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2 GOVERNAMENTO E EXPANSÃO PUNITIVA

2.3 Em manchete, a palavra do Estado

“A violência dos jovens não cessa de aumentar, e nós precisamos endurecer.”

A frase acima, pronunciada por uma ministra francesa61

Assim, pode-se dizer que boa parte dos estudos sobre juventudes e sobre periferias urbanas, mesmo aqueles que assumem posições comprometidas com maior equidade e justiça social, acaba se apoiando num conjunto de pressupostos científica e politicamente legitimados, que definem a juventude como “um problema” a ser enfrentado

em 2007, poderia ser reconhecida como uma formulação de algumas autoridades brasileiras envolvidas com segurança pública. Entretanto – como vivemos em tempos e contextos caracterizados como de mudança ou, ainda, como pós-modernos, pós-capitalistas, líquidos, globalizados etc., e que nos confrontam com crises sociais profundas e complexas – poderia ser útil experimentar outros olhares e formas de apreensão, descrição e interpretação da multiplicidade de sujeitos e

grupos que se enredam nesses cenários contemporâneos. Michel Foucault chama atenção para

o fato de que “não há exercício do poder sem uma certa economia dos discursos de verdade que funcionam nesse poder, a partir e através dele. Somos submetidos à produção da verdade e só podemos exercer o poder mediante a produção da verdade” (2002, p. 28-29).

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61 Afirmação é de Rachida Dati, ministra do Interior na França, em 2007 (MUCHIELLI, 2008, p. 23). O Ministério do Interior na França corresponde, no Brasil, ao Ministério da Justiça.

. De forma

intencional ou não, essa economia de discursos tem contribuído, dentre outras coisas, para

naturalizar a relação entre criminalidade, violência e pobreza nas periferias urbanas e, nesse processo de naturalização, jovens do sexo masculino têm sido, usualmente, representados

como perigosos e/ou como vítimas. A força desses discursos age no sentido de nos fazer ver

tanto as periferias das cidades quanto a juventude que as habita como se fossem homogêneas, com uma visão que oblitera (tanto dentro, quanto entre) suas especificidades constitutivas.

O problema da juventude – com ênfase especial na juventude que vive em periferias urbanas –, quando colocado na perspectiva da criminalização e/ou da vitimização, é uma construção discursiva (científica, midiática e política). Essa afirmação não significa deixar de reconhecer que existem comportamentos e situações violentas cujos autores são jovens, e que estes podem ser mais ou menos numerosos segundo os diferentes momentos e territórios. Estou apenas dizendo que, qualquer que seja o modo como eventos relacionados a esses grupos se desenvolvam, eles – sobretudo os homens jovens – são representados e/ou assumidos como problemáticos nos discursos públicos, que posicionam determinados sujeitos, de determinados extratos sociais e de determinados territórios, como ameaças (e/ou como vítimas) potenciais à ordem instituída.

Contudo, quando questionamos, por exemplo, sobre o que tem sido apresentado como elementos desencadeadores da (ou que explicam à) violência juvenil, encontramos na mídia e em boa parte da literatura biopsicológica termos e pressupostos como: adolescência como fase naturalmente problemática em função de intensas transformações físicas e psíquicas; famílias desestruturadas; falta de limites; distúrbios afetivos e emocionais; uso de drogas; incitação ao consumo; falta de projetos de vida; fracasso e evasão escolar; desenraizamento cultural; maior tendência de homens para o envolvimento com atos violentos em função de sua constituição biológica (notadamente, da ação da testosterona) ou de seu pertencimento religioso, étnico etc. Ou seja, noções que instituem esses e outros atos como traços de individualidade. José Machado Pais (2008, p. 14) pondera:

Freqüentemente, dos “atos” passa-se às “maneiras de ser” e estas são mostradas como não sendo outra coisa que os próprios atos de violência. Implicitamente, surge o reconhecimento de que um ato de violência cometido por um jovem negro ou cigano resulta da maneira de ser das suas etnias de pertença. Nesse julgamento, o que se pune não é o ato de violência em si, mas a imagem preconcebida do jovem delinqüente: ou porque usa brinco na orelha, ou porque tem um corte de cabelo exótico, ou porque exibe uma tatuagem, ou pela simples cor da pele.

