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Em que sentido o Mito de Jones não seria “naturalista”?

5. V ocê admite, c itan d o -m e, o interesse que pode ter “uma h is ­ tória a ser co n ta d a (algum dia) a respeito da origem, do surgimento, do espaço de razões (...) e de sua articulação com o espaço de c au sas” e m e n c io n a o M ito de Jones, criado por Sellars, com o “o caso mais i n t e ­ ressante de uma história (especulativa) do espaço de razões” (H 2: 2) que, e n tre ta n to , segundo você, não tem um caráter naturalista.

Eu defenderei, a seguir, que esse mito é com patível com o n a t u ­ ralismo na sua v e r te n te metodológica. Para tanto, relato de forma b r e ­ ve o mito, en fo can d o os objetivos e métodos empregados por Sellars.

O m ito sellarsiano de Jo n e s insere-se no c o n t e x to da bu sca de uma alternativa, tan to ao que Sellars c h am a de “Empirismo R e c e n t e ” (ER ) q u a n to à “T rad ição C lá ssica ” ( T C ) , co m respeito ao statu s dos p en sam en tos.

Para os que defendem o ER, os episódios de p ensam ento não são verdadeiram ente episódios internos, mentais, mas fatos h ip o té tic o - c a - tegórícos mistos [m o n g rel] a respeito do c o m p o rta m e n to verbal. Eles te n ta m , por o u tro lado, a rtic u la r uma “c o n c e p ç ã o d isp o sicio n a l de p e n sam en tos em term os do co m p orta m en to in te lig e n te ” (Sellars, 1 9 6 3 a , p. 1 7 7 ) , segundo o qual os verbos que se referem ao p e n s a m e n to a b r a n ­ gem todas as modalidades deste último.

J á segundo a T C , os co m p o rta m e n to s verbais (ou as “im agens v e r b a i s ”) e x p r e s s a m p e n s a m e n t o s , m as e s t e s ú lt i m o s e s t a r i a m , o n to lo g ic a m e n te , “a c im a ” daqueles. O s pen sam en tos, de todo modo,

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não estariam n ecessariam ente restritos, segundo a T C , ao dom ínio do que pode ser expresso verbalm ente. Podemos, segundo a T C , ter acesso privilegiado, im ediato, aos pensam entos, por in tro sp eção, e os p e n sa­ m entos teriam, co m o uma característica fundamental, a intencionalidade, a propriedade de “serem sobre”, ou “estarem dirigidos a”, coisas (exis­ tentes ou in e x isten te s). O significado das expressões verbais seria tri­ bu tário da in te n c io n a lid a d e (co m “c ”) “orig inária” dos pen sam en tos, segundo a T C . Em outras palavras, a in ten sion alidade (com “s” - s e m â n ­ tica) das expressões verbais seria derivada, en q u an to a intencionalidade (“so brecid ad e”) dos pensam entos seria primitiva.

Sellars vê problemas em ambas as co n cep çõ es, o que não me in ­ teressa aqui discutir - interessa-me o m od o co m o ele articu la uma c o n ­ ce p ção alternativa, uma T C revista, que seria, en tre ta n to , com patível co m a c o n c e p ç ã o de que pensam entos são episódios lingüísticos:

M eu problem a im ediato é ver se eu posso conciliar a idéia clássica de que pensamentos são episódios internos que não são nem comportamento

pú blico [overt] nem im agens verbais e que são referidos propriam ente em termos do vocabulário da intencionalidade, com a idéia de que as categorias da intencionalidade são, no fundo, categorias semânticas próprias às performances verbais públicas [overt] (Sellars, 1963a, p. 180).

O m ito de Sellars supõe que, em dado m om en to , os hum anos só teriam uma linguagem ryleana que permitiria u n ic a m e n te falar sobre propriedades e o bjetos públicos (a grosso modo, o bserváveis). Alguns adm item que essa linguagem, enriquecida co m con d icio n ais s u b ju n ti­ vos, seria su ficiente para responder por todo o nosso discurso (atual) sobre p e n sa m e n tos e ex p eriências, in clu in d o as e x p e riê n cia s im e d ia ­ tas. Sellars duvida disso e considera necessário enriqu ecer essa lingua­ gem co m categorias sem ânticas, o que permitiria responder por aquilo que é c a r a cte rístico do pensam ento: a in te n c io n a lid a d e .33

11 Para Sellars, de todo modo, asserções semânticas não são meros “resumos definicionais de asserções acerca das causas e efeitos das perform ances verbais [nossas e dos outros] ” (1963a, p. 180).

