticos traduzem seus propósitos e plataformas eleitorais em programas e ações que produzirão resultados ou mudanças no mundo real.
Para este estudo são tomadas como referência as políticas públicas de educação adotadas para o setor pelos sucessivos governos brasileiros desde 1940 até os dias atuais, priorizando as ações de oferta de ensino público referente à EJA quanto a continuidade dos estudos.
Os sujeitos da EJA têm um recorte de classe, pois na divisão das classes sociais tanto as oportunidades como o acesso à escola, por exemplo, são diferenciadas; bem como as suas relações com o trabalho também o são, uma vez que os jovens e adultos pouco ou não escolarizados são aqueles que vendem sua força de trabalho. No contexto das classes sociais, uma minoria tem condição financeira para frequentar e ter uma educação de qualidade e dar continuidade aos estudos ao longo da infância, na adolescência e idade adulta. A maioria das pessoas, ao contrário, não tem essa mesma oportunidade. Pertencentes à classe menos favorecida economicamente, mesmo com acesso à escola, muitos não dão continuidade ao processo de escolarização, enquadrando-se nos percentuais de analfabetismo absolutos e funcionais.
Nesse sentido, entendo ser necessário situar os sujeitos da EJA no contexto do sistema capitalista, que não vê esses indivíduos inseridos em sua totalidade, mas de forma isolada. É necessário superar a visão fragmentada, para compreender os jovens e adultos matriculados nas salas de EJA como pessoas que tiveram suas vidas marcadas pelas dificuldades socioeconômicas, condições essas que os conduziram para o mundo do trabalho, impedindo-os da oportunidade de aprender a ler e escrever.
Nesse contexto faz-se necessário uma breve reflexão sobre o papel do Estado, afinal como o mesmo intervém nesse quadro?