Estamos no ano 50 antes de Cristo Toda a Gália foi ocupada pelos romanos Toda? Não! Uma aldeia
1.2 Novas perspectivas, preocupações e possibilidades
Mas as mudanças graduais na sociedade (algumas não tão graduais) de ordem social, política, econômica e/ou cultural (por exemplo, o acesso de mais e diferentes pessoas aos sistemas educacionais) modificaram também a forma de se pensar e enxergar essas oposições. Nas Ciências Sociais, surgiram os estudos pós-coloniais, que removeram “o local da diferença cultural do espaço da pluralidade demográfica para as negociações fronteiriças da tradução cultural” (BHABHA, 1998, p. 306). O que se busca agora é enxergar o outro, o estrangeiro, no/do seu próprio espaço, numa aproximação e interação muito mais envolvente. Essa nova visão afetou os estudos tradutológicos em vários níveis.
André Lefevere (2007) foi um dos que trouxeram, nos anos 1990, outros questionamentos mais elaborados aos estudos em Tradução, e o fez apoiando-se na Teoria dos Polissistemas: (re)lembrou que as reescrituras (ao invés de traduções) são diretamente afetadas por questões como “quem escreve”, “porque escreve”, “sob quais circunstâncias” e “para que público”. Em outras palavras, o processo tradutório passa a considerar o contexto, a história e a ideologia.
Também Lefevere questionou o papel do cânone no processo de tradução: os tradutores funcionam como mantenedores do sistema que privilegia a “alta literatura” nos espaços educacionais. Aliás, vários outros profissionais da literatura cooperam para essa manutenção e, nesse campo, a tradução torna-se uma ferramenta necessária. Por outro lado, essa “alta literatura” é pouco questionada pelos leitores comuns, aqueles que não são profissionais das letras, havendo entre esses os que Lefevere chamou de “mecenas”: pessoas interessadas em manter certa condição socioeconômica de uma sociedade ou cultura, e que se utilizam do sistema literário para isso. Esses mecenas apoiam de diversas formas o sistema literário: podem ser editores, professores, políticos, jornalistas etc., todos concorrendo para enaltecer o cânone em detrimento de outras formas de literatura. E mesmo grandes publicações que não pertençam ao
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cânone só acontecem porque, de algum modo, vão colaborar para a manutenção do sistema vigente.
Nos últimos tempos, no entanto, os quadrinhos vêm atraindo a atenção dos críticos, conquistando mais e mais leitores, ganhando prêmios antes só indicados para a literatura canônica e, com isso, ocupando também seu lugar no sistema acadêmico17. Dois grandes exemplos disso são o Prêmio Pulitzer18 concedido a Art Spiegelman pela criação da graphic novel Maus (Fig. 10) – foi a primeira vez que alguém ganhou o prêmio com uma HQ –, e o Prêmio Hugo19 concedido à HQ Watchmen (Fig. 11), de Alan Moore (texto) e Dave Gibbons (desenhos) – também foi a primeira vez que uma HQ ganhou tal prêmio.
17 Lugar agora já tornado oficial, com a fundação, no dia 30 de Janeiro deste ano, no Rio de
Janeiro, da Academia Brasileira de História em Quadrinhos – ABRHQ, com um acervo de 60 mil exemplares e com 20 artistas ocupando cadeiras que homenageiam artistas já falecidos. Ver notícia aqui http://jornalggn.com.br/noticia/academia-brasileira-de-historia-em-quadrinhos-tem-60- mil-exemplares - Acesso em 24/02/2015.
18 Prêmio norte-americano concedido aos melhores jornalistas, escritores e compositores musicais
(norte-americanos) em cada ano, de acordo com critérios definidos por uma banca julgadora.