P a u lo A b r a n t e s e H i l a n B e n s u s a n

Essa seria a primeira etapa no en riqu ecim en to da linguagem dos nossos antepassados míticos. A segunda etapa seria a da introdução de uma linguagem teórica. Nesse ponto, Sellars faz em préstim o à discus­ são em filosofia da ciên cia sobre a estrutura das teorias científicas, que envolve, por um lado, a distinção entre linguagem teórica e observacional e, por outro, a distinção entre modelo e teoria.

6. Jo n e s foi um “g ên io” ancestral que fundou, digamos assim, o behaviorism o (m etodológico): ele propôs um m étodo para produzir n o ­ vos co n c e ito s (teóricos) do discurso m entalístico ordinário “a partir de um vocabulário básico próprio ao com p ortam en to público [o v e rt] ” (id .

ib id., p. 18 4 ).

A linguagem ryleana original era, portanto, uma linguagem “re s­ trita ao vocabulário n ã o -te ó rico da psicologia behaviorista” (id. ibid., p. 1 8 6 ) . Isso corresponderia, grosso m o d o, ao o p eracion alism o em física. Por q u e im por essa re strição - p ergu nta-se Se lla rs - se em c iê n c ia s co m o a física se é m u ito mais liberal no emprego de uma linguagem teórica? Por que não fazer o mesmo num a psicologia (behaviorista)? Por que n ão admitir que alguns co nceitos no behaviorism o te n h a m o status de c o n c e i t o s te ó ric o s (ou seja, n ão definíveis a partir de c o n c e i t o s observacionais que se referem ao co m p ortam ento público)?

Essa foi a genialidade de Jones: introduzir essa linguagem teóri­ ca no behaviorism o.34 Nos termos de Sellars, Jones

desenvolve uma teoria de que as vociferações [utterances] são somen­ te a culminação de um processo que começa com certos episódios in­ ternos. E suponhamos que o seu m odelo para esses episódios que iniciam os eventos e que culminam em comportamento verbal público [overt]

é o do próprio com portam ento verbal público. Para Jones a causa do comportamento não habitual de uma pessoa seria o “discurso interno”

(id. ibid., p. 187, grifos do autor).

14Sellars adverte que esses co n ceitos teóricos não têm de ser, necessariam ente, a respeito de estruturas e processos neurofisiológicos. A psicologia pode m anter um status autônom o (id.

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O co m p o rtam en to verbal é, portanto, usado por jo n e s co m o m o ­ delo analógico para os episódios internos.35 U m outro p onto im portante é que a in te n c io n a lid a d e do m e n ta l é m odelada n a in ten sio n alid ad e das expressões lingüísticas. Jon e s cham ou essas “entidades discursivas” de “p e n s a m e n to ”.

O d ese n v o lv im en to da teoria de Jo n e s não tem de d ese m bo car num a ontologia, com o o dualismo de substância cartesiano. Jon e s pode ter sido um realista, mas Sellars não se com p rom ete co m uma ontologia particular: o m ito possui, claram ente, um caráter m etod o ló g ico . A “pu­ reza” dos episódios internos postulados por Jones “(...) não é uma pu re­ za m etafísica mas, por assim dizer, uma pureza m etodológica" (id. ibid., p.

187, grifos do autor).

Sellars tam bém observa que o M ito de Jon e s é com p atível co m a hipótese (histórica) de que “a habilidade para ter p e n sam en tos é ad­ quirida no processo de adquirir um discurso público e so m en te depois que o discurso público estava bem e stab elec id o , o ‘discurso in t e r n o ’ ocorre sem a sua cu lm inação pública" (id. ibid., p. 18 8 ).

Esse seria o sentido em que o M ito de Jones, na sua in terp reta­ ção, Hilan, seria “n ão -n a tu ra lista ”: “o espaço epistêm ico surge do d e ­ senvo lvim ento da nossa linguagem” (H2: 2). Porém, co m o vimos, Sellars c o n c e d e so m e n te uma prioridade m eto d o ló g ica à lingu agem n a c o n s ­ tru ç ão de u m a teoria sobre “episódios in t e r n o s ” ou “p e n s a m e n t o s ” e n ã o u m a p riorid ad e o n to ló g ic a (se é qu e isso faria s e n t id o ) . E essa metodologia, no meu entender, é cla ra m e n te naturalista.

