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1 MAPEANDO E LOCALIZANDO O TEMA DA PESQUISA

1.1 Escrever é um caso de devir

Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de vida que atravessa o vivível e o vivido. (DELEUZE, 1997, p. 11).

Qual é a função da narrativa do eu numa tese de doutorado? De que nos serve contar e

recontar nossa história, se não podemos mudar o passado, tampouco o futuro que ele nos

reserva? Ou como Fernando Pessoa2

Construímos-nos e vivemos em meio a uma série de narrativas. Desde muito jovens, escutamos histórias de nossos antepassados, de como era a cidade ou aquela rua há muito tempo atrás, como eram nossos parentes quando mais novos. Escutamos também estórias de de personagens fantásticos, de sonhos e às vezes de terror. Portanto, ouvimos, narramos, lemos, assistimos, imaginamos estórias.

escreveu antes de sua morte: “Eu não sei o que o amanhã trará”.

Qualquer um de nós ao descrever os fatos vividos reconstrói sua trajetória dando-lhe novos significados. Desse modo, a descrição não é a verdade final dos acontecimentos experienciados, mas sua interpretação e a conseqüente representação que o sujeito aciona, assim, constrói e transforma a própria realidade.

Começo, pois, contando que é quase impossível precisar quando comecei a pensaresta

tese. Digo isso porque, desde muito pequeno, me interessei por pensar politicamente o mundo e suas relações. Como filho caçula de uma professora estadual e de um operário/gráfico de um grande jornal de Porto Alegre, acompanhei desde cedo discussões acaloradas em casa, sobre baixos salários, presos políticos, pessoas desaparecidas, canções e filmes censurados.

Nasci em 1967, no auge da ditadura militar no Brasil, um pouco antes do maio de 68, do AI-5 (Ato Institucional n. 5), do chamado “milagre econômico” brasileiro e do tricampeonato da Copa do Mundo de futebol, conquistado pelo Brasil em 1970.

Frequentei os locais de trabalho de meus pais. Minha mãe era professora da hoje

malfalada disciplina Educação Moral e Cívica, com todas as limitações impostas pelo regime

2

A última frase de Fernando Pessoa foi escrita em inglês em 30 de novembro de 1935, dia de sua morte: “I know not what tomorrow will bring

militar3

Na parque gráfico do jornal em que meu pai trabalhava, o ambiente era escuro e mal-iluminado. A graxa no avental, nas mãos e no rosto dos operários, o barulho do maquinário e o calor que as grandes barras de chumbo derretidas exalavam eram impressionantes. Quando chegava a hora de ir embora, meu pai pegava os três exemplares de jornal a que tinha direito

com relação aos conteúdos a serem desenvolvidos em sala de aula: lembro-me de que os rituais de saudação à pátria, por exemplo, como o desfile da mocidade e cantar o hino, eram conteúdos obrigatórios.

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Acho importante refletir, de alguma maneira, sobre o fato de ter nascido e crescido numa família de trabalhadores que se interessavam por política e que me oportunizaram acesso ao universo escolar, incluindo aí passeios ao planetário e a museus, e acesso também ao mundo da informação impressa (através dos jornais). Além desses acessos, também tinha direito ao lúdico e ao prazeroso, representado pelas idas ao teatro, ao cinema, além de frequentar a colônia de férias, os jogos de futebol e os churrascos promovidos pela empresa em que meu pai trabalhava.

, passava no vestiário, onde tentava tirar um pouco da graxa acumulada com sabão e uma pedra áspera chamada pedra mecânica, depois saíamos pelo centro da cidade. Seguidamente, meu pai parava na porta de um dos muitos cinemas, no centro da cidade, esperando encontrar algum conhecido que ali trabalhasse para conseguir alguns ingressos de cortesia, que seriam muito bem usados no final de semana.