19 Prêmio norte-americano concedido às melhores obras literárias (norte-americanas) de fantasia e
ficção científica em cada ano, de acordo com votação do público. Figura 10: Maus
Fonte: http://knopfdoubleday.com/imprint /pantheon/
Figura 11: Watchmen
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Com a crescente demanda por traduções comerciais, num mundo cada vez mais globalizado, é inevitável que outras variáveis entrem em jogo no trabalho do tradutor. Com base na Teoria Funcionalista da Tradução, baseada por sua vez na Skopos Theory20, Christiane Nord (2006) apresenta a noção de “lealdade” (que vem, de certo modo, se contrapor à já gasta fidelidade), segundo a qual o tradutor participa de um grupo buscando uma tradução, e que não apenas sirva ao seu propósito individual. A lealdade aqui funciona como elemento aglutinador das partes envolvidas: temos o iniciador da operação de tradução – que pode ser uma editora ou outro tipo de cliente –, o tradutor, o autor da obra original e o público final. O tradutor compromete-se a encontrar o melhor modo de cumprir seu trabalho e as outras partes aceitam, confiam no tradutor para a tarefa, acreditando que ele estará mesmo sendo o mais leal possível a todos os envolvidos.
Tentar atender às necessidades de tantas partes claramente envolve escolhas e, portanto, questões éticas, que também na modernidade são levantadas, já que afetam diretamente o trabalho do tradutor. Andrew Chersterman (2001), numa tentativa de categorizar as possíveis éticas seguidas pelo tradutor, bem como as consequências de se deixar guiar por elas, fala de quatro tipos: Ética da Representação, Ética de Serviço, Ética da Comunicação e Ética Normativa.21 Guiado pela Ética da Representação, o tradutor buscaria acima de tudo representar o autor ou a cultura de origem do texto de partida, correndo o risco de deixar seu texto ilegível para o público leitor, ou carente de inovações. A Ética de Serviço seria a seguida pelo tradutor caso buscasse essencialmente atender às demandas do cliente que pediu a tradução, fosse quem fosse, podendo até mesmo ignorar outras exigências relevantes para o contexto da tradução ou para o autor ou cultura de partida. Ao seguir a Ética da Comunicação, o tradutor buscaria que seu leitor final compreendesse o texto original da melhor forma possível, utilizando todos os recursos disponíveis – nesse caso, há o apelo a notas de rodapé e prefácios, e o risco de tomar para si responsabilidades que não
20 Não é intenção abordar essas teorias neste trabalho. Para mais informações sobre tais teorias,
ver Nord (2006).
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Figura 12: A intertextualidade auxilia a “lealdade” do tradutor. Fonte: Traduzido de Nord (2006, p. 39)
seriam suas, como, por exemplo, tentar “ensinar” a língua de partida ao leitor final. A Ética Normativa seria a mais domesticadora de todas, e o tradutor que a seguisse tornaria seu texto bem confortável e palatável ao gosto do leitor final, com todas as consequências que pudesse acarretar. Chesterman propõe, então, uma nova Ética, a Ética do Compromisso22, segundo a qual o tradutor compromete-se a tentar ser o melhor tradutor, apoiando-se nas virtudes da justiça, da veracidade, da confiabilidade, da empatia, da determinação, além de outras qualidades que não são necessariamente virtudes, mas tudo para manter o esforço de ser um bom tradutor.
Interessante que tanto Nord (2006) quanto Chesterman (2001) apontam que o caminho para suas melhores formas de traduzir, para suas éticas, passam pelo texto, ou melhor, pelos gêneros textuais. Nord fala que, para cumprir seu papel, o tradutor precisar saber quais gêneros existem em cada sociedade para que possa levar o texto, ou melhor, seu sentido, a atravessar as barreiras da cultura e da língua. Já Chesterman (2001, p. 153) busca evocar todas as boas virtudes do tradutor com base em um juramento escrito, o qual é recitado pelo tradutor ao assumir sua função. A questão ética vem se tornando mais e mais presente em trabalhos de estudiosos de tradução que têm como objeto tanto
26 textos literários quanto não literários23.
À primeira vista, tanto Nord quanto Chesterman vão além do que propõe Heloísa Barbosa em seus Procedimentos técnicos da tradução (2004). Esse guia para tradutores (baseado no exame do trabalho de vários estudiosos) está presente nos programas de formação de tradutores pelo país afora, mesmo que na reedição de 2004 (a 1ª foi em 1990) a Tradução continue sendo definida como “uma atividade humana realizada através de estratégias mentais empregadas na tarefa de transferir significados de um código linguístico para outro” (p. 11). Essa definição de tradução se mantém e tem apoio linguístico, mesmo depois de, já em 1986, em Oficina de tradução: a teoria na prática, Rosemary Arrojo24 já estar combatendo essa definição, e foram/são muitos os estudiosos brasileiros (e mesmo fora do Brasil) que tomam essa teoria que se nomeia pós-estruturalista como modelo.
