elementos integrativos
6.3. Elementos integrativos
Nos negócios jurídicos, exclusivamente, enquanto os elementos nucleares (cerne e completante) dizem respeito à sua existência e os complementares, à sua validade ou eficácia, há algumas espécies em que são necessários atos jurídicos praticados por terceiros, em geral autoridade pública, que o integram, mas, apenas, no plano da eficácia. Esses atos integrativos, como os denominamos, não compõem o núcleo do suporte fáctico do negócio jurídico nem o complementa, de modo que não interferem quanto à sua existência, validade ou eficácia própria, mas atuam no sentido de que se irradie certo efeito específico que se adiciona à eficácia normal (própria) do negócio jurídico. Vejamos alguns exemplos.
No sistema jurídico brasileiro, a eficácia real dos negócios jurídicos relativos à constituição, translação ou extinção de direitos reais sobre bens imóveis, inter vivos, depende de seu registro no Registro de Imóveis (Código Civil, art. 1.227). O registro, assim, constitui ato jurídico praticado por autoridade competente (o oficial registrador) cujo efeito consiste em criar, modificar ou extinguir as relações jurídicas de direito real, dentre as quais a de direito de propriedade. Por decorrên cia dessa sistemática, o direito de propriedade sobre bem imóvel tem por titular aquele em nome de quem esteja inscrito no Registro de Imóveis (Código Civil, art. 1.245, § 1º).
Por isso, para que alguém adquira, por transmissão, o direito de propriedade sobre bem imóvel que haja compra do, ou recebido em doação, por exemplo, não basta que haja for malizado o negócio jurídico da compra e venda, ou da doação, mas é essencial que seja promovido o registro, no Registro de Imóveis compe tente (Lei n. 6.015/73 — LRP, art. 169), do acordo de transmissão67 nele embutido. Enquanto não efetivado o registro, o negócio jurídico da compra e venda, ou da doação, existe e, se é válido, produz toda a sua eficácia de natureza obrigacional (obrigação de pagar o preço, e.g.); não se irradia, porém, a eficácia real da transmissão do direito de propriedade ao adquirente. A falta do registro implica continuar a propriedade a pertencer ao alienante, sem, contudo, acarretar qualquer consequência negativa quanto à existência, validade ou eficácia obrigacional do negócio jurídico da compra e venda ou da doação, tampouco do acordo de transmissão que lhe disser respeito. Por isso é que, se o alienante efetua uma segunda venda do mesmo bem a outra pessoa e essa registra o acordo de transmissão antes do primeiro, adquire-lhe a propriedade, restando ao primeiro adquirente, que não promoveu o registro, tão somente o direito de pedir do alienante ressarcimento pelas perdas e danos (eficácia obrigacional do negócio jurídico da compra e venda ou da doação) que tiver sofrido. Não lhe cabe, no entanto, a pretensão à reivindicação do imóvel (que é conteúdo da relação jurídica de direito real de propriedade), por não se haver produzido a eficácia de direito real da transmissão (por isso é que, popularmente, se costuma dizer que só é dono quem registra).
As sociedades, associações, e outros entes coletivos coletivos a que o ordenamento jurídico atribui personalidade de direito, bem assim as fundações, se constituem como tal por meio de negócios jurídicos específicos (= atos constitutivos), passando a existir desde o momento em que são regularmente formalizados. Para que adquiram personalidade jurídica (= se tornem pessoa jurídica), porém, necessitam ter seus atos constitutivos registrados no Registro próprio e competente (Código Civil, arts. 45 e 985). Algumas delas, em face de sua natureza peculiar, dependem
também de prévia autorização governamental, como acontece com as instituições financeiras, e. g., ou de aprovação de seu estatuto pela autoridade competente, em geral o Ministério Público, como no caso das fundações. Tanto o registro como a autorização do Poder Público ou a aprovação da autoridade competente constituem atos integra tivos da eficácia dos negócios jurídicos de constituição da sociedade, associação ou fundação para deflagrar-lhes o efeito da personificação. Enquanto não houver o registro (que depende da autorização ou aprovação, quando necessárias), o negócio jurídico de constituição existe e, se for válido, irradia a sua pura eficácia obrigacional de criar a sociedade, a associação ou a fundação, bem assim de gerar os direitos e deveres entre os sócios, mas não se dará a personificação jurídica da entidade criada.
Conforme vimos nos exemplos dados acima, o registro constitui ato integrativo da eficácia de certos negócios jurídicos, o que pode fazer parecer que tem somente essa natureza. Nem sempre, porém, o registro público atua como elemento integrativo. O registro do casamento religioso não diz respeito, em rigor, a atribuir efeitos civis a esse ato (como faz sugerir a expressão usual de casamento religioso com efeitos civis), mas compõe como elemento completante, o núcleo do suporte fáctico do negócio jurídico do casamento formalizado perante autoridade eclesiástica, de modo que a sua falta importa inexistência do casamento para o direito e não somente ineficácia. O mesmo ocorre no casamento celebrado perante autoridade estatal em que o registro do ato integra o núcleo de seu suporte fáctico como elemento completante. A diferença entre as duas espécies (elemento integrativo e completante) reside em que:
(i) No caso dos negócios constitutivos de sociedade, associação ou fundação e do acordo de transmissão nas alienações de imóveis, o registro não compõe seus suportes fácticos; são atos jurídicos que se juntam aos negócios jurídicos já existentes, tão somente para que possam gerar um efeito adicional ao seu próprio. Para que se concretize o negócio jurídico de constituição de sociedade ou o acordo de transmissão referente à compra e venda, e. g., não há necessidade de registro: são negócios jurídicos consensuais, por isso se perfazem com a simples formalização. Entretanto,
para que produzam a eficácia final de gerar a personalidade jurídica ou transmitir a propriedade necessitam, sempre, sem exceção, de que sejam registrados.