7. O que Sellars pretende, com o M ito de Jon e s, é mostrar que a

in ten sion alidade envolvida no com p ortam ento verbal público é primitiva e que a in ten cio n alid ad e de estados mentais (p ensam entos) é deriva­ da. Em que sentido? N o sentido de que a linguagem é tom ada com o um m o d elo an alóg ico na constru ção de uma teoria do p ensam ento (e de sua c o n e x ã o co m o com p ortam en to ), uma T C revisada.

i5E, com o em toda analogia, há uma analogia negativa e uma positiva (Sellars não usa esses term os de Hesse nem nada que corresponda à idéia de uma analogia neu tra). Em outras palavras, a teoria e o m odelo não se identificam .

P a u lo A b r a n t e s e H ila n B e n s u s a n

Sellars em prega, p ortan to, em seu mito, o “m é to d o ” de c o n s t r u ­ ç ã o de c o n c e i to s teóricos co m base em m odelagem analóg ica, um “m é ­ to d o ” de g era ç ã o de teorias am p lam en te utilizado nas c iê n c ia s. Essa p e ça de re flex ão filosófica ilustra a tese natu ralista de que os m é t o ­ dos da filosofia n ã o são, f u n d a m e n t a lm e n te , d istin tos dos m é to d o s cien tífico s (tra ta -se da m esm a “lógica” discursiva; ver id. ib id ., p. 1 8 9 ), h a v e n d o uma c o n tin u id a d e (m etod ológ ica) e n tre as duas atividades i n t e l e c t u a i s .

C o m o seu m ito , S e lla rs p re te n d e e s c la r e c e r c o m o ( c o m que método) se pode construir uma teoria científica em psicologia (behaviorista ou “clássica”, c o g n itiv ista ). Ele expressamente afirma que está p re o cu ­ pado co m o behaviorism o metodológico e não com o behaviorism o fi­ losófico (seja analítico, seja ontológico; id. ibid., p. 1 8 3 - 1 8 4 ) .

V o lt a n d o a q u e s t õ e s de o n t o lo g ia , e m b o r a S e ll a r s p a r e ç a , à p rim eira vista, e sta r c o m p ro m e tid o co m uma m e ta fís ic a n a tu r a l iz a ­ da - ao se referir a um “qu ad ro to ta l c ie n t ífic o de h o m e m ” (id. ib id ., p. 1 8 5 - 1 8 6 ) - v o c ê te m razão e m a le rta r-m e qu e isso seria trair as i n t e n ç õ e s dele. N a verdad e, no que diz resp eito ao h o m e m , Se llars é c é t i c o q u a n to à possibilidade de se poder in teg ra r as im agens m a ­ n ife s ta e c i e n t í f i c a de h o m e m (esta ú ltim a seria b a s e a d a n a b i o l o ­ gia, n a neu ro fisio lo g ia, na física, e t c . ) . V o cê assinala o t r e c h o p e r ti­ n e n t e : “ ( ...) p a ra c o m p l e t a r a im a g e m c i e n t í f i c a n ó s p r e c i s a m o s e n r iq u e c ê - la , n ã o c o m mais m odalidades de se dizer o qu e é o caso, mas c o m a lin g u a g e m da c o m u n id a d e e das i n t e n ç õ e s in d iv id u ais

( . . . ) ” (id. ib id ., p. 4 0 ) .

N esse tr e c h o , Se lla rs está d e t e n d o -s e , em particular, ao te m a do livre-arbítrio, nas dim ensões ética, dos direitos e deveres, etc. Ele, de fa to , a c r e d it a q u e “ (...) a irred u tib ilid a d e do que é p e sso al é a irredutibilidade do ‘dever s e r ’ ao ‘s e r ’” (id. ib id ., p. 3 9 ) . Essa o b je ç ã o à fam igerada “falácia n atu ra lista ” é b a sta n te com u m , mas te m sido e n ­ fr e n t a d a pelos n a tu r a lis t a s . A n t e s disso, S e lla rs ta m b é m a p re s e n ta o b je çõ e s a te n ta tiv a s de se id entificar as sen sações a processos neu ro- fisiológicos, a n te cip a n d o a discussão atual em filosofia da m e n te , em to rn o da irred u tib ilid ad e das propriedades f e n o m ê n ic a s (q u a lia ).