Hoje percebo que toda essa atividade de que participava era comum, na década de 70 do século passado, à rotina de muitos filhos de trabalhadores e operários brasileiros que então

experimentaram um período de agitação5

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Na vigência do regime militar, alguns procedimentos foram adotados no sentido de veicular o respeito à pátria, à ordem, à disciplina, como valores supremos a serem cultivados. Ao mesmo tempo, utilizou-se a Lei de Segurança Nacional para silenciar práticas dissidentes à ordem instaurada. Nesse período, além do que relatei no corpo do texto, os livros de literatura nas escolas passavam por censura prévia. Livros didáticos das áreas de ciências e de história tinham páginas retiradas, caso o conteúdo fosse considerado inconveniente à preservação moral da juventude.

juntamente com as famílias, principalmente nos finais de semana. Tais práticas faziam parte do combate ao que era considerado pelo Estado brasileiro como o pior dos males – a ociosidade. É claro que o combate à ociosidade estava ligado à possibilidade de que o tempo livre pudesse resultar em formas de organização política e subversão.

4 Naquela época, a Companhia Jornalística Caldas Júnior mantinha três jornais diários: Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde.

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Para ver mais sobre o termo agitação, ler a tese de doutorado de Alex Branco Fraga – Exercício da informação: governo dos corpos no mercado da vida ativa –, defendida no PPGEDU/UFRGS em 2005.

A sociologia do lazer naquela mesma época, através de seu representante mais proeminente, o sociólogo francês Joffre Dumazedier, coloca a questão que mais preocupava ao governo militar com relação às políticas sociais naquele período, em função da diminuição da jornada de trabalho e, por consequência, do aumento do tempo livre: “O tempo liberado será utilizado para o florescimento ou degradação da personalidade?” (DUMAZEDIER, 1979, p. 1979).

O controle do uso do tempo livre, através de uma série de dispositivos de disciplinamento, não é um fenômeno recente. O estudo já clássico de Denise Sant’Anna analisa a emergência do lazer entre os anos de 1969 e 1979 num campo de exercício de poder e de produção e acúmulo de novas teorias e saberes sobre a diversão, o espaço urbano e o tempo livre. A autora afirma:

Tal procedimento implicou em novas articulações e comprometimentos do lúdico para com a economia e a política vigentes, mas também na promoção de um prazer, que é o de decifrar e disciplinarizar o próprio corpo durante a diversão. Assim, a prática de fazer do tempo livre um meio estratégico de produzir um corpo produtivo, bem disposto e distante de tudo o que é inútil ao capita, por mais que falasse em regras e disciplinas, por mais que pregasse uma espécie de ascese e de rigor dietético, ético e estético, funcionou, ao mesmo tempo, detonando uma nova atenção ao indivíduo para com o próprio corpo, acentuando o prazer de cuidar dele, de fiscalizá-lo, torneá-lo exercitá-lo, corrigi-lo e adestrá-lo durante a prática do lazer. (SANT’ANNA, 1994, p. 104).

A luta contra a ociosidade e seu par, a degradação social, produziu uma variada e bem articulada rede de prescrições que ia desde uma maior disciplina e organização do trabalho até medidas para combater a delinquência e o alcoolismo. Era preciso controlar ao máximo o tempo e o ritmo de trabalho, no intuito de enquadrar adequadamente as condutas operárias não apenas na fábrica, mas também fora dela. Tratava-se de restringir o quanto fosse possível o alcance da “mãe de todos os vícios”, a preguiça.

Segundo Michel Foucault:

O problema da sociedade industrial consiste em fazer com que todo o tempo dos indivíduos possa ser integrado ao aparelho produtivo sob o modo de força de trabalho. Ou seja, é preciso que o tempo que o empregador compra não seja “tempo puro” mas precisamente força de trabalho. Dito de outra forma, trata-se de consumir o tempo de vida dos indivíduos em força de trabalho. (FOUCAULT, 1995, p. 49).

Tais práticas de controle do tempo de trabalho e descanso dos operários e de suas

famílias não eram exclusividade da realidade brasileira. Exemplo disso são as campanhas contra o alcoolismo que culminaram, na Inglaterra (1928), com o fechamento dos bares a

partir das 23 horas e, na França (1920), com a proibição do absinto e a advertência médica e moral acerca de sua periculosidade.

