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Elementos que interferem no acesso aos capitais

No documento 2017DaianeThaisedeOliveiraFaoro (páginas 96-102)

4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.2 CARACTERIZAÇÃO DAS PROPRIEDADES RURAIS

4.3.4 Elementos que interferem no acesso aos capitais

Além dos fatores endógenos, Ellis (2000) também aponta um conjunto de fatores considerados exógenos, divididos em duas categorias: tendências e choques externos. As

tendências dizem respeito a elementos como população, migração, mudanças tecnológicas, preços relativos e políticas macroeconômicas. Por sua vez, os choques externos correspondem a secas, pestes, doenças, guerras civis e enchentes.

A importância relativa destas tendências pode variar significativamente, sendo que Ellis (2000) cita como exemplo a importância direta da economia mundial para o pequeno produtor rural que exporta; enquanto que aquele que produz para o mercado interno poderá ou não sofrer interferência do cenário econômico internacional.

Segundo Ellis (2000), os choques representam a destruição de ativos de forma direta, citando como secas ou inundações podem dizimar uma lavoura ou como doenças podem afetar o capital humano. Ainda segundo o autor, os choques também resultam na erosão de ativos de forma indireta. Isso por que em caso de desastre que afete parte do patrimô nio e dos meios de subsistência, a família rural possivelmente terá de vender o que restou dos seus ativos a fim de sobreviver.

A família da Cachaçaria Pol entende que o principal elemento que interfere no acesso ao capital humano é a migração dos jovens para os centros urbanos, tendo como consequência o envelhecimento da população rural.

Outro fator relevante no entender da família é a contribuição da tecnologia para o desenvolvimento dos negócios. Isso por que com o auxílio de aparatos tecnológicos foi possível facilitar o trabalho, bem como aumentar a produção. Além disso, os meios tecnológicos de comunicação foram uma ferramenta importante para divulgação do turismo no meio rural e, consequentemente, em seu crescimento.

O entrevistado ainda afirmou que sempre há intempéries no meio rural, mas que sua lavoura dificilmente sofre efeitos negativos, uma vez que a cana-de-açúcar é uma cultura resistente ao clima e às pestes.

A família Erva Mate Pagnussat também entende que a migração interfere no acesso ao capital humano, uma vez que acarreta na falta de mão-de-obra. Para o entrevistado, a dificuldade de explorar a terra e desenvolver as pequenas propriedades levou muitas famílias a migrarem para a cidade, pois a permanência no meio rural se tornou inviável.

O entrevistado afirma que a falta de mão-de-obra foi compensada pela evolução agrícola. Nesse sentido, ressalta que o maquinário agrícola permitiu a família plantar sem depender de mão-de-obra de terceiros, o que não seria possível se continuassem a arar a terra com bois.

Para o entrevistado, o preço do capital natural aumentou significativamente em virtude da plantação de soja, salientando que “em Marau a preço da terra por hectares está no

mínimo 100 mil reais e não encontra por esse valor, pois ninguém quer vender”.

Em relação às tendências econômicas, o entrevistado entende que houve avanços quando compara a situação atual com o contexto enfrentado no passado, especialmente no que diz respeito à facilidade de obtenção de financiamentos.

No que tange aos choques externos, o entrevistado afirma que sua única preocupação é com eventuais chuvas de granizo, que podem prejudicar a produção de erva-mate, referindo que “a ervateira é um árvore, caso der seca ela tem uma raiz profunda e se chove bastante

não prejudica”.

Por outro lado, as chuvas excessivas interferem na produção de mel, explicando a entrevistada que “a abelha não consegue trabalhar com chuva. Então, em vez da abelha

trabalhar, ela come o mel e tu não consegue coletar nada”. Além disso, o excesso de chuvas

também afeta a plantação de soja, uma vez que a planta se torna mais suscetível ao ataque de fungos em virtude da umidade. Inversamente, a falta de chuva acarreta no subdesenvolvimento das culturas, prejudicando a produção.