Assim, muitas das políticas e dos programas direcionados à juventude, tanto na França quanto no contexto brasileiro, acabam por assumir e reiterar uma equação que relaciona determinados problemas (violência, infrações diversas, uso abusivo de álcool e substâncias

psicoativas etc.) a uma essência que, de certa forma, aprisiona e reduz a composição complexa e multifacetada de identidades juvenis masculinas, mas também femininas, de periferias urbanas. Ao operar dessa forma, funcionam estrategicamente como modalidades de governo de determinadas práticas sociais, no sentido que lhes é dado por Foucault, e que envolvem “não apenas as estruturas políticas e a gestão dos Estados, mas a maneira de dirigir

a conduta63

Apesar das diferenças nacionais e de pequenas variações institucionais, as políticas de segurança pública têm traços comuns principalmente, como no caso deste estudo, aquelas direcionadas às juventudes moradoras das periferias urbanas pobres.

dos indivíduos ou dos grupos” (FOUCAULT, 1999, p. 244).

Trata-se de uma espécie de guerra ao crime, com o propósito de governar

adequadamente a população. Para tanto, é preciso que a racionalidade governamental enxergue a segurança do desenvolvimento socioeconômico da população como base da prosperidade do Estado. Para atingir determinados patamares, “o Estado enquadra sua população nos aparatos de segurança – de um lado, o exército, a polícia e os serviços de inteligência; de outro, a educação, a saúde e o bem-estar” (FYMIAR, 2009, p. 40).

A sociedade de controle convive com uma imensa gramática da guerra, haja vista a

guerra ao narcotráfico, a guerra ao terror, o combate à impunidade e o combate à imigração ilegal que buscam identificar inimigos reais ou virtuais, contingentes do qual precisam se defender sob o peso da potencialização do perigo à vida.

De fato, o endurecimento citado pela ministra francesa, que abre esta seção, funciona como uma palavra de ordem e refere-se a uma generalização das políticas policiais, judiciárias e penitenciárias em boa parte dos países de capitalismo avançado. E parece ser uma resposta racional às desordens geradas pela difusão de uma insegurança social, ou seja, o desemprego estruturante, a descrença na melhoria de vida através da educação e a instabilidade e flexibilização das relações de trabalho e renda daqueles que porventura tenham emprego.

O que vemos na análise do trabalho como comportamento humano é que a economia passa a ser uma programação estratégica da atividade dos indivíduos.

O problema da reintrodução do trabalho no campo da análise econômica não consiste em se perguntar a quanto se compra o trabalho, ou o que é que ele produz tecnicamente, ou qual o valor que o trabalho acrescenta. O problema fundamental, essencial, em todo caso primeiro, que se colocará a partir do momento que se pretenderá fazer a análise do trabalho em termos econômicos, será saber como quem trabalha utiliza os recursos de que dispõe. Ou seja, será necessário, para introduzir o

63 Foucault concebe o termo numa dupla acepção: por um lado é o próprio ato de conduzir os outros (segundo mecanismos de coerção mais ou menos estritos) e por outro a maneira de se comportar num campo mais ou menos aberto de possibilidades (1999, p. 243-244).

trabalho no campo da análise econômica, situar-se do ponto de vista de quem trabalha; será preciso estudar o trabalho como conduta econômica, como conduta econômica aplicada, racionalizada, calculada por quem trabalha. O que é trabalhar, para quem trabalha, e a que sistema de opção, a que sistema de racionalidade essa atividade de trabalho obedece? E, com isso, se poderá ver, a partir dessa grade que projeta sobre a atividade de trabalho um princípio de racionalidade estratégica, em que e como as diferenças qualitativas de trabalho podem ter um efeito de tipo econômico. (FOUCAULT, 2008b, p. 307).

