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2 UM OFICIAL EM ASCENSÃO, OS OFICIAIS NO PODER

2.3  Elite institucional e poder

  Como já afirmei, o processo de ascensão política dos militares, em especial depois  da redemocratização de 1945, impactou de duas maneiras – e em períodos diferentes – a  trajetória de Sydnei. Trato aqui de como foi esse impacto antes do golpe de 1964, tendo  em vista compreender melhor a transformação de Sydnei de oficial em empresário sob a  perspectiva de um deslocamento no espaço social. 

É  importante  frisar  que  um  dos  aspectos  importantes  desse  impacto  foi  a  valorização  crescente  do  oficial  como  membro  de  um  grupo  de  status,  conforme  a  definição  weberiana  clássica  (WEBER,  1982,  p.  218‐226).  Vimos  que  o  grupo  apresentava  acentuada  hereditariedade  desde  pelo  menos  a  Primeira  República.  Além  disso,  alguns  aspectos  da  posição  social  de  seus  membros  deviam‐se  a  determinados  privilégios exclusivos, como permissão para o porte de armas (uma situação específica  com  que  nos  defrontaremos  no  capítulo  seguinte  mostrará  a  importância  desse  privilégio). Enfim, parte importante de seus caracteres de posição social derivava mais  da  honra,  que  incluía  por  si  mesma  certas  prerrogativas,  do  que  da  situação  propriamente  econômica  dos  oficiais.  A  condição  de  grupo  de  status  perpassa  a  discussão sobre a inserção social de Sydnei em Curitiba, de que trata o terceiro capítulo.  Por isso, não abordarei aqui a questão do status em abstrato, deixando para examiná‐la  mais tarde em conexão com a história concreta. 

O  que  desejo  discutir  mais  a  fundo  neste  ponto  é  como  a  escalada  de  poder  do  grupo  dos  oficiais  pode  ter  influenciado  a  transformação  de  Sydnei  de  oficial  em  empresário. Que tipo de vantagens o membro de uma elite ascendente poderia auferir  em  benefício  de  um  deslocamento  individual  no  espaço  social?  Ou,  mais  especificamente: como a condição de membro do oficialato pôde proporcionar recursos  ou  facilidades  no  acúmulo  e  na  reconversão  de  capitais  em  setores  da  vida  social  que  não  necessariamente  estavam  sob  o  poder  direto  daquele  grupo?  Responder  a  essa  questão  ajudará  a  ajustar  o  olhar,  para  saber  onde  procurar,  mais  tarde,  os  indícios  decisivos desse deslocamento. 

Uma definição clássica de elite é a seguinte, de Vilfredo Pareto:   

Assumamos  que  em  todas  as  áreas  de  atividade  humana  atribuamos  a  cada  indivíduo  um  valor  que  sirva  como  indicador  da  sua  capacidade,  da  mesma  forma que se atribuem notas para as várias matérias nos exames escolares. O 

melhor  tipo  de  advogado,  no  caso,  receberá  10.  Àquele  que  não  consegue  um  cliente será dado 1 – reservando zero para o que for um completo idiota. Para o  homem  que  ganhou  os  seus  milhões  –  não  importa  se  honesta  ou  desonestamente –, daremos 10. Para o homem que ganhou milhares, daremos  6; para aquele que mal escapa à indigência, 1, guardando o zero para aqueles  que não escapam. [...] Façamos, então, uma classe com aquelas pessoas que têm  os  maiores  graus  nas  suas  áreas  de  atividade  e  a  chamemos  elite  (PARETO,  1935, p. 1421‐1423). 