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P ortanto, é pertinente você ressaltar que Sellars “ (...) pensa que a nossa visão cien tífica do mundo deve acom odar todo o vocabulário c o n c e r n e n t e a pessoas (intencionalid ad e, ação, conteú dos, etc.) para que possa interagir co m o espaço epistêm ico” (H 2: 2). Isso tam bém se p a r e c e c o m a p ro p o sta dos n e w to n ia n o s de am pliar a o n to lo g ia da c iê n c ia m o d ern a! D essa m aneira, Sellars pretende evitar, de um lado, o d ualism o (de tipo ca r te s ia n o ), de outro, uma postura não -realista a resp eito das en tid ad es postuladas pela im agem c ie n tífica de hom em .

8. A m in h a posição é que ampliar a ontolog ia, co m o pretendem M c D o w e ll, Se llars e você, deve ser um último recurso. A simplicida- de o n t o ló g ic a p a r e c e - m e um valor f u n d a m e n ta l e re n d e u frutos no passado. E n fr e n ta r dificuldades desse modo - e p ro v av e lm e n te a n a ­ tu ralização das propriedades m entais e ep istêm icas será a mais difícil das tarefas - ou arg u m en tar a p riori sobre o fracasso de um p rojeto desse tip o , c o m o fazem , de d if e r e n te s m a n e i r a s , M c G i n n , S e a r ie , C h a lm e r s, M c D o w e ll e, de ce rto modo, Sellars, soa, para mim, sim ­ ples e s s e n c i a li s m o o b s c u r a n tis ta . V o cê e x p r e s s a m e n t e r e je it o u essa saída “f á c i l” em H l .

E im portante, contudo, ressalvar que o natu ralista admite, per­ feitam en te, que possam vir a ocorrer mudanças radicais em nossa im a­ gem de natureza. Temos exemplo disso num passado recen te, por exemplo, c o m a teoria da relatividade. E ainda não absorvem os to ta lm e n te as m u dan ças nessa im agem que são implicadas pela teoria q u ân tica (se a interp retarm os de modo realista). O que o naturalista defende, de todo modo, é que tais m udanças devem se apoiar nas m elhores teorias c ie n ­ tíficas disponíveis e não em especulações que ignoram o c o n h e cim e n to disponível, inclu indo as evidências empíricas. E há muito a ser ex p lo ­ rado, para abordar as questões que nos interessam aqui, em neurofisiologia, psicologia cognitiva, biologia evolutiva, teoria dos sistemas complexos, i n t e lig ê n c ia artificial, etc.

O s m étodos a serem adotados são os velhos e bons procedim entos envolvidos na co n stru ç ão de teorias, modelos (com o exemplifica o uso de analogias por Se llars-Jo nes) e no con fron to das suas conseqüências

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com os dados empíricos disponíveis, o que envolve usualm ente um p e ­ n oso trabalh o exp e rim e n tal. Q u e c o n t r ib u iç ã o , p o d e -se perguntar, a filosofia pode dar a esse em p reendim ento? Bem , os filósofos sem pre se m o stra ra m e s p e c ia lm e n te hábeis na análise de c o n c e i t o s e de argu­ m e nto s - en v o lv en d o a sua fertilidade, validade, e x p lic ita n d o os seus pressupostos, ex p lo ran d o as suas co n se q ü ê n cia s, etc. no e x e r c íc io da im a g in a çã o (em G ed a n k e n ex p er im erite, co m o no m ito de S e lla rs ), na c o m p a ra ç ã o e ev e n tu al in teg ração de teorias construídas em d ife ­ rentes dom ínios, em bu sca de um quadro amplo e c o n s is te n te de h o ­ m e m e de m u n d o , e t c . C o n v é m lembrar, c o n t u d o , qu e os m é to d os en v o lv id o s nessas atividades nada têm de e s p e c if ic a m e n te “filosó fi­ c o s ” , e fazem p arte dos recu rsos in te le c tu a is ta m b é m utilizados, em m aior ou m e n o r grau, por cie n tista s. E n tr e ta n t o , há ta m b é m div e r­ g ên cia s a esse resp eito e n tre os n atu ralistas “m e to d o l ó g i c o s ”, co m o assinalei na m in h a missiva anterior.