Mas será que esse “bom tradutor” pode ser realmente pautado pelas diferentes propostas éticas e de lealdade acima mencionadas, por mais boa vontade que ele tenha em segui-las? No final de seu livro, Barbosa (2004, p. 17) nos levaria a dizer que não. E conclui a primeira parte de seu trabalho afirmando que as categorias “propostas pelos autores examinados não refletem o que de fato ocorre no ato da tradução, nem contribuem para um melhor esclarecimento dos fatores com que se defronta o tradutor em sua tarefa”.
Ao lidar com editores, autores, leitores e, principalmente, com o sistema socioeconômico em que está inserido, o tradutor fica limitado de diversas formas. Maria Clara C. Oliveira (2005) percebe isso quando apresenta o exemplo das traduções para o português de livros de língua inglesa feitas por Rachel de Queiroz, e publicadas no Brasil nas décadas de 1960 e 1970: tais traduções serviram como poderosa fonte de intervenção político-ideológica para a Ditadura
23 O livro Vozes da tradução, éticas do traduzir (2014), organizado por Lenita Esteves e Viviane Veras, reúne trabalhos de vários pesquisadores preocupados com o tema.
24 Destaco, a título de exemplo, o livro Tradução, desconstrução e psicanálise, de 1993, e a
excelente retrospectiva apresentada em Os ‘estudos da tradução’ como área de pesquisa independente: dilemas e ilusões de uma disciplina em (des)construção, de 1998 (ver referências).
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que se instalava no Brasil. Entre essas traduções, Oliveira (2005) destaca Minha vida, de Charles Chaplin (Ed. José Olympio), Os carolinos: crônica de Carlos XII (Fig. 13), de Verner von Heidenstam (Ed. Delta) e O lobo do mar, de Jack London (Ed. Ediouro). Esse tipo de tradução
faz-nos indagar a respeito da possibilidade de existência de um sentido ético em uma prática da tradução que se escamoteia no silêncio, não se deixando revelar nem na próxima cena da escritura e nem tampouco em prefácios e notas, espaços que se encontram mais facilmente franqueados a escritores de renome que se dedicam à prática tradutória do que aos demais tradutores. (OLIVEIRA, 2005, p. 07)
Como traduzir tentando ser ético quando forças maiores que a liberdade do tradutor governam o seu trabalho? Lenita Esteves (1997) defende que a leitura de um texto feita pelo tradutor, ou seja, a tradução desse texto, não é exclusivamente uma leitura do tradutor, e isso em mais de um nível, começando pela cultura e o conjunto de crenças partilhados pelo tradutor e a sociedade em que ele vive. Depois, há a figura do editor (também guiado pela “mão invisível” do mercado), “patrão” do tradutor e que impõe uma leitura editorial. Por fim, está a sempre presente e nem sempre visível intertextualidade do texto original, que não pode (ou não deveria) ser negligenciada pelo tradutor.
Então, não necessariamente o tradutor conseguirá seguir, do começo ao fim de seu trabalho, apenas uma ética. Ele pode muito bem iniciar a tradução com determinada boa intenção, seguindo certos valores, mas ser obrigado – por força do tempo disponível, de pressões do editor ou mesmo do tipo de conteúdo
Figura 13: Os carolinos: crônica de Carlos XII.
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que vai encontrando no texto de partida – a repensar tais valores conforme traduz uma obra.
Saindo da Ética e retomando o caráter mais político e ideológico da tradução, Rajagopalan (2000) afirma que graças aos estudos pós-modernos foi possível perceber o caráter político da tradução, fundamental nos processos colonizadores ao redor do mundo. Se o tradutor domestica, desprovê a obra de suas marcas estrangeiras; se estrangeiriza, também comete a violência de “exotizar” a obra, segundo os estereótipos culturais vigentes na sociedade para a qual a obra é traduzida.
