Usabilidade e Neurociência
6.3 Eletroencefalografia aplicada ao design de produtos
Nos estudos de neuroergonomia, Parasuraman e Rizzo (2007), ressaltam a importância do EEG como uma ferramenta para pesquisas do desempenho das tarefas, tais como carga da tarefa, esforço mental, fadiga mental e nível de excitação. Os pesquisadores identificaram que as mudanças no desempenho das tarefas podem ser automaticamente detectadas e medidas utilizando algoritmos que combinam parâmetros do espectro de potência do EEG em funções multivariadas, correspondendo a um método eficaz para medir as variações da carga cognitiva.
Durante uma avaliação da usabilidade, os participantes podem fazer muito mais do que simplesmente completar uma tarefa e preencher um questionário, podem também sorrir, remexer na cadeira e tamborilar os dedos na mesa. Estes correspondem a alguns dos gestos que representam o comportamento do usuário e que podem ser importantes dados para a avaliação da usabilidade (TULLIS; ALBERT, 2008). Muitos recursos são utilizados para verificação da satisfação humana a partir do comportamento emocional, expressado por gestos verbais e não verbais. A forma do trato vocal, a mudança de tom e o comportamento no processo do discurso, como por exemplo, duração e pausa, são algumas das funcionalidades que vêm sendo usadas para aferir a emoção humana a partir dos sinais auditivos (SCHERER, 2003).
As expressões faciais correspondem a um comportamento não verbal e têm muito a revelar sobre a experiência do participante (TULLIS; ALBERT, 2008). A disposição de alguns pontos específicos na face é utilizada para encontrar uma correlação entre emoção e expressão facial (PANTIC; ROTHKRANTZ, 2000). No entanto, Esfahani e Sundararajan (2011), alertam para o fato de que a identificação da expressão facial está limitada à interação face a face e que nem sempre pode ser percebida pelo pesquisador.
Algumas pesquisas também interpretam a satisfação a partir de sinais fisiológicos como a frequência cardíaca e a temperatura periférica (ANTTONEN; SURAKKA, 2005; KIM; BANG; KIM, 2004; TULLIS; ALBERT, 2008). Apesar da possibilidade do uso dos recursos citados, a avaliação da satisfação do usuário ainda corresponde a um desafio pelo fato desta ser um estado interno e que não pode ser totalmente mensurado através do comportamento. Este fator desencadeou a ideia de utilizar os recursos da Eletroencefalografia para mensurar a satisfação do usuário em diversas situações, incluindo a usabilidade de produtos.
Conforme visto nos itens anteriores, as tarefas mentais ativam certas partes do cérebro e a Interface Cérebro Computador tem como objetivo detectar estas atividades a partir dos padrões EEG e relacioná-las com o estado emocional (ESFAHAN; SUNDARARAJAN,
2011). Coan e Allen (2004), a partir de uma revisão de literatura, comprovaram que a assimetria na atividade frontal EEG tem sido associada de forma consistente a constructos relacionados com a motivação e a emoção.
Neste âmbito, Esfahani e Sundararajan (2011), realizaram experimentos utilizando a coleta da atividade cerebral a partir de uma interface cérebro computador para estimar o nível de satisfação. Para tal, usuários utilizaram o headset EPOC para controlar os movimentos de um robô a partir da imaginação mental, sendo que o mesmo comando não era atendido como resposta pelo robô para que o nível de satisfação emocional do usuário fosse afetado e então mensurado. Como resultado, o experimento comprovou uma acurácia de 79,2% de detecção do nível de satisfação baseado no EEG.
Um número de estudos também vem sendo realizado na área de marketing, a fim de investigar as mudanças na atividade do cérebro enquanto participantes observavam comerciais de TV. Estes estudos indicaram que a quantidade de atividade cortical das áreas frontal e parietal era alta para os comerciais de TV que foram lembrados, em comparação com a atividade provocada pelos que foram esquecidos (OHME et al., 2010; ASTOLFI et al., 2008). A atividade da banda alpha foi observada nas regiões occipitais, assim como também foi observada a atividade teta na linha média e nas regiões corticais frontais para os comerciais mais lembrados.
Para testes de design utilizando EEG, principalmente para websites, dispositivos de rastreamento ocular (eye-tracking) também são utilizados de forma complementar. As informações fornecidas por um sistema de rastreamento ocular podem ser bastante úteis nos testes de usabilidade, pois permitem ao pesquisador saber para onde o participante está olhando em tempo real.
Nos estudos de Khushaba et al. (2013), o sistema headset emotiv foi utilizado em conjunto com um eye-tracking para análise das mudanças espectrais EEG em um contexto de simples escolha (decisão), projetado para medir características específicas na escolha do participante por produtos que mais lhe agradavam.
Conforme os estudos apresentados, pesquisas vêm sendo realizadas aplicando a neurociência ao design, mas ainda não proporcionaram estudos significativos na aplicação da EEG na avaliação da usabilidade. Em neuromarketing, a maioria das pesquisas tem coletado os dados EEG relativos à cognição, emoção e de preferências, enquanto que pesquisas em neuroergonomia têm coletado dados relativos às consequências da tarefa. Neste panorama, uma grande oportunidade de pesquisa se apresenta no uso de métodos e tecnologias da interface cérebro computador para a avaliação da experiência e dos aspectos
emocionais do usuário, principalmente quanto aos estudos voltados para a usabilidade do produto com a abordagem EEG.
6.4
Considerações finais do capítulo
A aplicação da neurociência no design (Neurodesign), mais particularmente na avaliação da usabilidade, ainda está na fase da infância, mas oferece perspectivas futuras promissoras. O estado da arte atual em neurodesign está focado no conceito do design do produto pelo usuário e, até o momento, ferramentas biométricas são aplicadas comercialmente nas pesquisas de marketing para avaliar novos produtos. À medida que experiências com pesquisas em neurociência crescem, estas podem ser aplicadas mais objetivamente na construção de problemas mais complexos, que frequentemente são encontrados na usabilidade de produtos.
A partir dos exemplos de pesquisas descritos ao longo do capítulo, torna-se claro que a ciência do cérebro vem se tornando uma das principais prioridades da comunidade científica. Altos investimentos são aplicados para tornar esta tecnologia menos invasiva ao usuário e mais acessível aos pesquisadores de outras áreas que não a medicina, como por exemplo, o sistema Emotiv EPOC que vem sendo utilizado nas áreas de marketing e ergonomia.
No entanto, apesar da importância dos estudos sobre o funcionamento interno do cérebro humano para a vida cotidiana, a neurociência ainda tem uma pequena participação na maioria das atividades profissionais. Hevner et al. (2014), acrescentam que muitas das pesquisas que vêm sendo realizadas nesta área têm sido muito bem sucedidas na produção de uma grande quantidade de dados ‘neurocientíficos’, mas sem traduzi-los em conhecimento.
Contudo, compreendemos que, com a continuidade destas pesquisas muitas questões podem e devem ser respondidas pela neurociência, que vem desempenhando um papel significativo no avanço da compreensão do comportamento humano através do cérebro. Com o mesmo empenho, pesquisadores da área do design podem também se beneficiar do uso destas tecnologias emergentes.
O estudo de caso II, descrito no capítulo 8, tem como objetivo aplicar o conhecimento da neurociência como uma tecnologia emergente na avaliação da usabilidade, aplicando a eletroencefalografia na compreensão da satisfação do usuário na interface com o produto, utilizando o sistema Emotiv EPOC.