O dispositivo da periculosidade parece funcionar como uma “estratégia global dos conservadorismos sociais” (FOUCAULT, 2002, p. 73), na medida em que se supõe que os pobres teriam maior probabilidade de tornarem-se “moralmente degradados” e, por conseguinte, tal qual uma epidemia, mediante uma série de dispositivos, deve-se proteger a sociedade dessa classe de sujeito perigoso.

Para Foucault (2002, p. 85), a “noção de periculosidade significa que o indivíduo deve ser considerado pela sociedade ao nível de suas virtualidades; não ao nível das infrações efetivas a uma lei efetiva, mas das virtualidades de comportamento que os indivíduos representam”. Por isso, aqueles que potencialmente podem vir a se tornar ameaçadores devem ser “mostrados como perigosos, não apenas para os ricos, mas também para os pobres, mostrando-os carregados de todos os vícios e responsáveis pelos maiores perigos” (MACHADO, 2002, p. 133).

Além dos males provocados por um provável uso equivocado do tempo livre, estava o

medo da ameaça socialista, que poderia envenenar a mente dos trabalhadores e transformar

profundamente a ordem social. Da importância de prevenir tais males – o ócio e o socialismo – derivaram outras tentativas de limitar a mobilidade dos funcionários, tanto de maneira coercitiva, dentro dos galpões das fábricas, quanto através da cooptação, oferecendo contratos de longa duração ou moradias cedidas pelo Estado.

Tais políticas pareciam ser um instrumento eficaz para estimular nos grupos populares

a aquisição de certos hábitos e valores: acima de tudo a responsabilidade e a previdência. Por fim, numa tentativa de garantir a ordem, a moralidade e a moderação política e social, nessa esteira criaram-se os bairros e as cidades operárias.

Foi nessa medida que os movimentos migratórios, os processos de urbanização e industrialização teriam concentrado grandes massas isoladas (ou seja, privadas dos laços e dos controles sociais, familiares, religiosos e comunitários existentes no lugar de origem) nas periferias das cidades e em condições de extrema pobreza e de desorganização social. Além disso, tais massas teriam ficado expostas às pressões de novos comportamentos e de aspirações a atingir patamares sociais mais elevados.

Esse quadro descrito acima colaborou fortemente para uma produção discursiva que buscou estabelecer uma associação estreita entre urbanização, pobreza/marginalidade e criminalidade. De acordo com tal explicação, determinadas circunstâncias (migrações, vida nas favelas e periferias, desorganização familiar, pobreza, desigualdade, desemprego, baixos

níveis de instrução etc.) exerceriam uma força estimuladora de potenciais criminosos. Esses, segundo as interpretações mais conservadoras, transformar-se-iam realmente em criminosos devido à dissociação entre aspirações elevadas e a impossibilidade de realizá-las.

Com a redemocratização do país, da metade dos anos 1970 em diante, as pessoas consideradas politicamente menos perigosas começaram a retornar do exílio: intelectuais, artistas e estudantes voltaram ao cenário político e midiático. Desse momento da história recente do país, outra lembrança marcante são as músicas que meus irmãos um pouco mais velhos escutavam. Essas músicas me intrigavam e, de muitos modos, marcaram minha própria juventude. Dentre elas, por exemplo, cito a que Gilberto Gil compôs depois de uma visita à Nigéria e que foi lançada em LP em 1977:

A refavela/ revela aquela/ que desce o morro e vem transar/ O ambiente/ efervescente/ de uma cidade a cintilar/ A refavela/ revela o salto/ que o preto pobre tenta dar/ Quando se arranca/ do seu barraco/ prum bloco do BNH/ A refavela, a refavela, ó,/ como é tão bela, como é tão bela/ A refavela/ revela a escola de samba paradoxal/ Brasileirinho/ pelo sotaque/ mas de língua internacional/ A refavela/ revela o passo/ com que caminha a geração/ Baby-blue-rock/ sobre a cabeça/ de um povo-chocolate-e-mel/ A refavela/ revela o sonho/ de minha alma, meu coração/ De minha gente,/ minha semente,/ preta Maria, Zé, João. [Refavela,Gilberto Gil, 1977].