Por outro lado, a tentativa de se colocar no lugar do outro para ler e traduzir não apenas levou os pensadores da Tradução a reverem os Estudos de Tradução, mas também suas relações com o mundo e com outras disciplinas e campos de saberes. Entre algumas alternativas que ganham mais destaque entre literatos e psicanalistas, vale a pena destacar o trabalho de Helena Martins (2012) que, baseando-se na etnologia filosófica do “perspectivismo ameríndio” de Eduardo Viveiros de Castro, busca logo de início lidar de outra forma com a dualidade das escolhas do tradutor. Segundo essa cosmologia, existem múltiplas naturezas, e cada ser enxerga através de seu corpo e apenas por meio dele. A perspectiva de uma natureza e várias culturas não se sustenta, e o que se constata nessa visão é que uma cultura é diretamente afetada por uma natureza, que então transforma essa cultura, numa espiral contínua. Também o perspectivismo ameríndio tem como meta final o outro, e o representante mais emblemático é o xamã, capaz de viajar por outras naturezas (de onças, de pássaros) e voltar para contar em suas palavras os pensamentos do outro. O tradutor é apresentado por Martins como um xamã (um mediador), capaz de assumir outras identidades, línguas e corpos durante seu trabalho, mas sempre voltando ao seu estado original, para poder assim descrever o que viu, sentiu, leu, no lugar do outro.
Da fusão entre Estudos de Tradução e Estudos Culturais temos uma nova visão do tradutor como agente transcultural. Como estudiosa da tradução,
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Figura 14: O padrão moiré.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Padrão_ moiré
Susan Bassnett (2003) inicialmente apresenta algumas considerações sobre a natureza da tradução, sua presença entre todas as culturas e as mudanças de perspectiva sobre tal natureza a partir dos estudos pós-coloniais. A autora estende ainda a questão de o tradutor ser ou não bilíngue para a cultura, ou seja, se o tradutor precisa ser bicultural, e conclui que o tradutor deve estar em parte imerso nas culturas fonte e alvo para realizar seu trabalho. Na verdade, a competência cultural vem ganhando cada vez mais vulto nos Estudos de Tradução, e tem sido mesmo uma necessidade em nosso mundo de fronteiras cada vez mais difusas.
Todos esses novos modos de pensar a Tradução e de renomeá-la fazem emergir uma nova ideia de tradução. Alexis Nouss (2012, p. 19) antevê essa ideia ao conceber a tradução não como a passagem de um espaço linguístico/cultural a outro, mas como passagem de um no outro: “dois territórios móveis em vez de uma mobilidade
percorrendo-os, dois territórios nômades, mais que um nomadismo atravessando- os”. O autor compara a tradução com o padrão moiré (Fig. 14), em que duas superfícies superpostas criam uma terceira: igualmente na tradução, as línguas de partida e de chegada formam uma terceira, que no seu limiar contém as duas primeiras. As línguas, as culturas, as palavras e os seres estão em constante movimento em relação uns
com os outros e em relação a si mesmos. Ao mesmo tempo tudo é traduzível e intraduzível.
A denominação Translation Studies, atribuída a James Holmes (1972/1975)25, aponta para um campo disciplinar que evitaria os problemas
25 No artigo “Dicotomias tradutórias e a perspectiva intercultural”, Gisele Orgado (2009, p. 11)
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trazidos por nomeações como Ciência ou Teoria da Tradução. Na linha de proliferação dos “Estudos” – Cultural Studies, Post-colonial Studies, Film & Midia Studies, aparecem também os Translation Studies, ou Estudos da Tradução em português. Grande parte dos grandes nomes da pesquisa em tradução da atualidade adota essa denominação, em função da possibilidade de abertura dos studies, mas também esse grupo tem se mostrado pouco eficaz para o trato dos quadrinhos ou outros textos multimidiáticos. Vale ressaltar, no entanto, que vêm se tornando frequentes as chamadas para eventos e publicações que envolvem legendagem, dublagem, audiodescrição, música e imagens. Por um lado, as pesquisas desse grupo tendem a alinhar-se mais com os textos literários tradicionais, conforme a Teoria dos Polissistemas prevê, mas tal alinhamento já vem incluindo, pouco a pouco, outras formas de tradução consideradas adaptações, transcriações...
Entre os estudos linguísticos, a Linguística Aplicada (LA) tem dado grande contribuição para se pensar esse tipo de Tradução; pensá-la como uma tradução indisciplinar, parodiando a proposta de Luiz Paulo da Moita Lopes26 (2006). Uma das mais recentes contribuições nessa área é a Multimodalidade, que abrange escrita, fala e imagem e que será explicada mais à frente.