Essa nova abordagem do trabalho na economia coloca o trabalhador como um sujeito econômico ativo, já que o trabalho é visto como uma conduta econômica. O que é essa conduta econômica? Pois bem, o trabalho garante um salário. O salário equivale a uma renda. O salário não é a venda de sua força de trabalho, mas aquilo que assegurará ao trabalhador uma renda. Renda é o produto ou rendimento de um capital. Assim, capital será tudo o que poderá ser uma fonte de renda. Então, seguindo o questionamento de Foucault, qual será o capital de que o salário é a renda? É o conjunto de todos os fatores físicos e psicológicos que tornam uma pessoa capaz de ganhar este ou aquele salário, em suma, uma determinada aptidão (ibidem, p. 308).

Essa concepção de governamento mostra que, para que o exercício do poder se faça de modo econômico, com o menor dispêndio de energia e o máximo de produtividade, é preciso

fazer entrar em cena as disciplinas – do corpo e do saber –, o biopoder e as tecnologias da

experiência de si. Todos esses aspectos envolvem um conhecimento da coisa a ser governada,

mas supõem igualmente o desenvolvimento de estratégias de intervenção: uma racionalidade

governamental – uma maquinaria para tornar a realidade “pensável” de modo a que possa ser submetida à programação política (ROSE, 1998).

[O governamento] depende do conhecimento. Para se governar uma população é necessário isolá-la como um setor da realidade, identificar certas características e processos próprios dela, fazer com que seus traços se tornem observáveis, dizíveis, escrevíveis, explicá-los de acordo com certos esquemas explicativos. O governo depende, pois, de verdades que encarnam aquilo que deve ser governado, que o tornam pensável, calculável e praticável. (ROSE, 1998, p. 37).

Considerando que nas sociedades do chamado capitalismo avançado, e particularmente com relação às periferias das grandes cidades, a presença e a vitalidade da população jovem são problematizadas. Sobretudo de forma segmentada e mediante as noções de (des)ordem urbana e segurança pública, as atribuições identitárias prestam-se a uma política de localização, fixação, punição e controle. Foi o propósito deste estudo discutir como a governamentalização das periferias urbanas pobres, alcançadas através de determinadas

ações de Estado, consiste em uma inescapável questão, no debate atual, sobre o que está reservado à juventude periférica hoje.

As ações de Estado, cada vez mais presentes nas periferias urbanas, podem ser definidas como formas de governamento contemporâneas, baseado tanto no envolvimento de todos/as – delinquentes ou não, perigosos ou não – quanto na utilização de dispositivos eletrônicos, de projetos de urbanização e de policiamento ostensivo, de ações repressivas e de verificação de documentos, entre outros; nesses programas, lideranças comunitárias, educadores sociais, universidades, escolas públicas, igrejas, ONGs, famílias e mulheres-mães são chamados a participar em nome da produção de uma suposta paz social.

Nos países ocidentais – incluindo o Brasil e a França, focos deste estudo –, tem se investido no incremento de um aparato jurídico-policial que tem como foco a infância e, principalmente, a juventude, objetivando a contenção e a ressocialização daqueles que se desviam e que são reconhecidos como ameaça à ordem social estabelecida (FONSECA, 2004). Utilizando as palavras de Foucault, temos uma inflação legal, ou seja, segundo o autor, “todo o conjunto da legislação que vai dizer respeito não apenas ao roubo, mas ao roubo cometido pelas crianças, às responsabilidades por razões mentais, todo o conjunto legislativo que diz respeito às medidas de segurança e à vigilância dos indivíduos” (FOUCAULT, 2008b, p. 11).

Portanto a mudança política e institucional da natureza do Estado e do paradigma de segurança pública que nele se instaura não é simplesmente uma queixa dos jovens habitantes das periferias urbanas que são revistados, filmados e muitas vezes agredidos física e moralmente. Trata-se de uma forma de governamento que permite criminalizar as periferias e aqueles que as habitam, em um processo em que castigo e punição passam a ser significados como um princípio político.

A utilidade das atuais políticas de segurança pública está diretamente associada ao que Deleuze alertava:

O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas. (DELEUZE, 1993, p. 51).