Em Refavela, Gilberto Gil traz para o centro da cultura brasileira várias facetas esquecidas ou negadas da diáspora negra, cria uma ponte entre a África negra e o Brasil pobre

e favelado, ao mesmo tempo em que utiliza o prefixo re antes de favela, numa tentativa

simbólica de reconstrução, através da musicalidade, não só da denúncia das mazelas sociais como da potência criativa das periferias.

Meus laços com essas vivências – principalmente aquelas relacionadas ao chamado

lazer esportivo, que experimentei de forma intensa na companhia de meu pai – acabaram,

mesmo que de modo inconsciente, levando-me ao curso de educação física, no qual me graduei. Lembro que, no período em que cursei minha graduação, tive algumas experiências que colaboraram para delinear meus interesses atuais. Destaco, entre elas, a experiência como estagiário numa praça municipal de uma região periférica, onde era responsável pelas atividades esportivas que ali se realizavam. Durante muito tempo, fiquei intrigado com os longos dias em que permanecia ali, numa pequena sala, esperando que grupos de jovens viessem até a praça e que eu pudesse exercer minhas atribuições de mediador/monitor. No entanto, durante os 11 meses em que estive ali, somente atuei em eventos esportivos, como

torneios e campeonatos promovidos pela municipalidade, que exigiam um vínculo dos jovens

com algum responsável, professor ou estagiário6

Fiz meu curso de graduação entre 1986 e 1989, em plena crise da educação física

brasileira, como esse período ficou conhecida. Meus professores começavam a viajar para outros estados ou para fora do país para realizarem seus cursos de pós-graduação, os debates nas revistas acadêmicas eram acirrados e as teorias críticas da educação estavam em pauta, incidindo diretamente sobre minhas experiências nos diferentes estágios que realizei durante os anos da graduação, e que me deixavam deveras perdido. As discussões que se davam geralmente eram a respeito da hegemonia tecnicista na área, com relação ao esporte de

rendimento, ao esporte na escola e ao esporte da escola, ao lazer estatal que propunha as ruas

de lazer aos finais de semana e a doutrina do esporte para todos. .

Onde buscar respostas e soluções para um fazer pedagógico que pudesse ser diferente do que até então se apresentava no universo da educação física? Por mais que eu me envolvesse nas discussões através do movimento estudantil, o que eu encontrava no mundo do

trabalho e mesmo nas aulas do curso era uma reprodução daquilo que se criticava, pois as

esferas da teoria e da prática pareciam não se articular – aliás, naquela época eu pensava que fosse possível separar teoria e prática.

Talvez para fugir das opções mais tradicionais na área, após terminar a graduação,

resolvi encarar um desafio pouco comum à educação física da época7: fiz seleção e ingressei

na residência interdisciplinar em saúde mental da Escola de Saúde Pública do estado, que acontecia no Hospital Psiquiátrico São Pedro em Porto Alegre. Uma instituição total clássica,

como descrita por Erwin Goffman (2001)8

6 Segundo material do Centro de Memória da ESEF/UFRGS, as praças de Porto Alegre, nas décadas de 1950 e 1960, eram muito frequentadas para a prática de esportes.

. Durante a residência no manicômio, pude vivenciar a luta pelo fechamento dos manicômios no Brasil. Encontrei ali uma efervescência entre supervisores e residentes, buscando encontrar outros modos de atuar. Tudo era novo, mas eu não estava sozinho. Nesse período da residência, mantive os primeiros contatos com

dois livros da obra de Michel Foucault, História da Loucura e Vigiar e punir. A leitura desses

livros ajudou-me a compreender contra que sistema se mobilizava a utopia de uma sociedade sem manicômios.

7 Quando ingressei na residência, era a primeira vez que foram abertas vagas para educação física. Mais de 20 anos depois, a posição da educação física na área de saúde mental está mais consolidada.

