elementos integrativos
6.1. Elementos nucleares: cerne e completantes
Geralmente, o suporte fáctico é complexo, sendo raras as espécies em que apenas um fato o compõe. No estudo dos suportes fácticos complexos, em especial dos negócios jurídicos, é preciso ter em vista que há fatos que, por serem considerados pela norma jurídica essenciais à sua incidência e consequente criação do fato jurídico, constituem-se nos elementos
nucleares do suporte fáctico ou, simplesmente, no seu núcleo. Dentre esses há sempre um fato que determina a configuração final do suporte fáctico e fixa, no tempo, a sua concreção. Às vezes esse fato não está, expressamente, mencionado, mas, por constituir o dado fáctico fun damental do fato jurídico, a sua presença é pressuposta em todas as normas que integram a respectiva instituição jurídica. Esse fato configura o cerne do suporte fáctico65.
Além do cerne, há outros fatos que completam o núcleo do suporte fáctico e, por isso, são denominados elementos completantes do núcleo.
Os elementos nucleares do suporte fáctico têm sua influência diretamente sobre a existência do fato jurídico, de modo que a sua falta não permite que se considerem os fatos concretizados como suporte fáctico suficiente à incidência da norma jurídica. Nos negócios jurídicos, por exemplo, em que a manifestação da vontade consciente é o cerne do suporte fáctico, a sua ausência implica não existir o negócio, mesmo que presentes outros elementos.
Da mesma maneira ocorre se a falta é de elemento completante. No mútuo, por se tratar de negócio jurídico real, em que o suporte fáctico se compõe do acordo de vontades mais a entrega (= tradição) da coisa fungível ao mutuário (= consensus + traditio), essa constitui elemento completante do seu núcleo. Se há o acordo sobre o mútuo, mas não se realiza a entrega da coisa emprestada, mútuo não há, existindo, apenas, uma promessa de mútuo que, se não cumprida, pode dar ensejo a ressarcimento pelas perdas e danos que resultarem do inadimplemento.
No contrato de compra e venda, exige-se que haja acordo de vontades (cerne) sobre certo bem e preço determinado ou determinável (elementos completantes). O bem pode ser futuro e o preço a apurar segundo critérios que sejam predeterminados na avença. Se o bem futuro não vier a existir em decorrência de fato não imputável ao devedor (= sem culpa do devedor, conforme a inadequada expressão do Código Civil, art. 234), resolve-se o contrato de compra e venda porque a falta de elemento completante faz insuficiente o seu suporte fáctico, atingindo-lhe a existência. O mesmo
ocorre se, em iguais circunstâncias, o bem existente ao tempo da formalização do negócio vier a se perder antes da tradição (diferentemente, se a inexistência ou a perda do objeto for imputável ao devedor, o negócio se resolve, mas responde ele pelo equivalente mais perdas e danos).
Algumas vezes, embora raras, a forma do negócio jurídico entra na composição do suporte fáctico como elemento completante. Se as disposições de última vontade não forem feitas através das formas de testamento previstas no Código Civil (e. g., forem gravadas em vídeo ou dirigidas em carta a alguém), testamento não há, uma vez que o Código Civil somente considera testamento aquele formalizado por uma das formas que ele prevê no Capítulo III do Título III do seu Livro V. A forma do negócio jurídico constitui, nesse caso, elemento que a lei considera essencial à sua própria existência.
Conforme mencionamos antes, o elemento subjetivo do suporte fáctico (o sujeito de direito) integra o seu núcleo como elemento completante.
Porque o ser sujeito de direito tem como pressuposto necessário a capacidade jurídica, esta compõe, também, o núcleo do suporte fáctico dos fatos jurídicos lato sensu. Do mesmo modo, o elemento objetivo do suporte fáctico, quando há. Assim, se uma instituição que formaliza um contrato não tem capacidade jurídica (não é pessoa jurídica, nem pode ser considerada sujeito de direito, por exemplo), contrato não há (vide, sobre a distinção entre pessoa e sujeito de direito e também sobre capacidade jurídica, nosso Teoria do fato jurídico: plano da eficácia, 1ª parte, §§ 22, 27 e 28, principalmente).
No gênero fato jurídico lato sensu (vide classificação adiante nos §§ 29 a 31), os elementos cerne do suporte fáctico servem para definir as duas grandes categorias de fatos jurídicos: (a) fatos jurídicos conforme a direito e (b) fatos jurídicos contrários a direito, bem como, em cada uma delas, as classes de fatos jurídicos que as integram, da mais genérica à mais específica, a saber:
(i) os elementos cerne (a) conformidade e (b) não conformidade a direito + imputabilidade caracterizam as categorias dos fatos jurídicos lícitos e ilícitos, respectivamente;
(ii) os elementos cerne (a) conduta com vontade relevante, (b) con duta sem vontade ou com vontade irrelevante e (c) sem conduta alguma configuram os (a) atos jurídicos lato sensu, (b) os atos-fatos jurídicos e (c) os fatos jurídicos stricto sensu, respectivamente;
(iii) os elementos cerne (a) manifestação consciente de vontade com poder de autorregramento (= poder de escolha da categoria jurídica e, dentro de limites prescritos pelo ordenamento, de estruturação do conteú do da relação jurídica correspondente) e (b) manifestação consciente de vontade, sem poder de autorregramento (= não há poder de escolha da categoria jurídica nem de estruturação do conteúdo da relação jurídica, que são predispostos pelas normas jurídicas), estabelecem a diferença entre (a) os negócios jurídicos e (b) os atos jurídicos stricto sensu.
Nessas classes mais específicas, como as dos atos-fatos jurídicos, dos negócios jurídicos e dos atos jurídicos stricto sensu, suas várias espécies são classificáveis não mais em razão de elemento cerne, porém, dos elementos completantes. Exemplifiquemos com dois suportes fácticos assim constituídos:
(i) (a) elemento cerne: acordo consciente de vontades, com poder de autorregramento; (b) elementos completantes: sobre a disposição de certo objeto com pagamento de determinado preço;
(ii) (a) elemento cerne: acordo consciente de vontades, com poder de autorregramento; (b) elementos completantes: sobre a disposição de certo objeto de modo gratuito.
Analisando os dois suportes fácticos, constata-se que se trata de dois negócios jurídicos (em face de se constituírem por acordo de vontades com poder de autorregramento), que se diferenciam entre si por um de seus elementos completantes: (i) em um, o pagamento de um preço caracteriza uma compra e venda; (ii) no outro, a gratuidade da transmissão configura uma doação.
Ainda exemplificando com outros dois suportes fácticos assim estruturados:
(i) (a) elemento cerne: acordo consciente de vontades, com poder de autorregramento; (b) elemento completante: sobre o empréstimo de bem fungível;
(ii) (a) acordo consciente de vontade com poder de autorregramento; (b) elemento completante: sobre empréstimo de bem infungível.
Pelos cernes desses suportes fácticos (acordos conscientes de vontades com poder de autorregramento) identificam-se dois negócios jurídicos que se diferenciam pelos elementos completantes, a saber: em (i) a presença de bem fungível caracteriza um contrato de mútuo, enquanto em (ii) há um contrato de comodato por consequência da infungibili dade do bem.