 

Desfiando,  a  partir  dessa  ideia  inicial,  proposições  que  tornam  o  conceito  mais  e  mais  complexo,  Pareto  é  obrigado  a  lidar  sistematicamente  com  um  sério  defeito  da  definição  de  que  partiu:  seu  conceito  de  elite  baseia‐se  em  capacidades  individuais.  O  problema  é  que  nem  sempre  os  indivíduos  excelentes  em  determinada  “área  de  atividade humana” possuem as prerrogativas sociais que a sua excelência, em tese, lhes  conferiria;  muito  pelo  contrário,  não  é  incomum  que  indivíduos  menos  capacitados  as  detenham. Ou seja, há os indivíduos que pertencem, em teoria, a uma elite, mas que não  pertencem de fato a ela, enquanto grupo detentor de prerrogativas; e há o oposto. Um  caso exemplar, levantado por Pareto, é o da transmissão hereditária de poder político,  seja  diretamente  –  pelo  princípio  de  sucessão  monárquico  –,  seja  indiretamente  –  por  meio de capital herdado, digamos. No caso, não é a capacidade individual para a política,  mas  fatores  “exteriores”  que  determinam  o  pertencimento  à  elite  política  concreta.  Mesmo  o  advento  da  sociedade  moderna  e  a  república  não  puderam  resolver  esse  desajuste, permanecendo frequentemente no poder indivíduos desqualificados (idem, p.  1425). 

A dinâmica do desajuste entre situação de fato e situação teoricamente presumível  funciona  de  acordo  com  um  mecanismo:  a  “circulação  das  elites”  (idem,  p.  1426).  A  alocação dos indivíduos em grupos nas situações de fato (em elite e não‐elite) recria‐se  constantemente  e  o  processo  é  sempre  sujeito  às  particularidades  históricas.64 Vimos  que mesmo nas sociedades modernas a hereditariedade não deixa de ser relevante para        

64 Um  exemplo  dado  pelo  próprio  Pareto  pode  esclarecer  esse  ponto  e  ainda  ilustrar  a  maneira  como  o 

autor concebe a relação entre capacidades individuais e pertencimento à elite. De acordo com o exemplo,  a demanda por grandes generais é maior nos tempos de paz do que nos tempos de guerra, mas isso não  significa  que  o  “estoque”  disponível  desse  tipo  de  homem,  ou  a  sua  velocidade  de  surgimento,  necessariamente  se  altere  em  conformidade.  Assim,  pelo  mecanismo  de  oferta  e  demanda,  alguns  indivíduos  podem  ser  sobrevalorizados  –  em  tempos  de  guerra,  digamos  –,  tornando‐se  parte  da  “elite  governante”,  sem,  no  entanto,  possuir  a  “excelência”  que  lhes  daria  esse  direito.  Inversamente,  generais  excelentes  podem  ser  subvalorizados  em  tempos  de  paz  por  serem  mais  escassas  as  posições  na  elite  governante para os homens do seu tipo. Dessa forma, como aponta Pareto, é que a heterogeneidade dos  grupos seria presidida pelas particularidades históricas. 

essa  alocação;  e  esse  é  um  princípio  que  promove  um  tipo  indesejável  de  heterogeneidade na elite, porque permite que indivíduos não‐aptos herdem posições de  poder.  Mas,  no  fim  das  contas,  a  dinâmica  da  circulação  das  elites  –  que  funciona  com  base em na competição – promove o “equilíbrio social” (idem, p. 1430), isto é, o contínuo  ajuste da alocação de fato dos indivíduos às suas colocações de direito (os melhores na  elite  e  os  demais  fora  dela).  Tendencialmente,  em  função  dessa  dinâmica,  os  usurpadores do poder acabam por perdê‐lo e os melhores acabam acedendo às posições  de condução da sociedade. 

No entanto, a conclusão é contra‐factual. A tendência ao equilíbrio social de Pareto,  em função da competição, depende de que a sociedade seja “aberta” e competitiva. Mas  sabemos que, por mais que o possa ser determinada sociedade, as posições de poder não  são  ocupadas  de  acordo  com  o  critério  único  da  excelência  individual,  medida  e  sancionada pela competição aberta, em cada área de atuação. As posições de poder são,  no  mínimo,  condicionadas  pela  estrutura  e  pelo  funcionamento  próprios  das  organizações cujo topo essas posições representam (estamos dando um passo adiante e  supondo  que  o  poder  normalmente  é  exercido  de  forma  organizada  por  meio  de  instituições); é impossível derivar de um mecanismo abstrato de competição o acesso às  posições  superiores.  E  era  apenas  através  de  uma  tal  alocação  competitiva  que  o  conceito fundamental de Pareto podia ligar quase diretamente capacidades individuais a  posições sociais: os melhores e a elite. A relação era quase direta porque os problemas  que  apontamos  obrigaram‐no  a  estabelecer  distinções  intermediárias,  ad  hoc,  para  resguardar a ligação fundamental suposta. 