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Goffman define as instituições totais como lugares onde o indivíduo era isolado da sociedade, tendo todas as suas atividades concentradas e normalizadas. O autor preocupou-se em caracterizar o hospital psiquiátrico como instituição total com o rico detalhamento do mundo do internado, porém não deixa de apresentar o caráter total da instituição do ponto de vista do mundo da equipe dirigente (2001, p. 11).

Num dos estágios que realizei fora dos muros do São Pedro, designaram-me para um

posto de saúde no Campo da Tuca9, na região conhecida como Grande São José. Entre minhas

atribuições estavam fazer as primeiras entrevistas de saúde mental, participar das visitas domiciliares e organizar as atividades de lazer da comunidade. A vila tem esse nome devido

Tuca. A Vila Campo da Tuca é uma comunidade formada na sua maioria por trabalhadores de

baixa renda. As características associadas a ela são elevadas taxas de década de 1960. Na Tuca, pude aprender que mesmo num contexto de precaridade as pessoas da comunidade organizavam um conjunto de atividades sociais como futebol, festas e escola de samba em torno da associação dos moradores, com ampla participação dos moradores que, assim, prescindiam de alguém que fizesse isso por eles.

Em março de 1998, ingressei no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Nos primeiros dois anos de atividade nesse hospital, tive a oportunidade de trabalhar com crianças doentes, na Unidade de Pediatria. Dois anos depois, fui chamado a compor uma nova equipe de trabalho, cuja tarefa era criar um modelo de tratamento intermediário entre a internação e o ambulatório na área da psiquiatria. A modalidade escolhida foi o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que permite que cada usuário frequente o serviço de acordo com a sua necessidade e a avaliação da equipe.

Entre os grupos atendidos, destaco um grupo de jovens mulheres diagnosticadas com

anorexia e/ou bulimia. Quando do início das atividades com as jovens no CAPS, eu estava

realizando a disciplina Corpo, Gênero e Sexualidade: questões para a pesquisa em Educação,

no Programa de Educação Continuada (PEC), do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da UFRGS. Certamente essa disciplina colaborou para afiar os

meus sentidos, parafraseando Guacira Louro10

9 O Campo da Tuca é um bairro não oficial, situa-se na região da Grande São José, no bairro Partenon, na área sudeste de Porto Alegre.

, possibilitando ver, ouvir, sentir as múltiplas formas de constituição dos sujeitos. Nessa sensibilização dos sentidos, muitos depoimentos, imagens e textos chamaram-me a atenção, a ponto de me levar ao de mestrado. E assim o fiz, ingressando, em 2000, no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob a orientação da professora Dagmar Meyer,

na linha de pesquisa Educação e Relações de Gênero.

Em 2004, alguns meses após terminar o mestrado, passei a integrar um grupo de estudos e pesquisas com colegas professores dos cursos de educação física da Unisinos e da Ulbra, interessados em aprofundar discussões sobre o lazer e a/as juventude/s pobre/s. O convite para fazer parte de um grupo de pesquisadores iniciantes, do ponto de vista da trajetória acadêmica, com histórico de militância política e escolar, soou-me em um primeiro momento como algo anacrônico, sem esperança e, até mesmo, utópico. Era um grupo de professores universitários negros, sem doutorado, vários deles conhecidos como

encrenqueiros, por suas condutas contestatórias. Aliás, nada mais típico do que essa

representação racista

Minha dissertação de mestrado é resultado de uma pesquisa em que discuti como determinadas jovens escolares aprendem estratégias para cuidar do corpo, nos dias de hoje. Utilizei a abordagem da análise cultural, tal como desenvolvida pelos estudos culturais e de gênero, que se aproximam do pós-estruturalismo de Michel Foucault, para examinar depoimentos de 18 mulheres jovens entre 13 e 15 anos. As análises desenvolvidas permitiram-me dizer que determinados atributos – como a forma física e a aparência que ela revela – são elevados a marcadores sociais importantes na classificação e na hierarquização dos estilos de vida contemporâneos. As estratégias para cuidar do corpo estão relacionadas aos desenvolvimentos tecnológicos, científicos ou mercadológicos que procuram lhes dar sentido. Além disso, as aprendizagens parecem resultar de investimentos num conjunto de