Estamos no ano 50 antes de Cristo Toda a Gália foi ocupada pelos romanos Toda? Não! Uma aldeia
2.2 A imagem traduzível
2.3.1 Elementos quadrinísticos
Ao longo das décadas e das sociedades em que existem, as HQs desenvolveram recursos, gráficos e literários, para mesclar e expressar a combinação das imagens e textos interagindo para contar uma história. Sendo sua maior função a narrativa, as HQs conseguem, através desses recursos, transmitir uma gama enorme de informações. Não existe um termo específico para o conjunto desses recursos. Ramos (2012, p. 18) irá chamá-los “linguagem dos quadrinhos”, mas não define exatamente o que faz parte desse conjunto. Para facilitar a compreensão das teorias de tradução ora estudadas sobre tais recursos, convencionei chamá-los neste trabalho de Elementos Quadrinísticos (EQ).
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Os elementos quadrinísticos compreendem todos os recursos gráficos utilizados numa HQ para expressar coisas que não são propriamente objetos físicos do mundo e nem são exatamente palavras e discursos. É o conjunto de elementos desenhados intencionalmente pelo autor da HQ para dizer ao leitor que há uma informação a mais naquele texto ou imagem. Ou seja, os EQs servem como complemento do texto e/ou da imagem que acompanham em determinada vinheta, indicando mais um modo de transmissão de informação naquele momento. Como exemplo mais óbvio temos os balões, que não existem no mundo real e não podem ser tomados como representações de coisas ou pessoas. Obviamente não são textos, mas servem para indicar que o texto envolvido por eles é uma fala ou pensamento. Sendo essa função indicial a mais perceptível, é possível entender que os EQs são como os índices da teoria peirciana do signo.
Os EQs podem existir dependendo da informação que se deseja transmitir e do tipo de HQ, pois cada autor ou sociedade pode utilizar certos EQs e não outros. Sendo elementos típicos de cada sociedade ou autor, seus significados e formas de representação gráfica podem variar bastante. Por isso, o foco aqui será nos EQs ocidentais, mais precisamente nos existentes em Asterix.
O balão é o primeiro EQ que merece atenção. Como dito antes, sua aparição indica que em seu interior está a fala ou pensamento de algum personagem. Também pode indicar a fala de algum objeto, como um telefone. Cagnin (1974, p. 121) diz que ele “é o elemento que indica o diálogo entre as personagens e introduz o discurso direto na sequência narrativa”. Essa característica do balão reforça sua categorização como um índice peirciano, já que ao enxergar um balão, o leitor “ouve” uma fala. Além dessa função básica, modificações no seu formato, tamanho e cor podem trazer outras características à fala ou ao pensamento escrita nele. Um balão que ocupe boa parte de uma vinheta indica que deve ser ele, o que ele contém, o foco do leitor. O contrário também é verdadeiro: um balão pequeno significa que a atenção maior deve ficar sobre as imagens do quadro. Por representar uma fala, o balão está intimamente
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relacionado com a oralidade, já que geralmente os quadrinhos apresentam personagens falando e interagindo com outras pessoas.
Dentro do balão, a escrita do texto pode trazer uma quantidade imensa de informações extras, e ainda mais em associação com a oralidade, outra marca da HQ. Eguti (2001) apresenta extenso trabalho sobre o assunto, esclarecendo que existem recursos nos quadrinhos, consagrados pelo uso, que permitem ao leitor assíduo entender quando o texto de um balão está indicando algo mais que apenas a fala de algum personagem. Um desses recursos é o uso do negrito em certas palavras do balão, ou mesmo em todas as palavras. Geralmente, quando usado em apenas uma palavra, o negrito indica que a palavra destacada está sendo enfatizada na fala do personagem. Ou seja, a entonação que o personagem dá àquela palavra rege a forma como deve ser r interpretada a frase. Há diferença entre ler num balão a frase “O que você está fazendo?” e a frase “O que você está fazendo?” Como geralmente o texto no balão é escrito apenas com maiúsculas, o negrito tende a aparecer mais. Quando usado em toda a frase, o negrito geralmente indica que o personagem está falando alto, ou até gritando (Fig. 23). Convencionalmente, quanto maior a fonte da letra no balão, mais alto é o “volume” da fala. Também o fato de (geralmente) as letras serem escritas manualmente permite ao autor acrescentar muitos outros efeitos.
Figura 23: Balão, negritos e legenda como EQs. Fonte: Goscinny & Uderzo (2010)
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A onomatopeia é outro EQ de destaque. Na categorização peirciana, a onomatopeia é considerada um ícone, como já dito neste trabalho. E é possível encontrar trabalhos acadêmicos que buscam reforçar essa ideia. Entretanto, deve- se lembrar de que a onomatopeia mencionada por Peirce é a falada, e por isso pode ser considerada um ícone, já que esse tipo de signo contempla não apenas imagens, mas sons, cheiros e tudo o que tenha alguma qualidade muito semelhante ao objeto que representa. Quando falamos de onomatopeias nos quadrinhos, porém, trata-se de outro tipo de signo, começando pelo fato de que a onomatopeia é lida, e não ouvida. Sua relação com o objeto que representa é, novamente, mais aproximada de um índice, embora as onomatopeias variem de sociedade para sociedade, o que indica uma carga simbólica também. Mais informações sobre as onomatopeias, assim como sobre outros EQs, aparecem ao longo deste trabalho conforme a necessidade.
Os EQs participam também do tempo e do espaço na narrativa da HQ. A legenda é um EQ muito usado para dar continuidade e situar o leitor. Constantemente encontram-se as expressões “enquanto isso” e “mais tarde”, ou outras com mesmos significados, dentro das legendas, trazendo também uma simulação de passagem de tempo e espaço, que seriam difíceis de reproduzir apenas com imagens, ao mesmo tempo em que ficariam sem sentido na fala de algum personagem. Assim, a legenda serve como um narrador em terceira pessoa dentro da HQ. Em outras HQs que não Asterix, as legendas podem mesmo servir como narrador em primeira pessoa, mostrando os pensamentos de algum personagem.
Há outros tipo de EQs mais ligados à imagem que ao texto: as linhas de movimento são um recurso muito usado em Asterix para indicar se o personagem está correndo, andando ou voando (quando leva um soco dos gauleses). Traços, ou mesmo gotinhas, desenhados próximo ao rosto de algum personagem reforçam algum sentimento ou impressão dele (Fig. 24). Estrelas e passarinhos próximos ao personagem indicam dor. Desenhos de caveiras, raios, cobras etc., dentro ou fora de um balão, indicam palavrões.
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Esses outros EQs mais ligados à imagem também afetam a tradução, embora não sejam passíveis de interferência direta pelo tradutor, como os negritos, as legendas e as onomatopeias, devido à questão do direito autoral sobre a imagem. Ou seja, o tradutor não pode redesenhar os EQs, ou qualquer outra imagem da vinheta, para adaptá-la, traduzi- la, ao que é apresentado pelos recursos verbais.