9. D e toda forma, in d e p e n d e n te m e n te da in te rp re ta ç ã o que se dê ao M ito de Jon e s, uma história da “em erg ên cia” de um esp aço de razões só satisfará ao naturalista se ela estabelecer uma gradação c o n ­ tínua - sem introduzir saltos ou apelos supernaturalistas (o que D e n n e t t c h a m o u de sk y h o o k s) - en tre as propriedades típicas da linguagem e do espaço de razões (e seu enraizam ento nos processos e propriedades m entais) e propriedades mais “primitivas” (no sentido ev o lu c io n ista), cada vez mais próximas das propriedades e processos fundam entais (fí­ sicos, c o m p u ta c io n a is , e t c . ) . H á te n ta tiv a s in te re ssa n te s nessa d ir e ­ ção. Penso, por exem plo, em D e n n e t t ( 1 9 9 1 , 1 9 9 5 ) e em H u m phrey ( 1 9 9 3 ) . C ito um posicionalm ento típico nessa direção, por parte de um filósofo natu ralista que desenvolve uma epistemologia evolucionista:

A m otivação fundam ental [dessa epistem ologia] é o desenvolvim ento de uma concepção unificada de vida; deseja-se que a cognição rebai­ xe-se [grade off] ao longo da seqüência evolutiva, de m odo que suas formas atuais possam ser vistas como a m anifestação atual de processos mais fundamentais. Assim, por exemplo, o juízo cognitivo rebaíxa-se [grade

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offj à resposta condicionada, depois à reação e, em última instância, à ação física. E as instituições científicas rebaixam -se [grade off] a formas de estratégia colaborativa baseadas no com partilham ento da inform a­ ção e estão enraizadas, em última instância, em sistem as cooperativos bioquímicos (e.g.celular) (Hooker, 1995, p. 300).

Externalismo

10. O externalism o que você aceita, suspeito, é muito diferente d a q u e le u su a lm e n te defendido por te ó rico s do c o n h e c i m e n t o . V ocê adm ite que s saiba que p mesmo que não seja capaz de apresentar uma ju stificação, “desde que uma justificação para p possa ser apresentada” ou que “justificações possam ser reconhecidas por pessoas que não se- ja m aquelas que têm a c r e n ça (que c o n h e c e m ) ” (H2: 3).

U m e x tern alista, conform e o seu perfil usual, adm ite que s te- n h a c r e n ç a ju stificad a de que p mesmo que razões para a c r e n ç a de que p n ã o possam ser “ap re sen tadas” por ninguém (em dado m o m en to histó rico, em b ora elas possam, e v e n tu a lm e n te , vir a ser apresentadas no futuro, c o m os progressos que se consiga nas c iê n c ia s re lev antes). Basta, sim plesm ente, que exista ou se dê (por exemplo) uma co n e x ã o causal entre a c r e n ça de s e um estado de coisas no mundo (conex ão e v e n t u a l m e n t e ain d a d e s c o n h e c i d a por t o d o s ) - n u m a das versões externalistas - ou ainda que os processos de geração de c r e n ça sejam c o n f i á v e i s ( m e s m o q u e n in g u é m saiba d isso ), n u m a o u t r a v ersã o ex te rn a lista , para que s te n h a c o n h e c im e n to de que p. Assim, não é necessário, para que eu te n h a uma cren ça ju stifica d a de que estou n e s­ te m o m e n t o dian te de uma tela de computador, que eu (ou alguém) saiba algo a respeito do com p lexo processo (físico e neurofisiológico) envolvido na m inha percepção da tela do computador, e que gera essa m inha cren ça, desde que esse processo perceptual seja, de fa to , “co nfiável”. É nesse sen tid o que o extern alism o na teoria da ju stific a ç ã o é “natu ralista”: a justificação de uma cren ça pode se dar fora do “espaço de razões”, simplesmente no “espaço de leis (ou de ca u sa s)”.