(ii) Diferentemente, no caso do casamento, o registro é dado componente do núcleo do suporte fáctico, de modo que sem ele nem existe, ao menos, o fato jurídico. No casamento o registro é componente do suporte fáctico na posição de elemento completante do seu núcleo, logo, dado concernente à sua existência: sem registro não há casamento.
Em direito tributário nacional, o lançamento constitui elemento integrativo do suporte fáctico do fato jurídico tributário, uma vez que a lei lhe confere a função de deflagrar sua eficácia final, consistente na atribuição de exigibilidade ao crédito tributário, gerando, por conseguinte, a obrigação do contribuinte de pagar o tributo. Com efeito, desde a ocorrência do fato jurídico tributário, que se dá, fatalmente, por força da incidência da norma jurídica tributária sobre seu suporte fáctico concretizado68, estabelece-se a relação jurídica tributária entre o ente responsável pela imposição tributária (= lançamento, arrecadação e fiscalização), que é seu sujeito ativo (credor) e o contribuinte, seu sujeito passivo (devedor), cujo conteúdo eficacial específico é composto por diversas (a) obrigações (ditas) acessórias, dentre as quais a de efetuar, nos casos es pecíficos previstos em lei, o lançamento por delegação, inadequadamente dito lançamento por homologação69, e (b) pela chamada obrigação principal, que é constituída do direito e da consequente pretensão do cre dor de receber o tributo devido e dos correlatos dever e obrigação do devedor de pagá-lo (vide o esquema sobre o conteúdo da relação jurídica adiante, no § 49, 1, III, b, e com maior profundidade em nosso Teoria do fato jurídico: plano da eficácia, 1ª parte, §§ 35 e s.). Nessa espécie de relação jurídica, todo o seu conteúdo eficacial não se irradia de ime diato, instantaneamente, desde que é criada, mas surge com sucessividade. Assim é que, estabelecida, além das obrigações ditas acessórias, gera-se de logo o direito subjetivo público do sujeito ativo (credor) a receber o tributo (= crédito tributário) e o correspectivo dever do
sujeito passivo (devedor) de pagá-lo (= débito tributário). Esse direito subjetivo público de receber o tributo, bem assim o correlativo dever de pagá-lo, como quais quer outros, enquanto sejam apenas direitos e deveres, não contêm, em si, exigibilidade, pois os poderes e faculdades, como os ônus e submis sões, que sejam seus conteúdos, somente existem in potentia.
O que os torna exigíveis é o surgimento da pretensão do credor e da correspectiva obrigação do devedor, que revestem o direito e o dever, respectivamente. Enquanto não nasce a pretensão, apenas há direito do sujeito ativo de receber e, por conseguinte, o correlato dever de pagar o tributo, sem, con tudo, existir ainda a pretensão de exigir o pagamento nem a obrigação de pagá-lo. Nesse estágio da eficácia jurídica, o sujeito passivo da relação jurídica tributária tem, unicamente, algumas obrigações acessórias (como proceder aos registros contábeis, e. g.) a adimplir, bem assim, quando lhe compete, a obrigação de efetuar o lançamento do tributo por delegação, ato através do qual é apurado o valor do tributo a pagar. Tal situação permanece até que seja efetivado o lançamento, diretamente pela autoridade fazendária ou pelo contribuinte, por delegação, conforme a espécie, porque somente a ele (lançamento) o art. 142 do CTN atribui a eficácia de constituir o crédito tributário70, daí surgindo a exigibilidade do direito subjetivo do sujeito ativo da relação jurídica tributária (= crédito tributário), transformado em pretensão e, por decorrência, a obrigação em que se transfigura o dever do sujeito passivo. O lançamento, assim, constitui ato jurídico stricto sensu necessário e vinculado a que o contribuinte possa pagar o tributo devido; é ato jurídico que integra, sem o compor, o suporte fáctico do fato jurídico tributário para deflagrar sua eficácia total: fazer nascer a obrigação de pagar o tributo (= elemento integrativo do suporte fáctico). Sem lançamento não há obrigação de pagar tributo (a chamada obrigação tributária principal). Por isso, nos tributos em que há lançamento direto, enquanto a autoridade não o realiza e dele não notifica o contribuinte71, embora exista o dever de pagar o tributo, não há a obrigação de pagá-lo; mais ainda: o contribuinte não o pode pagar, mesmo que o queira. Quando se trata de lançamento por delegação, porém,
a exigibilidade do crédito não fica sujeita apenas à sua efetivação, mas nasce desde o momento em que deveria ser efetivado, independentemente de que o contribuinte cumpra sua obrigação de fazê-lo. Portanto, se o contribuinte inadimple, na data aprazada, sua obrigação de fazer o lançamento, a obrigação de pagar o tributo devido surge desde ali. O inadimplemento da obrigação de lançar, por configurar a prática de um ilícito relativo, não pode beneficiar o infrator. Por essa razão fica o contribuinte sujeito às penalidades aplicáveis à hipótese de não pagamento do tributo caso não efetive o lançamento e, por esse ou qualquer outro motivo, deixe de efetuar o pagamento do tributo devido.
O lançamento, destarte, constitui elemento integrativo do suporte fáctico do fato jurídico tributário, uma vez que dele depende, em caráter essencial, para que se produza sua eficácia final.