A família da Casa Câmera Ristorante também identifica a migração — especialmente da população mais jovem — para os centros urbanos. Tal fenômeno acarreta na falta de mão-de-obra e, consequentemente, no aumento de trabalho para os membros da família, bem como na dificuldade de expandir o negócio, interferindo no acesso aos capitais humano e financeiro.

O entrevistado entende que a evolução tecnológica facilitou o trabalho na lavoura, aumentando a produção. Quanto aos preços, afirma que ocorreu não apenas uma valorização do capital natural, mas também dos produtos artesanais e dos serviços oferecidos na propriedade. Na percepção do entrevistado, isto ocorre por que o mundo rural está em expansão, atraindo a atenção da população urbana.

Quanto aos choques, o entrevistado salientou que a atividade agrícola sofre com tempestades, secas, chuvas excessivas, pragas e pestes.

A família da Cantina Maculan também entende que o fluxo migratório interfere no acesso ao capital humano, reduzindo a mão-de-obra disponível. Entretanto, também conta com o auxílio tecnológico para suprir tal deficiência, afirmando que “como iríamos tirar leite

de vacas de forma manual? Com pouca mão-de-obra, seria praticamente impossível, limitaria nossa produção”.

Na visão do entrevistado, as atividades não relacionadas ao campo em áreas rurais estão em expansão, uma vez que as famílias perceberam que explorando atividades diversas — e não se limitando apenas a agricultara — é possível permanecer na propriedade, evitando o êxodo rural.

A família acredita que o valor do capital natural, bem como dos produtos artesanais, está em um processo de valorização. Entretanto, menciona que políticas públicas são necessárias para expandir ainda mais as atividades de turismo no meio rural.

Por fim, o entrevistado também afirmou que os choques externos interferem diretamente no acesso aos capitais, sendo que secas e pragas afetam, sobretudo, a produção leiteira.

O proprietário da Cantina Bordignon afirmou que a evolução tecnológica foi essencial para melhorar a qualidade de vida dos proprietários, uma vez que os trabalhos na lavoura se tornaram menos extenuantes com o auxílio do maquinário agrícola.

Para o entrevistado, os choques externos são uma constante fonte de preocupação, pois sempre afetam a plantação, causando inúmeros prejuízos.

Diante dessa análise de dados, foi possível construir o Quadro 12 que sistematiza os elementos que modificam ou interferem no acesso aos capitais.

Quadro 12 - Elementos que modificam ou interferem no acesso aos capitais.

Prop. Modificam Interferem

1

-Proteção ambiental

-Legislação (licenças e alvarás) -Infraestrutura (estradas)

- Migração.

- Intempéries (choques externos).

2

-Infraestrutura (estradas)

-A idade avançada dos membros da família rural. -Legislação (acesso ao crédito).

- Migração. - Preços.

- Tendências econômicas. - Choques externos. 3 -Burocracias (Acesso ao crédito, licenças e alvarás)

- Migração. - Preços.

- Secas e chuvas em excesso. 4 -Infraestrutura (estradas e instalações)

- Migração. - Preços. -Pestes e secas. 5 -Mão-de-obra - Excesso de chuvas. - Pragas. - Secas.

Fonte: Dados do estudo (2017).

Assim, os elementos apontados no Quadro 12 mediarão o acesso aos capitais e modificarão a estratégia a ser utilizada pelas famílias, a qual terá efeito na segurança do

sustento, nível e estabilidade de renda, redução da sazonalidade, qualidade do solo e da água e preservação florestal (ELLIS, 2000).

Deste modo, considerando os dados coletados nesta pesquisa e sua posterior análise, sistematizou-se os principais resultados do estudo. Assim, a Figura 8 ilustra os motivos que levaram as famílias a adotar estratégias de diversificação, bem como expõe os capitais aos quais tinham acesso e especifica os elementos que modificam ou interferem no acesso aos referidos capitais.

Figu ra 8 - Siste m a tização dos resu ltados da pesqu isa Fon

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2017

No documento 2017DaianeThaisedeOliveiraFaoro (páginas 96-102)