P a u lo A b r a n t e s e H ila n B e n s u s a n

Em seu co m e n tário sobre o internalismo de Pollock (H 2: 3 ), você reafirma que “não basta que m inha norma seja confiável, eu te n h o que s a b e r q u e e l a é c o n f i á v e l ” , a t r i b u i n d o a e l e e s t a “ r e f u t a ç ã o do e x tern alism o ”. A c h o que você está in terp retando-o in c o rreta m en te: o fato de a norm a ser interna não implica, na teoria de Pollock, que ela seja “r e c o n h e c id a ” pelo sujeito em que ela é ativa. Pollock afirma, por exem plo: “ (...) essas norm as são internalizadas de um m odo que per- m ite que o nosso sistem a nervoso ce n tra l as siga de uma forma au to - m á tica , sem qu e te n h a m o s que pensar sobre e la s” ( 1 9 8 6 , p. 1 3 3 ; grifo m e u ). M ais ad ia n te , ele e s c la r e c e que

(...) o sentido no qual [as normas] devem ser diretamente acessíveis é que o nosso sistema de processamento automático deve ser capaz de acessá-las sem que nós primeiramente façamos um juízo sobre se nós estamos nas circunstâncias daquele tipo. Nós devemos ter acesso não- epistêmico (id. ibid.).36

Nesse sentido é que Pollock se considera um crítico do externalismo, mas isso não o faz inserir tais normas num suposto “espaço de razões”, com o você defende, na linha do que Pollock critica co m o um “modelo in telectu alista”. C on tra ria m en te a esse “m odelo”, as normas de Pollock são “n ã o -d o x á s tic a s ” (id. ibid., p. 137). Por último, para que não restem dúvidas a respeito do naturalism o de Pollock, ele afirma: “Q uais p ro­ priedades são d iretam ente acessíveis é uma questão em pírica a ser re s­ pondida por psicólogos” (id. ibid., p. 135).

S e a m i n h a i n t e r p r e t a ç ã o do que se c o n v e n c i o n a c h a m a r de “e x t e r n a lis m o ” em epistem ologia é correta, e n tã o v o cê n ão pode ace ita r essa tese do natu ralism o, sob pena de entrar em c o n t r a d iç ã o c o m as

^ N o tar que Pollock está equ acionand o “epistêm ico” ao que eu ch am ei de “doxástico". Isso

poderia ser questionado pelo externalista, na medida em que a cond ição deste últim o para a justificação de uma crença é “epistêm ica” - a o passo em que é uma condição para que se tenha conhecim ento - mas não é doxástica. De toda forma, uma teoria naturalista do conhecim ento, a meu ver, terá de ser mais abrangente do que uma teoria unicam ente a respeito do sujeito do conhecim ento.

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suas outras c o n v ic ç õ e s. C aso contrário, v o cê se descobrirá mais n a t u ­ ralista do que estava in icia lm e n te disposto a aceitar!

Por fim, n o c o n t e x t o dessa discussão sobre o ex ternalism o, seria i n t e r e s s a n t e se v o c ê p u desse e s c l a r e c e r m e lh o r em q u e s e n t id o a re fo rm u laç ão “prag m atista” que B ran d o m propõe para o confiabilism o de G o ld m a n (que é, usualm ente, considerada uma posição extern alista) n ão é “n a tu ra lista ”. N a m inh a última missiva eu sugeri que algumas posições de B ra n d o m p arecem ser com patíveis com alguma versão do n a tu ra lism o , na m edida em que, se o e n ten d i c o r r e ta m e n te , ele p ro ­ põe uma r e d u ç ã o de norm as a práticas epistêmicas, práticas estas que poderiam , em princípio, ser descritas (hoje ou algum dia) pelas c i ê n ­ cias sociais (por exemplo). Você afirma que considerar o espaço epistêmico co m o sui g en eris “im pede que o to m em os co m o um d e p a rta m e n to do d o m ín io das c au sas ou do d om ínio das no rm as s o c i a is ” (B e n su sa n , 2 0 0 1 , p. 7). Essas norm as seriam, nesse caso, “e x t e r n a s ” (cf. seu uso de “norm as ep istêm icas e x t e r n a s ” em seu co m e n tá rio sobre a posição de P ollo ck ; H 2 : 3 ). S e in terp reto bem a sua posição e a de B random , elas são d ific ilm e n te com p atíveis.

Boyd

11. Q u a n t o à sua reformulação da tese B oyd, que eu havia in ter­ pretado co m o coeren tista na sua primeira formulação, B o y d * incorpora a relação de nossas cren ças com um “m u ndo” objetivo e, portanto, abre esp aço para o ex ternalism o. D e toda forma, o natu ralista ce rta m e n te rejeita o fundacionalismo, se esse é o teor da tese.

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