Por fim, não poderia deixar de mencionar aqui os estudos tradutológicos e o mercado. Essa relação acontece por dois meios: a localização e o uso de tecnologias na tradução. A localização é um termo muito usado nas indústrias de softwares, games, websites e outros produtos ou serviços que utilizam várias formas de mídias (como vídeos, textos, áudio, imagens etc.) para transmitir informações ao usuário. Gabriela C. B. Ribeiro (2005, p. 234) explica que
em um congresso de Linguística Aplicada, em Estocolmo, no ano de 1972, a fim de criar uma definição específica para as investigações científicas dentro dos campos da tradução”.
26 Falo do livro Por uma Linguística Aplicada Indisciplinar, em que o autor/organizador propõe
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Para que um software possa ser vendido em outros países, é preciso que ele seja traduzido e adaptado a cada um desses países, a cada cultura. As adaptações podem incluir desde mudanças nos formatos de hora, data, endereços e nomes até alterações nas cores e símbolos, na organização interna e no conteúdo do produto, nas leis de direitos autorais e na garantia, na estrutura do software.
A frase think global, act local, efetivamente é o lema dessas empresas, conforme explica Ribeiro (2005): os produtos e serviços já são pensados, projetados, em seus países de origem de forma global, com o mínimo de elementos linguísticos e culturais agregados, mas com a possibilidade de agrega- los futuramente. Tais elementos (como, por exemplo, o manual de instruções do produto) são criados separadamente e posteriormente traduzidos – por empresas de tradução ou por tradutores autônomos: de um lado, seguindo normas rígidas da empresa, para preservar as especificações e necessidades do produto; e de outro lado, buscando tornar o produto o mais aceitável e palatável possível ao público para o qual esse produto está sendo comercializado.
As tecnologias usadas na tradução envolvem desde os glossários e terminologias específicos para cada área, passando pelas ferramentas de tradução e tradutores automáticos, até as memórias de tradução. Ainda existem empresas e softwares apenas para gerenciar um processo tradutório. Sobre isso, Ribeiro (2005) explica que as indústrias de tecnologia estão constantemente lançando produtos e serviços novos, e a concorrência exige que tais produtos sejam lançados no mercado o mais rápido possível. Assim, as memórias de tradução otimizam a tradução de volumes enormes de palavras, da ordem das centenas de milhares, e ainda mantém uma uniformidade que acaba se tornando marca registrada da empresa. Tal volume de palavras exige uma equipe de tradutores atuando ao mesmo tempo, o que justifica as empresas e softwares de gerenciamento de tradução. A dinâmica do mercado de tradução também afetou os estudos de tradução, embora o que se perceba no geral é uma valorização às domesticações.
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É claro que o Mercado (agora em letra maiúscula) não exerce sua influência sobre a tradução “apenas” nas tecnologias e na localização. Como dito antes, qualquer tradução está sujeita às regras da editora, do público, do tempo... e, de fato, mais do que atingir a tradução ideal, o que se busca é atingir uma tradução vendível e a mais vendável possível.
Todo o caminho de transformação dos Estudos de Tradução aqui descrito não aconteceu “apenas” nas culturas e sociedades modernas. Aconteceu também em mim, pesquisador desse campo tão complexo. Foi preciso trilhar e esse caminho – com muitas idas e vindas – para poder chegar ao ponto de conceber a tradução intersemiótica como entendo atualmente e tento apresentar neste trabalho. O processo de traduzir foi se revelando algo tão amplo que escapava do texto escrito como o conhecia até pouco tempo, e uma das novas formas de texto cada vez mais em voga é a HQ, considerando as imagens, o texto e os EQ.
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Para entender as possibilidades de tradução de imagens em palavras e vice-versa, tanto nas HQs como em outros ambientes multissemióticos, é preciso algum entendimento estético e semiótico da imagem nos quadrinhos, e novas ferramentas teóricas surgem para auxiliar o pesquisador. De fato, dispor de uma mesma teoria semiótica para a imagem e a tradução parece ser o mais adequado, mas nem todas as teorias de tradução de imagem seguem esse pensamento, como veremos a seguir.