Charles  Wright‐Mills  ofereceu  uma  solução  simples  e  eficaz  para  esse  problema  conceitual. Em uma de suas obras clássicas, define o grupo que lhe empresta o nome, “a  elite do poder”, como sendo 

 

[...]  composta  de  homens  cuja  posição  lhes  permite  transcender  o  ambiente  comum  dos  homens  comuns,  e  tomar  decisões  de  grandes  consequências.  [...]  comandam as principais hierarquias e organizações da sociedade moderna. [...]  Ocupam  os  postos  de  comando  estratégico  da  estrutura  social,  no  qual  se  centralizam  atualmente  os  meios  efetivos  do  poder  e  a  riqueza  e  celebridade  que possuem (WRIGHT‐MILLS, 1981, p. 12). 

 

A elite  a que se refere Wright‐Mills não é senão a unificação, em uma única cúpula 

decisória, de representantes de distintas elites: os grupos que comandam as instituições  poderosas  (idem,  p.  17;  p.  39‐40).  Mas  o  que  interessa  diretamente,  na  verdade,  é  a 

virada  em  direção  a  uma  definição  institucional  de  elite,  que  aprimora  o  conceito  de  Pareto ao vinculá‐lo às dinâmicas institucionais. Parece muito mais produtivo pensar o  recrutamento  e  o  poder  específico  das  elites  em  correlação  com  essas  dinâmicas,  ao  invés de pensá‐los em relação a aptidões individuais. 

A questão do poder específico das elites traz ainda outra contribuição substancial  de  Wright‐Mills  para  pensar  o  caso  do  Coronel  Sydnei:  os  indivíduos  que  compõem  a  elite exercem seu poder, sobretudo, por meio de decisões que têm consequências sobre a  vida de muitas pessoas. Fazer parte de uma elite, especialmente quando ela conforma,  também,  um  grupo  de  status,  é  estar  próximo  dos  loci  de  tomada  de  decisões  e,  num  sentido social, senão físico, estar próximo das pessoas que as tomam. Acredito que assim  é  possível  conectar  o  processo  de  ascensão  política  dos  militares  no  pós‐Segunda  Guerra, suas crescentes chances de exercício do poder e as decisões que influenciaram  diretamente na trajetória de Sydnei. 

No  período  antes  do  golpe  será  possível  identificar,  conforme  avancemos  na  narrativa,  o  surgimento  de  oportunidades  e  a  atuação  de  facilidades  ligadas  a  uma  proximidade desse tipo com as decisões importantes. Além – não menos relevante – de  ocasiões  em  que  o  aspecto  em  certo  sentido  comunitário  do  grupo  de  oficiais  foi  responsável  pelo  estabelecimento  de  amizades  e  sociedades  promissoras,  sobretudo  para  os  primeiros  negócios  que  Sydnei  tentou.  Para  pensar  a  trajetória,  portanto,  será  proveitoso  mirar  de  que  maneira  determinadas  decisões  em  esferas  sob  comando  ou  influência  militar  condicionaram  a  dinâmica  dos  recursos  pessoais  do  Coronel  Sydnei  quando  ele  passou  a  direcionar  seus  esforços  para  outras  esferas  que  não  a  propriamente  militar.  Será  útil  ter  isso  em  mente  durante  a  análise  do  segundo  movimento  na  trajetória:  não  mais  o  de  ascensão  social,  senão  o  de  conquista  de  uma  posição de classe dominante.