Um exemplo de como a atual sociedade de controle reage às instabilidades econômicas e sociais ocorreu na França em setembro de 2010, quando o governo francês se dedicou a expulsar determinados grupos ou etnias imigrantes com e sem documentos, ou

impor sanções a outras minorias como os muçulmanos64. Na revista Carta Capital, a manchete da matéria é bastante elucidativa: “Nada como um bode expiatório, ante a crise econômica e a queda na popularidade, Sarkozy mira os ciganos” (2010, p. 58):

Apesar de acusado por um comitê das Nações Unidas de tratar os “roma” (ciganos) de forma racista e xenófoba, o governo francês permanece firme em sua posição de até o final de 2010 expulsar 700 ciganos para seus países de origem como Romênia e Bulgária. Trezentos acampamentos foram fechados porque segundo o governo são centro de tráfico de drogas, prostituição, abusos de crianças e mulheres.

A União Europeia (UE) investiga a legalidade das expulsões. Romenos e búlgaros são cidadãos europeus e desde o ingresso de seus países, em 2007, na UE, podem entrar livremente na França. Ao cabo de três meses precisam, porém, ter emprego ou justificar meios financeiros para permanecer no país. Só podem ser expulsos ao cometer um crime, ou um caso de abuso do sistema de assistência social. Os expulsos simplesmente por não ter emprego desfrutam do direito, sendo cidadãos da UE, de voltar para a França.

Inseridos no âmbito da governamentalidade liberal, os mecanismos de poder destinados a organizar a multiplicidade de interesses dentro de uma população não podem ser confundidos com mecanismos de instauração de uma ordem pacificadora da lei, mas entendidos como a matriz de relações sociais que se configuram basicamente como relações

de guerra. Ou seja, relações que – por assumirem o objetivo não de instaurar e preservar a ordem, mas de gerir a desordem referente aos processos inerentes a uma população – se utilizam da guerra como artifício principal para o exercício dessa governamentalidade.

É impossível não fazer uma analogia entre as expulsões de imigrantes que vêm ocorrendo na França nos últimos anos com a exclusão dos leprosos na Idade Média estudada por Foucault. Segundo o autor, a exclusão dos leprosos acontecia mediante um conjunto jurídico de leis e regulamentos, um conjunto religioso de rituais que introduziam uma participação binária, entre um que era leproso e outro que não era. A partir dos séculos XVI e XVII, as formas de controle da peste tornaram-se diferentes, com o esquadrinhamento das regiões, das cidades em que há atingidos, com normas que indicam às pessoas quando podem sair, a que horas, o que devem fazer em suas casas.

No século XVIII as práticas de inoculação colocaram o problema fundamental do número de pessoas vitimadas, qual a taxa de mortalidade, quais lesões, quais sequelas, que riscos, qual a probabilidade de uma pessoa morrer ao se contagiar, ou seja, os efeitos estatísticos sobre a população em geral. Logo, tratava-se de segurança, do funcionamento e da

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O Estado francês, através do Ministério da Imigração, criou uma extensa campanha contra o uso da burca, até aprovar sua proibição através de lei.

aplicação de cálculos de custo e médias aceitáveis. Tratava-se do surgimento de tecnologias de segurança dentro de mecanismos que são efetivamente de controle social.

As expulsões dos ciganos na França e os argumentos utilizados para justificá-la

colocam como central o perigo potencial de determinados grupos ou pessoas, e assim

reativam o racismo de Estado que age pela eliminação, confinamento ou exclusão com base no combate à criminalidade como dispositivo estratégico do equilíbrio dos medos.

Segundo a matéria do jornal francês Libération (2 jul. 2009), a política de expulsão

dos imigrantes na França, que passam num primeiro momento pelos centros de detenção, tem sido mais dispendiosa do que se os imigrantes fossem mantidos na França.

Figura 5 – Imagem de um centro de detenção temporária. Numa tradução livre, o título da matéria seria Os custos extravagantes da detenção

Para Foucault, a questão passa essencialmente por uma questão econômica:

É certo que a evolução contemporânea, não apenas da problemática, da maneira como se reflete a penalidade, mas igualmente da maneira que se pratica a penalidade [...], se coloca essencialmente em termos de segurança. No fundo, a economia e a relação econômica entre o custo da repressão e o custo da delinquência é a questão fundamental. (FOUCAULT, 2008b, p. 12).

Assim, o problema do crime e da penalidade, do ponto de vista do novo capitalismo, está estreitamente relacionado a uma análise do comportamento econômico. O aparato jurídico-penal ocupar-se-á de uma conduta ou de uma série de condutas que produzem ações

das quais os autores dessas mesmas condutas esperam tirar proveito, um lucro, efeito de um

risco que não é simplesmente a perda econômica, mas o risco penal. Por conseguinte, o alvo do aparato jurídico-penal serão as pessoas que produzem esse tipo de ação.

Em uma de suas obras, Giorgio Agamben (2002) teoriza em torno do homo sacer,

figura do direito romano arcaico que designa o indivíduo cuja vida (separada do resto das

vidas da polis) não pode ser “sacrificada” (no sentido religioso ou ritualístico). O que se

permite ao homo sacer – porque a lei não o contempla – é ser assassinado, sem que esse

assassinato constitua delito. Essa figura reaparece no século XX com os campos de concentração ou de extermínio. Agamben desenvolve sua teoria convencido de que são esses campos (e não a cidade) que constituem o paradigma de nossos dias. A “vida nua” é a existência despojada de todo valor político e de todo sentido cidadão. O campo de concentração ou de extermínio é o espaço mais radical (mas não o único) onde se executam as

biopolíticas65

Agamben não se limita a lamentar a existência dos campos de concentração. Diz-nos que é necessário

contemporâneas; onde a vida, privada de todos os direitos, pode ser objeto de todos os experimentos.

[...] pensar as causas e mutações desse espaço fundante da lei moderna. A mera condenação da barbárie e da carnificina é somente uma forma de hipostasiar o mal como conceito aistórico e, portanto, de perpetuá-lo. É preciso construir uma teoria política sobre o campo, porque esse espaço é o que limita nossa experiência do presente. (2002, p. 30).

O filósofo chama a atenção para os que são chamados “centros de permanência temporária ou de retenção”. Esses espaços de transição antes da expulsão encontram-se em geral em áreas semiabandonadas. Ali estão recolhidos imigrantes ilegais, indivíduos a serem deportados e/ou suspeitos de pertencerem a grupos terroristas, em um local cercado por arames farpados, barreiras e grades, em condições precárias, inclusive do ponto de vista

65 Márcio Alves da Fonseca, ao comentar Foucault, afirma que, “nos procedimentos da biopolítica, não se trata apenas de distribuir, vigiar e adestrar os indivíduos dentro de espaços determinados, mas de dar conta dos fenômenos amplos da vida biológica. Trata-se de atuar sobre os fenômenos que se manifestam numa determinada população” (FONSECA, 2005, p. 57).

material. Na França, os números de imigrantes retidos têm aumentado de 24 mil, em 2002, para 34 mil, em 2008.

Para Foucault, uma vez que os conflitos políticos do presente visam à preservação e à potencialização da vida do vencedor, os inimigos deixam de ser adversários políticos para serem tomados como instâncias biológicas. Não se trata mais de serem superados na esfera política, mas eliminados, já que constituem ameaça à comunidade e à nação. Nas suas palavras: “A morte do outro não é simplesmente a minha vida na medida em que seria minha segurança pessoal; a morte do outro, a morte da raça ruim, da raça inferior, é o que vai deixar a vida em geral mais sadia e mais pura” (FOUCAULT, 1999, p. 304).

A interpretação que os liberais fizeram da criminalidade é, para Foucault, um retorno aos reformadores do século XVIII, a Beccaria e, sobretudo, Bentham. Uma vez que temas do domínio da economia política ou sobre o exercício do poder são novamente retomados. As manobras permitiriam o cálculo econômico ou em nome de uma lógica econômica, o funcionamento da justiça penal, o custo da prática judiciária, o custo da delinquência e do próprio funcionamento da instituição judiciária.

Nesta perspectiva Michel Foucault entedeu que o mecanismo da lei no fim do século XVIII, teria retornado como princípio econômico. O homem que passível de ser penalizado, o

homem que se expõe à lei e que pode ser punido por ela (homo penalis), é ao mesmo tempo